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quinta-feira, 31 de maio de 2012

A-Chan, a tancareira


Nam Van - Praia Grande. Década 1920
O primeiro conto de ''Nam Vam - contos de Macau", de Henrique de Senna Fernandes intitula-se "A-Chan, a tancareira". Recebeu o Prémio Fialho de Almeida dos Jogos Florais da Queima das Fitas de 1950 da Universidade de Coimbra.
O blog Macau Antigo apresenta na íntegra esse conto.

Lançado originalmente em 1978, este é o primeiro livro escrito por Henrique de Senna Fernandes. A obra reúne seis contos que reconstituem o ambiente humano, histórico e geográfico da mais oriental das conquistas portuguesas. "Nam Van" é também o nome chinês da Praia Grande, em Macau, considerada centro da vida administrativa e social da cidade e zona residencial preferida de seus moradores, onde o escritor nasceu e viveu. “A Praia Grande, com a paisagem antiga dos seus juncos e a odisséia dos seus lorcheiros heróicos e aventureiros, inspirou-me os primeiros escritos e embalou-me os sonhos incipientes de escritor. A Praia Grande alimentou o fundo da minha sensibilidade e imaginação, com a nostalgia dos seus crepúsculos e a tristeza das suas neblinas de inverno”, descreve o autor na apresentação do livro. Em "A-Chan: a tancareira", escrito em Coimbra em 1950, Fernandes fala sobre a difícil integração entre os nativos chineses e a sociedade desenvolvida à parte pelos estrangeiros ocidentais. O conto narra a história da condutora de tancar, A-Chan, vendida aos seis anos pelos pais e levada à cidade branca dos portugueses. A personagem se envolve com um marinheiro português, a quem chama de "Cou-Lou" (homem alto) e com quem tem uma filha, Mei-Lai. O regresso do marujo, entretanto, impõe a A-Chan a dura realidade de aceitação de sua filha - que herda os costumes ocidentais do pai - na fechada comunidade chinesa. "Uma pesca ao largo de Macau" reproduz o dia-a-dia de uma pacata cidade e descreve, pontuando os ritmos, a paisagem e os sons locais, como no trecho: “A Rua da Praia Grande era a artéria chique, onde residia a gente mais abastada do tempo. Ao cair da tarde, os dandies percorriam-na, caracolando os seus alazões ou a pé, até ao Passeio Público que era o Jardim de S. Francisco, na época, um jardim fechado e muito frondoso, cumprimentando e derriçando as donzelas que vinham de cadeirinha, acompanhadas dos papás circunspectos ou da inevitável chaperone”. Como o próprio autor define no texto de introdução, "Nam-Van" é já no título uma evocação a Macau.
Eis, na íntegra, o primeiro conto do livro de HSF. A acção decorre em Macau da década de 1940.
A-Chan não era aborígene do Porto Interior. Lembrava-se confu­samente da infância, a aldeia cinzenta, perdida algures no delta. Poucas reminiscências perduravam na sua memória. Búfalos ruminando nas várzeas amarelas, homens, talvez parentes, debruçados no amanho duma terra ingrata. Um pagode, alcandorado na lomba dum cerro, calvos bonzas em lúgubres pantominas. Traficada pelos pais num terrível ano de seca, quando mal desabrocha­vam os seis anos, correra de mão em mão até desembocar no rio pela mão da Velha que a comprara a uma opulenta matrona de Seak-ki. Fora um negócio vantajoso para a idosa tancareira, pois nesses tempos não se adquiria uma mui-chai por preço tão comezinho. Mas para A-Chan aquela transação foi como uma dádiva dos deuses. AVelha conduziu-a para o extremo do delta, para a cidade branca dos portugueses e botou-a a trabalhar naquele pedaço de rio que era o Porto Interior. No começo, os labores foram difíceis, extenuantes para a sua min­guada compleição de tancareira incipiente. Mas a saúde triunfou e depres­sa se integrou naquela existência aventurosa. AVelha tratava-a com dureza, moía-lhe o corpo de pancadas. No íntimo, porém, o tratamento parecia-lhe melhor do que na casa aristocrática, pois a Velha era menos cruel e a vida mais pletórica de novidade.
Alguns meses de estágio tornaram-na exímia no mister. Guiava segu­ramente o tancar nos errores pelo rio, escapulia-se das correntes e da vizi­nhança minaz doutros barcos com ligeireza inusitada. Ninguém diria, ao vê-la remar, com a embarcação pejada de fardos e passageiros, que viera duma aldeia ignorada e fora adquirida, mui-chai, pela mão interesseira mas, no fundo, generosa da Velha.
Não era despreocupada a vida do rio. A luta pela tigela de arroz exsu­dava lágrimas cruciantes e todas as mulheres conheciam o acerbo travo do ofício. Mas A-Chan, embora não amasse o rio e a Velha, preferia-os à casa aristocrática, onde a escravidão fora mais penosa. O mulherio, que a recebera, de início, como estrangeira, acabou por aceitá-la no seu convívio. Ganhou amizades, porque não era mulher para cos­cuvilhices e, quando podia, auxiliava as companheiras necessitadas. Falava e sorria pouco. AVelha apreciava-a, porque era obediente e nunca se lamuriava da sorte. Nas noites serenas, costumava acocorar-se na rua marginal para es­cutar as narrativas das companheiras em que entravam donzelas, guerreiros, dragões, lendas do rio e do mar, intrigas de femeaço e confidências de amor. AVelha, sobretudo, tinha histórias encantadoras. Asua voz rouca timbrava doçuras, quando evocava a meninice longínqua, o tempo em que a vida do rio era mais fácil, quando as festas do Ano Novo e do Oitavo Mês se faziam com um punhado de sapecas. Quanta coisa sabia a Velha! Desde as mezinhas para tirar o vento sujo até os pós e exorcismos para afugentar o demônio.
Durante anos, viveu sem alteração, presa às labutas estrênuas da profis­são. Os seus vinte anos, pareciam não poder abstrair-se das imundas águas do porto, do seu cheiro característico e do lodo da vazante e mal pisavam a terra, medrosos de encarar os estrangeiros do diabo. A Velha morreu numa clara manhã de outono num grave acidente ma­rítimo. Acatou A-Chan fielmente os desejos da moribunda, fazendo-lhe digno enterro. Vieram os bonzas para os ritos, prantearam as amigas e as carpidei­ras e, por alguns dias, no pequeno mundo das tancareiras, lastimou-se aquela morte estúpida. Depois tudo voltou ao curso normal da vida. E a Velha lá ficou descansando, no cimo dum outeiro da ilha da Lapa, no meio da sua tribo.
Alforriada há muito, herdou os bens da Velha, que soube prodigamente compensar os seus méritos. Recolheu a herança sem alvoroço, com a mesma humildade com que expunha o corpo às pancadas, e, seguindo as tradições da patroa, continuou serenamente nas suas lides, agora associada a A-Lin, sua amiga dileta. Ficou transida, quando a guerra varou a cidade, mas logo reagiu porque era preciso trabalhar, se quisesse sobreviver. Nunca o ganha-pão lhe foi tão espinhoso, a fome tão negra. Com os japoneses insignificantes em redor, o ne­gócio diminuiu, dias havendo que nem um cobre auferiam. Endureceu-se-lhe o coração, tornando-se-lhe indiferente o drama dos pobres que formigavam na cidade, outrora risonha e feliz. Não a impressionava a tela fúnebre dos míseros que morriam à beira da marginal, trágicos inocentes duma sangreira que não podia compreender. Amancheia de arroz que tragava, custava-lhe tantos sofrimentos, que não podia reparti-la com quem quer que fosse.
Os seus dias teriam sido eternamente iguais se não sobreviesse um caso fortuito, que iria modificar o minúsculo âmbito da sua vida.Num baço entardecer de verão, ao singrar rente à canhoneira Macau, um marujo gritou para ela. Pedia em chinês inédito que o transportasse a terra e não foi difícil entendê-lo. Hesitou durante segundos, algo receosa desse homem louro, estatura descomunal. A-Lin, no entanto, que se jacta­va de conhecer muitos marinheiros, insinuou-lhe que acedesse ao pedido. Nunca tomara contato com os soi kuan de quem a Velha costumava dizer os podres. Via-os, amiúde, na marginal, nas lanchas e nos rebocadores, nos cais de embarque. Sempre fugira desses diabos como de aventesmas, duvidando de A-Lin, que os tinha na conta de bons e afáveis. E achava-se agora insolitamente em presença dum deles, que se obstina­va em servir-se do seu tancar. O marinheiro continuava a gesticular com sim­pático sorriso. Doeu-lhe uma recusa e timidamente convidou-o a embarcar. Limitou-se o marinheiro durante algum tempo a rogar-lhe os préstimos. E A-Chan não os negava, porque ele não só era liberal nas gorgetas, como também se lhe dirigia com delicadeza, sem os impropérios de quem paga.
