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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Macau na 2ª viagem de circum-navegação do navio-escola Sagres: 1983-84

O navio-escola Sagres esteve quatro vezes em Macau. A primeira vez aconteceu em Janeiro de 1979. Esteve depois em Dezembro de 1983 e em Agosto e Novembro de 1993. Em 2010, em mais uma viagem à volta do mundo, o Sagres tencionou atracar mais uma vez em Macau mas a China interditou a entrada, argumentando não permitir a atracagem a navios de guerra.

1 de Julho de 1983 foi o dia da Largada para a 2ª Viagem de Circum-Navegação do navio-escola Sagres, uma viagem que durou 296 dias e que tinha como objectivos a instrução de cadetes da Escola Naval e o reforço dos laços com as comunidades portuguesas e territórios sob administração portuguesa. O comandante era o capitão-de-fragata António Luciano Homem de Gouveia.
Ilustração criada por IA a partir de fotografia

O navio-escola Sagres esteve em Macau entre 13 e 26 de Dezembro de 1983. Esteve aberto a visitas da população e realizaram-se recepções oficias a bordo. Foi emitido um postal comemorativo pelos correios de Macau para assinalar a presença do navio-escola.
Para além de Macau, outras duas escalas tiveram grande destaque foram o Havai e o Japão.

Acácio Sousa, era na altura Cabo CM (condutor de máquinas) no navio-escola Sagres. Tinha 25 anos. Agora recordou para o blogue Macau Antigo a passagem por Macau há 43 anos...

13.12.83

A Sagres antecipou em dois dias a chegada a Macau devido a condições de navegação e ventos favoráveis que teve no decorrer deste trânsito de Shanghai até Macau, tendo a Sagres entrado no Porto Exterior de Macau a navegar em 'Árvore Seca' (todo o velame encontrava-se ferrado) e com a 'Máquina Parada'. Navegávamos a 11 nós, pelas 13h fundeou ao largo de Coloane, à entrada do Porto de Macau de onde suspendeu pelas 17h para atracar na Ponte Cais, em Macau às 18h no Porto Exterior.
À nossa chegada lá estavam os esterlotes dos panchões com as respectivas danças do dragão e do leão em ambiente de festa.
Foi a 2ª vez que o navio-escola Sagres escalou o território de Macau onde a sua guarnição passou as festas natalícias e onde aconteceram diversas iniciativas, programadas pela comissão organizadora nomeada pelo governador do território*. A Comissão Organizadora preparou uma visita a Guangzhou na Província de Cantão, e no Hotel Casino Lisboa, fomos agraciados com uma recepção dada pelos camaradas de Marinha destacados em Macau.
Na noite de 24 para 25 de Dezembro de 1983, celebramos a bordo o nosso Natal.
Entrada do Hotel Lisboa
26.12.83
Com o apoio exemplar do então Cte da Defesa Marítima de Macau, Cte Nobre de Carvalho**, pelas 23 horas demos início ao moroso processo de largada, para além de ser de noite, a Sagres teria de sair do Porto Exterior, local onde esteve atracada e teria de navegar num canal construído de propósito para a Sagres, navegando em águas rasas na Foz do Rio das Pérolas. Neste percurso foi acompanha por duas vedetas da Capitania do Porto de Macau e foi já perto de Coloane que o silêncio e a noite foram subitamente cortados, quando um rebocador dos Serviços de Marinha, agitando rastos de luz com os seus holofotes e apitando em tom festivo, começou a transmitir música portuguesa pelos seus altifalantes, desde o Fado às Marchas Populares, passando pela «Marcha dos Marinheiros» e o fado «Caravelas».
Durante meia hora o Estuário do Rio das Pérolas tornara-se praça Portuguesa, numa conquista irreprimível. Por fim e já com os últimos convidados, os Oficiais da Armada em serviço no território, entre os quais, o Cte Nobre de Carvalho, Chefe dos Serviços de Marinha e o Cte Arménio Fidalgo (da PMF) já a bordo da Vedeta da Policia Marítima Fiscal, que os levaria a Terra, a Sagres despediu-se com o som grave da sua 'sereia' enquanto se ouve um «Até à Próxima Camaradas» gritado a plenos pulmões.
A «Sagres» levava a sua guarnição reforçada, com a presença de um Jornalista da Rádio Macau e um Redactor do Gabinete de Comunicação Social, transportados para uma Experiência a Bordo da «Sagres». Eram 24 horas quando tudo terminou e iniciamos a viagem rumo a Singapura."
Hotel Presidente (1º plano) e Hotel Lisboa (parcialmente) ao fundo à esq.

