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domingo, 22 de março de 2026

Memórias do Liceu e do Complexo Escolar pelo Professor José Cordeiro

A propósito dos 40 anos passados sobre a inauguração do Complexo Escolar de Macau pedi ao professor José Cordeiro um testemunho desses tempos. Aqui fica o meu agradecimento pela sua disponibilidade. Agora, tal como então, sempre com uma enorme generosidade na sempre difícil missão de educar. Fui um dos muitos que tive o privilégio de aprender. Sobre a escola e também sobre a vida. Desses tempos ficaram para sempre impregnados valores como o respeito, a liberdade, a solidariedade, a responsabilidade, a partilha, etc...
Se a memória não me falha

"Estava eu posto em descanso quando o João  Botas me veio picar a memória acerca da passagem recente, em 6 Janeiro de 1986, do 40º aniversário da inauguração e funcionamento do Complexo Escolar de Macau, da Direcção de Serviços de Educação, Juventude e Desporto do governo de Macau, logo no reatamento do 2º período, para falar das minhas memórias daquele tempo. Ainda me dispus por a memória à disposição dele, dar-lhe umas dicas, mas ele, fino, preferiu a papa feita. Como nunca me decepcionou no seu tempo de estudante, nunca deixando que algo acontecesse por falta de voluntário, não vou deixá-lo pendurado no seu nobre  propósito. Quando mais ninguém queria, o João era “o homem para levar a carta a Garcia”. 
Estou-lhe grato pela sua disponibilidade.
Já lá vai muito tempo, que sensibilizado por uma dança do Dragão ou do Leão que vi nos documentários “ Mundo português”, que passavam nas sessões de cinema antes de passar o filme em exibição, disse para os meus botões que um dia gostaria de ver aquilo ao vivo.
Em janeiro de ´81, depois de um processo bem sucedido de candidatura, estreei-me no vetusto Liceu Nacional do Infante D. Henrique, como era então de lei chamar-se quando havia só uma escola liceal  da rede pública de ensino por distrito.
E quem se moveu por danças de leões e de dragões com a cabeça cheia de fantasias não podia ter sido melhor ocasião que a quadra festiva do Ano Novo Lunar e o Liceu se situava naquele enclave da cidade, em frente à Baía da Praia Grande, onde acontecia a chinfrineira do rebentamento dos panchões, enquanto na Baia ainda deslizavam os graciosos juncos a navegarem rumo ao Porto Interior. 
Ali trabalhei até à inauguração do dito Complexo escolar de Macau que passou a integrar a Escola Preparatória Dr José Gomes da Silva, a Escola Luso-Chinesa Luis Gonzaga Gomes e a Escola Secundária do Infante D. Henrique, também com cursos nocturnos.   
Se, olhando para um mapa antigo de Macau, o LNIDH, ficava isolado numa ponta da Península, num exclave quase no meio de nada, mas desde então já completamente integrado no coração da cidade com o Hotel Sintra, numa das pontas, agora a olhar não sei para quê, na outra ponta, diametralmente oposta, sob austera supervisão da estatua equestre do austero Governador Ferreira do Amaral montado num cavalo com as patas dianteiras bem empinadas - símbolo de morte heróica do cavaleiro - implantado em altaneiro pedestal no meio da praça com o mesmo nome e mais, do outro lado, o  Hotel Lisboa, mesmo ali ao pé de se poder entrar, a  primeira sensação que se tinha, quando se começou a falar da implantação do projectado complexo escolar foi idêntica: mas aquilo fica tão fora de mão; aquilo é um deserto; então, e os transportes e a segurança das crianças e mais isto e mais aquilo e aquele outro como se todas as novidades exigissem visto prévio de um julgamento pessoal, antes de virem a ser aprovadas oficialmente. A oriente nada de novo para o habitual pessimismo ou a prudência do Velho do Restelo, do Rio Das Pérolas daquela Velha praça portuguesa da “Cidade do Santo Nome de Deus, não há outra mais leal”. Rapidamente o exclave projectado para a construção era agora um enclave rodeado de cidade vibrante por todo lado.
Para trás ficariam as odiadas batas de cor amarelo vaticano, que só ao gineceu obrigava  e as usava como retaliação até às linhas vermelhas da provocação, e algumas eram bem frescas e arejadas, para desespero da D. Cristina que no seu posto avançado ia zelando pela moral e dos bons costumes da escola, instalado no grande hall de entrada do velhinho, mas bem conservado, Liceu.
Num terreno de hortas, ladeado pelo circuito citadino do Grande Prémio de Macau logo se imaginavam cobras e lagartos numa terra onde leões e dragões à solta eram, e ainda são, sinónimo de festa rija, projectava-se a construção de uma nova escola. Naquele, então, deserto da cidade, imagine-se!
