terça-feira, 16 de abril de 2019

"Relato fiel e fundamentado da história"

Já aqui referi por mais de uma vez o livro “Macau nos Anos da Revolução Portuguesa 1974-1979” (Gradiva, Lisboa, 2011), do General José Eduardo Garcia Leandro, primeiro Governador de Macau designado após a revolução de Abril de 1974. Desta vez volto ao tema dando a conhecer um pequeno excerto da nota introdutória de um livro que foi publicado segundo o seu autor tendo "como única finalidade deixar registado para actuais e vindouros interessados e investigadores o que foi a governação de Macau e muitas outras sensíveis questões associadas ao período tão difícil de 1974 a 1979, através do testemunho do seu primeiro responsável”.
António de Almeida Santos, então Ministro da Coordenação Interterritorial, escreveu no livro "Quase Memórias" (2º Vol.) que “Macau, sobretudo à época, era tudo menos fácil de governar", e o gov. Garcia Leandro, “impecavelmente sério, reflectido e prudente”, “exerceu o cargo com sabedoria verdadeiramente chinesa”.
Garcia Leandro em 1976 na Assembleia Legislativa de Macau
Excerto da introdução:
Como foi possível que eu e quem me acompanhou e ajudou tivéssemos conseguido conduzir Macau pelos melhores caminhos?
Todo o enquadramento sociopolítico era indiscutivelmente mau. Desde o processo revolucionário em Portugal (e a descolonização consequente), passando pela situação na China ― com a Revolução Cultural, o fim do maoísmo e a consequente luta pelo poder ―, os últimos anos da Guerra do Vietname até à má situação da economia mundial, ainda não recuperada do choque petrolífero de 1973. A isto, acrescia a própria (e permanente) fragilidade estrutural de Macau, ainda não totalmente reequilibrado após os incidentes do «1-2-3» de 1966. Sem esquecer a idade com que iniciei funções de Governo, o que, no início, criou alguma desconfiança (compreensível) em certos sectores mais conservadores. Também não podia contar com grande apoio de Lisboa, onde se viviam outras preocupações bem mais prementes e onde os problemas passavam por abordagens ideológicas muito marcantes e demasiado genéricas que não interessavam, nem se deviam aplicar em Macau.
 A instabilidade política nacional era muito grande. Basta lembrar que, durante o meu período de Macau, passaram por Portugal oito governos (do III ao VI Provisórios e do I ao IV Constitucionais) e cinco primeiros-ministros. Como Macau deveria ter um caminho próprio, não podia estar sujeito às consequências negativas de tanta mudança. Daí a minha visão política da questão: para controlar bem o que se ia passar em Macau, não poderia dar problemas a Lisboa, nem deixar que dali viessem instruções que pudessem prejudicar o futuro do Território. Havia, pois, que evitar a existência de poderes paralelos e, ao mesmo tempo, recusar a aplicação local de modelos desajustados. Macau não podia ser prejudicado pelo envolvimento no jogo dos partidos políticos nacionais.
 O meu Governo tinha vontade de fazer bem e de deixar um bom exemplo, trabalhando para todos os que ali viviam, sem discriminações. A população chinesa pugnava pela tranquilidade e a República Popular da China, a atravessar grandes dificuldades internas, não queria novas fontes de problemas em Hong Kong e em Macau.
 A consciência do momento difícil – se não único – que se vivia também foi sentida pelos responsáveis das comunidades locais e pelo Governo de Hong Kong. Recebi um apoio muito claro da comunidade chinesa e da Igreja Católica, e foram consolidados os mecanismos de coordenação e entendimento com o Governo da colónia britânica, ao mesmo tempo que se procurava diminuir o jugo económico que esta exercia sobre Macau.
A evolução foi boa e o crescimento económico permanente. Mas a memória é curta e hoje, em Portugal, são poucas as pessoas que têm conhecimento da situação de Macau em 1974, pensando muitos que este sempre foi uma espécie de «árvore das patacas» onde nunca existiram dificuldades económicas, políticas ou sociais.

Palacete de Santa Sancha
Acresce que o conhecimento sobre Macau sempre foi reduzido em Portugal, mesmo entre muitos responsáveis da cultura e da política. Com o passar do tempo e a nossa saída de Macau, em finais de 1999, tal vazio de informação agravou-se. Encontro-me frequentemente com pessoas que assim pensam ou que tudo desconhecem, mas que têm ideias feitas sobre Macau. Fico perplexo com o desconhecimento com que deparo, por vezes com o desinteresse em conhecer a realidade, e com os erros de interpretação permanentes. É também para deixar um testemunho factual que este livro é necessário! Mas sinto que também tenho responsabilidades por não o ter escrito mais cedo. Por tudo isto, não ficaria bem com a minha consciência e com a História se nada fizesse para ajudar a corrigir esta situação.
 Esta é a resposta à pergunta se vale a pena este trabalho mais de trinta anos depois. Crê-se que, desta forma, se contribui para um relato fiel e fundamentado da História. O tempo a todos vence, pela morte, pela mudança de gerações e pelo esquecimento, a menos que fiquem registos dos conceitos, das intenções e dos factos. E porque as pessoas envolvidas, com responsabilidades naquela época, têm vindo a morrer sem deixar registos, a memória vai desaparecendo. Daqui a dez anos, quase todos os testemunhos dessas experiências vividas terão desaparecido. Embora Macau já não esteja no centro de interesse dos portugueses, nem nas primeiras páginas dos jornais, este registo escrito é indispensável para quem queira compreender a evolução ocorrida a partir do 25 de Abril.”

segunda-feira, 15 de abril de 2019

Centenário do Corpo de Bombeiros de Macau: 1919-2019

O primeiro Regulamento dos Serviços de Incêndio de Macau foi publicado a 2 de Maio de 1883 mas já antes existiam serviços de incêndios. No texto "Os Primitivos Bombeiros de Macau" Luís Gonzaga Gomes explica: 
"Nessa época, cada rua tinha de concorrer para a manutenção dum grupo de bombeiros, que aguardavam em suas casas uns metrozinhos de mangueira, uma agulheta e uma bomba de incêndio, que consistia em uma caixa que se deslocava sobre duas rodas, tendo, num dos lados, um rudimentar maquinismo que servia para comprimir a água. Quando fosse preciso fazer trabalhar esse precioso engenho ia-se buscar água, aos baldes, nos poços ou no mar e, uma vez lançado para dentro da caixa-reservatório, o líquido extintor era comprimido pelo maquinismo, que era, por sua vez, accionado à força dos músculos de vigorosos mocetões.
Nesse tempo, existia uma combinação táctica entre os bombeiros e a população da cidade. E assim, logo que fosse dado o rebate, saíam todos os bombeiros dos seus alojamentos e o grupo que chegasse primeiro, através do dédalo das ruelas da velha cidade, recebia, como recompensa dos seus esforços, um magnífico leitão assado e dois almudes da melhor aguardente chinesa, custeados entre os moradores da rua vitimada pelo sinistro."