* Vasco de Almeida e Costa (1932-2010), também ele da Marinha (era na altura capitão-de-mar-e-guerra), foi governador entre 1981 e 1986.
** Capitão-de-Fragata, João Manuel Velhinho Pereira Nobre de Carvalho.
Nota: Fotografias do grupo existente no FB alusivo ao evento.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Istmo Taipa-Coloane: 1964 a 1968

As obras do istmo de 2200 metros de comprimento e 7 metros de largura que ligou as ilhas da Taipa e Coloane - onde fica actualmente a zona denominada Cotai - começaram a 1 de Junho de 1964. Ao fim de quatro anos - e de serem conquistados ao mar cerca de 400 hectares de terras - a empreitada ficou concluída. A inauguração oficial esteve marcada para 28 de Maio de 1968 (uma data simbólica para o Estado Novo) mas o artigo abaixo refere 2 de Junho.
Artigo publicado no Boletim Geral do Ultramar ( XLIV- 516) de Junho de 1968:
O governador de Macau, brigadeiro Nobre de Carvalho, procedeu, em 2 de Junho, no meio do maior entusiasmo das populações locais, à inauguração da estrada de ligação entre as ilhas de Taipa e Coloane, empreendimento de grande envergadura e da máxima projecção no futuro económico dos dois territórios. A estrada, com um comprimento de 2225 metros, assenta numa estrutura trapezoidal, com uma base inferior de 37 metros e base superior de 10,06 metros, e com a altura de 7 metros. 
A obra importou em 22 150 contos*. Assistiram à cerimónia personalidades do maior relevo na vida oficial e particular da Província, portuguesas e chinesas, registando-se, também, a presença de muito público. Num gesto pleno de simbolismo, o casal mais idoso do concelho das Ilhas, depois da inauguração oficial, deu os primeiros passos na nova estrada, no meio dos maiores aplausos da assistência. As populações das duas ilhas ficam, assim, mais estreitamente irmanadas, podendo ajudar-se, mutuamente, no desenvolvimento dos seus recursos naturais que oferecem incontestável abundância, sendo a primeira vantagem desta ligação a possibilidade de Coloane fornecer água potável à Taipa, onde ela escasseia. 
Falou o director das Obras Públicas, Eng.º Tomás Siu, e depois o brigadeiro Nobre de Carvalho que proferiu um discurso em que começou por prestar homenagem aos governadores seus antecessores que, de qualquer maneira, intervieram no empreendimento, agora tornado realidade. Mais adiante, o orador acentuou que este melhoramento estava perfeitamente dentro da política da Revolução Nacional, a propósito do que lembrou o nome do prestigioso estadista, Professor Doutor Oliveira Salazar, que vem presidindo com tanta dignidade e patriotismo aos destinos da Nação portuguesa. O governador de Macau rendeu, igualmente, homenagem ao Presidente da República a quem a Nação deve tantos e assinalados serviços. Por fim, o orador acentuou que o Ministro do Ultramar muito se tem preocupado com os complexos problemas da Província, dando o maior apoio às iniciativas do Governo de Macau. As cerimónias tiveram a presença de representantes de todos os órgãos da Informação pública locais, incluindo a Rádio, uma equipa da televisão de Hong-Kong e representantes da Imprensa estrangeira.
* cerca de 4 milhões de patacas.

Do Desenho à Litografia: O Processo e os Intervenientes

Esta "Vue génerale de Macao" foi publicada na edição de 6 de Fevereiro de 1858 da publicação francesa "L'Illustration - Journal Universel". Tem como legenda "Vue génerale de Macao d'aprés un déssin envoyé par M. E. Roux"
Seria depois publicada em outros jornais um pouco por todo o mundo e com ligeiras diferenças. E isto porque no século 19 o processo de composição para impressão assumia-se como uma reinterpretação artística do desenhador original. Em alguns casos a 'gravura' também podia ser colorida. Como se pode verificar neste exemplo, parecem iguais mas não são...

Do Desenho à Estampa: O Processo e os Intervenientes

1. O Desenhador (O Autor)
Profissional: Artista ou Desenhador 
Função: É quem faz o levantamento visual no local. Produz o original em papel (lápis ou aguarela). 

2. O Gravador (O Artífice Polivalente)
Técnico especializado que traduz o desenho para uma matriz que pode ser de diferentes suportes:
Sobre Madeira (Xilogravura): Se a imagem fosse para um jornal (como o Arquivo Pitoresco em Portugal), o gravador esculpia um bloco de madeira. Ele criava as hachuras em relevo para que pudessem ser impressas juntamente com o texto metálico.
Sobre Pedra (Litografia): Se o objetivo fosse uma estampa de maior qualidade, o gravador (aqui chamado de litógrafo) desenhava sobre uma pedra calcária com materiais gordurosos. É um processo químico, mas a mão que define o traço é a do gravador.
Sobre Metal (Calcografia): Para edições de luxo, o gravador utilizava o buril ou ácidos para abrir sulcos em chapas de cobre ou aço.

