sexta-feira, 12 de abril de 2019

Explosão da Fragata D. Maria II na Revista Universal Lisbonense

Com o título "Desastre em Macau" a Revista Universal Lisbonense de 2 de Janeiro de 1851 dá conta da explosão da fragata D. Maria II em Macau (em 1850), mas de um modo curioso. Tem por base uma carta de um leitor que visava esclarecer os rumores que então circulavam sobre o acontecimento e que não correspondiam à verdade.
Gravura da época reproduzida em vários jornais
A fragata D. Maria II era uma navio mercante de nome "Ásia", comprado em Inglaterra em 1831. Foi enviada para Macau na sequência do assassinato do governador comandante Ferreira do Amaral em Agosto de 1849. No dia 29 de Outubro de 1850, quando se preparava para regressar a Goa, uma violenta explosão a bordo destruiu o navio que tinha a bordo mais de 300 barris de pólvora. Da guarnição de 224 homens faleceram 188, todos os que estavam a bordo, para além de 3 marinheiros franceses presos a bordo e 40 chineses das embarcações que estavam atracadas ao navio. É considerado o maior desastre da história da Marinha portuguesa.
Publicamos com o maior sentimento a seguinte noticia que extraimos da parte official no Diário do Governo de 30 de Dezembro ultimo. A correspondência official do Governo de Macáo recebida neste Ministério pelo paquete do sul chegado ante hontem á tarde não alcança além do dia 26 de Outubro. Ha porém recebida na Secretaria do mesmo Ministério uma carta particular escripta de Alexandria por um distincto Diplomático estrangeiro ultimamente sahido de Macáo a qual reduzindo á sua primitiva cruel simplcidade a única noticia que existe da explosão da fragata D. Maria 2 deslroe ao mesmo tempo alguns falsos boatos com que se tem aggravado os já tão deploráveis resultados daquella catástrofe. Esta carta é littcralmentc como segue:
Meus caros amigos Escrevo vos á pressa estas poucas linhas de Alexandria aonde acabo de chegar para vos premunir contra os boatos que correm a respeito da terrível catástrofe do dia 29 de Outubro os quaes poderiam talvez chegar ahi augmentando a consternação publica que esta desgraça já em si tão grande ha de necessariamente causar em Lisboa. A noticia chegou a Hong Kong no dia 30 alguns momentos antes da partida do vapor inglez e eu não sei se o conselho do governo de Macáo teria tempo de vos escrever. A carta do Sr JV Jorge que é a unica que foi recebida em Hong Kong dizia: Hontem ás duas horas e meia a fragata D Maria II que ao meio dia tinha salvado o aniversário de El Rei D Fernando voou pelos ares. De toda a tripulação tres homens somente se salvaram. Alguns officiaes americanos se achavam a bordo no momento do desastre e pereceram. Como acontece sempre em occasiões dc calamidades publicas as imaginações se exercitaram sobre a extensão deste infortúnio e procuraram aggravar lhe as circumstancias já tão tristes. Alguém dizia se tinha recebido uma carta do Sr Tavares annunciando que os commandantes das outras embarcações e empregados civis se achavam a bordo da D Maria II. Eu procurei vèr estas cartas e nada se me pode mostrar. Foi pura invenção. Infelizmente os boatos espalhados entre os passageiros tomaram corpo e na minha chegada a Singapura tive o pesar de ler em um jornal inglez um artigo em que lodos aquelles boatos eram apresentados como factos certos e é receando que este jornal possa chegar a Lisboa que eu vos escrevo estas poucas linhas ainda commovido com a nova calamidade que cahindo sobre a pobre colónia de Macao privou Sua Magestade de bons e fieis servidores. Não acrediteis pois em nada e desmenti tudo o que possa ser espalhado por viajantes ou de qualquer modo em ampliação da carta de Jorge. Adeus, meus caros amigos.

quinta-feira, 11 de abril de 2019

The Edinburgh Gazetteer Or Geographical Dictionary, Vol. 4 , Londres, 1822

Para este post escolhi um texto sobre Macau incluído no volume 4 (de um total de 6) da Edinburgh Gazetteer, uma publicação escocesa criada por volta de 1790. A edição foi feita em jeito de enciclopédia (informação geográfica, estatística, comércio, etc) e, neste caso, publicada no primeiro quartel do século 19.
Sobre Macau aborda-se de forma resumida os primórdios da chegada dos portugueses no início do século 16, a luta contra os piratas que existiam na região e que por via disso levaram à obtenção de autorização do imperador chinês para ali se instalarem a fazer comércio. Fazem-se ainda referências geográficas (nota-se algum confusão chamado a Macau ora ilha ora península), à primeira Porta do Cerco (e não a de 1870 que ainda hoje existe), a um ou outro aspecto arquitectónico bem como ao estado do território nos primeiros anos do século 19, muito marcado pelo declínio do comércio, fruto do fim do monopólio nas trocas comerciais na região e sobretudo com a China. A colecção publicada em Edimburgo inclui ainda um Atlas (mapa). Segue-se o texto original e uma tradução feita por mim do mesmo.