Principais datas da história dos bombeiros até 1976:
1851: existe a figura de inspector de fogos/incêndios; bomba no quartel do Batalhão de Artilharia de S. Francisco; estão estabelecidos os sinais de aviso de incêndio: dois tiros de canhão na Fortaleza do Monte.
1874: a bomba é transferida para o Convento de S. Domingos (imagem abaixo), edifício onde se instalou a Inspecção de Incêndios em 1883 (ao lado da igreja com o mesmo nome).
O Regulamento dos Serviços de Incêndio (publicado a 10 de Agosto de 1883) deu início à criação de um serviço organizado. Instalado no Convento de S. Domingos e constituído por um corpo activo de 60 pessoas, os serviços de incêndio possuíam quatro bombas, duas em Macau, uma na Taipa e a outra em Coloane.
1909: existem postos de incêndios junto das estações da Polícia, nomeadamente, na Rua da Caldeira, em Santo António e em Mong Há.
1914: publicação do Regulamento Orgânico da Direcção das Obras Públicas, cujo director exercia também, desde 1901, o cargo de Inspector de Incêndios.
1915: os serviços de incêndios são desvinculados das Obras Públicas e a sua reorganização fica a cabo do Major de Infantaria João Carlos Craveiro Lopes, sendo os elementos do Corpo dos Bombeiros recrutados entre os voluntários para a Polícia.
1916: Macau tem três estações - Estação nº 1 (Central) em S. Domingos, e as outras duas na Avenida do Almirante Sérgio (Estação nº 2) e Avenida Horta e Costa (Estação nº3); Taipa e Coloane também têm Postos de Incêndio.
1919: É extinta a Inspecção de Incêndios; publicação da Portaria nº 80 com o Regulamento orgânico que cria o Corpo dos Bombeiros a 26 de Abril de 1919 sendo objectivos da corporação: prevenção e socorro de incêndios, desastres e calamidades; lavagens sanitárias e regas da cidade; execução de serviços em que fosse necessária a utilização do material da corporação.
1920: aprovado o projecto para a construção de novas instalações na Estrada Coelho do Amaral, cujo quartel será inaugurado a 3 de Outubro de 1923. (imagem abaixo)
1923: Nova denominação como Corpo de Salvação Pública, saindo da dependência do Leal Senado (os serviços da cidade de Macau) e da Câmara Municipal das Ilhas (serviços da Taipa e Coloane) para regressar à dependência do Governo.
1939: o Corpo de Salvação Pública passa a ser uma corporação militarizada, transitando novamente, em 1946, para a tutela do Leal Senado (sem a brigada sanitária) e designando-se Corpo de Bombeiros Municipais.
1976: são criadas as Forças de Segurança de Macau que passaram a incluir o Corpo dos Bombeiros.

domingo, 14 de abril de 2019

"Esta é a Ditosa Pátria Minha Amada"

Depois da travessia aérea do Atlântico Sul em 1922 por Gago Coutinho e Sacadura Cabral, três aviadores portugueses aventuram-se na tentativa de escrever mais uma vez o nome de Portugal na história da aviação mundial.  A 7 de Abril de 1924 descolam de Vila Nova de Mil Fontes (está lá uma estátua a recordar esse dia) - voaram antes oriundos da Amadora - rumo a Macau. Ou sejam, por estes dias, há 95 anos, o "Pátria" rasgava os céus em direcção a Macau...
O avião escolhido foi o Breguet 16-Bn2 com motor de 300 cavalos de potência, adquirido por subscrição pública e equipado com depósitos suplementares para aumentar a autonomia. Na fuselagem tem pintado a expressão: “Esta é a Ditosa Pátria Minha Amada”.
Ao fim de vários dias de viagem, no deserto de Thur, na Índia, o Pátria acaba por se despenhar. Estava em jogo o prestígio do país e de Lisboa depressa segue a autorização para comprar outro avião para concluir a viagem. O avião escolhido foi um DeHavilland DH-9A com um motor de 450cv, comprado por 4.700 libras e baptizado de Pátria II mas com lugar apenas para dois tripulantes. Os restos do primeiro “Pátria” foram encaixotados e enviados para Lisboa e a 30 de Maio de 1924 o “Pátria II” descolou às primeiras horas da manhã, rumo a Ambala.


No dia 20 de Junho o “Pátria II” descolou de Sontai rumo a Macau a mais de 1000 quilómetros de distância No diário de bordo escrevem:  "O motor funcionava admiravelmente, o tempo conservava a transparência de um dia de Novembro, no nosso pensamento só uma ideia vivia, só uma aspiração vibrava - chegar a Macau."
E assim parecia que ia acontecer. Só que o mau tempo pregou uma partida. «Sobe o açoite furioso dos aguaceiros densos, rompemos para o Istmo de Macau, e passamos sobre a Ilha Verde e as Portas do Cerco."
Em Macau a população em peso olha para os céus e testemunha as cores de Portugal só que o vento impede a aterragem.
"São cinco minutos de voo inacreditável, indescritível, irreal. O aparelho parece levado como uma folha de árvore, na violência do furacão"
Perante a intempérie rumam a Cantão onde fazem uma aterragem forçada junto à linha férrea (que ligava a hong Kong). Avistam um pequeno campo perto de um cemitério na aldeia Sham Chun (o rio com o mesmo nome faz a fronteira em Hong Kong e a China). Na aterragem batem numa sebe e partem a hélice e o trem de aterragem. Era o fim da viagem.