Nota: O gravador era tão importante que, muitas vezes, o seu nome aparece gravado na base da imagem (ex: "Gravado por..."), pois era ele quem decidia como interpretar as sombras e as texturas do desenho original.

3. O Impressor (O Mestre da Prensa)
O Impressor é o responsável pela oficina. Ele prepara as tintas, molha o papel (para que este aceite melhor a tinta) e opera as prensas. O seu domínio sobre a pressão da máquina é o que evita que as linhas finas (as hachuras) fiquem empastadas.

4. O Iluminador ou Colorista (O Acabamento)
Profissional: Colorista (frequentemente artistas anónimos em oficinas).
Este profissional aplicava a cor à mão, exemplar a exemplar, usando aguarela. Ele não gravava nada; apenas acrescentava valor estético à impressão a preto e branco que saía da prensa.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

John MacDonald: 1936-2026

Morreu John Macdonald o lendário piloto britânico de automóveis e motociclos, sediado em Hong Kong, frequentemente apelidado de "Rei de Macau". É o único piloto a vencer as três principais categorias no Circuito da Guia em quatro e duas rodas: o Grande Prémio de Macau (1965, 1972, 1973, 1975), a Corrida da Guia (1972) e o Grande Prémio de Motociclismo (1969).
O anúncio da morte foi feito nas redes sociais pelo amigo Eli Solomon, historiador e escritor radicado em Singapura: "É com profunda tristeza que informo o falecimento de John Macdonald no domingo, 25 de Janeiro, aos 89 anos, após uma longa doença." 
Ainda segundo Eli, "a sua mente permanecia tão lúcida como sempre, e ele e Angus Lamont continuaram a trabalhar em King of Macau até ao final do ano passado", pelo que espera-se que o livro "King Of Macau" seja publicado nos próximos meses.
Nascido em 1936 em Inglaterra, John MacDonald começou por correr em motos em 1957 no Circuito de Silverstone . Em 1962 participou no Rali da África Central e no ano seguinte no Rali Internacional da Escócia, num Land Rover. Nesse ano de 1963 mudou-se para Hong Kong tendo ingressado na polícia local.  Na então colónia britânica foi proprietário da Camlex Garage, em Kowloon.
Em 1964, participou pela primeira vez no Grande Prémio de Macau (automóveis) terminando em 6º lugar. No ano seguinte voltou a participar e saiu vitorioso. Em 1967 o Grande Prémio de Motos de Macau passou a fazer parte do GP e MacDonald alinhou numa Yamaha tendo desistido na segunda volta com o motor partido. Em 1972 conquistou a vitória na prova rainha do GP e na primeira edição da Corrida da Guia.  Emm 1973 volta a vencer o Grande Prémio de Macau ao volante de um Brabham BT40. Em 1975 ganhou o seu quarto e último Grande Prémio de Macau conduzindo um Ralt RT1. A última participação ocorreu em 1976.
XVI GP 1969. Brabham FVA 

Em 1983 J. M. deixou Hong Kong e mudou-se com a mulher para Andorra. Em 1992, no 25º aniversário do GP Motos, John regressou a Macau fazendo parte da parada comemorativa ao volante da ‘velhinha’ Yamaha 250. Os últimos anos foram vividos nas Maurícias.
Em 12 anos de carreira John Macdonald venceu mais de 100 corridas e mais de uma dezena de Grandes Prémios: para além das vitórias em Macau, foi vencedor na Malásia, Filipinas, Singapura e Indonésia.
Macau é a grande montra da sua carreira como piloto. Foi o primeiro e único a ganhar tanto o Grande Prémio de Macau de duas como de quatro rodas e é também o único piloto que venceu o Grande Prémio de Macau, o Grande Prémio de Motos de Macau e a Corrida da Guia.
John MacDonald (born May 27, 1936 in Worcester) is a racing car driver and a motor-cycle racer of Hong Kong. He was originally from England, where he started his career racing motorcycles, then cars until he served at the National service. He then lived in Hong Kong and raced as a competitor of Hong Kong, where he owned a garage business. 
He is only person who won all international races of Macau; Macau Grand Prix (1965, 1972, 1973, 1975), Macau Motorcycle Grand Prix (1969) and Guia Race (1972). Also he is the most Macau Grand Prix winner with 4 wins and the first winner of the Guia Race in 1972. 
John Macdonald no Grande Prémio de Macau:
Estreia e Primeiros Sucessos: Estreou-se em 1964, conquistando a primeira vitória absoluta em 1965, ao volante de um monolugar Lotus 18.
Versatilidade (Motos): Participou na primeira edição do GP de Motos (1967), vindo a vencer a prova em 1969.
Domínio em 1972: Venceu o Grande Prémio com 30 segundos de vantagem e conquistou também a primeira edição da Corrida da Guia (Mini Cooper S).
Recordista: Em 1973, tornou-se o primeiro piloto a somar três vitórias no Grande Prémio, estabelecendo o recorde da volta.
Despedida: Alcançou a sua quarta e última vitória no GP em 1975, despedindo-se do circuito em 1976.
No total, MacDonald somou seis vitórias no Circuito da Guia, cimentando o seu nome na história do automobilismo em Macau.
Espaço "John MacDonald" no Museu do Grande Prémio de Macau: estátua de cera, réplica do Austin Mini Cooper S com que venceu a Corrida da Guia em 1972, e da Yamaha TD2C.