Curiosamente, aquilo começou tão auspiciosamente que, na cerimónia da cravação da 1ª estaca, com pompa e circunstância e fanfarra da Policia, quando o martelo pneumático se preparava para dar a primeira martelada, não é que, segundo constou, a estaca se enfiou do terreno adentro, mole que nem  faca em manteiga? Se o resto for assim tão fácil teremos obra, logo falou a vox populi de uma terra onde os sinais são mensageiros…Disto, confesso que não fui testemunha ocular, mas é património que se me cravou à minha revelia na memória de tanto ter ouvido da boca de tanta gente ter dito que viu.
Bom, o terreno consolidou, muitas estacas ou pilares, se preferirem, foram cravadas à custa de tanta martelada, a obra começou, concluiu-se, foi tomada de assalto e ocupada entre o Natal/ 85 e os Reis/ 86. Depois, com pequenos ajustes, próprios de casa nova, lá o barco largou as amarras e zarpou à procura de fazer a sua própria História. Cedo lhe deram outras funções e a história do CEM - Complexo Escolar de Macau - foi o que cada um levou consigo no pouco tempo em que foi um estabelecimento de ensino. Para alguns, na flor da idade, foi muito tempo em idade de gente sempre apressada.
Durante as ditas férias de Natal procedeu-se á mudança do que era património administrativo, porque todo o resto lá estava instalado. Laboratórios, oficinas, piscina aquecida, um ginásio e um pavilhão desportivo com vários campos exteriores, balneários amplos e um edifício administrativo - a torre de comando operacional - com sala de professores e de trabalho, que albergava os serviços administrativos e os de direcção e de gestão escolar.
Mas nem tudo o que é novo é bom ou, pelo menos, sabe bem para toda a gente. E, se tinha sido abolido o uso das malfadadas batas para as meninas, agora o mal havia-se generalizado: toda a cambada teve que se apresentar na parada da cerimónia de abertura  da nova escola publica trajada a preceito com calça azul ferrete vincada e camisa xadrez de vermelho pálido, que mais parecia as toalhas de mesa do Restaurante Fernando, e um pulôver a condizer com as calças, para os mais friorentos.  O uniforme foi decaindo de uso apagando suavemente, como quem não quer dar por isso, o premonitório sinal do fim do dito Império Português do Oriente, se considerarmos que as escolas do Velho Liceu eram as únicas que não usavam uniforme no universo das escolas do Território. Com a farda tudo se igualava na tradição local e no respeito pela diferença dos uniformes!
Entretanto, e só por curiosidade, em 1987, como reforço da ideia de premonição, Anibal Cavaco Silva, então 1º ministro, no seu périplo pelo Oriente visitava Pequim, no que foi o formal pontapé de saída no jogo da reintegração de Macau na Mãe Pátria Chinesa. Há quem diga que foi o inicio do “Acordo de Desconsentimento” - há quem prefira “O Desacordo de Consentimento” -  de um longo e histórico comodato, até que a mutua conveniência tácita desde a instalação ditasse em concreto a separação amigável. Por curiosidade,  recordo-me de alunos da Escola Secundária do Infante D. Henrique, em viagem de finalistas pela Tailândia, se terem cruzado em trânsito, em Banguecoque, com a comitiva de Cavaco Silva, a caminho  da Embaixada Portuguesa, vizinha do Rio Chao Phraya e do icónico Wat Arun.
Entretanto, a inevitável D. Cristina, novamente instalada no seu posto de operações no grande hall da cantina escolar, muito senhora da sua função, que, como sempre, tanto zaragateava com os alunos, como era a sua  primeira e mais acérrima defensora, quando lhe cheirava a procedimentos disciplinares. Não havia testemunha mais abonatória do que ela, que, qual mãe severa para prevenir, os chamava à razão, mas era uma autêntica mãe galinha a defender os seus pintos quando os sentia ameaçados. Nem eles suspeitavam.
E pronto, João, não sei se era bem isto que querias, mas como deves entender, andamos todos na mesma escola, mas não podemos ter todos as mesmas memórias, não é?
Um pouco como as daquela  instituição, a um tempo cosmopolita e ecuménica de tanta desvairada e santa gente que a ela recorria -  e a mais inocente era matar a sede insaciável - , no fim da avenida do velho Liceu que dava pelo nome de “ A esplanada”, que era  a “Las Vegas” da Avenida da Amizade, onde o que acontecia lá devia ficar. 
Lá no começo da avenida, fronteiriço ao tribunal, Jorge Alvares nos contemplava, sem nada dizer.
 Ah, se as estátuas falassem… 
Grande abraço  para todos, com saudades.
Cascais, 11.03.2026
José António Cordeiro
Liceu, hotel Lisboa e a 'esplanada' à direita

Liceu na Praia Grande visto do Hotel Lisboa
 
Início das obras do Complexo Escolar
Inauguração do Complexo Escolar
* Inauguração a 4.1.1986 (sábado); as aulas começaram a 6.1.1986 (segunda-feira)
** As obras começaram a 2 de Setembro de 1982.

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