Macao an island and town of China situated in the bay of Canton and separated from the continent only by a narrow channel. This island is only remarkable for the town which the Portuguese have been allowed to build upon it, and which forms the only European settlement within limits of the Chinese empire. This favour they obtained in consequence of protection afforded to the empire, from a band of pirates, who not only committed great ravages on the coast, but made themselfes masters of the port of Macao, blocked up that of Canton, and even laid siege to city.
In this extremity the Mandarin applied to the Portuguese, who had vessels the neighbouring island of Sanciam. That nation readily gave their assistance, soon defeated the pirates, and made masters of the port of Macao. The emperro, upon the report of the viceroy, shewed his gratitude by allowing them to form a settlement there for the purposes of trade. They made choice of a peninsula connected with the rest by a neck land not more than 100 yards in breadth, where they built and fortified a town. The territory attached to it is about three miles in length and half a mile in breadth. The isthmus connecting it with the rest of the Island, is crossed by a Wall, projecting on both sides into the sea, and where the Chinese keep a gate and guard-house. Beyong this wall the Portuguese are seldom permitted to pass, and as the Chinese has also the power of withholding provisions, they keep the town in a state of complete dependence.
Macao is a place of some extent; the streets are narrow and irregular; the houses are built of stone, on the European plan but not elegantly. With the exception of churches and convents, the only building of consequence is the senate-house, which forms a termination to the only spacious and elegant street in the town. The governor's house, built near the landing place, has nothing remarkable in its structure or appearance though it  commands a beautiful prospect.
The English factory, a plain commodious building, is contiguous to it, and other nations have  factories built in the same style. Vessels of burden cannot enter the harbour but must anchor six or seven miles to the east. The place is defended by several strong forts mounted with heavy cannon; but the Portuguese garrison seldom exceeds 250. Vessels destined for Canton are commonly detained about twenty four hours in Macao roads till the Chinese government send out a pilot and permission to enter the Tigris.
Macao was at one time a place of greatest importance to the Portuguese, being the centre of their trade, not only with China but with Japan, Siam, Cochin-China and all the countries in this part of Asia. Since the general decline of their indian trade, which has been prosecuted by other nations, with such superior success and activity, Macao has sunk into a place of comparatively little importance. Long 113.32 E. Lat. 22. 10. N.

in The Edinburgh Gazetteer Or Geographical Dictionary, Vol. 4 , Londres, 1822
Pintura da autoria de John Webber (1751-1793)  - não incluída no livro referido.
Macau é uma ilha e cidade da China situada na baía de Cantão e separada do continente apenas por um canal estreito. Esta ilha só é notável pela cidade que os portugueses foram autorizados a construir e que constitui o único assentamento europeu dentro dos limites do império chinês. Este favor que obtiveram em consequência da protecção conferida ao império, de um bando de piratas, que não só cometeu grandes devastações no litoral, como também se tornaram senhores do porto de Macau, bloqueando e sitiando Cantão.
Nesta extremidade o mandarim pediu ajuda aos portugueses, que tinham embarcações na ilha vizinha de Sanciam. Eles prontamente deram assistência e acabaram por derrotar os piratas passando a dominar o porto de Macau. O imperador, após o relatório do vice-rei, mostrou sua gratidão ao permitir que eles se instalassem na região para fins comerciais. O espaço é uma península ligado ao continente por uma nesga de terra com não mais de 100 jardas de largura, e foi ali que construíram e fortificaram uma cidade. O território tem cerca de três quilômetros de comprimento e meia milha de largura. O istmo que o liga com o resto da ilha é atravessado por uma muralha, projetando-se de ambos os lados para o mar, e onde os chineses mantêm um portão e uma guarita. Para lá dessa muralha, os portugueses raramente são autorizados a passar, e como os chineses também têm o poder de reter provisões, os portugueses vivem de certa forma dependentes. 
Em Macau as ruas são estreitas e irregulares; as casas são construídas de pedra, ao jeito europeu, mas não tão elegantes. Com exceção de igrejas e conventos, o único edifício de registo é a casa do Senado, que fica na única rua espaçosa e elegante da cidade. A casa do governador, construída perto do local de desembarque, não tem nada de extraordinário na sua estrutura ou aparência, embora proporcione uma bela vista.
A fábrica inglesa, um prédio simples, é contíguo à casa do governador, e outras nações têm fábricas construídas no mesmo estilo. Navios de carga não podem entrar no porto, sendo obrigados a ancorar seis ou sete milhas a leste. O lugar é defendido por vários fortes onde existem canhões de peso; mas a guarnição portuguesa raramente excede os 250 homens. As embarcações que pretendem seguir para Cantão, normalmente ficam retidas cerca de vinte e quatro horas nas imediações de Macau até o governo chinês enviar um piloto e a respectiva permissão para subir pelo delta do rio na zona que chamam de Boca de Tigre.
Macau foi outrora um local da maior importância para os portugueses, sendo o centro do seu comércio, não só com a China, mas também com o Japão, o Sião, Cochin e todos os países desta parte da Ásia. Desde o declínio geral de seu comércio na Índia, que passou a ser feito por outros países, com mais sucesso e de forma mais intensa, Macau afundou-se e ocupa agora um lugar de relativa pouca importância.
Localização: Long. 113,32 E. Lat. 22. 10. N.

quarta-feira, 10 de abril de 2019

A-Ma: um templo... muitas crenças


O Templo de A-Ma (ou Mazu) remonta a 1488 (Dinastia Ming) sendo anterior ao estabelecimento da cidade de Macau (1557) pelos portugueses. É composto pelo Pavilhão do Pórtico, Arco Memorial, Pavilhão de Orações, Pavilhão da Benevolência, Pavilhão de Guanyin e Pavilhão Budista Zengjiao Chanlin... dedicados à veneração de diferentes divindades do Confucionismo, Tauismo, Budismo e por múltiplas crenças populares.
Desde 2005 está classificado como Património Mundial da Humanidade pela UNESCO.