O "Pátria II" na aldeia chinesa de Sham Chum (entre Cantão e Hong Kong): Junho 1924
Debaixo de chuva, Sarmento de Beires e Brito Pais procuram ajuda. Sem ninguém que os compreenda caminham até Hong Kong onde foram recebidos pela colónia portuguesa e pelo cônsul. Por esta altura a notícia do feito alcançado já se espalhara por todo o mundo. Os jornais do dia 21 de Junho de 1924 não falam de outra coisa.
"Victoria! Brito Paes e Sarmento Beires chegaram a Macau": título da primeira página totalmente dedicada ao raide da edição de 21 de Junho de 1924 do jornal brasileiro "A Noite".
Nesse dia a canhoneira “Macau” que partira do território chega a Hong-Kong. O navio tinha andado o dia anterior em buscas para encontrar o “Pátria II” que se admitia poder ter-se despenhado no mar devido ao mau tempo. No dia 23, um grupo de mecânicos desmontou o “Pátria II” e no dia 25, Sarmento de Beires e Brito Pais, chegaram a Macau a bordo da Canhoneira. No território Sarmento de Beires, Brito Pais e Manuel Gouveia foram recebidos entusiasticamente e como heróis de uma façanha nunca antes alcançada: 16.380 Km percorridos em 115 horas e 45 minutos.
Na sessão de 23 de Junho no parlamento português o feito também não passou despercebido. Na sua intervenção Jaime de Sousa diz: "Sr. Presidente: é do conhecimento de V. Exa. e da Câmara, e conhece o país inteiro, o facto extraordinário da chegada a Macau dos ilustres aviadores Brito Pais e Sarmento de Beires, que em condições tam difíceis, sob o ponto de vista material, chegaram a terras nossas no Oriente, demonstrando a sua audácia e habilidade. Há quarenta e oito horas que Portugal inteiro vibra de entusiasmo por êsse rasgo de audácia. O nosso coração de portugueses regista mais uma vez as energias duma raça."
Por via do que fora alcançado nesta sessão parlamentar acaba por ser  concedida uma amnistia aos aviadores que estavam presos em S. Julião da Barra.

Na edição de 10 de Julho de 1924 da Gazeta das Colónias escreve-se:
"Terminada a viagem dos heroicos aviadores Brito Pais e Sarmento de Beires , mal apagadas ainda as ultimas manifestações do entusiasmo, em que o País inteiro vibrou, procurámos colher sobre o valôr do brilhante raid as impressões de alguem que pudesse dar-nos uma opinião segura , imparcialmente formada nos moldes da técnica, liberta de quaisquer tendencias que pudessem desvirtua-la" (...) “A Gazeta das Colonias presta hoje as suas sinceras homenagens aos intrepidos aviadores, majores Brito Pais e Sarmento de Beires e ao seu habil e dedicado mecânico, alferes Manuel Gouveia os quais pelo brilho e pela bravura com que empreenderam e rialisaram a travessia Lisboa-Macau foram lá longe, no Extremo Oriente, aviventar o prestigio do nome de Portugal e mostrar ao mundo que na velha Raça Portuguesa ainda perduram as virtudes que a tornaram grande".

sábado, 13 de abril de 2019

“Imagens de Macau - A Visão Pessoal de 0.38”


Até 18 de Abril está patente na Galeria do edifício Paços do concelho, da Câmara Municipal do Porto, a exposição “Imagens de Macau - A Visão Pessoal de 0.38”. A mostra apresenta um conjunto de 40 desenhos do jovem autista de Macau, Leong Ieng Wai, cujas obras espelham a visão muito pessoal do artista, que retrata, com o seu traço exímio, espaços emblemáticos de Macau, desde monumentos e praças do Centro Histórico - Património Mundial da UNESCO, como as Ruínas de S. Paulo, o Templo de A-Má ou a Fortaleza da Guia, passando pelo registo da azáfama das artérias da cidade.

Os monumentos e os bairros antigos são alguns dos motivos retratados por Leong Leng Wai nos seus desenhos. No meio artístico é conhecido por 0.38, pois é essa a espessura da caneta que gosta de utilizar.
Nas imagens a fachada da igreja Mater Dei do antigo colégio de S. Paulo (vulgo Ruínas de S. Paulo) e a Ermida, Farol e Fortaleza da Guia.

sexta-feira, 12 de abril de 2019

Explosão da Fragata D. Maria II na Revista Universal Lisbonense

Com o título "Desastre em Macau" a Revista Universal Lisbonense de 2 de Janeiro de 1851 dá conta da explosão da fragata D. Maria II em Macau (em 1850), mas de um modo curioso. Tem por base uma carta de um leitor que visava esclarecer os rumores que então circulavam sobre o acontecimento e que não correspondiam à verdade.
Gravura da época reproduzida em vários jornais
A fragata D. Maria II era uma navio mercante de nome "Ásia", comprado em Inglaterra em 1831. Foi enviada para Macau na sequência do assassinato do governador comandante Ferreira do Amaral em Agosto de 1849. No dia 29 de Outubro de 1850, quando se preparava para regressar a Goa, uma violenta explosão a bordo destruiu o navio que tinha a bordo mais de 300 barris de pólvora. Da guarnição de 224 homens faleceram 188, todos os que estavam a bordo, para além de 3 marinheiros franceses presos a bordo e 40 chineses das embarcações que estavam atracadas ao navio. É considerado o maior desastre da história da Marinha portuguesa.
Publicamos com o maior sentimento a seguinte noticia que extraimos da parte official no Diário do Governo de 30 de Dezembro ultimo. A correspondência official do Governo de Macáo recebida neste Ministério pelo paquete do sul chegado ante hontem á tarde não alcança além do dia 26 de Outubro. Ha porém recebida na Secretaria do mesmo Ministério uma carta particular escripta de Alexandria por um distincto Diplomático estrangeiro ultimamente sahido de Macáo a qual reduzindo á sua primitiva cruel simplcidade a única noticia que existe da explosão da fragata D. Maria 2 deslroe ao mesmo tempo alguns falsos boatos com que se tem aggravado os já tão deploráveis resultados daquella catástrofe. Esta carta é littcralmentc como segue:
Meus caros amigos Escrevo vos á pressa estas poucas linhas de Alexandria aonde acabo de chegar para vos premunir contra os boatos que correm a respeito da terrível catástrofe do dia 29 de Outubro os quaes poderiam talvez chegar ahi augmentando a consternação publica que esta desgraça já em si tão grande ha de necessariamente causar em Lisboa. A noticia chegou a Hong Kong no dia 30 alguns momentos antes da partida do vapor inglez e eu não sei se o conselho do governo de Macáo teria tempo de vos escrever. A carta do Sr JV Jorge que é a unica que foi recebida em Hong Kong dizia: Hontem ás duas horas e meia a fragata D Maria II que ao meio dia tinha salvado o aniversário de El Rei D Fernando voou pelos ares. De toda a tripulação tres homens somente se salvaram. Alguns officiaes americanos se achavam a bordo no momento do desastre e pereceram. Como acontece sempre em occasiões dc calamidades publicas as imaginações se exercitaram sobre a extensão deste infortúnio e procuraram aggravar lhe as circumstancias já tão tristes. Alguém dizia se tinha recebido uma carta do Sr Tavares annunciando que os commandantes das outras embarcações e empregados civis se achavam a bordo da D Maria II. Eu procurei vèr estas cartas e nada se me pode mostrar. Foi pura invenção. Infelizmente os boatos espalhados entre os passageiros tomaram corpo e na minha chegada a Singapura tive o pesar de ler em um jornal inglez um artigo em que lodos aquelles boatos eram apresentados como factos certos e é receando que este jornal possa chegar a Lisboa que eu vos escrevo estas poucas linhas ainda commovido com a nova calamidade que cahindo sobre a pobre colónia de Macao privou Sua Magestade de bons e fieis servidores. Não acrediteis pois em nada e desmenti tudo o que possa ser espalhado por viajantes ou de qualquer modo em ampliação da carta de Jorge. Adeus, meus caros amigos.