Mas uma noite foi mais longe, numa dessas noites límpidas em que o luar jorra salpicos de prata no casario vetusto da cidade e no mar rumore­jante. Veio melancólico e dorido e instalou-se no barquito, perturbando a tancareira que se aprestava para o repouso. Não protestou A-Chan, afeita aos modos daquele homem. Recolheu a prancha que ligava a embarcação à terra, desamarrou as cordas e impeliu o tancar para o rio. Só então se recordou de A-Lin que fora patuscar com umas amigas. O toldo de madeira e rota não escondia ao marinheiro um bocado do céu, onde piscavam as estrelas. Do rio elevavam-se tênues sonidos dum povo que dormia. Marulhos de água nos cascos das lorchas e das sampanas. Pre­gões tristes de vendilhão de iguarias. Vago carpir de violino e flauta nativas, gorgeio de voz feminina a cantar no bairro de amor.
Alguma coisa varreu a alma do marinheiro, que viera melancólico e dorido. Quedou-se a olhar para A-Chan que lhe sentia a presença descomu­nal. Assomou-lhe então, uma sede de consolação da obscura e desprezível tancareira que, acima de tudo, era uma mulher. Chape-chape de remos, o vulto de A-Chan de encontro ao céu estrela­do, o marinheiro triste no escuro da embarcação... Perto da canhoneira, ergueu-se e ordenou-lhe que se afastasse para o mar. Atancareira mirou-o confusa, enquanto uma sensação tépida lhe in­vadia o corpo. Não murmurou uma palavra, mas obedeceu. O tancar fez-se rumo ao largo e sumiu-se no pó branco do luar. Noite mágica de verão... Noite de Macau...
II
Quando regressaram, ia a madrugada no fim. Algures crocitavam galos. Acidade modorrava na serenidade dum estio azul. Ainda era cedo para a lar­gada dos juncos. Os contornos serpeantes da Lapa eram agora mais nítidos, à luz das estrelas moribundas. O marujo penetrou na sua vida sem alvoroço, naturalmente. Batizou-o de Cou-Lou - Homem Alto - sem que todavia se lhe endereçasse deste modo. Aprincípio, as companheiras reprovaram o procedimento, abanando a cabeça em murmurações. Por fim habituaram-se a considerá-lo como seu homem. Era bem certo que não poderia viver eternamente só. Aliás nada ha­veria de mais banal do que descobrir um marinheiro ligado a uma tancarei­ra. Não valia a pena, portanto, barafustar. Assim todas as vezes que surgia à noite, junto do tancar, A-Lin saltava para as embarcações fronteiras e deixava a amiga sozinha, imperturbável.
Não lhe dedicava o marinheiro todas as horas de folga. Havia mesmo dias que não lhe via a cara. Mas não passava uma semana que não a tomasse nos braços e lhe fizesse esquecer o rio. Não exigia A-Chan mais do que isto, contente de se sentir preferida e acarinhada. Não conhecera senão aquele homem e ninguém lhe acordara sensações tão inebriantes. Entregara-lhe o corpo com tanta docilidade e submissão, como quando a Velha o punha roxo de vergastadas. Não lhe podia fugir nem chegava a esboçar a mais leve resis­tência, embora soubesse que não devia acolhê-lo tão abertamente.
Decerto possuía mais mulheres. Todos os homens possuíam, quanto mais um marinheiro. Não a acidulava, porém, o ciúme porque se criara na lógica do concubinato e da bigamia. Tudo lhe era natural. No fundo, até se orgulhava de pertencer ao número daquelas que partilhavam do seu amor. Manuel devassara mundos, estivera nos cruzeiros de África, familiarizara-se com os trópicos e calmarias, sequioso de aventura e da paixão do mar. Abor­dara a Macau, transferido para a marinha privativa da província e, durante anos se deixara seduzir pelos exotismos e sortilégios do burgo macaense. Já dava por finda a comissão, quando a guerra estalou com todo o seu cortejo de horrores.
O mar era então a sua idéia obsediante. A África, a Índia, o Extremo Orien­te, tudo palmilhara, mas nenhuma terra o atraíra, a ponto de nela assentar ar­raiais para sempre. Nem o berço natal, a aldeia ribeirinha, debruçada sobre o estupendo Atlântico, conseguira prendê-lo. Mas agora queria vê-la antes de se embrenhar outra vez nos riscos e nas fainas do mar. E à irmã também que desa­parecera do lar e só depois de tantos anos lhe solicitara uma reconciliação. Enegreceram-lhe o espírito dolorosas crises de nostalgia, amargando-lhe a situação de encarcerado, quando toda a sua alma pedia o oceano. Os amigos estranhavam que não soubesse jugular as melancolias nem pudesse adaptar-se à crua realidade da guerra. Nada lhe sabia bem naquelas horas conturbadas - os colegas, a rotina do serviço, a cidade com os seus prazeres. Isolava-se, ensimesmado, preferindo a solidão dos pontos recatados. Gostava, sobretu­do, de admirar os crepúsculos da Penha, de admirar o sol a esconder-se por trás da Lapa imponente. Assistia, empolgado, ao regresso lento e cansado dos juncos, atulhados de peixe saltitante. Enternecia-o o ramalhar dos pinheiros da Guia que lhe blandiciavam recordações. O Mirante de D. Maria, onde os seus olhos furavam o mar até o horizonte e acarinhavam as Nove Ilhas, sen­tinelas verdes que guardavam os caminhos marítimos. O Jardim de Camões, as suas frondes sussurrantes. Passava tardes inteiras na curva do Bom Parto, junto à barraca do pescador, a presenciar a recolha das redes, onde pratea­vam mugens e tainhas. Ou nas verduras do Campal em brincadeira com a petizada do Tap-Seac, sob o olhar vigilante das criadas. Estrada de Cacilhas, Montanha Russa, Ilha Verde. Recantos da Cidade do Santo Nome de Deus, a cujo silêncio e beleza ia rogar sossego para os seus pesares. Confrangia-lha realizar que não fazia justiça àquele bendito solo ma­caense que tão hospitaleiramente o recebera e lhe proporcionara alguns dos melhores anos da sua vida. Mas que culpa tinha ele de se sentir dominado pelo mar - a sua eterna sereia?
Reagia bastas vezes e, então, deambulava pelas artérias concorridas e barulhentas. Freqüentava os cabarets, os serões dos centros dos refugiados e perdia-se nas vielas de amor. Eram dias em que a sua alma se emporcalhava, em que os mais belos sentimentos se lhe embotavam.
III
Quando A-Chan pisou o seu destino, não a tratou melhor nem pior que as outras de quem ia buscar um pouco de lenitivo para os seus desgostos. Não a considerou mais que um objeto de prazer de quem se podia apartar com indiferença. Mas cedo lobrigou que a tancareira possuía um dom ma­ravilhoso, que lhe fazia bem sentir-se ao pé dela. Não que fosse bonita, não. Era feia, rosto macerado e trigueiro, uma resignação estampada de quem conhecia o ferrete do sofrimento. Olhos oblíquos, dois traços miúdos, um nariz chato, grosseiro. Horrenda, não, simplesmente feia. Mas que terna ex­pressão de escrava submissa.
Nas suas andanças pelo mundo, familiarizara-se com mulheres de vá­rias raças e sabia por que preço se amava uma prostituta ao longo de todo esse Oriente prodigioso. Mas A-Chan não lhe dava a sensação dum alcoice, porque havia nela qualquer coisa de meigo, de suave, de muito comovente. E ele era um sentimental. Saturara-se do ambiente deletério das hospedarias, onde a miséria era mais profunda. Não podia suportar os sorrisos estereoti­pados das flores dos bairros de amor, as suas carícias automáticas, a desgraça imensa da guerra. Não, porque esta não era só a metralha e o sangue. Era também a fome daqueles milhares de seres que diariamente morriam nas arcadas frias da cidade, a doença que ruía sobre os miseráveis sem guarida, o meretrício desenfreado - moças e crianças mercadejadas por pais famintos.
A-Chan trazia-lhe paz na sua desinteressada dedicação. Chocava-o aquela submissão de fêmea amorosa que nada pedia. Uma calada devoção que o enternecia. Gostava de ficar ao pé dela a seguir a marcha rutilante das estrelas, a paisagem noturna de Macau, o casario da Penha e o da Barra diluídos em sonho no fundo azul da noite. Era feia, ignorante, açulada pela canga do rio. Mas os olhos orientais não escondiam uma imensa ternura pelo marinheiro saudoso do mar. Sensibilizava-o a maneira como lhe sorria, como lhe oferecia a tigela de chá ou como lhe passava os dedos calosos e ás­peros pelos seus cabelos louros de europeu, num requinte de familiaridade. Falavam pouco, entendiam-se mais por gestos que por palavras. Mas que refartantes os silêncios em que ela se apagava num canto do tancar para não lhe perturbar as meditações.