Templo de A-Ma. Pintura de Auguste Borget ca. 1840

The Maa Gok Miu (媽閣廟 Māgé Miào), better known as the A-Ma Temple (or Mazu), was built in 1488 (Ming Dinasty), before the city of Macao came into being by the Portuguese (1557). It consists of the Gate Pavilion, the Memorial Arch, the Prayer Hall, the Hall of Benevolence, the Hall of Guanyin, and Zhengjiao Chanlin (a Buddhist pavilion). The variety of pavilions dedicated to the worship of different deities in a single complex make A-Ma Temple an exemplary representation of Chinese culture inspired by Confucianism, Taoism, Buddhism and multiple folk beliefs. 
In 2005, the temple became one of the designated sites of the Historic Centre of Macau, a UNESCO World Heritage Site.
Na obra Ou-Mun Kei Leok (Monografia de Macau), da autoria de Tcheong-U-Lâm e Ian-Kuong-Iâm e traduzida do chinês por Luís Gonzaga Gomes retirei um excerto que explica uma das muitas particularidades existentes no templo, uma rocha que tem gravado um desenho de uma embarcação que nem é típica dos mares do sul da china, onde fica Macau, mas do Norte, onde fica Fukien, de onde era oriunda a deusa.
"(...) Existem, em Macau, três estranhos blocos de pedra. Um deles chama-se lèong-Sun-Sèak (Rocha de Barco Oceânico). Conta a tradição que, durante o reinado de Mán-Lêk (1573-1620), um grande barco de comércio de Fôk-Kin foi assaltado por um temporal que o pôs em grande perigo. Subitamente viu-se uma santa, de pé, na vertente duma colina. O barco estabilizou-se. Erigiram, então, um templo consagrado a T’in-Fei (Concubina Celestial), e deram a este sítio o nome de Nèong-Má-Kók (Ponta de Nèong-Má).
Nèong-Má é o nome por que, em Fôk-Kin, é designada a concubina Celestial. Sobre a superfície da rocha que se encontra em frente do templo gravaram o desenho de um barco e os quatro caracteres lei-sip tâi-tch’um (atravessou com felicidade o grande mar) para tornar conhecido o extraordinário poder desta santa."
No livro Toponímia de Macau (Volume I) o padre Manuel Teixeira escreve que "a festa de Amá, deusa de Fukien, protectora dos navegantes celebrava-se em Macau no primeiro dia da lua de Março; em Fukien era honrada no dia 23 da 3ª lua."

Década 1940/50

Curiosidade: existem cerca de 1500 templos dedicados à deusa Mazu em 26 países; o de Macau é considerado um dos mais importantes.

terça-feira, 9 de abril de 2019

Carta Registada "Raid Aéreo Madrid-Manila": 1926

Na sequência do Raid Aéreo Madrid – Manila, efectuado pelos pilotos espanhóis Gallarza e Loriga em aviões biplanos Breguet em 1926, 59 cartas foram transportadas a bordo das aeronaves. 
Nas imagens está uma dessas cartas (frente  e verso) registada em Macau a 11 de Maio de 1926: selos de 31 avos tipo D. Carlos I Mouchon e com a sobrecarga ‘República’. 
O raid aéreo teve início em Madrid a 5 de Abril de 1926 e fez escala em vários locais. Chegou a Macau - a penúltima etapa da viagem - a 1 de Maio desse ano. Na aterragem bateu em algumas árvores e foi sujeito a reparações. Chegou a Manila a 13 de Maio de 1926. Ao todo foram percorridos 17 mil quilómetros em 18 etapas. Dos três aviões que iniciaram a viagem apenas um chegou às Filipinas. Era mais um feito da aviação em que Macau inscrevia o nome...

segunda-feira, 8 de abril de 2019

Regras dos Correios em 1869... há 150 anos

Fechar-se-ha neste correio para conveniência do publico uma mala para Hongkong todas as noites ás 7 horas para ser remettida pelo vapor da carreira de Macau a Hongkong que costuma partir desta cidade todas as manhãs ás 8 horas excepto no domingo. As cartas para Hongkong que o correio receber nos sabbados se vierem marcadas no sobrescripto urgente serão remettidas por fatião que partir naquella tarde alias serão ellas enviadas a Hongkong pelo vapor da segunda feira No dia da chegada da mala d Europa fechar se ha a mala para Hongkong ás 8 horas da noite O abaixo assignado faz também saber ao publico que no caso de chegar a este correio pela alta noite uma mala extraordinária serão destribuidas as cartas na manhã seguinte tão de pressa que as cartas estiverem promptas para serem entregues aos seus destinatários.
Por este é também o publico informado que as cartas e jornaes que tiverem de passar por este correio para serem remettidos a Hongkong estarão sujeitos não só aos portes marcados nas tabelas do correio de Hongkong mas também a um porte local. Por cada carta de meia onça se deverá pagar o porte local de 8 avos, por carta de uma onça se deverá pagar 16 avos; excedendo-se o peso dessas seja de qualquer fracção, será a carta considerada como de 2 onças e se se exceder o pezo de 2 onças se contarão 3 onças e assim por diante.
Para os jornaes o porte local é 2 avos de pataca por cada um. Quanto ás cartas que vierem de Hongkong para serem entregues em Macau estarão sujeitos só ao pagamento do porte local se estiver já pago o porte do correio de Hongkong mas se o não estiver os destinatários das cartas terão de pagar alem do porte local o porte do correio de Hongkong.
Quanto aos jornaes que teem de ser destribuidos aqui, serão isentos do porte local, e só se deverá pagar aqui o porte do correio de Hongkong no caso de não estar ainda pago.
Publicar-se-ha no Boletim do Governo uma lista das cartas existentes no correio que forem dirigidas ás pessoas cuja morada não for conhecida.
R. de Sousa, Administrador interino Correio Marítimo.
Macau 31 de julho de 1869
Aviso publicado na "Parte Não Oficial" do Boletim da Província de Macau e Timor de 2 de Agosto de 1869.
Na imagem duas marcas postais (carimbos) do Correio Marítimo de Macau da primeira metade do século 19
O de baixo é um carimbo oval (feito de marfim), de duplo círculo, aposto como carimbo de entrega, ou seja, como prova da chegada a Macau da carta.
Segue-se um texto dos CTT de Macau sobre os primeiros anos de actividade no território:
A Rainha D. Maria I de Portugal de Portugal, por Alvará de 20 de janeiro de 1798, criou os “Correios Marítimos entre o Reino e as suas parcelas ultramarinas”, por daí “resultar grande benefício às Praças de Comércio
Presume-se que em 1800 já funcionasse o “Correio Marítimo” de Macau, pois o mesmo havia sido criado para a Índia nesse ano e é sabida a estreita ligação, existente à altura, entre os dois Territórios. Corrobora esta presunção um aviso da Administração do “Correio Marítimo” da Corte, datado de 27 de Dezembro de 1800, que o navio Constança sairia para Macau em 4 de Janeiro de 1801.
Em 1869, Ricardo de Sousa foi nomeado Administrador do “Correio Marítimo” instalando-se os serviços no rés-do-chão da sua própria residência, situada no vértice do Ângulo formado pela Rua do Campo e Rua de Santa Clara.
O “Correio Marítimo de Macau, resumia-se, porém, a uma quase sucursal do de Hong Kong, “seguindo as suas instruções e usando os seus selos”.
Como o “Correio Marítimo não satisfizesse as necessidades de comunicação do Território, procedeu-se à sua reestruturação, de acordo com as normas da União Postal Universal saída da Conferência de Berna de 1874, da qual Portugal foi membro fundador. Assim, O Governador Tomás de Sousa Rosa, por Portaria de 1 de Março de 1884, criou a Repartição do Correio, sendo seu 1.º Director Ricardo de Sousa.