quinta-feira, 11 de abril de 2019

The Edinburgh Gazetteer Or Geographical Dictionary, Vol. 4 , Londres, 1822

Para este post escolhi um texto sobre Macau incluído no volume 4 (de um total de 6) da Edinburgh Gazetteer, uma publicação escocesa criada por volta de 1790. A edição foi feita em jeito de enciclopédia (informação geográfica, estatística, comércio, etc) e, neste caso, publicada no primeiro quartel do século 19.
Sobre Macau aborda-se de forma resumida os primórdios da chegada dos portugueses no início do século 16, a luta contra os piratas que existiam na região e que por via disso levaram à obtenção de autorização do imperador chinês para ali se instalarem a fazer comércio. Fazem-se ainda referências geográficas (nota-se algum confusão chamado a Macau ora ilha ora península), à primeira Porta do Cerco (e não a de 1870 que ainda hoje existe), a um ou outro aspecto arquitectónico bem como ao estado do território nos primeiros anos do século 19, muito marcado pelo declínio do comércio, fruto do fim do monopólio nas trocas comerciais na região e sobretudo com a China. A colecção publicada em Edimburgo inclui ainda um Atlas (mapa). Segue-se o texto original e uma tradução feita por mim do mesmo.


Macao an island and town of China situated in the bay of Canton and separated from the continent only by a narrow channel. This island is only remarkable for the town which the Portuguese have been allowed to build upon it, and which forms the only European settlement within limits of the Chinese empire. This favour they obtained in consequence of protection afforded to the empire, from a band of pirates, who not only committed great ravages on the coast, but made themselfes masters of the port of Macao, blocked up that of Canton, and even laid siege to city.
In this extremity the Mandarin applied to the Portuguese, who had vessels the neighbouring island of Sanciam. That nation readily gave their assistance, soon defeated the pirates, and made masters of the port of Macao. The emperro, upon the report of the viceroy, shewed his gratitude by allowing them to form a settlement there for the purposes of trade. They made choice of a peninsula connected with the rest by a neck land not more than 100 yards in breadth, where they built and fortified a town. The territory attached to it is about three miles in length and half a mile in breadth. The isthmus connecting it with the rest of the Island, is crossed by a Wall, projecting on both sides into the sea, and where the Chinese keep a gate and guard-house. Beyong this wall the Portuguese are seldom permitted to pass, and as the Chinese has also the power of withholding provisions, they keep the town in a state of complete dependence.
Macao is a place of some extent; the streets are narrow and irregular; the houses are built of stone, on the European plan but not elegantly. With the exception of churches and convents, the only building of consequence is the senate-house, which forms a termination to the only spacious and elegant street in the town. The governor's house, built near the landing place, has nothing remarkable in its structure or appearance though it  commands a beautiful prospect.
The English factory, a plain commodious building, is contiguous to it, and other nations have  factories built in the same style. Vessels of burden cannot enter the harbour but must anchor six or seven miles to the east. The place is defended by several strong forts mounted with heavy cannon; but the Portuguese garrison seldom exceeds 250. Vessels destined for Canton are commonly detained about twenty four hours in Macao roads till the Chinese government send out a pilot and permission to enter the Tigris.
Macao was at one time a place of greatest importance to the Portuguese, being the centre of their trade, not only with China but with Japan, Siam, Cochin-China and all the countries in this part of Asia. Since the general decline of their indian trade, which has been prosecuted by other nations, with such superior success and activity, Macao has sunk into a place of comparatively little importance. Long 113.32 E. Lat. 22. 10. N.