Aguerra prosseguia infindável, mas à medida que os meses rolavam, o declínio do Japão era evidente. AMacau chegaram interruptamente os párias e os deserdados da sorte que vinham pedir hospitalidade e segurança. A indigência dos refugiados de todos os lugarejos da China sofredora con­trastava com a opulência dos novos ricos e dos japoneses que traficavam impunes à sombra duma bandeira neutral.
Nas noites claras e luarentas, sobrevoavam a Cidade do Santo Nome de Deus aviões americanos, que iam espalhar destruição nos pontos estratégicos do interior. Roncos sinistros que angustiavam os indefesos lares macaenses e tra­ziam à boca preces de corações alanceados. Compunha-se o peito do marujo ao escutar aqueles sons cavos. Amorte rondava perto na sua fereza de colher mais vítimas. Bastava um daqueles aparelhos para reduzir a cidade a um montão de escombros. E ele não queria perecer, agora que o fim não podia estar longe.
A-Chan também se arrepiava de pavor, mas incidia o medo na sua frágil embarcação, três tábuas a flutuar nas águas lodosas, que eram o seu ganha-pão. Sim, havia quem sofresse. O rio e a guerra não lhe regateavam trágicos painéis. Mas, acima das lágrimas e dos clamores dos outros estava o seu tan­car, o seu sustento. Então abraçavam-se um ao outro desesperadamente, ele aflito pela morte que pairava no ar, ela, pela integridade do seu tancar, como se naquele desvai­rado amplexo estivessem a salvação e a tranqüilidade num mundo em delírio. E foi numa dessas noites em que o silêncio se quebrava com a trepi­dação irada dos aviões que ela descobriu a insofismável nova. Ia ter uma criança, um filho desse homem louro, de olhos azuis, que tão suavemente a tratava. Qualquer coisa de inédito, de estupendo nasceu nela, um sentimento indefinido e ao mesmo tempo embriagador. Mas calou-se, aguilhoada por súbito pudor e infantil receio de que ele se zangasse por não ter sabido evitar a maternidade.
IV
Poucas semanas depois, não voltou a aparecer o marinheiro. Na noi­te em que o aguardava, ficou desperta até aos primeiros alvores da manhã. Apertou-se-lhe o coração, apreensiva, mas desculpou-o. Nas noites seguin­tes esperou-o em vão. O Cou-Lou sumira-se, inexplicavelmente. Invadiu a sua alma negro desânimo. Implorou aos deuses, bateu cabeça no pagode, acendeu pivetes, consultou a bruxa. Tênues momentos de revolta que mal afloravam à expressão do seu rosto esmaecido. Estava-lhe porém, nas veias o fatalismo da raça e, com ele, a sujeição milenária da mulher chinesa aos caprichos do seu homem e senhor. Se o Cou-Lou não vinha era porque outra o enfeitiçara. Não havia que lutar, perante os desígnios dos deuses. Iludiu as lágrimas rebeldes e sustentou a ironia das companheiras com a sua passivi­dade habitual.
Mas restava-lhe uma consolação mais sublime do que os singelos pre­sentes que lhe ofertara - um pente, pulseiras de jade barato, meia-dúzia de lenços, uma peça de pano preto para a cabaia. Restava-lhe o filho, a única grande recordação do marinheiro louro, de olhos azuis.
A gravidez não a prescindia de trabalhar. Isto era bom para as esposas dos nababos da cidade. Para a gente do rio, só havia descanso na morte. O seu tancar ia e vinha no transporte de passageiros, mercadorias e alfaias. Durante esses meses todos, nunca A-Lin lhe surpreendera o mais leve quei­xume, embora avaliasse a extensão dos seus padecimentos. Nasceu-lhe uma menina, em certo entardecer borrascoso e frio de in­verno. Fatigara-se, ao levar passageiros à Lapa, e as dores que a cruciavam horas antes culminaram com o esforço dispendido nos remos. No meio da chuva e das correntes do rio alteroso, que ensopavam a pobre embarcação, uma criança veio ao mundo. A-Lin não conseguiu prestar auxílio algum, a tratos com o governo do tancar. A mãe conduzira, sozinha, a cruz da ma­ternidade. Quando, porém, se ouviram os primeiros vagidos não fez mais que agradecer aos deuses por lhe terem proporcionado tamanha felicidade, esquecida de todos os infortúnios.
V
O ausente vivia longe, desterrado em Coloane, a convalescer-se dumas balas que o puseram às portas da morte. Ação de bandidos que assaltaram o palacete dum negociante rico, lá para os lados da Flora.
Manuel, dando rebate, ficara prostado, seriamente ferido. Dois meses permanecera no hospital, a vida por um fio. Interessara-se a imprensa local pela saúde do arrojado mocetão, mas o drama não descera até ao rio por ser um fato vulgar naqueles dias turbulen­tos e cruéis. Triunfou a sua vigorosa compleição, mas as feridas deixaram-no com­balido. Aconselho dos médicos partiu para Coloane a fim de se retemperar. Olvidou completamente A-Chan, o mundo, a guerra, para se concentrar na sua própria saúde.
Amedrontava-o a idéia insidiosa de morrer, agora que o termo da con­flagração estava mesmo à vista.
Havia maior certeza de paz, quando regressou à Cidade do Santo Nome de Deus. Adesintegração da Alemanha não merecia dúvidas e os aviões ameri­canos eram mais numerosos sobre os telhados da terra macaense. Vinha forte e animado, mas não procurou logo a chinesa. Só quando as aeronaves bombar­dearam o solo neutral e semearam morte no Porto Interior, se lembrou dela. E uma noite, pressuroso, dirigiu-se à marginal. Espreitou o sítio do costu­me, errou pela margem, retornou ao mesmo local, estugando o passo. Divisou, então, o barquinho que uma chama bruxuleante alumiava. Aproximou-se algo envergonhado da sua longa ausência. Distinguiu, nitidamente, o perfil da tan­careira, curvado para as águas quietas. Acercando-se da prancha, bradou: - A-Chan! A mulher empertigou-se, surpresa, volvendo-se toda para ele. Depois, com ligeiro menear de cabeça, murmurou: - Boa-noite.
Sorria-lhe. Aboca feia abria-se num acolhimento enternecedor como se nada tivesse acontecido. Sem uma admoestação, o mais pequeno azedu­me, que lhe fizesse recordar todos esses meses de afastamento.
Pulou para a embarcação e atancareira, sem mais palavra recolheu a prancha, desligou as amarras. E o tancar deslizou na noite negra e úmida. Não falaram durante muito tempo. Ele, comovido, a gozar aquela serenidade tão difícil de haurir nesses trágicos dias. Ela, confusamente feliz, um mundo a entrechocar-se no âmago do coração. Mas ambos pareciam indiferentes. Ele, a reprimir uma vontade incontida de chorar. Ela, sempre oriental, a es­conder os mais exaltados sentimentos num rosto imóvel, quase impassível.
De repente, alguma coisa se agitou perto dele. Ergueu-se alarmado, e, entre panos velhos e andrajosos, descortinou o indiscreto que lhe cortava o fio das meditações. Ficou aniquilado ao tocar na criança que se esperneava ao frio. Um ser minúsculo, ralos cabelos alourados, tez quase branca, olhos claros, a denunciar ascendência européia.
Os remos vibravam, com ritmo singular, na placidez da noite. Achi­nesa parecia alheia ao drama que se desenrolava perto. Mas os olhos não se despregavam do enorme dorso do marinheiro e compreendiam quão petri­ficado ele estava. Acriança soltou um vagido, mais outros. Atabalhoadamente, Manuel enfaixou-a, apertou-a contra o peito, ciciando: - Minha filha, minha pequenina. A-Chan entendeu o apelo da criança. Largou os remos e pediu branda­mente ao marinheiro que a substituísse. - O nome? - Mei Lai.
O tancar vogou, por segundos, à deriva, porque o marinheiro senti­mental se especara na adoração da filha que sugava o peito sazonado da mãe, com abençoada sofreguidão. Acordou nele a paternidade, um amor profundo pela inocente. Expe­rimentado nos perigos que rodeavam o tancar, pensou logo em afastá-la do rio e, ao cabo de duas semanas desencantou uma casa na Praia do Manduco. Não defrontou qualquer oposição da mãe, que detestava a terra, onde a vida lhe fora tão agreste. Submetera-se A-Chan, porque não lhe estava nos hábitos contrariá-lo e, mormente, quando lhe patenteava maior afeição. Confiou o barquinho aos cuidados de A-Lin e, docilmente internou-se na cidade.
Foram os mais aliciantes meses que juntos viveram. Até ali, A-Chan não era mais do que uma simples ligação de marinheiro. Agora era a mãe da sua filhinha. Continuavam a falar pouco, isolados em mundos opostos. Entre eles, porém, existia a doce presença de Mei Lai. O que ambos não conseguiam dar um ao outro, prodigalizavam-no à criança. E como eram felizes! Atancareira soltava francas gargalhadas, sem rebuço, quando brincava com ela. E Manuel transmudava-se num gaiato, que passava horas sem fim a distraí-la.
