sábado, 16 de março de 2019

Charles Gesner van der Voort (1916-1991): "Charles in Shanghai"

Amateur historian Pieter Lommerse is preparing a book about a Dutch merchant, living in Shanghai in the late 1930s, early 1940s. With a group of Dutch bachelor friends, he lived in the last days of colonialism in China. What did their look like? What did they experience in Shanghai, and what happened to them in WW2?
Through relatives, colleagues and business partners of the friends, the author has collected memories, stories, letters, biographies and photographs of this bygone era. The photos are so plentiful – and beautiful – that several are shown in the website Flickr.
Charles worked for Holland-China Trading Company (HCHC), which had offices in Hong Kong, Shanghai, Tianjin (Tientsin), Rotterdam and London. One of the first employees (and later director), Willem Kien, started to work for HCHC at the company’s start in 1903. He made business trips to cities along the China coast, including Macau. From two of these trips, photos are preserved, from 1917 and ca. 1935.
In 1917 he travelled with The Hongkong, Canton and Macao Steamboat Company, Limited. A portrait shows Willem Kien on the Macau quay.
https://www.flickr.com/photos/161392673@N02/46829874391/in/dateposted-public/
Ca. 1935 he made a trip of which the original photo wrapper has been preserved, which still has the photographs in them. There was no description, but through the power of the internet, several places in Macau were recognised: Our Lady of Penha Church, Penha Hill, Lou Lim Ieoc Garden, Outer Harbour (Porto Exterior) landfills.https://www.flickr.com/photos/161392673@N02/46823805972/in/dateposted-public/
https://www.flickr.com/photos/161392673@N02/46823719252/in/dateposted-public/
More photos from the book to be published “Charles in Shanghai” can be found here:
https://www.flickr.com/photos/161392673@N02/39073554971/

O historiador amador Pieter Lommerse está a prepar um livro sobre um comerciante holandês,  que viveu em Xangai entre a década de 1930 e a de 1940. Com um grupo de amigos solteiros holandeses, ele viveu nos últimos dias do colonialismo na China. Como eram? Que experiência viveram em Xangai e o que lhes aconteceu na Segunda Guerra Mundial? Através de familiares, colegas e parceiros de negócios dos amigos, o autor recolheu memórias, histórias, cartas, biografias e fotografias dessa época. As fotos são tão abundantes - e lindas - que várias são mostradas no site Flickr. Charles trabalhou para a Holland-China Trading Company (HCHC), que tinha escritórios em Hong Kong, Xangai, Tianjin (Tientsin), Roterdão e Londres. Um dos primeiros funcionários (e posteriormente director), Willem Kien, começou a trabalhar para o HCHC no início da empresa em 1903. Ele fez viagens de negócios para cidades ao longo da costa da China, incluindo Macau. De duas dessas viagens, as fotos são preservadas, de 1917 a ca. 1935. Em 1917, viajou nas embarcações da empresa The Hongkong, Canton and Macao Steamboat Company, Limited. Por volta de 1935 fez uma viagem da qual o rolo original das fotografias foi preservado. Através do poder da internet, vários locais em Macau foram reconhecidos por diversas pessoas, incluindo o João Botas do blog Macau Antigo: aterros da Igreja de Nossa Senhora da Penha, Colina da Penha, Jardim Lou Lim Ieoc, Porto Exterior (Porto Exterior).


Jardim Lou Lim Ioc
Aterros do Porto Exterior
Zona onde foi construído o Reservatório no final da década 1930
Palacete de Santa Sancha
Charles Gesner van der Voort worked in Shanghai for Holland-China Trading Company (HCHC), which had offices in Hong Kong and Tientsin (Tianjin) also. Charles grew up in Dordrecht, did an internship for Holland-China Handelscompagnie (HCHC) in Rotterdam and went to Shanghai for the company.
Due to the Japanese-Chinese war and WWII, trading became more and more limited. In March 1943, Charles, and most of the remaining Dutch in Shanghai, were interned by the Japanese. Luckily, he was in one of the more humane Japanese camps, and all the people he knew have survived.
Several of his bachelor friends were called for duty in the Dutch army. Charles was exempted due to brother service, his brother Wim served in the Dutch army and fought at Grebbeberg, when the Germans invaded the Netherlands in May 1940. Most bachelors managed to get to England ("Engelandvaarders"). Two of them became commando, and participated at the battle of Arnhem and the liberation of Walcheren. One became an RAF pilot. Another returned to the East, as an intelligence officer, and served in Ceylon, Australia and New Guinea. Miraculously, all Charles' bachelor friends survived the war. His sons Peter and Michael were awed by their stories and through them, I was able to find relatives of the once bachelor friends.
They also helped me find survivors of the Japanese camp Chapei in Shanghai where Charles was interned. They provided me with stories and drawings of camp life.
Making this book, pre-war Dutch society in Shanghai started to become visible again, like a jig-saw, piece by piece.