in The Edinburgh Gazetteer Or Geographical Dictionary, Vol. 4 , Londres, 1822
Pintura da autoria de John Webber (1751-1793)  - não incluída no livro referido.
Macau é uma ilha e cidade da China situada na baía de Cantão e separada do continente apenas por um canal estreito. Esta ilha só é notável pela cidade que os portugueses foram autorizados a construir e que constitui o único assentamento europeu dentro dos limites do império chinês. Este favor que obtiveram em consequência da protecção conferida ao império, de um bando de piratas, que não só cometeu grandes devastações no litoral, como também se tornaram senhores do porto de Macau, bloqueando e sitiando Cantão.
Nesta extremidade o mandarim pediu ajuda aos portugueses, que tinham embarcações na ilha vizinha de Sanciam. Eles prontamente deram assistência e acabaram por derrotar os piratas passando a dominar o porto de Macau. O imperador, após o relatório do vice-rei, mostrou sua gratidão ao permitir que eles se instalassem na região para fins comerciais. O espaço é uma península ligado ao continente por uma nesga de terra com não mais de 100 jardas de largura, e foi ali que construíram e fortificaram uma cidade. O território tem cerca de três quilômetros de comprimento e meia milha de largura. O istmo que o liga com o resto da ilha é atravessado por uma muralha, projetando-se de ambos os lados para o mar, e onde os chineses mantêm um portão e uma guarita. Para lá dessa muralha, os portugueses raramente são autorizados a passar, e como os chineses também têm o poder de reter provisões, os portugueses vivem de certa forma dependentes. 
Em Macau as ruas são estreitas e irregulares; as casas são construídas de pedra, ao jeito europeu, mas não tão elegantes. Com exceção de igrejas e conventos, o único edifício de registo é a casa do Senado, que fica na única rua espaçosa e elegante da cidade. A casa do governador, construída perto do local de desembarque, não tem nada de extraordinário na sua estrutura ou aparência, embora proporcione uma bela vista.
A fábrica inglesa, um prédio simples, é contíguo à casa do governador, e outras nações têm fábricas construídas no mesmo estilo. Navios de carga não podem entrar no porto, sendo obrigados a ancorar seis ou sete milhas a leste. O lugar é defendido por vários fortes onde existem canhões de peso; mas a guarnição portuguesa raramente excede os 250 homens. As embarcações que pretendem seguir para Cantão, normalmente ficam retidas cerca de vinte e quatro horas nas imediações de Macau até o governo chinês enviar um piloto e a respectiva permissão para subir pelo delta do rio na zona que chamam de Boca de Tigre.
Macau foi outrora um local da maior importância para os portugueses, sendo o centro do seu comércio, não só com a China, mas também com o Japão, o Sião, Cochin e todos os países desta parte da Ásia. Desde o declínio geral de seu comércio na Índia, que passou a ser feito por outros países, com mais sucesso e de forma mais intensa, Macau afundou-se e ocupa agora um lugar de relativa pouca importância.
Localização: Long. 113,32 E. Lat. 22. 10. N.

quarta-feira, 10 de abril de 2019

A-Ma: um templo... muitas crenças


O Templo de A-Ma (ou Mazu) remonta a 1488 (Dinastia Ming) sendo anterior ao estabelecimento da cidade de Macau (1557) pelos portugueses. É composto pelo Pavilhão do Pórtico, Arco Memorial, Pavilhão de Orações, Pavilhão da Benevolência, Pavilhão de Guanyin e Pavilhão Budista Zengjiao Chanlin... dedicados à veneração de diferentes divindades do Confucionismo, Tauismo, Budismo e por múltiplas crenças populares.
Desde 2005 está classificado como Património Mundial da Humanidade pela UNESCO.

Templo de A-Ma. Pintura de Auguste Borget ca. 1840

The Maa Gok Miu (媽閣廟 Māgé Miào), better known as the A-Ma Temple (or Mazu), was built in 1488 (Ming Dinasty), before the city of Macao came into being by the Portuguese (1557). It consists of the Gate Pavilion, the Memorial Arch, the Prayer Hall, the Hall of Benevolence, the Hall of Guanyin, and Zhengjiao Chanlin (a Buddhist pavilion). The variety of pavilions dedicated to the worship of different deities in a single complex make A-Ma Temple an exemplary representation of Chinese culture inspired by Confucianism, Taoism, Buddhism and multiple folk beliefs. 
In 2005, the temple became one of the designated sites of the Historic Centre of Macau, a UNESCO World Heritage Site.
Na obra Ou-Mun Kei Leok (Monografia de Macau), da autoria de Tcheong-U-Lâm e Ian-Kuong-Iâm e traduzida do chinês por Luís Gonzaga Gomes retirei um excerto que explica uma das muitas particularidades existentes no templo, uma rocha que tem gravado um desenho de uma embarcação que nem é típica dos mares do sul da china, onde fica Macau, mas do Norte, onde fica Fukien, de onde era oriunda a deusa.
"(...) Existem, em Macau, três estranhos blocos de pedra. Um deles chama-se lèong-Sun-Sèak (Rocha de Barco Oceânico). Conta a tradição que, durante o reinado de Mán-Lêk (1573-1620), um grande barco de comércio de Fôk-Kin foi assaltado por um temporal que o pôs em grande perigo. Subitamente viu-se uma santa, de pé, na vertente duma colina. O barco estabilizou-se. Erigiram, então, um templo consagrado a T’in-Fei (Concubina Celestial), e deram a este sítio o nome de Nèong-Má-Kók (Ponta de Nèong-Má).
Nèong-Má é o nome por que, em Fôk-Kin, é designada a concubina Celestial. Sobre a superfície da rocha que se encontra em frente do templo gravaram o desenho de um barco e os quatro caracteres lei-sip tâi-tch’um (atravessou com felicidade o grande mar) para tornar conhecido o extraordinário poder desta santa."
No livro Toponímia de Macau (Volume I) o padre Manuel Teixeira escreve que "a festa de Amá, deusa de Fukien, protectora dos navegantes celebrava-se em Macau no primeiro dia da lua de Março; em Fukien era honrada no dia 23 da 3ª lua."

Década 1940/50

Curiosidade: existem cerca de 1500 templos dedicados à deusa Mazu em 26 países; o de Macau é considerado um dos mais importantes.

terça-feira, 9 de abril de 2019

Carta Registada "Raid Aéreo Madrid-Manila": 1926

Na sequência do Raid Aéreo Madrid – Manila, efectuado pelos pilotos espanhóis Gallarza e Loriga em aviões biplanos Breguet em 1926, 59 cartas foram transportadas a bordo das aeronaves. 
Nas imagens está uma dessas cartas (frente  e verso) registada em Macau a 11 de Maio de 1926: selos de 31 avos tipo D. Carlos I Mouchon e com a sobrecarga ‘República’. 
O raid aéreo teve início em Madrid a 5 de Abril de 1926 e fez escala em vários locais. Chegou a Macau - a penúltima etapa da viagem - a 1 de Maio desse ano. Na aterragem bateu em algumas árvores e foi sujeito a reparações. Chegou a Manila a 13 de Maio de 1926. Ao todo foram percorridos 17 mil quilómetros em 18 etapas. Dos três aviões que iniciaram a viagem apenas um chegou às Filipinas. Era mais um feito da aviação em que Macau inscrevia o nome...