domingo, 7 de abril de 2019

Mosteiro da Ilha Verde / 青洲修道院



Em 1828 a Ilha Verde foi comprada pelo colégio de s. José por 2 mil patacas. O anúncio acima foi publicado no Boletim Oficial no final do século 19.
Num Portaria de 1842, a monarquia louva o trabalho dos padres na ilha e concede que ali sejam gastos parte dos "600 taeis" pagos anualmente para conservação da igreja e colégio de S. José pelo "Cofre de Macao".
Sendo presente a Sua Magestade a Rainha que o Reverendo Superior e mais Padres do Collegio de S José da Cidade do Santo Nome de Deos de Macáo adquiriram por compra a ilha Verde adjacente á mesma Cidade e que nella têm feito consideraveis melhoramentos tanto em beneficiar o terreno como na edificação de casa capella e muro que a cérca e defende dos estragos que sem elle lhe causaria o mar manda a mesma Augusta Senhora pela Secretaria d Estado dos Negocios da Marinha e Ultramar louvar o dito Reverendo Superior o Padre Joaquim José Leite e mais Padres do mencionado Collegio por haverem agricultado e tornado util um terreno que dantes estava em desprezo e recommendar lhes que continuem a conserva lo e melhora lo podendo applicar para isso algum residuo que lhes fique dos seiscentos taeis que pelo Cofre de Macáo annualmente se pagam para conservação e reparo da Igreja e casa collegial de S José e esta Portaria se registará nos livros do registo do Leal Senado da dita Cidade e o original se conservará no archivo do sobredito Collegio de S José.
Paço das Necessidades em 23 de Novembro de 1842 Joaquim José Falcão

Em 1886, parte da ilha foi alugada a um comerciante chinês, que ali estabeleceu uma fábrica de cimentos. Foi a primeira da China e anos mais tarde foi vendida a um comerciante inglês. A fábrica manteve-se em laboração até 1925.
Postal ilustrado ca. 1905: à esquerda a fábrica de cimento e à direita o convento
Vista sobre a Ilha Verde cuja colina se eleva a 57 metros: década de 1960
Em chinês a zona é conhecida por: Qing Zhou (Oásis Verde) ou Lok Dao (Ilha Verde).
Convento da Ilha Verde, também conhecido como Mosteiro da Ilha Verde (青洲修道院) e Casa de Retiros da Ilha Verde (青洲避靜院), é um edifício religioso de estilo arquitetónico colonial português datado do início do século 19.
Postal ca. 1900/10: istmo que liga a península de Macau à ilha Verde já concluído, em comparação com a fotografia do final do século 19, ainda sem istmo.
Mais sobre a história da Ilha Verde aqui e aqui.

sábado, 6 de abril de 2019

A paisagem como 'protagonista' nas obras de Henrique de Senna Fernandes: 2ª parte