sexta-feira, 15 de março de 2019

Barca de Transporte Martinho de Mello: 1866


As viagens da "Martinho de Mello" entre Macau e Lisboa eram habituais em meados do século 19 conforme se atesta por um relato de 1865: "(...) a barca Martinho de Mello, que a 19 de outubro do mesmo anno de 1865 partiu com destino a Macau e escala por Timor. Seguiu-se atravessar o mar da índia, e procurar depois as ilhas da Oceania. Java e Timor fôram na quinta parte do mundo os pontos principaes (...)  De Timor passou a barca Martinho de Mello ao porto de Macau, e d’ali voltou para Lisboa, onde chegou já no anno de 1866. (...)"
Ao lado um anúncio publicado no Boletim do Governo de Macau a 9 Abril de 1866 assinado pelo 1º tenente comandante da barca de transporte Martinho de Mello.
No anúncio dá-se conta que a embarcação partirá rumo a Lisboa no final desse mês com escala por Moçâmedes, Benguela e Luanda e se informa sobre os preços a pagar pelos fretes dos mais variados produtos, incluindo o chá que custa "quatro mil réis por caixa de meio pico" sendo o preço das "demais fazendas a vinte e três mil reis por tonelada de cinquenta pés cúbicos".
pé: 12 polegadas/33 cm
pico: 50 Kg

quinta-feira, 14 de março de 2019

Thomas e William Daniell, as feitorias de Cantão e... Macau

Thomas Daniell (1749-1840) era já um conceituado pintor quando, juntamente com o seu sobrinho e aprendiz do ofício William Daniell (1769-1837), conseguiram autorização para se instalarem na Índia como pintores/ilustradores por parte da Companhia das Índias Orientais Partiram de Inglaterra a 7 de Abril de 1875 a bordo do Atlas - uma das primeiras paragens foi a Madeira - rumo à China tendo chegado a Whampoa no final de Agosto desse ano e vivido vários meses entre Cantão e Macau, produzindo inúmeros desenhos.
Thomas e William Daniell considerados os grandes pintores da Índia do séc. 18
De Macau partiram para Calcutá na Índia onde chegaram em 1786 e viveram cerca de uma década. No regresso a Inglaterra em 1794 - tendo passado novamente por Macau e Cantão - transformaram os esboços em pinturas a cores que depois foram usadas em vários livros, incluindo o "Oriental Scenery" publicado em 6 volumes entre 1795 e 1808 (com mais de uma centena de ilustrações) sendo um enorme sucesso em termos de vendas e no "A Picturesque Voyage to India by the Way of China" publicado em 1810 e onde surge a Gruta de Camões.
Sobre o primeiro livro numa notícia de jornal de 1795 pode ler-se: "Views in the East Indies. Proposals for publishing twenty-four views in Hindostan, consisting of some of the most interesting specimens of Oriental scenery; in which are represented many beautiful, as well as magnificent, examples of the architecture of that extraordinary country, with such other incidental accompaniments as have a reference to the manners and customs of its inhabitants"