segunda-feira, 8 de abril de 2019

Regras dos Correios em 1869... há 150 anos

Fechar-se-ha neste correio para conveniência do publico uma mala para Hongkong todas as noites ás 7 horas para ser remettida pelo vapor da carreira de Macau a Hongkong que costuma partir desta cidade todas as manhãs ás 8 horas excepto no domingo. As cartas para Hongkong que o correio receber nos sabbados se vierem marcadas no sobrescripto urgente serão remettidas por fatião que partir naquella tarde alias serão ellas enviadas a Hongkong pelo vapor da segunda feira No dia da chegada da mala d Europa fechar se ha a mala para Hongkong ás 8 horas da noite O abaixo assignado faz também saber ao publico que no caso de chegar a este correio pela alta noite uma mala extraordinária serão destribuidas as cartas na manhã seguinte tão de pressa que as cartas estiverem promptas para serem entregues aos seus destinatários.
Por este é também o publico informado que as cartas e jornaes que tiverem de passar por este correio para serem remettidos a Hongkong estarão sujeitos não só aos portes marcados nas tabelas do correio de Hongkong mas também a um porte local. Por cada carta de meia onça se deverá pagar o porte local de 8 avos, por carta de uma onça se deverá pagar 16 avos; excedendo-se o peso dessas seja de qualquer fracção, será a carta considerada como de 2 onças e se se exceder o pezo de 2 onças se contarão 3 onças e assim por diante.
Para os jornaes o porte local é 2 avos de pataca por cada um. Quanto ás cartas que vierem de Hongkong para serem entregues em Macau estarão sujeitos só ao pagamento do porte local se estiver já pago o porte do correio de Hongkong mas se o não estiver os destinatários das cartas terão de pagar alem do porte local o porte do correio de Hongkong.
Quanto aos jornaes que teem de ser destribuidos aqui, serão isentos do porte local, e só se deverá pagar aqui o porte do correio de Hongkong no caso de não estar ainda pago.
Publicar-se-ha no Boletim do Governo uma lista das cartas existentes no correio que forem dirigidas ás pessoas cuja morada não for conhecida.
R. de Sousa, Administrador interino Correio Marítimo.
Macau 31 de julho de 1869
Aviso publicado na "Parte Não Oficial" do Boletim da Província de Macau e Timor de 2 de Agosto de 1869.
Na imagem duas marcas postais (carimbos) do Correio Marítimo de Macau da primeira metade do século 19
O de baixo é um carimbo oval (feito de marfim), de duplo círculo, aposto como carimbo de entrega, ou seja, como prova da chegada a Macau da carta.
Segue-se um texto dos CTT de Macau sobre os primeiros anos de actividade no território:
A Rainha D. Maria I de Portugal de Portugal, por Alvará de 20 de janeiro de 1798, criou os “Correios Marítimos entre o Reino e as suas parcelas ultramarinas”, por daí “resultar grande benefício às Praças de Comércio
Presume-se que em 1800 já funcionasse o “Correio Marítimo” de Macau, pois o mesmo havia sido criado para a Índia nesse ano e é sabida a estreita ligação, existente à altura, entre os dois Territórios. Corrobora esta presunção um aviso da Administração do “Correio Marítimo” da Corte, datado de 27 de Dezembro de 1800, que o navio Constança sairia para Macau em 4 de Janeiro de 1801.
Em 1869, Ricardo de Sousa foi nomeado Administrador do “Correio Marítimo” instalando-se os serviços no rés-do-chão da sua própria residência, situada no vértice do Ângulo formado pela Rua do Campo e Rua de Santa Clara.
O “Correio Marítimo de Macau, resumia-se, porém, a uma quase sucursal do de Hong Kong, “seguindo as suas instruções e usando os seus selos”.
Como o “Correio Marítimo não satisfizesse as necessidades de comunicação do Território, procedeu-se à sua reestruturação, de acordo com as normas da União Postal Universal saída da Conferência de Berna de 1874, da qual Portugal foi membro fundador. Assim, O Governador Tomás de Sousa Rosa, por Portaria de 1 de Março de 1884, criou a Repartição do Correio, sendo seu 1.º Director Ricardo de Sousa.

domingo, 7 de abril de 2019

Mosteiro da Ilha Verde / 青洲修道院



Em 1828 a Ilha Verde foi comprada pelo colégio de s. José por 2 mil patacas. O anúncio acima foi publicado no Boletim Oficial no final do século 19.
Num Portaria de 1842, a monarquia louva o trabalho dos padres na ilha e concede que ali sejam gastos parte dos "600 taeis" pagos anualmente para conservação da igreja e colégio de S. José pelo "Cofre de Macao".
Sendo presente a Sua Magestade a Rainha que o Reverendo Superior e mais Padres do Collegio de S José da Cidade do Santo Nome de Deos de Macáo adquiriram por compra a ilha Verde adjacente á mesma Cidade e que nella têm feito consideraveis melhoramentos tanto em beneficiar o terreno como na edificação de casa capella e muro que a cérca e defende dos estragos que sem elle lhe causaria o mar manda a mesma Augusta Senhora pela Secretaria d Estado dos Negocios da Marinha e Ultramar louvar o dito Reverendo Superior o Padre Joaquim José Leite e mais Padres do mencionado Collegio por haverem agricultado e tornado util um terreno que dantes estava em desprezo e recommendar lhes que continuem a conserva lo e melhora lo podendo applicar para isso algum residuo que lhes fique dos seiscentos taeis que pelo Cofre de Macáo annualmente se pagam para conservação e reparo da Igreja e casa collegial de S José e esta Portaria se registará nos livros do registo do Leal Senado da dita Cidade e o original se conservará no archivo do sobredito Collegio de S José.
Paço das Necessidades em 23 de Novembro de 1842 Joaquim José Falcão

Em 1886, parte da ilha foi alugada a um comerciante chinês, que ali estabeleceu uma fábrica de cimentos. Foi a primeira da China e anos mais tarde foi vendida a um comerciante inglês. A fábrica manteve-se em laboração até 1925.
Postal ilustrado ca. 1905: à esquerda a fábrica de cimento e à direita o convento
Vista sobre a Ilha Verde cuja colina se eleva a 57 metros: década de 1960
Em chinês a zona é conhecida por: Qing Zhou (Oásis Verde) ou Lok Dao (Ilha Verde).
Convento da Ilha Verde, também conhecido como Mosteiro da Ilha Verde (青洲修道院) e Casa de Retiros da Ilha Verde (青洲避靜院), é um edifício religioso de estilo arquitetónico colonial português datado do início do século 19.
Postal ca. 1900/10: istmo que liga a península de Macau à ilha Verde já concluído, em comparação com a fotografia do final do século 19, ainda sem istmo.
Mais sobre a história da Ilha Verde aqui e aqui.