“Gostava do rio e do mar, do cheiro a maresia, dos acenos dos Pescadores dos juncos, da nostalgia dos longos e rubros crepúsculos que cobriam os cimos da Lapa e doutras ilhas circundantes duma auréola cegante e doirada. (...)
As raparigas do atelier aproveitavam para passeios à Montanha Russa, ao pinheiral da Guia, à aprazível estância da Flora de vivendas elegantes e fora de portas, espreitando o conjunto harmonioso do Palacete de Verão do Governador e o seu pejado de canteiros e de chafarizes. Ou então iam aos miradouros da Estrada de S. Francisco e da Estrada de Cacilhas, de calma idílica, contemplando os longes do mar mosqueado de juncos e ouvindo em baixo os murmúrios ou os regougos do mar, ao encontro de rochas escavaladas. (...)
Era na contemplação da paisagem, sob a umbela das árvores de pagode e o cheiro da resina dos pinheiros, embalada pelo chilrear da passarada irrequieta que vinha à tona a dor pungente dos arcanos do coração. (...)
Não se saciava da contemplação do mar pontilhado de revérberos do sol, dos juncos que singravam ao largo, rasgando sulcos broncos na massa líquida e movediça. As ilhas distantes azulavam a linha do horizonte. Por trás, algures, estava Hong Kong. (…)
O campo de ténis, não muito distante, ocultava-se por detrás da Cortina dos bambuais. Outro caminho dirigia-se para a zona militar interdita da Fortaleza de D. Maria II. Mais além estendia-se o morro pedregoso da resting de Macau-Seak, guardando os marulhos do mar das Nove Ilhas.” 
in "Os Dores"
"Estava um belo dia de outono para a pesca, o céu límpido, a paisagem toda alumiada de tons metálicos, como só acontece nos meses de Outubro e Novembro. O Belo Adozindo escapulira de casa cedo, evitando encontrar-se com o pai. Eram sete e meia e encaminhava-se para a Praia Grande, onde embarcaria num barco à vela com amigos, para umas horas ao largo de Macau. Ia apetrechado para a pesca, o caniço e as linhas novas, os anzóis vindos de Hong Kong, duma casa da especialidade, o cesto contendo a isca. Vestia-se todo aperaltado e nada conforme como à vontade que tais excursões exigiam. Seria ridículo se não procedesse com naturalidade e espontaneidade, porque era incapaz de se apresentar doutra forma. O grande conquistador da praça tinha responsabilidades quanto a manter a sua fama. Nunca se sabia quem ia encontrar, embora ainda fosse cedo.
Respirou fundo a brisa matinal, a Estrada da Victória era uma recta dourada e não viu nenhum riquechó. Não se sentiu contrariado, cortou o Jardim de Vasco da Gama, ladeando os chafarizes, onde os fios de água prateada saltitavam, como garotos irrequietos. Para encurtar caminho, dobrou a primeira esquina, intemando-se na área do Cheok Chai Un.
Até então, esquivara-se do bairro de má fama, mas não acreditou que alguém fizesse mal, em pleno dia, a um homem pacífico que ia inocentemente à pesca, com o único peso na consciência de faltar ao trabalho. Mas os berros do pai podiam com facilidade serem amansados."

sexta-feira, 5 de abril de 2019

A paisagem como 'protagonista' nas obras de Henrique de Senna Fernandes: 1ª parte

Exímio contador de histórias e criador de personagens-tipo da sociedade macaense, Henrique de Senna Fernandes (1923-2010) reproduz de forma fiel nas suas obras a paisagem de Macau desde o final do século 19 até ao século 20. As descrições são de tal forma minuciosas que é como que elas próprias se tornassem protagonistas dos contos ou romances.
São muitos os exemplos. Neste post fico-me pelo romance "Os Dores", publicado postumamente em 2012, e pela antiga Baía da Praia Grande. A história do romance passa-se nos primeiros anos de 1900.
Macao bay (Praia Grande) por George Chinnery
“A Baía da Praia Grande recobriase de oiro e sol que declinava atrás da Ilha da Lapa. A água da enchente reverbava em cintilações resplandecentes, murmurava em soliloquies junto da muralha de granito, mas ao longe batia forte nas pedras extremas do fortim 1 de Dezembro. Juncos preguiçosos nos ancoradouros recolhiam as velas. Lorchas e sampanas balanceavam ao sabor da maré. Tancares diminutos, em labor incessante de vaivém, riscavam em tiras de espuma o manto esverdeado da água dos princípios de Setembro. Nos cais de pedra, em plano inclinado, desembarcava-se o pescado do dia, em cestas de vime. (...) 

A orla do casario da Praia Grande, em curva graciosa, duma ponta à outra, desde o Grémio Militar à arruinada Fortaleza do Bom Parto resplandecia, ornada de árvores frondosas (…) Identificou alguns edifícios, a ermida da Penha, o Hotel Bela Vista, o Palacete de Santa Sancha, o Palácio do Governo, o Tribunal, os contornos superiores da Igreja de S. Lourenço, do Seminário de S. José e da Sé Catedral.”

quinta-feira, 4 de abril de 2019

Cheng Ming / Dia de Finados / 清明節

Na cultura chinesa são várias as datas dedicadas aos antepassados, sendo o Cheng Ming, o Dia de Finados (清明節) a mais importante.
Nesta data é prática habitual as pessoas deslocarem-se aos cemitérios com oferendas e flores; do ritual faz ainda parte o bater de cabeça, a limpeza das campas, ofertas de comida com leitão assado, bocados de cha shiu, galinha a vapor, ovos cozidos, pratos com frutas e outros acepipes, a que se juntam três taças de vinho e três conjuntos de fai tchis, que são colocados sobre a laje da campa, e a queima de pivetes de incenso.
Cemitério da Taipa: um dos maiores cemitérios chineses de Macau
Conhecido por Ching Ming (ou Cheng Ming, Cheng Meng ou Qingmin) o 5.º dos 24 termos do Calendário Solar Chinês é a data mais importante do calendário ritual, em que as famílias celebram o culto dos antepassados. O Festival tem lugar no 106.º dia depois do Solstício de Inverno, ou seja, no 15.º dia depois do equinócio vernal da Primavera (Chunfen)... E que este ano calha a 5 de Abril.
Assim, se explica que a expressão traduzida à letra, significa “claro e brilhante”, numa alusão aos dias de sol primaveris e à expressão "festival da pura claridade", também usada para designar este dia.
Wenceslau de Morais deixou para memória futura o testemunho desta celebração em Macau no final do século 19.



quarta-feira, 3 de abril de 2019

Folheto turístico "Canton and China's Southland"