domingo, 1 de fevereiro de 2026

"Antiguidades de Macao"

Sob o título "Antiguidades de Macao" o jormal "O Macaista Imparcial" publicou uma série de artigos da autoria de J. B. de Miranda de Lima, desde o primeiro número - 9 Junho 1836 - e ao longo de várias edições (nº 1, 3 e 6 por exemplo). Os textos eram sobre a história de Macau. O primeiro artigo aborda os primeiros tempos dos missionários jesuítas...
Reprodução dos artigos publicados na edição 1 e 3 do jornal:
D. Belchior Carneiro nomeado Bispo de Nicea em 1558, e Sagrado com este titulo para ir para a Ethiopia, naõ podendo entrar lá, recebeo ordem para passar á China, e ao Japaõ para exercer o cargo de Pastor nestas igrejas erectas de novo, e separadas da Diocese de Malacca, e partio da India para Macaó em Maio de 1568. Aqui exerceo com grande zelo o seu cargo Pastoral; instituio o Hospital de S. Lazaro para os pobres, e a caza da Mizericordia; morreo em 19 de Agosto de 1583, e jaz sepultado no meio da Capella mór da Igreja de SAÕ PAULO em sepultura rasa, cuberto de campa de marmore com epitaphio em Latim.
Em 1685 apportaraõ a Macaó 12 Japoens em uma embarcaçaõ, dizendo que navegando de Yente para Ixe, portos de Japaõ, arrabatados de huma tempestade vierão demandar aquella barra, sem haverem visto outra terra, couza, que parecia incrivel aos intelligentes da navegaçaõ. Derão por novas, que o Imperador do Japão não passava de 40 annos de idade, e que tinha hum filho unico de quinze annos, e que sabendo como havia Christãos no seu Imperio, dissimulava, e não tratava de inquirir delles.
(Continuar-se-ha.)
O Capitaõ deste navio era recebedor dos tributos Imperiaes. Inexplicavel foi o alvoroço, que cauzáraõ os novos hospedes na Cidade de Macáo, pela parte dos seculares taõ dezejosos de se tornarem a introduzir no commercio Japonez, cuja prata era antigamente o nervo principal da sua riqueza, e pela parte dos Religiozos taõ desvelados em acudir ao dezamparo de tantos milhares de Christaõs, que eraõ a flor, e o exemplo de toda esta Igreja Oriental. Discorriaõ, que estes Japoens vinhaõ mandados de propozito a explorar, se havia ainda Portuguezes no Oriente, ou para nos admittirem ao seu commercio, e lançar fora os Hollandezes, ou por algum occulto designio do Jmperador sobre a restauraçaõ do Christianismo. Fundava-se este discurso em ser novidade nunca vista vir-se do Japaõ a Macáo arrojado da furia das tormentas: e no grande desejo, que o Capitaõ mostrava de voltar em vaso Portuguez estando-nos prohibida esta viagem com taõ rigorozos decretos, e de taõ inviolavel observancia, cujas penas se haviaõ de executar em huns e outros. Mas ou elles fossem espias, ou viessem lançados da tempestade, a Cidade os hospedou com extraordinario amor, e magnificencia, e logo se apprestou hum barco, Capitaõ Manoel de Aguiar Pereira, concorrendo os Padres da Companhia com a terça parte dos gastos, para o que foi necessario empenhar a prata da Igreja, e tomar dinheiro emprestado.
Partiraõ em Junho Portuguezes, e Japonezes no barco preparado, e de proposito naõ quizeraõ levar droga alguma, para que se naõ imaginasse, que o interesse do commercio, e naõ a benevolencia da nação, era o unico motivo de tão custozo obzequio. Naõ respondeo o successo ás esperanças, porque chegando a Nangazaquy, antigo theatro de illustrissimos martirios, o Governador da terra tornou a mandar os Portuguezes para Macaó, com ordem expressa de que não intentassem mais aquella viagem.
(Continuar-se-ha.)