sábado, 6 de abril de 2019

A paisagem como 'protagonista' nas obras de Henrique de Senna Fernandes: 2ª parte


“Gostava do rio e do mar, do cheiro a maresia, dos acenos dos Pescadores dos juncos, da nostalgia dos longos e rubros crepúsculos que cobriam os cimos da Lapa e doutras ilhas circundantes duma auréola cegante e doirada. (...)
As raparigas do atelier aproveitavam para passeios à Montanha Russa, ao pinheiral da Guia, à aprazível estância da Flora de vivendas elegantes e fora de portas, espreitando o conjunto harmonioso do Palacete de Verão do Governador e o seu pejado de canteiros e de chafarizes. Ou então iam aos miradouros da Estrada de S. Francisco e da Estrada de Cacilhas, de calma idílica, contemplando os longes do mar mosqueado de juncos e ouvindo em baixo os murmúrios ou os regougos do mar, ao encontro de rochas escavaladas. (...)
Era na contemplação da paisagem, sob a umbela das árvores de pagode e o cheiro da resina dos pinheiros, embalada pelo chilrear da passarada irrequieta que vinha à tona a dor pungente dos arcanos do coração. (...)
Não se saciava da contemplação do mar pontilhado de revérberos do sol, dos juncos que singravam ao largo, rasgando sulcos broncos na massa líquida e movediça. As ilhas distantes azulavam a linha do horizonte. Por trás, algures, estava Hong Kong. (…)
O campo de ténis, não muito distante, ocultava-se por detrás da Cortina dos bambuais. Outro caminho dirigia-se para a zona militar interdita da Fortaleza de D. Maria II. Mais além estendia-se o morro pedregoso da resting de Macau-Seak, guardando os marulhos do mar das Nove Ilhas.” 
in "Os Dores"
"Estava um belo dia de outono para a pesca, o céu límpido, a paisagem toda alumiada de tons metálicos, como só acontece nos meses de Outubro e Novembro. O Belo Adozindo escapulira de casa cedo, evitando encontrar-se com o pai. Eram sete e meia e encaminhava-se para a Praia Grande, onde embarcaria num barco à vela com amigos, para umas horas ao largo de Macau. Ia apetrechado para a pesca, o caniço e as linhas novas, os anzóis vindos de Hong Kong, duma casa da especialidade, o cesto contendo a isca. Vestia-se todo aperaltado e nada conforme como à vontade que tais excursões exigiam. Seria ridículo se não procedesse com naturalidade e espontaneidade, porque era incapaz de se apresentar doutra forma. O grande conquistador da praça tinha responsabilidades quanto a manter a sua fama. Nunca se sabia quem ia encontrar, embora ainda fosse cedo.
Respirou fundo a brisa matinal, a Estrada da Victória era uma recta dourada e não viu nenhum riquechó. Não se sentiu contrariado, cortou o Jardim de Vasco da Gama, ladeando os chafarizes, onde os fios de água prateada saltitavam, como garotos irrequietos. Para encurtar caminho, dobrou a primeira esquina, intemando-se na área do Cheok Chai Un.
Até então, esquivara-se do bairro de má fama, mas não acreditou que alguém fizesse mal, em pleno dia, a um homem pacífico que ia inocentemente à pesca, com o único peso na consciência de faltar ao trabalho. Mas os berros do pai podiam com facilidade serem amansados."

sexta-feira, 5 de abril de 2019

A paisagem como 'protagonista' nas obras de Henrique de Senna Fernandes: 1ª parte

Exímio contador de histórias e criador de personagens-tipo da sociedade macaense, Henrique de Senna Fernandes (1923-2010) reproduz de forma fiel nas suas obras a paisagem de Macau desde o final do século 19 até ao século 20. As descrições são de tal forma minuciosas que é como que elas próprias se tornassem protagonistas dos contos ou romances.
São muitos os exemplos. Neste post fico-me pelo romance "Os Dores", publicado postumamente em 2012, e pela antiga Baía da Praia Grande. A história do romance passa-se nos primeiros anos de 1900.
Macao bay (Praia Grande) por George Chinnery
“A Baía da Praia Grande recobriase de oiro e sol que declinava atrás da Ilha da Lapa. A água da enchente reverbava em cintilações resplandecentes, murmurava em soliloquies junto da muralha de granito, mas ao longe batia forte nas pedras extremas do fortim 1 de Dezembro. Juncos preguiçosos nos ancoradouros recolhiam as velas. Lorchas e sampanas balanceavam ao sabor da maré. Tancares diminutos, em labor incessante de vaivém, riscavam em tiras de espuma o manto esverdeado da água dos princípios de Setembro. Nos cais de pedra, em plano inclinado, desembarcava-se o pescado do dia, em cestas de vime. (...) 

A orla do casario da Praia Grande, em curva graciosa, duma ponta à outra, desde o Grémio Militar à arruinada Fortaleza do Bom Parto resplandecia, ornada de árvores frondosas (…) Identificou alguns edifícios, a ermida da Penha, o Hotel Bela Vista, o Palacete de Santa Sancha, o Palácio do Governo, o Tribunal, os contornos superiores da Igreja de S. Lourenço, do Seminário de S. José e da Sé Catedral.”

quinta-feira, 4 de abril de 2019

Cheng Ming / Dia de Finados / 清明節

Na cultura chinesa são várias as datas dedicadas aos antepassados, sendo o Cheng Ming, o Dia de Finados (清明節) a mais importante.
Nesta data é prática habitual as pessoas deslocarem-se aos cemitérios com oferendas e flores; do ritual faz ainda parte o bater de cabeça, a limpeza das campas, ofertas de comida com leitão assado, bocados de cha shiu, galinha a vapor, ovos cozidos, pratos com frutas e outros acepipes, a que se juntam três taças de vinho e três conjuntos de fai tchis, que são colocados sobre a laje da campa, e a queima de pivetes de incenso.
Cemitério da Taipa: um dos maiores cemitérios chineses de Macau
Conhecido por Ching Ming (ou Cheng Ming, Cheng Meng ou Qingmin) o 5.º dos 24 termos do Calendário Solar Chinês é a data mais importante do calendário ritual, em que as famílias celebram o culto dos antepassados. O Festival tem lugar no 106.º dia depois do Solstício de Inverno, ou seja, no 15.º dia depois do equinócio vernal da Primavera (Chunfen)... E que este ano calha a 5 de Abril.
Assim, se explica que a expressão traduzida à letra, significa “claro e brilhante”, numa alusão aos dias de sol primaveris e à expressão "festival da pura claridade", também usada para designar este dia.
Wenceslau de Morais deixou para memória futura o testemunho desta celebração em Macau no final do século 19.