Folheto "Canton and China's Southland birthplace of the Chinese Revolution", da empresa/agência de viagens, China Travel Service, datado da década de 1920.
Cantão e outras cidades do Sul da China são o enfoque desta brochura onde Macau - "a 40 milhas de distância de Hong Kong" - também surge. O texto é em inglês e inclui uma imagem da península de Macau, "the oldest european settlement in China"
"40 miles by steamer from Hong Kong and 88 miles from Canton, is Macao, Portuguese colony, oldest European settlement in China and today somnolent as a trading center, but notorious as a gambling resort. (...) Probably, no city in the Orient is more historically interesting, from the standpoint of early Sino-European commercial intercourse, than is Macao. (...) The city is beautifully situated on the side of a hill, with rich farmlands rolling behing it, and splendid seas on three sides."

terça-feira, 2 de abril de 2019

Beacon of the East (Macao): documentário 1948

 
"Beacon of the East (Macao)" (Farol do Oriente) é o título de um documentário - a preto e branco e com som - com a duração de 9 minutos feito em 1948 no rescaldo da segunda guerra mundial pela  Periscope Film LLC archive e distribuído pela Library Films.
No registo da cidade no final da década de 1940 destaque para a paisagem e modos de vida locais, como o comércio de rua e o fabrico de panchões, uma das mais importantes actividades comerciais da época no território.
"Since Macao is Portuguese territory it suffered none of the ravages of World War II. Although it's neutrality was violated when the Japs made their only air raid on it, little or no damage was done". (...) É assim que começa este documentário narrado em inglês.
"Macao remains truly an Oriental City. It is the home of the firecracker and the first lighthouse on the China Coast."

Ruínas de S. Paulo e ao fundo o templo Na Tcha por ocasião de uma festividade chinesa.
 
As cenas de rua testemunham o dia-a-dia no território.
 
Os costumes chineses também são abordados no registo.
 
Zona do Bazar
 
Para além das imagens das Ruínas de S. Paulo, Templo da Barra, Largo do Senado e Jardim Lou Lim Ioc, o documentário destaca a pesca e a indústria dos panchões como importantes actividades na economia local.
 
Sugestão de Leitura: "Macau 1937-1945: os anos da guerra", de João Botas, IIM, 2012
 

segunda-feira, 1 de abril de 2019

Portuguese Government in Macao: 1845

Portuguese Government in MacaoH. E. Jozé Gregorio Pegado, Governor
Joaquim A de Moraes Carneiro, Judge
D. Niculau RP Borjas, Bishop
Francisco de Assis Fernandes, Substitute to the Judge
D. Geronimo Pereira de Matta, Coadjuctor Bishop
Members of the Senate: Felippe Jozé de Freitas (judge)
Felippe Vieira (judge)
Jozé Francisco de Oliveira (vereador)
Francisco Joan Marquis (vereador)
 Manoel Duarte Bernardino (vereador)
 Jozé Vicente George, Procurador
 Jozé Simao dos Remedios, Treasurer
 Miguel Pereira Simoens, Clerk to Senate
 Demetrio d Araujo Silva, Collector of Customs
 Justices of the Peace:   Cepriano António Pacheco (Sé and St.Antonio parish)
 Vicente Vieira Ribeiro (St Lourenço parish)
 Commandants of the Forts:   Lt col Joaquim V. Sanches, Barra Fort
 Major Ludgero .J de Faria Neves, Monte Fort
 Major António Pereira, Franciscan Fort
 Major João Valentim Chumal, Guia Fort
 Major Caetano A Lemos, Bom Parto Fort

A informação acima é retirada da publicação "The Chinese Repository" de Janeiro de 1845. Dá conta das principais figuras do governo de Macau, incluindo membros do Senado, comandantes das fortalezas Bispo e juízes de paz, onde o cargo mais importante é o de governador.
José Gregório Pegado, chefe de divisão da Armada, foi governador de 3 de Outubro de 1843 e 13 de Fevereiro de 1846, data do embarque para Macau do Conselheiro e Capitão de Mar e Guerra, João Maria Ferreira do Amaral que viria a tomar posse como governador a 21 de Abril de 1846, ano em que 
Pegado viria a morrer na viagem de regresso a Portugal, em Adem. O seu mandato fica marcado pelo início da ocupação da ilha da Taipa e também pelo prelúdio do que viria a ser o governo de Ferreira do Amaral.
Em Novembro de 1843 o Governo de Macau enviou uma missão a Cantão - liderada pelo conselheiro Adrião da Silveira Pinto (que fora Governador de Macau de 1837 a 1843) para negociar com o Vice-Rei a autorização para a colónia deixar de pagar foro e estender a demarcação do limite da cidade para fora dos muros do Campo de Santo António. A missão acabou por fracassar neste aspecto. As autoridades chinesas aceitaram no entanto a igualdade de tratamento na correspondência oficial entre as autoridades portuguesas de Macau e as chinesas do distrito e à permissão para os navios portugueses poderem também comerciar nos portos de Cantão (Guangzhou), Amói (Xiamen), Fôk-Tchâu (Fuzhou), Neng-Pó (Ningbo) e Xangai (Shanghai).
Reza a história que José Gregório Pegado, pela sua distinção e mestria no manejo dos fai-chis (pauzinhos chineses), durante um jantar que lhe ofereceu, em Cantão, o delegado e alto-comissário imperial, Ki-Ying, ouviu deste os seguintes elogio e garantia: - "V. Exa é um homem tão polido nas maneiras e simpatizo tanto consigo, que nada lhe posso recusar. Recomendarei confidencialmente ao vice-rei dos dois Kuóns que feche os olhos ao estabelecimento dos portugueses na (ilha da) Taipa".
Seria Ferreira do Amaral a 'aproveitar' essa promessa verbal incumbindo o capitão do porto, Pedro José da Silva Loureiro, em Abril de 1847, de construir a
Casa Forte da Taipa. A bandeira portuguesa seria ali içada a 9 de Setembro de 1847.