Sampanas junto a Macau por William Daniell que tinha na altura apenas 15 anos mas durante toda a viagem escreveu um diário que se veio a revelar muito útil no regresso a Inglaterra.
Ilustração "Camoens Cave" é uma das 50 (22 são sobre a China) incluídas no livro "A Picturesque Voyage to India by the Way of China" de Thomas Daniell e William Daniell, publicado em 1810. Crítica ao livro publicada no "The Monthly Review or Literary Journal" de 1872:
"To European eyes Oriental Scenery has a very marked and peculiar character arising not only from the plants which constitute the foliage of the landscape but from the style of architecture which pervades the buildings. That the public are much indebted to the pencil of the Messrs Daniells for numerous beautiful views of interesting objects in this quarter of the globe all persons who have frequented the Exhibitions at Somerset House must be ready gratefully to bear witness and since fine paintings are beyond the reach of the great majority of amateurs of the arts we are happy to inform them that these gentlemen have executed designs on a scale of expence which is adapted to the pockets of those who cannot purchase large pictures.
Even a long series of richly tinted etchings however cannot be bought for a trifle though the sum required for them bears a very small proportion to that which must be paid for similar representations on a grand scale in oil In taking this opportunity of announcing A Picturesque Voyage ta India by the Messrs Daniells we would offer them our best thanks for the high gratification which their productions have often afforded us and though we may not be able to augment their fame we shall at least have the satisfaction of paying eome tribute to their pre eminent genius and exertions by which the romantic scenery and stupendous antiquities of India have been brought home to our contemplation.
 A small portion indeed of their labours is now before us but the style of execution is extremely creditable to their taste and is a fair specimen of the whole The volume which exhibits fifty coloured etchings of views taken during a voyage to India and China i introduced by a short preface and contains also brief explanations subjoined to the plates From the former we extract some remarks which will elucidate the objects of the work and shew that the Messrs Daniells are not less sensible as authors than ingenious as artists."


Excertos do diário de William a propósito das embarcações chinesas que pintou:
Chinese are equally ignorant of geography and they have no methods for discovering the latitude and longitude different placer and always if possible keep close to die. The vessels exhibited in the plate are evidently ill adapted to a voyage nor is the three masted junk presented in a preceding of a structure to contend with the tremendous gales so experienced in the Chinese seas.
The hull of these junks is curved form the fore part instead of being round as is usual European vessels is square and flat like the stern and both are tar above the deck it is without a keel and the diameter the mainmast is sometimes equal to that of an English man of war sixty guns. The sails are wrought from the fibres of the and are often furled and unfurled like a fan the rudder is placed an opening of the etern and is usually taken up in sands and It frequently happens that one of these junks is the common of a hundred merchants whose goods are lodged in separate. A ship of the largest size carries one thousand tons and hundred men each of whom has his humble birth containing a and a pillow. The compass is placed before an altar on burns a taper composed of wax tallow and sandal wood dust divided into twelve equal divisions which are intended to out the progress of the hours. Numbers of these vessels sail season from Canton on commercial expeditions and it is that ten thousand seamen perish annually in the Chinese seas one embarks on this perilous enterprize without taking a farewell of his family and friends and should it be his fate to his restoration is joyfully celebrated as a resurrection from It would perhaps be impossible to discover a man who like bad had made a seventh voyage in one or two passages to via the adventurer makes his fortune the only object stimulating to draw him from his native home.