quarta-feira, 3 de abril de 2019

Folheto turístico "Canton and China's Southland"

Folheto "Canton and China's Southland birthplace of the Chinese Revolution", da empresa/agência de viagens, China Travel Service, datado da década de 1920.
Cantão e outras cidades do Sul da China são o enfoque desta brochura onde Macau - "a 40 milhas de distância de Hong Kong" - também surge. O texto é em inglês e inclui uma imagem da península de Macau, "the oldest european settlement in China"
"40 miles by steamer from Hong Kong and 88 miles from Canton, is Macao, Portuguese colony, oldest European settlement in China and today somnolent as a trading center, but notorious as a gambling resort. (...) Probably, no city in the Orient is more historically interesting, from the standpoint of early Sino-European commercial intercourse, than is Macao. (...) The city is beautifully situated on the side of a hill, with rich farmlands rolling behing it, and splendid seas on three sides."

terça-feira, 2 de abril de 2019

Beacon of the East (Macao): documentário 1948

 
"Beacon of the East (Macao)" (Farol do Oriente) é o título de um documentário - a preto e branco e com som - com a duração de 9 minutos feito em 1948 no rescaldo da segunda guerra mundial pela  Periscope Film LLC archive e distribuído pela Library Films.
No registo da cidade no final da década de 1940 destaque para a paisagem e modos de vida locais, como o comércio de rua e o fabrico de panchões, uma das mais importantes actividades comerciais da época no território.
"Since Macao is Portuguese territory it suffered none of the ravages of World War II. Although it's neutrality was violated when the Japs made their only air raid on it, little or no damage was done". (...) É assim que começa este documentário narrado em inglês.
"Macao remains truly an Oriental City. It is the home of the firecracker and the first lighthouse on the China Coast."

Ruínas de S. Paulo e ao fundo o templo Na Tcha por ocasião de uma festividade chinesa.
 
As cenas de rua testemunham o dia-a-dia no território.
 
Os costumes chineses também são abordados no registo.
 
Zona do Bazar
 
Para além das imagens das Ruínas de S. Paulo, Templo da Barra, Largo do Senado e Jardim Lou Lim Ioc, o documentário destaca a pesca e a indústria dos panchões como importantes actividades na economia local.
 
Sugestão de Leitura: "Macau 1937-1945: os anos da guerra", de João Botas, IIM, 2012
 

segunda-feira, 1 de abril de 2019

Portuguese Government in Macao: 1845

Portuguese Government in MacaoH. E. Jozé Gregorio Pegado, Governor
Joaquim A de Moraes Carneiro, Judge
D. Niculau RP Borjas, Bishop
Francisco de Assis Fernandes, Substitute to the Judge
D. Geronimo Pereira de Matta, Coadjuctor Bishop
Members of the Senate: Felippe Jozé de Freitas (judge)
Felippe Vieira (judge)
Jozé Francisco de Oliveira (vereador)
Francisco Joan Marquis (vereador)
 Manoel Duarte Bernardino (vereador)
 Jozé Vicente George, Procurador
 Jozé Simao dos Remedios, Treasurer
 Miguel Pereira Simoens, Clerk to Senate
 Demetrio d Araujo Silva, Collector of Customs
 Justices of the Peace:   Cepriano António Pacheco (Sé and St.Antonio parish)
 Vicente Vieira Ribeiro (St Lourenço parish)
 Commandants of the Forts:   Lt col Joaquim V. Sanches, Barra Fort
 Major Ludgero .J de Faria Neves, Monte Fort
 Major António Pereira, Franciscan Fort
 Major João Valentim Chumal, Guia Fort
 Major Caetano A Lemos, Bom Parto Fort

A informação acima é retirada da publicação "The Chinese Repository" de Janeiro de 1845. Dá conta das principais figuras do governo de Macau, incluindo membros do Senado, comandantes das fortalezas Bispo e juízes de paz, onde o cargo mais importante é o de governador.
José Gregório Pegado, chefe de divisão da Armada, foi governador de 3 de Outubro de 1843 e 13 de Fevereiro de 1846, data do embarque para Macau do Conselheiro e Capitão de Mar e Guerra, João Maria Ferreira do Amaral que viria a tomar posse como governador a 21 de Abril de 1846, ano em que 
Pegado viria a morrer na viagem de regresso a Portugal, em Adem. O seu mandato fica marcado pelo início da ocupação da ilha da Taipa e também pelo prelúdio do que viria a ser o governo de Ferreira do Amaral.
Em Novembro de 1843 o Governo de Macau enviou uma missão a Cantão - liderada pelo conselheiro Adrião da Silveira Pinto (que fora Governador de Macau de 1837 a 1843) para negociar com o Vice-Rei a autorização para a colónia deixar de pagar foro e estender a demarcação do limite da cidade para fora dos muros do Campo de Santo António. A missão acabou por fracassar neste aspecto. As autoridades chinesas aceitaram no entanto a igualdade de tratamento na correspondência oficial entre as autoridades portuguesas de Macau e as chinesas do distrito e à permissão para os navios portugueses poderem também comerciar nos portos de Cantão (Guangzhou), Amói (Xiamen), Fôk-Tchâu (Fuzhou), Neng-Pó (Ningbo) e Xangai (Shanghai).
Reza a história que José Gregório Pegado, pela sua distinção e mestria no manejo dos fai-chis (pauzinhos chineses), durante um jantar que lhe ofereceu, em Cantão, o delegado e alto-comissário imperial, Ki-Ying, ouviu deste os seguintes elogio e garantia: - "V. Exa é um homem tão polido nas maneiras e simpatizo tanto consigo, que nada lhe posso recusar. Recomendarei confidencialmente ao vice-rei dos dois Kuóns que feche os olhos ao estabelecimento dos portugueses na (ilha da) Taipa".
Seria Ferreira do Amaral a 'aproveitar' essa promessa verbal incumbindo o capitão do porto, Pedro José da Silva Loureiro, em Abril de 1847, de construir a
Casa Forte da Taipa. A bandeira portuguesa seria ali içada a 9 de Setembro de 1847.