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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Uma história de piratas...

Um destes dias recebi do leitor José Azevedo e Silva um e-mail que publico neste post. É uma história e um apelo e diz respeito a um episódio com piratas ocorrido em 1925.
Envolve a lancha canhoneira "Macau", na altura comandada pelo Primeiro Tenente João Vaz Monteiro de Azevedo e Silva (1896-1954), pai de José Azevedo e Silva que nasceu em Macau a 29 de Setembro de 1925 tendo regressado a Portugal com poucos meses de vida. Esta história, ocorrida no ano em que ele nasceu, é portanto aquilo que ele ouviu contar ainda criança em conversas de família.
Não obstante a vitória reclamada pelas tropas portuguesas em 1910 sobre os piratas que 'infestavam' o delta do Rio das Pérolas com sucessivos ataques em mar alto e às ilhas da Taipa e Coloane, a verdade é que esse feito serviu apenas para atenuar, ainda que de forma significativa o flagelo. Os actos de pirataria continuariam até praticamente à década de 1950. São inúmeros os casos ocorridos. O que José Azevedo e Silva relata é de 1925 e nunca antes ouvira falar...
A canhoneira "Macau" (na imagem acima na doca das Oficinas Navais em Macau) fez serviço de patrulha no território no início do século XX.  A embarcação foi encomendada aos estaleiros Yarrow & Co. Ltd., de Glasgow (Escócia), tendo sido entregue à Marinha portuguesa em 1909. Foi o navio Nº 60 do Regimento de Sinais da Armada e utilizou o distintivo “C.T.A.X.”, como indicativo do Código Internacional de Sinais.
A embarcação seria abatida ao efectivo da Armada a 15 de Agosto de 1943, sendo entregue aos responsáveis militares japoneses da força expedicionária que invadiu a China, por troca com 10.000 sacos de arroz. Passaria a navegar com o nome "Maiko". Em 1949 seria capturada por militares chineses, passando a integrar a frota da marinha da China sob o nome “Wu Fang”.
"Quando o delta do rio das pérolas era ainda infestado por piratas que atacavam as embarcações mercantes que cruzavam a zona era fundamental o trabalho de fiscalização e prevenção de embarcações como a canhoneira "Pátria" e a lancha Canhoneira "Macau". Numa ocasião um barco pirata atacou uma embarcação de comércio e levou de refém todos os passageiros que não tinham calos nas mãos. Os que tinham mãos calejadas eram considerados pobres e como não tendo dinheiro para resgates eram deixados seguir. 
As freiras pertenciam a uma missão católica sediada num antigo templo chinês situados na região de Macau. Não tendo dinheiro para resgates o Superior da Missão pediu auxílio ao Governo de Macau que decidiu destacar a lancha canhoneira "Macau" para libertar as freiras tentando não usar a força de forma a não colocar a vida das reféns em risco. Depois de detectado o refúgio dos piratas o comandante da "Macau", Tenente Azevedo e Silva, foi até ao local, falou com eles e conseguiu convencê-los que aquela senhoras eram pobres vivendo de esmolas e de mãos postas pediam a Deus que protegesse os homens cá na terra.
O apelo foi bem sucedido e as freiras libertadas. Como forma de recompensa, o superior da missão ofereceu ao tenente Azevedo e Silva dois leões de pedra que guardavam a entrada do templo. O comandante recusou tão caro presente mas o padre insistiu... e a oferta foi aceite pelo Imediato da canhoneira. Azevedo e Silva acabaria por aceitar um disco de pedra redonda - com cerca de 80 cm de diâmetro - com dragões esculpidos dos dois lados.
Aquando a morte do meu pai, a minha mãe e os meus irmãos, concordámos em oferecer esta peça ao Museu da Marinha que a teve exposta na Sala do Oriente. Anos mais tarde, com o encerramento desta sala, perdeu-se um pequeno quadro que continha a descrição destes factos. A quem porventura possa ter mais informações sobre estes factos solicita-se que enviem para: macauantigo@gmail.com de forma a poder fornecê-las à direcção do museu e assim solicitar aquela instituição para voltar a expor a peça.

João Vaz Monteiro de Azevedo e Silva (1896-1954)
Militar da Marinha, comandou os navios "Diu" e a canhoneira "Macau" em Macau e a "Bartolomeu Dias" na Índia. Casou em 1905 com Laura Avelar Lopes de Carvalho tendo tido quatro filhos.
Em meados de 1923 embarcou na lancha-canhoneira "Macau" onde esteve até Setembro de 1925 ainda que com uma diligência na canhoneira "Pátria" entre 1 e 23 de Outubro de 1925, ano em que foi promovido a 1º Tenente. Em 1926 terminou a comissão em Macau.
De regresso a Portugal foi responsável pela Direcção das Pescarias, director da Biblioteca de Marinha, professor da Escola Naval e da Escola Náutica e membro da ”Comissão Permanente de Direito Marítimo” tendo contribuído para a elaboração de leis ainda hoje em vigor. Foi ainda juiz no Tribunal de Marinha e membro do Instituto Superior Naval de Guerra.
Em 1935 foi promovido a Capitão-Tenente da Marinha de Guerra e em 1940 a Capitão-de-Fragata. Terminou a carreira militar com a patente de Capitão-de-Mar-e-Guerra. Morreu a 24 de Dezembro de 1954.
Condecorações (Ordem Militar de Avis): Grau de Comendador, com Decreto de 21 de Novembro de 1947; Grau de Grande-Oficial, decreto de 27 de Setembro de 1954.


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