Desenho das feitorias de Cantão em 1785 por William Daniell

Para um melhor enquadramento sobre o papel de Macau no acesso a Cantão no século 18, publico parte de um artigo da autoria de Luís Gonzaga Gomes sobre a "Momentânea paralisação do comércio em Cantão".
(...) Ocupava Iông-Tcheng, o terceiro imperador da última dinastia, a tártara ou manchu, o trono do grande Império chinês, ou, mais precisamente, corria o ano de 1745, quando o porto de Cantão foi destinado ao comércio estrangeiro. Separada da French Island (Ilha Francesa) por estreito braço do Rio Pérola, surgia a ilhota, pelos estrangeiros conhecida por Dane's Island (Ilha Dinamarquesa), sendo assim denominadas por os traficantes dessas duas nacionalidades terem desfrutado, primitivamente, o privilégio de se estabeleceram nas suas margens e utilizarem os seus armazéns, e onde os mareantes podiam refazer as suas energias grandemente depauperadas por longas e tormentosas viagens. (...) Pouco mais adiante, apertada entre a ilha de Ho-Nam e a ilha de Junco ficava a ilha de Uóng Pou (Whampoa), donde se elevava, esguio e hirto, um alto pagode de vários andares. Esta ilhazinha era povoada por uma população duns milhares habitantes, que se entregavam a labores que se relacionavam, directa ou indirectamente, com a navegação estrangeira, pois era ao largo dela que ficava situado o ancoradouro de todos os barcos estrangeiros que entravam em Cantão, significando as palavras Uóng Pou "Fundeadouro Amarelo".
Este bocado do rio de Pérola, mais conhecido por rio de Cantão, oferecia, por essa altura dos princípios do século XIX, a mais surpreendente imagem dum próspero porto chinês, pois coalhavam-no barcos nativos de mais diversos feitios, incluindo os enormes juncos de cabotagem de todo o extenso litoral chinês os quais se aventuravam também até aos portos da Celebes, Bornéu, Java, Singapura e Manila, juncos esses que há muito desapareceram para darem lugar às lorchas ou a outros barcos de maior leveza e rapidez".
Ao longo da fronteira ilha de Ho Nam, ancoravam intermináveis filas de juncos pertencentes aos monopolistas do sal, que traziam não só este precioso e indispensável condimento de T'in-Pák como carga variada de diversas partes da costa sudoeste de Macau, e a meio do rio deslocava-se incessantemente uma fantástica multidão de barcos de carga e de passageiros vindas do interior, de residências flutuantes, barcos de diversões denominados "barcos-flores", sampanas, barbearias, quitandas e cozinhas flutuantes, vendendo a mais prodigiosa variedade de objectos, de peças de vestimenta, de comes e bebes, de medicamentos, enfim, uma estonteante e infinita variedade de artigos de consumo, tudo isso misturado com um ensurdecedor barulho de gente a gritar, de cães a ladrar, de galinhas a cacarejar e do mortificante estralejar de estalos, traduzindo esta caótica balbúrdia uma vida de intensa animação e exótico colorido. (...)
De Whampoa a Cantão ia-se de barco a remos, levando a curta travessia nada mais nada menos que duas horas, pois grande perícia era exigida para se enfiar por entre aquela desordenada multidão de barco. (...)
Era mesmo na marginal de Cantão entre o subúrbio ocidental e o rio, que estavam situadas as célebres "feitorias" estrangeiras
(ilustração acima), as quais ocupavam um terreno de 1000 pés de leste a oeste, 300 pés distantes da água do rio, oitenta milhas distantes de Macau, 60 da ilha de Lintin, 40 dos Fortes de Bogue (vocábulo derivado da palavra portuguesa "boca") e 10 do fundeadouro de Whampoa.
Essas feitorias, treze ao todo, motivo por que eram conhecidas em chinês por "Sâp-Sám Hóng" (Treze Feitorias), nem todas eram estrangeiras e distinguiam-se umas das outras por sonoros nomes. Assim, a dinamarquesa chamava-se Uóng-K'ei (Bandeira Amarela); a espanhola Lui Sông (Luzon); a francesa Kou-Kong (Público Elevado); a do negociante chinês Chungqua, Mán Un (Dez Mil Fontes); a americana Kuóng-Un (Dilatadas Nascentes); a imperial Má-Ieng (Águias Gémeas); a Pou Sôn (Preciosidade e Prosperidade); a sueca Sôi (primeira sílaba de Sôi-Tin, que significa Suécia em chinês); a antiga inglesa Lông-Sôn (Gloriosa Prosperidade); a Chow Chow que significa mista; a Fông T'ai (Enorme Abundância); a nova inglesa Pou-Uó (Harmonia Protegida); a holandesa Tcháp-I (Rectidão Concentrada); e a designada por ingleses por Creek, I-Uó (Justiça e Paz)".
Cada feitoria era constituída por filas de edifícios de três andares no estilo colonial europeu. A dinamarquesa dispunha de sete filas, a holandesa de oito e a americana era a que possuía menos. A palavra fila é expressa em chinês pelo som "hóng" daí o referirem-se os ingleses às feitorias pela designação "Foreign Hongs". A existência duma nova e duma velha feitoria inglesa deve-se ao facto de se terem feito novas construções após o grande incêndio de 1822, que destruiu parte da velha feitoria inglesa e 12 000 prédios, lojas e templos chineses do subúrbio ocidental". (...)
Os estrangeiros eram, na generalidade, designados pelos chineses por "Hong-mou-kuâi", diabos de cabelos vermelhos, sendo tal designação sido primeiramente aplicada aos holandeses, ou "fán-kuâi" (diabos estrangeiros); os parses, por trazerem o cabelo à escovinha, chamavam-nos "pák-t'au kuâi" (diabos de cabeça branca); aos moiros mó-ló kuâi (diabos mó-ló, corrupção da palavra portuguesa "mouro"); aos portugueses "sai-ieóng kuâi" (diabos do oceano ocidental, pois que assim eram conhecidos desde o século XVI) e aos macaenses "ou-mun kuâi" (diabos de Macau). (...)"