A guerra terminava, no entanto. Rendida a Alemanha, esfacelava-se o Império do Sol Nascente. Ao observar A-Chan nas suas lides domésticas uma tribulação se apoderava dele. Sabia que não podia ficar para sempre ao pé da tancareira, porque o seu destino era o mar. Não lhe tinha amor porque isso só podia florir com a comunhão absoluta das almas. Mas votava por ela uma estima que jamais tivera por alguém. Os colegas chasqueavam dele, do seu "gosto degenerado". Não atinavam como pudesse viver junto daquela criatura feia. Mas era verdade. Pesava-lhe abandoná-la, agora que a via tão venturosa, protegida da crueldade do rio. Aliás, fora a única mulher que lhe insuflara a sensação de possuir um lar.
E não se enganava. Nunca A-Chan bendisse tanto a vida como naqueles meses. Aterra mostrara-lhe a sua feição benigna. Não era uma desprezada mui-tchai que ali estava. Era uma senhora que governava a sua casa, com o devido respeito da vizinhança. Orgulhava-se da Mei-Lai, como se tivesse dado à luz um rapaz. E nunca o seu amor pelo marujo louro, de olhos azuis, fora tão grande, tão mimoso. Sim, a guerra estava no fim. Ele dera-lhe a perceber, desde o começo que, depois da tempestade faria rumo ao longínquo País das Uvas. Mas esperava que ele não partisse, agora que tinham uma filha. E, aca­lentada por tal esperança, vivia indiferente a tudo que não fosse o lar.
Quando o Japão se rendeu, a notícia rebolou estrondosamente pela cida­de no meio de foguetes e panchões. Mas as novas penetraram com relutância na casa do marinheiro. Durante dias, examinou sorrateiramente as atitudes do Cou-Lou, mas acabou por se tranqüilizar, perante os seus modos habituais. Mal sonhava que ele recalcava uma surda tristeza. Com pena dela, pedira para ficar mais alguns meses, dominando a sua própria ânsia do mar, mas o requerimento fora-lhe indeferido. Devia partir no primeiro transporte que chegasse a Macau.
Tornou-se-lhe obsidiante o problema da filha. Não tinha coragem de renunciá-la. Que futuro lhe reservaria a tancareira? Cresceria no ambiente soturno do porto, acompanharia a mãe nos espinhos do ofício, maltratada pelo mundo e pela fome que é o estigma de todas as camadas paupérrimas da China. E depois, Mei-Lai não tinha feições puras de oriental. Só por si denunciava uma pecaminosa ligação com o europeu. Nunca vira mestiças a trabalhar no rio. Para outros caminhos as levara o destino. Para os bor­déis, para as hospedarias das vielas do amor. Em toda a parte, onde nasciam rebentos clandestinos de europeus, a prostituição lucrava. Não, não podia abandoná-la. E pensou na irmã redimida, que distante acenava por ele. De­certo albergaria a sobrinha e educá-la-ia com desvelo. Mas era doloroso ar­rebatá-la da mãe. E neste dilema se debatia a sua alma inquieta.
As semanas corriam vertiginosas, despreocupadas para A-Chan, mas ta­citurnas para o marinheiro sentimental. Resolveu-se, porém, numa noite de insônia, quando a companheira embalava a criança que se achava febril. E não se descurou nos dias seguintes, enquanto não obteve uma passagem para ela.
Um dia, porém, A-Chan despertou. O desaparecimento de certas peças de roupa, a tristeza macambúzia do Cou-Lou, fúteis pormenores da vida quotidiana, indicaram-lhe que se preparava algo de lancinante para ela. A verdade só veio à luz nas vésperas da chegada do fatídico paquete.
Manuel trouxe consigo um intérprete que fluente nas duas línguas, po­deria explicar melhor a A-Chan. Recebeu-os retraída, com pressentimentos de desgraça. O intérprete, advinhando o melindre da situação, exprimiu-se arrastadamente. Quando ficaram sós, fixou-o de frente. Tinha as faces terrosas, uma ex­pressão de infinito desespero. O marinheiro, agarrado a Mei-Lai que traquinava, não suportou aquele olhar e tartamudeou desculpas que não soube completar. Não deu palavra e encaminhou-se a cambalear para a cozinha. Mas quando o chamou para jantar, a voz tinha a mesma suavidade de sempre.
Nunca mais lhe viu a sombra dum sorriso. Não se opôs aos prepara­tivos do enxoval da criança e foi ela própria quem o entrouxou com a sua atávica resignação. Mantinha o rosto inexpressivo, quando estava ao pé do marinheiro. Adissimulação porém era inútil porque ele a conhecia bem e lia-lhe os pensamentos.
Que existência lhe guardava o porvir? O rio, o eterno e inalterável rio a exigir-lhe as forças até o alento final. O tancar, os remos, o vaivém na super­fície barrenta do porto. Dias incertos, privações. A velhice insegura, a perene escravatura do ofício. Sim, ele tinha razão. Se a filha ficasse, que seria do seu futuro? Ela podia sofrer porque fora criada no sofrimento, vendida pelos pais a mãos empedernidas. Mas nunca a Mei-Lai, que era tão bonita e se parecia tanto com o marinheiro de olhos azuis.
No dia da abalada, deixou-a quando fulgiu a primeira chapada de sol. Não devia retornar ao lar. Iria mais tarde juntar-se a ela, no tancar, até à hora da partida. Osculou-lhe a testa e mansamente apressou-se. A-Chan viu-o vestir-se, andar dum lado para outro, fechar a porta da casa. Compreendeu, então, que alguma coisa lhe morria por dentro e se es­facelava para sempre.
Avermelhavam-se os contornos da Lapa com o rubor do ocaso, quando apareceu diante do barquinho. Ainda lhe restavam umas horas à frente, antes que saísse a última lancha. Atancareira cozinhara um jantar delicioso, vestira a melhor cabaia - presente singelo do marinheiro sentimental. E na trança more­na brilhava o pente cravejado de pedras falsas, lembrança cúmplice duma noite de amor. Acolheu-o com a ternura habitual de que ele tanto gostava. E mais uma vez o tancar singrou para o largo com o familiar chape-chape de remos.
Fazia frio, porque estavam no inverno. Mas ninguém o sentiu nem a ga­rota que gatinhava no ínfimo espaço da embarcação. Os pais, ensimesmados, incidiam sobre ela as suas atenções, sem conseguirem trocar entre si o mais ligeiro pensamento que fosse. Juncos e lorchas passavam perto. Uma vedeta agitou as águas sonolentas, mas o tancar fugiu à inoportuna aproximação. Queimavam panchões na margem. Odores de peixe salgado aturdiam o per­fil dum barco de carreira de Hong Kong, na Rada. Afortaleza de S. Tiago da Barra amadornava nas sombras da noite que caía. AIlha Verde, ao longe, dormitava entre diáfanos mantos de verdura. O Sequião, atrás, muito sujo, a perder-se nos extensos arrozais da China. Apaisagem de Macau enchia-lhe os olhos de inéditas facetas, que só agora adregara de descobrir. E admirou-se de estar a limpar subitamente as faces orvalhadas.
Jantou sem apetite, só para agradar à companheira que se empenhara em oferecer-lhe opípara refeição. Dilacerava-o a sua mansidão usual. Prefe­ria que ela gritasse toda a sua revolta do que guardar no fundo da sua alma estranha de oriental, uma dor incomensurável. Estava pálida, imensamente abatida. Mas procedia como se estivesse em dias mais ledos.
Quando bateram as nove de qualquer relógio da cidade, soergueu-se da esteira, onde se deitara para mitigar a comoção. A-Chan, que amamentava a criança, estremeceu. - Vamos. Ela assentiu resignada, aconchegando mais a si o ente querido de quem se ia separar. Manuel pegou nos remos e guiou o tancar para o porto, para os cais de embarque, onde resfolegava a lancha dos passageiros.
Então, nesse momento, sem disfarces, romperam soluços do peito da tancareira. Espaçados, pungentes, envergonhados. Manuel quis-lhe pedir que os contivesse, mas estrangulara-se-lhe a voz. E sentiu que perdia qual­quer coisa de inestimável que jamais poderia ser substituída. Remou com mais vigor na penosa necessidade de escapar àquela cena. O inverno soprava da China uns resquícios do seu vento gelado. Mas, de novo, ninguém deu por ele. E os soluços continuavam. Espaçados, pungentes, envergonhados.
O marinheiro não subiu imediatamente para a lancha. Já soara o se­gundo apito para a largada. Ficaram a olhar para a filha adormecida, ambos lutando para balbuciar algumas palavras. Ela feia, sucumbida, a conter em vão os soluços, para implorar que voltasse para tirá-la do rio que era a sua prisão. Ele, para inutilmente prometer os mais impossíveis compromissos, e rogar-lhe que fosse boa rapariga.
Quando o apito estrugiu mais uma vez, Manuel estendeu os braços para a tancareira humilde. A-Chan mirou-o num instante e depois, suavemente, entregou-lhe a filha pequenina, murmurando numa derradeira solicitude maternal. - Cuidadinho... cuidadinho...
(Escrito em Coimbra, em Fevereiro de 1950, com saudades de Macau.)
Henrique de Senna Fernandes