domingo, 31 de março de 2019

Concurso para "Chefe de Posto"

Anúncio publicado no Boletim Oficial em Fevereiro de 1957 onde se informa sobre as "provas práticas do concurso para chefe de posto do quadro administrativo" da província de Macau. Inclui provas de "língua indígena, noções de construção civil, política indígena, serviços dos postos e agricultura e pecuária coloniais".
Frente ao edifício onde estas provas eram prestadas (o Palácio das Repartições, ao lado do actual hotel Metrópole) os candidatos tinham ainda de fazer "demonstrações de ciclismo e fotografia".

sábado, 30 de março de 2019

Menu do Hotel Boa Vista há 120 anos...

Sopa de tomate, salmão e galinha à francesa são algumas das sugestões do menu para o jantar de 26 de Março de 1899 no hotel Boa Vista inaugurado a 1 de Julho de 1890.
Um dos primeiros hóspedes do hotel foi Arnold Henry Savage Landor, um conhecido pintor, explorador, escritor e antropólogo inglês. Mas essa história terá de ficar para outro post...

Na época o hotel era bastante recente e o mais cotado entre a oferta disponível, proporcionando uma vista magnífica sobre a baía da Praia Grande. Num relato da altura pode ler-se: "Numa encosta artística com um fundo pitoresco e um ambiente encantador, fica o Boa Vista Hotel, um edifício imponente que recebe o viajante enquanto sua embarcação contorna a curva oeste antes de entrar no porto interior. Bastante moderno, os móveis e decoração são insuperáveis ​​na colónia. (...). A mais estrita supervisão quanto à comida, limpeza e higiene é exercida, e todos os visitantes falam em termos entusiásticos da conduta geral do estabelecimento e do conforto e conveniências proporcionados".
Anúncio do final do século XIX
Localizado na encosta na encosta da Penha, logo por cima da fortaleza do Bom Parto, no nº 1 da Rua do Tanque do Mainato, o edifício foi construído ca. 1870 como residência da família Remédios sendo registado em 1890 como hotel (20 quartos), propriedade do capitão britânico William Edward Clarke (e da mulher, Catherine Hannack Clarke) que na época era comandante de um dos navios a vapor que fazia a ligação marítima entre Hong Kong e Macau.
 Entre 1891 e 1894* a gerência do hotel era da responsabilidade de L. M. Remédios e da  mulher, Maria Bernardina dos Remédios. A 11 de Novembro de 1899, Clarke e a mulher hipotecaram o hotel por $15 000,00 à empresa onde trabalhava, a “Hong Kong, Canton and Macau Steamboat Company".
Perante a hipótese do governo francês adquirir o edifício para ali instalar algumas das tropas que estavam estacionadas na Indochina, o governo de Macau acabou por expropriar o edifício e vendeu-o à Santa Casa da Misericórdia por 80 mil patacas que passou a explorar a unidade hoteleira.
No anúncio do final do século 19 informam-se os clientes da excelente localização do hotel com acesso directo à praia do Bispo e junto a uma pequena leitaria, no caso a Leitaria Macaense". Para completar um pouco da história deste edifício até à primeira metade do século XX, importa dizer que a partir de 1917 passou a albergar o Liceu de Macau (contrato entre o Governo e a Santa Casa) e a partir de 1923 o governo comprou-o à Santa Casa passando a ser de novo um hotel.
*neste anúncio de 1894 Maria B. dos Remédio intitula-se como proprietária do hotel, uma informação que contraria a história conhecida até hoje.

sexta-feira, 29 de março de 2019

Horta da Mitra e/ou Horta do Bispo

No livro "Curiosidades de Macau Antiga" Luíz Gonzaga Gomes descreve assim a zona:
"Assim um trecho da cidade que ainda é conhecido pelos chineses com o nome de Tchèok-Tchâi-Un, um local hoje dos mais populosos e sobrecarregado de casas encostadas umas às outras e separadas por uma apertada rede de ruas. Entre nós, é este sítio conhecido por Horta da Mitra e abrangia todo o terreno que ia desde a antiga Rua de Pák-T'âu-Kâi (Rua Nova das Cabeças Brancas, isto é dos Parses), actualmente denominada de Rua Nova à Guia, até ao Ho-Lán-Un (Jardim dos Holandeses), ou seja o bairro Uó Lông, sendo limitado ao norte pela Calçada do Gaio, na altura por onde passava a muralha que noutros tempos cercava a antiga cidade. 
Todo este terreno foi outrora ocupado por uma extensa e densa mata e, como há trezentos anos a cidade era ainda pouco povoada, no intuito de se fomentar o seu desenvolvimento populacional, foi permitido a um grupo de imigrantes chineses de apelidos Mâk, Tch'iu e Leong estabelecerem-se ali. 
Este minúsculo núcleo inicial conseguiu transformar, com o tempo, o local numa aldeiazinha e os seus componentes viviam da venda de lenha que podavam na mata e cuja altas e frondosas árvores que a cercavam estavam sempre cobertas de pássaros que alegravam o bosquete com a sua chilreada, dando so sítio um aspecto de parque. Foi por esse motivo que os chineses deram ao local o nome de Tchèok-Tchâi-Un que quer dizer Jardim de Passarinhos".
Desde o ano de 1939 que ali está instalado o mercado Municipal da Horta e Mitra, mas que a eles todos se referem como o mercado do Tch`eok-Tchâi-Un. Nesta zona, na Rua da Praia do Manduco, fica o templo Fok Tak.