quarta-feira, 13 de março de 2019

A Flora de Macau e uma exposição em 1882

Uma das vertentes da intensa actividade científica do professor e botânico Júlio Augusto Henriques (1838-1928) foi a organização de um Museu Botânico “com a finalidade de dar a conhecer a utilidade do estudo do reino vegetal”.
Neste museu estavam representadas as então possessões portuguesas ultramarinas, incluindo os longínquos territórios de Macau e Timor, com particular destaque para as colecções de Macau e Timor de 1880-1882.
O envio destas remessas para a Universidade de Coimbra terá resultado da solicitação dirigida pelo Professor Júlio Henriques ao antigo aluno da Universidade e Secretário-geral do Governo de Macau e Timor, José Alberto Homem da Cunha Côrte Real.
Júlio Henriques pretendia obter para o Herbário da Universidade, exemplares da flora de Macau e para o Museu Botânico, artefactos fabricados com matérias vegetais daquela região (ex.: amostras de tecidos, esteiras, chapéus, mobiliário, etc.). Na mesma altura, José Alberto Côrte Real foi, também, encarregado pelo Governador da Província de Macau e Timor (Joaquim José da Graça) de reunir amostras de produtos industriais desta província e outros objectos com destino ao Museu Colonial de Lisboa. Para cumprir o pedido do Governador e, ao mesmo tempo, satisfazer a solicitação do professor de Coimbra, José Alberto Côrte Real reuniu, com o auxílio de uma comissão constituída por vários cidadãos, uma importante colecção de artefactos de uso corrente derivados de matérias-primas vegetais comummente utilizadas em Macau.
Segundo José Alberto Corte Real em declarações publicadas no Boletim da Provincia de Macau e Timor de 28 de Junho de 1880 “este passo dado no caminho do progresso pode contribuir para que se estabeleçam relações commerciaes com a metropole e se desperte o desenvolvimento de industrias de utilidade popular” Assim, a colecção foi exposta no Leal Senado antes de ser enviada para a Metrópole.
O material enviado foio acompanhado de uma extensa e cuidada lista de todos os objectos, com informação acerca da respectiva utilização, preço e dos nomes populares em língua chinesa. Por último, os objectos que não existiam em duplicado, continham indicação do seu destino: Museu Colonial ou Museu de Coimbra.
A primeira remessa chegou a Portugal em Agosto de 1880 e integrava unicamente exemplares de Macau (cerca de 500 objectos); a segunda foi recebida em Março de 1882 e era composta por 130 objectos de Macau e Timor.
Em Coimbra, esse material foi dividido nas colecções de Botânica e Antropologia e ambas integram actualmente o acervo do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra.
O Instituto de Coimbra foi uma academia científica, literária e artística fundada em Coimbra em 1852, no contexto da Regeneração, e que se manteve em actividade até 1982. No âmbito das actividades publicaram um jornal científico e literário anual denominado "O Instituto: jornal scientifico e litterario". No Vol. 30 segunda série. Julho de 1882 a Julho 1883, encontramos um artigo sobre a exposição em que esta publicação se baseia num outro artigo publicado num jornal Macaense a 28 de fevereiro de 1882.