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Macao and the british: 1637-1842

A primeira edição deste livro é de 1966 e intitulava-se somente "Prelude to Hong Kong". Em 1988 surgiu a que se vê na imagem. Trata-se de uma obra essencial para se perceber os séculos XVII e XVII naquelas paragens e a influências dos portugueses/macaenses no 'nascimento' da colónia britânica de Hong Kong. Num outro livro, “A Macao Narrative” (1978) - em português “Macau: Calçadas da História”- Austin Coates, alto funcionário do governo britânico destacado na então colónia de Hong Kong, escreve assim. "Culturalmente nunca houve nada como Macau, onde, num pequeno lugar, tanto da China e tanto da Europa foram encastoados. Goa com toda a magnificência dos seus edifícios nunca alcançou isto. Goa é europeia; o elemento indiano perdeu-se. Só em Macau se experimenta a extraordinária sensação de estar num momento no Templo Ling Fong e dez minutos depois no Teatro D. Pedro V, cada qual constituindo enfática expressão de civilizações díspares, sem contudo produzirem qualquer choque cultural. Tudo quanto têm de distinto se integra na suavidade do lugar criando no conjunto uma peculiar unidade cultural que é única.”
Click em vida e obra  para saber mais sobre Austin Coates.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

NRP João de Lisboa

Construído no Arsenal da Marinha (Lisboa) - na 1ª imagem - em 1936 o NRP "João de Lisboa" pertencia à classe "Pedro Nunes" com o seguinte nº de amura: F 477. Era um 'aviso' de 2ª classe e esteve nesta função durante 24 anos (até 1960).
No início da década de 1960 foi reclassificado como navio hidrográfico passando a ter o nº A 5200. Esteve ao serviço da Missão Hidrográfica do Continente e Ilhas Adjacentes até 1966.
Um aviso é um tipo de navio de guerra com diversas caraterísticas e funções, que variaram ao longo do tempo e conforme o operador. O termo "aviso" resulta da abreviação de barco de aviso. Originalmente, designava-se, por "aviso", um navio pequeno e rápido, que servia de ligação para o comando de uma esquadra naval, sendo utilizado na transmissão de avisos e de outras mensagens, entre os diversos navios e, entre estes e terra. Paralelamente, pela sua rapidez e agilidade, os avisos também realizavam operações de reconhecimento e exploração em proveito da esquadra.
O programa naval português da década de 1930 prevê a construção de uma série de navios de guerra especialmente concebidos para a atuação no Império Colonial Português que são classificados como avisos coloniais. Os avisos coloniais correspondem a um conceito semelhante ao das canhoneiras da transição do século XIX para o XX, mas mais avançados e com muito mais capacidades. No entanto, o plano de 1930 ainda prevê canhoneiras que seriam de deslocamento inferior ao dos avisos. Os novos avisos são lançados a partir de 1932. São construídos avisos de 1ª classe (classe Afonso de Albuquerque de 2400 t) e avisos de 2ª classe (classe Pedro Nunes de 1200 t e classe Gonçalo Velho de 1700 t). Também foram reclassificados, como avisos de 2ª classe, os cruzadores já em serviço da classe Carvalho Araújo - originalmente sloops britânicas da classe Flower.
A ponte-cais nº 1 tb conhecida por ponte-cais do governo, na Barra. Foto cedida por João Carion
Os avisos da classe Afonso de Albuquerque, lançados em 1935, acabaram por se tornar nos maiores navios combatentes, construídos ao abrigo do programa naval de 1930. Estes navios dispunham de um deslocamento de 2420 t e velocidade de 21 nós. Estavam armados com quatro peças de 120 mm, dois lançadores de cargas de profundidade, quatro peças antiaéreas de 77 mm, quatro metralhadoras antiaéreas de 40 mm e um hidroavião embarcado.
A seguir à Segunda Guerra Mundial, os avisos coloniais portugueses foram equiparados a fragatas, passando a ostentar um número de amura com o prefixo "F". No entanto, individualmente, cada navio, continuava a ser referido como "aviso". Nas décadas de 1940 e de 1950, os avisos foram consideravelmente modernizados, nomeadamente com a instalação de sensores e armamentos mais avançados para a luta antisubmarina. Na década de 1960 os avisos ainda em serviço foram transformados em navios hidrográficos.
O NRP João de Lisboa em Macau em Maio de 1949
Foto cedida por João Carion

domingo, 27 de maio de 2012

"Manners and Customs..." no final do século 19

No prefácio do livro "Manners and Customs of the Chinese at Macao" de Rufino F. Martins pode ler-se que "the papers has been translated in part from a work published in Macao in the year 1867 by Mr. Manuel de Castro Sampaio entitlet "Os Chins de Macau" and dedicated to the Royal Asiatic Society."
Ou seja, Rufino traduziu uma parte do livro (a parte dos usos e costumes) de José Manuel de Castro Sampaio (1814/27-1875) - "Os Chins de Macau" editado 10 anos antes em Hong Kong - e foi publicando vários artigos na imprensa local até que acabou por compilar todos os artigos num só livro publicado em Shangai em 1877.
Este mesmo livro foi reeditado em 2005 pela Elibron Classics. Muito útil para quem se interessar pelo modo de vida da comunidade chinesa em Macau na segunda metade do século XIX. Recordo que na época existia uma importante comunidade de macaenses/portugueses em Shangai que dominavam o inglês.
Excerto:"Os chins têm geralmente uma constituição forte, mas mediana estatura e pouca robustez. São muito cautelosos e desconfiados, e ao mesmo tempo pacíficos e humildes. Dotados de sagacidade e astúcia, estão sempre dispostos a enganar. (…)"
Manuel de Castro Sampaio: Os Chins de Macau, Tipografia de Noronha e Filhos, Hong Kong, 1867
Rufino F. Martins: Manners and Customs of the Chinese at Macao, Celestial Empire, Shangai, 1877