quinta-feira, 28 de março de 2019

"The Fan-Qui in China in 1836-7"

O título deste livro pode parecer estranho mas o autor, Charles Toogood Downing, explica o significado logo na introdução.  "The Fan-Qui in China in 1836/7" foi publicado em 1838 em Londres num total de 3 volumes e tem na capa a ilustração de uma sampana com a legenda "Macao Egg Boat".
"Many persons may be puzzled to understand the meaning of the word Fan Qui. Those who have been to China will comprehend it well enough as they must often have heard it applied to themselves. It literally signifies barbarian wanderer or outlandish demon but having been so long accustomed to the epithet and hearing it so often pronounced we are willing to hope that it is now used without intention to insult and may fairly translated Foreigner. This term of reproach therefore if such it still be expresses in China not only the English but all Europeans, Americans, Parsees, Arabs, Malays and the inhabitants of every other quarter of the globe excepting their own Celestial Empire.
The object of this work is to illustrate in an easy and popular manner the intercourse at present subsisting between these said Fan quis and the children of Hân To take the reader through the Bocca Tigris up to the Provincial City and to show him in a more minute and descriptive manner than has yet been done how matters really stand between them the manner of life of both how the trade is at present conducted and the prospects which exist of a more friendly alliance."
De seguida apresento alguns excertos da obra relativos a Macau - onde o autor, cirurgião, esteve - ficando hospedado no hotel denominado Marickwic Tavern, tido como único hotel inglês no território:
"Macao is first seen over a spit of land which forms the outer boundary of the harbour Before rounding this point you have a full view of the place which bears some resemblance to an amphitheatre and strikes the eye of the stranger as one of surprising beauty The country is broken into small hills which slope down almost to the water's edge. A handsome row of houses is built at the bottom of the small round bay with a parade in front of it embanked with stone against the encroachments of the sea. This is interrupted once or twice by granite quays with steps leading up to the top of the bank. Behind the terrace the houses are built upon the steep sides of the hill and as nearly the whole of them are seen at a little distance they appear jumbled together and placed one on the top of the other. The variety of architecture adds to the singularity as plain and simple gableends are mixed up with the tops of steeples and light and airy summer houses. Where the mass of buildings decreases to form the outskirts or suburbs of the town it is flanked on the right by a very handsome church and beyond that a fort on the top of the cliff. On the left rises a distinct and separate hill on the summit of which is a Portuguese nunnery while beneath it at the extreme end of the semicircle is placed a castle which protects the entrance of the inner harbour. (...) 
When the Canton merchants arrive at Macao the appearance of that place is completely altered. A gay and lively season ensues and is continued from that time until a return to the Provincial City is allowed. Those who have resided at the place at this part of the year say that the town is then highly attractive. The Carnival is held by the Portuguese with more than the usual sumptuousness of Catholic ceremonies and rice Christians a term which has very properly been applied to those natives who are converted only during such time as they are living upon the charitable donations of the priests flock in more than ordinary numbers to the churches. Balls routs and masquerades are also given by the gentry and public concerts are occasionally held. On one occasion as I am informed this little town was honoured with the presence of some eminent vocalists from Europe. (...)
Macao possesses very few things which can interest a stranger after the novelty of seeing so remote a place has worn off You are interested at first by walking up and down the narrow alleys where every thing and every body is different from what you have been accustomed to but you soon tire of that and find it impossile to extend the sphere of your amusements. The markets attract your attention with the great variety of fruits and vegetables exposed for sale for the Chinese are not surpassed by any nation in the cultivation of their gardens. There are no shops here as in Canton with those ingenious wonderful productions of minute art which belong almost exclusively to China and in the examination of which the greater part of the time is occupied by those who visit that place No theatre or exhibition of any kind is in the town at this time of the year so that you soon feel thrown upon your own resources for mental occupation. One thing worth seeing however is the menagerie or zoological garden as we should name it of Mr Beale not having seen it.
I can give no description but I was told that there were among other curiosities some Birds of Paradise alive. You may go all over the world before you may see them again except in their wild state in Sumatra and Borneo as they are perhaps the most delicate of the feathered creation .
Nota: Há uma versão em 2 volumes de 1838 com o título "The Stranger in China: Or, The Fan-qui's Visit to the Celestial Empire in 1836/7". Foi impressa em Filadélfia e é a primeira edição do livro nos EUA.

quarta-feira, 27 de março de 2019

Asylo dos Orphãos da Santa Casa da Misericórdia

A Santa Casa da Misericórdia de Macau celebra este ano 450 anos de existência. Foi fundada pelo primeiro Bispo de Macau, em 1569, seguindo o modelo de uma das organizações de caridade mais antigas de Portugal. Em Macau foi responsável pela criação do primeiro hospital de estilo ocidental (Misericórdia/S. Rafael) e de outras estruturas sociais de cuidados de saúde e apoio assistencial que que ainda hoje funcionam. Na sua génese tinha com um dos papéis principais prestar apoio a órfãos e viúvas de marinheiros perecidos no mar. Por volta de 1900 foi criado ao Asylo dos Orphãos. 
Excertos da Portaria nº 31 de 14 Abril 1900: Regulamento do Asylo dos Orphãos 
Postal do Collegio dos Orphãos na zona do Tap Seac
Década 1940 vendo-se à direita o "Gimnasio"
Posteriormente o edifício da zona do Tap Seac albergou o Liceu, os Serviços de Saúde (década 1980, imagem acima) e actualmente é a sede do Instituto Cultural da RAEM.