terça-feira, 12 de março de 2019

Vista do jornalista José de Freitas à China: 1964

Entre 6 e 22 de Abril de 1964 o jornalista José de Freitas, do “Diário Popular” viajou pela China ao serviço daquele jornal tendo publicado inúmeros artigos. José de Freitas já conhecia Macau e publicara em 1941 “A China Antiga e Moderna” pela Biblioteca Cosmos, dirigida por Bento de Jesus Caraça. Filho de uma das lendas do jornalismo republicano da primeira metade do século, Amadeu de Freitas, José seria porventura o mais sinólogo dos jornalistas portugueses da década de 1960, e não escondia a simpatia pelo regime chinês.
As quinze crónicas - "Viagem num Mundo Diferente" - sobre a viagem à China foram redigidas já em Lisboa e publicadas no Diário Popular, sempre com destaque de primeira página, a partir do dia 7 de Maio e até ao dia 26. Freitas publicaria ainda um livro sobre esta viagem intitulado “A China Vence o Passado”.
Edição de 21 de Maio de 1964

O pedido de visto para José de Freitas ir à China foi feito em 1963 e só seria aceite um ano depois. Portugal e China não tinham relações diplomáticas. De um lado estava Salazar, do outro Mao que, segundo Freitas, "estava em todo o lado". Entre as inúmeros restrições impostas, nomeadamente de fotografar, José de Freitas foi obrigado a ter um “acompanhante jornalista”, Choi Hong Seong, que serviu de intérprete e guia. 
Ainda assim, escreveu numa das crónicas: "Visitei a China como jornalista independente, alheio a quaisquer combinações, sem a subordinação dos convites, exclusivamente com dinheiro do meu jornal." E... "Durante a minha estada na China deram-me sempre muito mais jantares do que notícias".
Um dos episódios desta visita mereceu chamada de capa numa das edições do DP, a 21 de Maio de 1964 (imagem acima) com o título "Uma Explosão Atómica parecia o temeroso espectáculo a que assisti na imensa planície chinesa de Hopei". O episódio ocorreu a 12 de Abril e deu-se quando o jornalista viajava de comboio em direcção a Pao Ting.
"Quase na linha do horizonte, não posso precisar a quantos quilómetros de distância, formara-se uma nuvem mais cinzenta do que o próprio céu cinzento, a destacar-se, com contornos nitidamente limitados, claramente definidos. Tinha a vaga forma de um cogumelo. (...) Dentro da própria nuvem havia laivos negros. (...) Depois do cogumelo grosseiro, era uma cunha, como se fora um triângulo suspenso no céu, para mudar de tamanho e tomar o aspecto de uma bola achatada. Parecia que dentro da nuvem – no seio da própria nuvem – havia uma força inteligente que a domava e afastava ou aproximava de nós, a movia no espaço para um lado, para outro, dando-lhe sempre formas variadas e singulares. (...) O estranho fenómeno, o cogumelo, o trágico cogumelo, estava agora cada vez mais negro, raiado de preto. Depois agitou-se num vaivém e desfez-se. O espectáculo singular demorara pouco mais de cinco minutos."

segunda-feira, 11 de março de 2019

Primeira embaixada europeia à China

Primeira embaixada europeia à China: o boticário e embaixador Tomé Pires e a sua "Suma Oriental" da autoria de Armando Cortesão com actualização e revisão do texto João Carvalho e tradução de Li Fei. Texto bilingue em português e chinês. Edição Instituto Cultural de Macau, 1990. 
Trata-se de uma reedição bilingue a partir de um original de Armando cortesão editado em Lisboa em 1945 pelos Cadernos da Seara Nova.

Tomé Pires (ca. 1465 - ca. 1540) foi um boticário português que viveu no Oriente durante o século XVI. Foi autor da Suma Oriental, a primeira descrição europeia da Malásia e a mais antiga e extensa descrição portuguesa do Oriente. Em 1516 partiu como o primeiro embaixador português enviado à China na frota de Fernão Pires de Andrade. Foi também o primeiro chefe de uma missão diplomática oficial de uma nação europeia na China.

domingo, 10 de março de 2019

Chonca, Talu, Bafá



"Três Jogos Populares de Macau: chonca, talu, bafá"  de Ana Maria Amaro, ICM, 1984.