sábado, 26 de maio de 2012

Publicidade n'O Liberal: 1923

A Agência Mercantil na San Ma Lou publicita uma grafonola que toca "todos os discos até hoje inventados". Já a Luso-Americana de António Martins da Silva e Ca. (na Rua do Hospital) anuncia a ementa e as atracções musicais: Irmãos Bernardes dirigidos pelo pianista Franco. Destaque ainda para "A Competidora, empresa comercial do Extremo-Oriente", para os "automóveis Fiat" e "Liau Pui Alfaiate de Senhores".
"O Liberal" foi um semanário republicano independente publicado entre 1919 e 1924. A redacção ficava no nº 17 do Largo do Senado. O primeiro número saíu a 3 de Maio de 1919. Era editor e proprietário António Martins da Silva. Em Janeiro de 1992 passou a bi-semanal. A última edição é de Janeiro de 1924 com o nº 199 da 3ª série. Eram os tempos de, por exemplo, Camilo Pessanha.
Informação adicional noutros post's do blog.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Santa Rosa de Lima: uma história secular

Título do artigo da autoria de Isabel Machado publicado na Revista Macau Ano II Série nº 14 em Junho de 1993.
1992-1993 foi o último ano lectivo do ensino em português do Colégio Santa Rosa Lima. Sinal dos tempos; uma página que se fecha na longa história da instituição que formou gerações de macaenses na língua de Camões
Collegio Santa Roza de Lima, ca. 1895
Santa Rosa de Lima é hoje um nome associado ao Colégio da Rua de Santa Clara e a centenas de crianças e jovens de farda azul e branca que ostentam as famosas iniciais num alfinete de peito de metal prateado. Este vetusto local é, contudo, muito mais antigo do que se pensa e nem sempre foi um Colégio. É, isso sim parecem não restar dúvidas, um marco histórico recheado de acontecimentos ligados à vida da Cidade do Santo Nome de Deus desde quase o berço. O muro que circunda o Colégio, por exemplo, e a escadaria de acesso são as testemunhas dos tempos mais longínquos datam de 1622.
O primeiro registo conhecido refere-se ao Convento de Santa Clara, fundado em 1633 por um grupo de Clarissas das Filipinas: Durante um período de tempo de mais de 100 anos pouco se sabe até que, em 1726, o bispo D. Marcelino José da Silva funda o Colégio Santa Rosa de Lima que era, na verdade, um Recolhimento para órfãs.
Em 1835 os conventos foram extintos mas Santa Clara sobreviveu. As irmãs Clarissas regressam a Manila e o Recolhimento passou a ser da responsabilidade de uma comissão directora. Mas de novo será entregue a onze irmãs da caridade, da Congregação da Missão de S. Vicente de Paulo em 1848. A madre Ramos era a responsável e instalou as suas irmãs, juntamente com as órfãs, no actual Instituto Salesiano. No entanto, apenas dois anos mais tarde mudaram-se para o Convento de Santo Agostinho. A estada destas irmãs aqui foi curta: foram banidas de Macau em 1852. Como consequência o Convento de Santa Clara é transformado em hospital durante doze anos.
O bispo da altura, D. Jerónimo José da Mata, achou benéfica uma nova mudança das instalações do Recolhimento, que passa a ficar no Mosteiro de Santa Clara.
Em 1875 os estatutos regulamentares do já Colégio de Santa Rosa de Lima foram aprovados por portaria de 19 de Fevereiro. A regente do Colégio seria a partir de então D. Teresa da Anunciação Denemberg, cujas virtudes e educação ganharam fama. Uns anos depois, em 1883, os bens do extinto convento de Santa Clara foram entregues à comissão que dirigia o Colégio.
Nestes finais do século XIX o estabelecimento de ensino, cuja vida foi sempre um pouco conturbada, é confiado às madres Canossianas até 1903. A partir desta data vai aproximar-se mais, como Colégio, da instituição que hoje conhecemos. Mas não é ainda a estabilidade! A convite do então bispo de Macau, D. João Paulino de Castro, as irmãs Franciscanas Missionárias de Maria tomam conta do mosteiro e assumem simultaneamente a direcção do Colégio. Porém, não se haviam ainda completado sete anos quando, mercê da instabilidade política e social que se vivia então em Portugal, estas religiosas foram obrigadas a um retiro. Saem de Macau e recolhem-se em Shui Hing, aguardando tempos mais calmos. E, mais uma vez, o Colégio é entregue a uma comissão directora. O regresso de religiosas à direcção só se verificou em 1929, com as irmãs missionárias de Nossa Senhora dos Anjos. Mas por pouco tempo. O bispo D. José da Costa Nunes insistia no regresso das irmãs Franciscanas Missionárias de Maria que acedem e regressam pouco depois para assumir de vez os destinos do Colégio cujo desenvolvimento é notório a partir de então, finalmente com a estabilidade merecida.
Contrataram-se professoras em Portugal e foi aberto o curso liceal. O ensino infantil foi outra inovação introduzida. Paralelamente havia um curso de economia doméstica, frequentado por muitas jovens macaenses, mães de família e também raparigas vindas de Portugal.
década 1930
No dia 7 de Dezembro de 1939 foi concedido o alvará do ensino particular liceal e seis meses depois, a 3 de Junho, o alvará de escola primária. E chegamos à década de 40 que verá a vinda para Macau da madre Gertrudes do Nascimento. É uma nova página que se abre.
A era da madre Pia
Nas últimas décadas falar da secção portuguesa do Colégio Santa Rosa de Lima é, inevitavelmente, evocar a madre Pia, que, com outras sete irmãs, veio reforçar a classe docente do estabelecimento de ensino no ano de 1946. Na altura, os alunos eram quase todos portugueses, filhos de militares e de farmlias naturais da terra. Já existiam as secções chinesa e inglesa, cada uma com a respectiva directora e, juntamente com a parte portuguesa, integravam o mesmo edifício. A irmã Gertrudes do Nascimento assume a direcção da secção do ensino em português no dia 26 de Setembro de 1976. No entanto, com o grande aumento do número de alunos, principalmente chineses, tomava-se urgente a separação.
Por outro lado, a melhoria do ensino no Liceu Infante D. Henrique foi, segundo a madre Pia, a principal razão para o progressivo abandono do Colégio pelos alunos do secundário em língua portuguesa. Por isso mesmo, desde 1963 existe apenas o jardim de infância e a primária. A separação das secções concretiza-se em 1982.
Foto de Elisa Fardilha: turma da 1ª classe em 1955
A parte portuguesa cedeu a sua escola, que funcionava no edifício central ao alto da escadaria, verdadeiro ex-libris do Colégio, e o convento, por sua vez, cedeu uma zona para as aulas em língua portuguesa num edifício com dois andares que precisou de grandes adaptações. As obras decorreram durante somente três meses, a duração das férias grandes. Nesse ano as aulas abriram um pouco mais tarde, não por causa das remodelações mas sim de uma reciclagem às professoras. A parte portuguesa tinha na altura entre 250 e 300 alunos, cerca de 20 a 25 por cada classe. Nos últimos anos ultrapassaram muito os 300 alunos por ano lectivo. Madre Pia refere os grandes problemas de disciplina que se verificavam na parte portuguesa, pela maior permissividade em comparação com a secção chinesa, que segue um sistema extremamente rigoroso desde a infantil.
O último ano lectivo do português
Neste último ano lectivo de 92-93 o ensino primário da secção portuguesa contou com 179 alunos divididos por 5 classes, 2 da terceira e 3 da quarta. O jardim de infância albergava 100 crianças. Formaram gerações de macaenses. Madre Pia diz orgulhosa que entre os antigos alunos do Colégio se conta a Dra. Edith Silva, directora dos Serviços de Educação, e muitas outras pessoas de destaque na vida da cidade. O Colégio de Santa Rosa de Lima é, sem dúvida, um marco na educação em Macau, uma referência para tantas famílias naturais desta cidade mas, como tantas outras, tem que se vergar à evolução e às transformações...
Para o segundo andar do edifício, onde funcionou a secção portuguesa, irão dez irmãs idosas da Congregação, o resto será ocupado pelos alunos chineses.
Mas qual a principal razão para acabar com o ensino em português no Colégio? Madre Pia responde que tal se deve, simplesmente, a não haver quem dê continuidade a esse projecto. Segundo diz, já não há irmãs interessadas em vir para Macau com a aproximação da data da transferência da Administração, dentro de seis anos e meio apenas. Quem aqui está fica, continua a obra para que foram destinadas, as irmãs de Portugal agora optam por África que é onde mais precisam delas. Por essa razão há já dois anos que não recebiam alunos novos. Como é ver fechar a parte portuguesa do Colégio, o trabalho de toda uma vida? Tenho muita pena mas faço-o voluntariamente porque acho importante saber dar por finda uma actividade quando não há quem a continue. Madre Pia fala do imenso pesar que muitas famílias sentem e que frequentemente manifestam. No dia 30 de Junho o Colégio fecha as portas da secção portuguesa. Para sempre. Fica a memória e a saudade.
Costuma dizer-se que a medicina, a religião e o ensino deveriam ser profissões guardadas para aqueles que sentem verdadeira vocação. Sabemos também que são raros esses casos ideais. Mas existem. Tive o privilégio de conhecer um deles em Macau na pessoa da irmã Gertrudes do Nascimento, madre Pia para a maioria das pessoas.
Nascida na Madeira, em 1920, teve uma infância muito feliz, rodeada por 12 irmãos e uns pais extremosos e bons cristãos "no verdadeiro sentido da palavra", diz. Desde criança que gostava de ouvir os sermões e explicações da palavra de Deus e de ler a vida dos santos, que ambicionava imitar. Um dia. com 14 anos, adoeceu com quistos num dos braços e, durante 6 meses, fez todos os tratamentos e operações locais possíveis na época. Os pais foram obrigados a mudar-se para o Funchal e dispenderam muito dinheiro tentando curá-la. "A minha mãe amava cada um de nós como se fôssemos filhos únicos. Durante a minha doença sofreu profundamente e eu só tinha pena do desgosto que estava a dar aos meus pais. Rezava todos os dias pedindo para me curar depressa para Ihes dar alegria. Foi quando prometi oferecer a minha vida e saúde ao serviço de Deus."
Jubileu de uma genuína vocação
Acabou por ser tratada por um médico que utilizava métodos considerados "estranhos" mas, sem dúvida, eficazes. A jovem Gertrudes nunca disse a ninguém o desejo que tinha de seguir a vida religiosa. Recorda que as conversas das amigas não lhe davam grande prazer e sentia que quando estava sozinha era outra. Mas era muito alegre, traquinas até. A casa dos seus pais tinha sempre muita gente nova, amigos dos irmãos e diz a sorrir que sabia que tinha simpatias e que queriam arranjar-lhe casamento. Evitava sair com medo de perder a vocação. Mas esta era cada vez mais forte. Aos 21 anos disse aos pais que se queria apresentar no Convento de Santa Clara no Funchal. A mãe chorou todo o dia. E a jovem Gertrudes lá foi, acompanhada pela irmã mais velha. Diz que é raro as superioras dizerem sim logo após a primeira entrevista. Mas consigo aconteceu; pediram-lhe para tratar do enxoval, que, na época, obedecia a regras rigorosíssimas. Entrou para o Convento em Novembro de 1941. E foi feliz desde o princípio, di-lo sem a menor hesitação e com a cara iluminada por um sorriso. O seu sonho era ser missionária, vir para a China baptizar, espalhar a palavra de Cristo. Para tal era necessário passar 2 anos de preparação no Colégio Missionário em Barcelos. Vai em seguida para Lisboa e ali faz um ano de estágio. Estava integrada na lista do primeiro grupo a partir para as Missões. Esperou o fim da Guerra e partiu na primeira viagem efectuada para o Oriente após o segundo grande conflito mundial. Ao cabo de 4 meses de viagem que incluiu, entre outras, uma passagem por Moçambique, que não esquece, chegou a Macau no dia 7 de Dezembro de 1946 onde se dedicou desde logo ao ensino. Nestes 47 anos foi enviada para Taiwan onde esteve 7 anos na nova Fundação. Quando voltou a Macau foi pela primeira vez a Portugal visitar a família, no ano de 1968. mas os pais já haviam falecido. Apesar do natural desgosto, madre Pia diz que nunca hesitou ou pensou em abandonar a vida religiosa.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Hino do Colégio D. Bosco

D. Bosco vamos contigo

Foi há cem anos
Um astro sobre a terra se apagou
Milhões de estrelas nasceram
De novo o mundo brilhou

D. Bosco é vivo entre nós
Seu carisma é actual
Sua mensagem-projecto
É cada vez mais real

Novo, novo século
D. Bosco vamos contigo
Unidos a fazer
Cada jovem um amigo

Em nós D. Bosco é um dom
Sua palavra é acção
Para levarmos aos jovens
Esperança e salvação

De mãos dadas para a frente
O mundo por nós espera
Para lhes preparam com os jovens
Uma nova Primavera

Novo, novo século
D. Bosco vamos contigo
Unidos a fazer
Cada jovem um amigo

NA: enviado por um antigo aluno - Kagaya Kikun - que no seu blog inclui ainda uma versão áudio.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Grupo Arco-Íris e outros pintores da primeira metade do séc. XX

Catálogo da primeira exposição de pintura e escultura do "Grupo Arco-Íris" em Fevereiro de 1964. Desde grupo de artistas locais faziam partes nomes como Herculano Estorninho, Walter Ding, Lam Cheong Ling, Woo Lum, Óseo Acconci, Adolfo Demé, Lee Leng, Tam Tsi Sang, Chiu Vai Fu (1906-1990), entre outros.
Antes, em Janeiro de 1963, Herculano Estorninho, Tam Chi Sang e Frederic Joss mostram os seus trabalhos numa colectiva intitulada “Exposição de Três Artistas: um Chinês, um Português e um Inglês” no mesmo espaço.
A primeira exposição de artistas pertencentes ao grupo que viria a chamar-se Arco-Íris, realizou-se a 12 de Junho de 1956, no antigo Hotel Riviera. Foi na época "uma mostra pioneira que atraiu mais de 10 mil visitantes e que constituiu o primeiro evento de monta no panorama artístico de Macau após a implantação da República Popular da China em 1949."
O Grupo Arco-Íris foi formalmente criado em 1962-64 por nomes como Herculano Estorninho, Chio Vai Fu, Tam Chi Sang e Kam Cheong Ling.
"Alternando entre a aguarela, a pintura a óleo e a tradicional chinesa, a primeira geração de artistas de Macau soube imbuir a sua pintura de uma poesia apurada, que foi muito bem recebida pelo público e se tornou uma imagem de marca dos artistas locais. Na sua esteira e depois de ela própria ter experimentado caminhos próprios, emergiu na década de 70 do século XX a segunda geração de pintores de Macau que também logrou alcançar notáveis feitos", escreveu Ng Fong Chou curador da exposição "Memórias e Emoções" no MAM em 2010.
Quadro de 1971 de Chiu Vai Fu
Notas soltas sobre alguns membros do Grupo Arco-Íris:
Kam Cheong Leng, que estudou pintura com Xu Yongqing, mudou-se de Hong Kong para Macau nos anos 50. Tam Chi Sang aportou a Macau em 1949, para ensinar pintura. Kwok Se, oriundo de Singapura, regressou primeiro à China, antes de se estabelecer em Macau. Lok Cheong foi membro fundador da Sociedade de Artistas de Macau.
Estes quarto artistas participaram de forma entusiástica tanto na criação artística como em actividade sociais e associativas, adorando efectuar esboços em conjunto ao ar livre, além de instruírem numerosos alunos, a quem ensinaram diversas técnicas de pintura e desenho. No deserto cultural dos anos 50 e 60, as suas actividades promoveram rapidamente a arte e o ensino da arte em Macau. Em Abril de 1956, Tam Chi Sang e Lok Cheong, além de outros em que se incluíam Ng Hei U, Chio Vai Fu e Guan Wanli, fundaram a Associação para o Estudo da Arte em Macau, que hoje se designa Sociedade dos Artistas de Macau. Ao organizar numerosas exposições e cursos de arte regulares, esta Associação contribuiu imenso para fomentar o talento de artistas locais. Em 1962, Frederick Joss, Tam Chi Sang e Herculano Estorninho criaram o Grupo de Arte Arco-Íris, para incrementar o intercâmbio entre artistas locais. Em Fevereiro de 1964, os já citados e Adolfo C. Demée, Oseo Acconci e Walter Ding, juntamente com outros artistas num total de cerca de dez, realizaram a Exposição dos Artistas da Arco-Íris, no edifício do Leal Senado. (ver foto do grupo na época)
Deste grupo fez parte Emílio Cervantes JR. (imagem em baixo) que se estreava nesta exposição. Emílio nasceu a 09/07/1931 em Macau. Estudou no colégio D. Bosco. Militar, frequentou o curso por correspondência, "Famous American Artists" em 1963.
Exposições Colectivas: 1964 – Grupo "Arco-Íris" no Leal Senado de Macau; 1970 – Na Escola Comercial "Pedro Nolasco"; 1982 – Idem; 1989, 1990 e 1991 – Design de Selos para os CTT – Macau; 1994 – XI Exposição Colectiva dos Artistas de Macau.
 Emílio Cervantes Jr.
Adolfo C. Demée (1935-2008) nasceu em Macau (filho de Gastão Demée) a 6 de Fevereiro, tendo estudado aguarela com o seu primo, Luis Demée, desde muito cedo. Até 1952, quando Luis Demée partiu para estudar em Portugal, os dois desenharam muitas paisagens de Macau. Encorajado por Herculano Estorninho, juntou-se ao Grupo Arco-Íris na década de 1960. Em 1973, Adolfo C. Demée voltaria à sua fase criativa, dedicando-se à pintura a óleo. É então que convive regularmente com Luk Tin Chee e Leong Fai, ambos alunos de Chiu Vai Fu. Este, em Abril de 1956, juntamente com Ng Hei U, Tam Chi Sang, Lok Cheong, Guan Wanli, Pan Hao e Cai Yishan, fundou a “Associação de Estudos de Arte de Macau”, a percursora da futura Associação dos Artistas de Macau, que na altura da sua criação tinha como Presidente honorário Ho Yin, a par de outras altas individualidades como Ma Man Kei.

Santo Agostinho por Demée em 1950

A vocação de Adolfo de Carvalho Demée para a pintura manifesta-se ainda nos bancos da escola. É na prática autodidata que desenvolve as suas aptidões para o desenho, mas sobretudo sob o estímulo do primo Luís Luciano Demée, que se tornaria num dos mais importantes artistas de Macau, além de Professor da Escola Superior de Belas Artes do Porto.
Luís Luciano Demée nasceu em Macau em 1928. O arquiteto e pintor russo George Smirnoff foi seu mentor entre 1944-1945. Em 1951 Demée realizou uma exposição individual em Macau, bem como várias exposições em Hong Kong Art Club. Em 1952, com uma subvenção do Fundo de Educação de Macau (Caixa Escolar de Macau), matriculou-se na Escola de Belas Artes de Lisboa, continuando os seus estudos na Escola de Belas Artes do Porto. Participou na 20ª Missão Estética organizado pela Sociedade Nacional de Belas Artes.
Após concluir a licenciatura em Pintura, Demée partiu para Paris com uma bolsa de estudos concedida pela Fundação Calouste Gulbenkian. Em 1961, foi convidado para o cargo de professor assistente na Escola de Belas Artes do Porto. Na primeira Bienal de Paris, recebeu uma bolsa de estudos da Federação de Paris de Críticos de Arte. Demée foi condecorado com o Prémio Nacional de Souza Cardoso Pintura. A Fundação Calouste Gulbenkian convidou-o a visitar a exposição " Uma Década de Pintura e Escultura ", em Londres. Visitou também a exposição "Westkunst", em Colónia, Alemanha.
Realizou viagens de campo para o Médio Oriente, Grécia, Alemanha, Inglaterra, Bélgica e Holanda. Pintou murais, frescos, pinturas em vidro, tapetes e obras em acrílico para o Palácio de Justiça do Sabugal, bem como para vários hotéis e prédios públicos. Demée recebeu a Medalha de Valor da Secretaria de Estado de Cultura, e a Medalha de Macau pelo Leal Senado. Em 24 de julho de 1999, Demée recebeu a Medalha de Ouro do Cidadão (Emérito) do Governo de Macau.
Voltando a Adolfo. Com 14 anos de idade, acompanha o primo pela cidade em busca de imagens que executa em aguarela. Nestas demandas vai crescendo e refinando o seu gosto artístico. Priva com Herculano Estorninho e mais tarde Edite Jorge. Findo o liceu e com a partida do seu primo Luís para Portugal, Adolfo Demée abandona quase completamente a pintura, só retomando no início dos anos sessenta do século XX quando integra o grupo "Arco Íris". Desse período de trabalho resulta a exposição de 1964, na qual tem a oportunidade de contactar com outros artistas, tanto locais como estrangeiros, um dos quais Frederic Joss, exímio artista. Em 1973, uma nova vaga de trabalho, desta vez na pintura a óleo. Convive regularmente com Luk Tin Chee e Leong Fai, ambos discípulos do mestre Chiu Vai Fu, que Adolfo Demée conhecera 10 anos antes. No fim desse ano participa naquela que ficou conhecida como "Exposição dos 7".
   
Adolfo Demée
Oséo Acconci nasceu em 1906 em Pisa, Itália, onde estudou na Escola de Belas Artes. Mais tarde estudou escultura e deseho com o professor Arturo Tomagnini. Aos 23 anos ingressou na empresa de seu pai trabalhando como escultor, em mármore e bronze. Estudou ainda arquitectura. A sua passagem pelo Oriente começou por Hong Kong e mais tarde Macau. É da sua autoria, por exemplo: o busto do Infante D. Henrique oferecido ao Liceu de Macau (no tempo do reitor Ferreira de Castro), o mural na fachada do hotel Estoril, etc...
Oséo Leopoldo Goffredo Acconci - escultor e artista italiano que se fixou em Macau, oriundo de Hong Kong, na sequência da 2ª grande guerra. Também por cuasa da guerra vai chegar a Macau o pintor russo George Smirnoff conhecido pelas suas aguarelas. O pintor macaense Luís Luciano Demée soube aprender rapidamente com ele. A sua técnica consistia em pinceladas vivas, produzindo aguarelas que descreviam os cenários românticos da cidade bem como o movimentado porto de meados da década de 40 e do pós-guerra.
Herculano H. G. Estorninho
Herculano Estorninho nasceu em Macau em 1921, tendo feito os seus estudos no Seminário de S. José e no Liceu Nacional Infante D. Henrique. Mais tarde estudou desenho e composição com António de Santa Clara e Bordalo Borges.
Começou a pintar aguarelas em companhia de Luís Demée prosseguindo os seus estudos com Brigite Reinhart, no então Colégio de Belas-Artes de Macau.
Estudou também Belas-Artes Aplicadas com Frederic Joss, no Instituto de Arte Aplicada de Viena de Áustria. Em 1962, foi um dos fundadores Grupo Arco-Íris. Em Janeiro de 1963, na Galeria do Leal Senado, participou numa mostra colectiva com Frederic Joss e Tam Chi Sang, a que se seguiria, em Fevereiro de 1964, a famosa Exposição dos Artistas do Arco-Íris. A partir de 1965 realizou diversas exposições individuais em Macau, Hong Kong e em várias cidades de Portugal. As suas obras fazem parte de colecções privadas e de instituições várias, nomeadamente do Palácio Nacional de Belém, da Casa de Macau em Lisboa, do Palácio do Governador de Díli, em Timor, do Museu de Arte de Macau e do Consulado de Portugal em Melbourne, na Austrália.
Meia Laranja. 1984. Espólio da família Estorninho.