O grupo dos macaenses que é verdadeiramente original, fruto de polihibridismo, um isolado parcial por homogamia, manteve padrões culturais muito característicos, provenientes dos mais remotos pontos da Terra e não apenas da China e de Portugal, como muitos, erradamente, supõem.
Testemunho dessa cultura tão híbrida e tão rica como o fundo genético dos macaenses são, por exemplo, os seus jogos tradicionais, hoje praticamente perdidos em crescente diluição, principalmente nos novos padrões importados do ocidente.
Neste trabalho são estudados três antigos jogos macaenses que se mantiveram vivos quase até aos nossos dias: a chanca, jogo africano, cujo nome parece apontar para uma introdução via Malaca e cuja estrutura, por outro lado, nos leva a admitir a influência dos escravos africanos; o talu, jogo que, pelo menos, ainda no século XVIII era praticado em Portugal e que supomos ter sido introduzido em Macau pelos padres jesuítas, devido à origem do nome, que perdurou entre os macaenses, e o bafá, uma curiosa adaptação dum jogo de cartas chinês, que nos revela até que ponto as antigas nhonhas macaenses ignoravam o dialecto cantonense, ou, pelo menos, sobre-estimavam o português, utilizando o seu sab'roso patois, mesmo quando adoptavam um passatempo das suas velhas amas.
 Emissão filatélica de 1989

sábado, 9 de março de 2019

Correio Registado: 1898

Esta carta foi registada em Macau a 21 de Abril de 1898 e tinha como destino Hong Kong onde chegou no dia seguinte. Foi dirigida à empresa Graça Co. que se dedicada ao comércio de selos e bilhetes postais. Tem ainda a particularidade de incluir selos feitos nesse ano para celebrar os 500 anos da viagem de Vasco da Gama à Índia.

sexta-feira, 8 de março de 2019

A 'Cidade China' há cem anos

Até ao fim do século XIX notava-se, com clareza, a delimitação de Macau em duas cidades relativamente distintas: a cristã ou europeia e a chinesa. A primeira, com habitações e palacetes de arquitectura portuguesa, os seus jardins e árvores de fruta ocidentais, espalhava-se pelo centro e sueste da península, à volta das igrejas e conventos antigos, na parte que antes formava o velho burgo "intra muros". O contínuo repique dos sinos, desde as Avé-Marias do alvorecer até ao toque das almas, às 21 horas, o retumbar dos tambores e o soar dos clarins dos quartéis da guarnição, davam a Macau uma fisionomia que a diferenciava de outras urbes da região, "onde predominava (e predomina) o espírito prático dos ingleses (e chineses) e em que a actividade comercial absorve todas as outras manifestações de vida".
Fora dessa área da pólis, mosquejavam as chácaras ou quintas dos macaenses ricos e dos estrangeiros, a sul, entre a Barra e o Nilau (Penha) e, ao norte, na Flora, Cacilhas, Solidão e D. Maria II, bem como as colónias balneares da, já aterrada, Areia Preta. Que as (pelo menos) dez estâncias da Ilhas da Lapa, donde provinham legumes e carne, haviam sido abandonadas, cerca de 1764. As chácaras mais importantes, dentro da península, eram a de S. José (ou do Manochai), a de Santa Sancha, a de Maria Filipa, a Leitão (esta, em frente do cemitério dos Parses) e a das Madres Canossianas (na Areia Preta). Havia também as Hortas da Mitra, do Patane, do Volong (até 1894), da Companhia, do Bom Jesus, dos Mouros e o Horto do Espírito Santo.
A "cidade china" abrangia a orla ribeirinha do Porto Interior, desde o pagode da Barra ao de Lin-fông, penetrava no Bazarinho e na Rua da Alfândega, no Bazar e em S. Lázaro, e espraiava-se até à colina de Mong-há, incorporando e engrossando as três aldeias, de agricultores e pescadores do arrabalde nortenho.

Em cima a Igreja de S. Domingos numa ilustração de George Chinnery. Em meados do século 19 onde se podem ver chineses a fumar ópio, jogadores, mercadores que fazem das bancas mesas de jogo, venda ambulante, camponeses com gado, senhoras de dó que vão à Igreja acompanhadas de criados que carregam um guarda sol. Nesta época a "cidade cristã" estava dividida da "cidade china", cuja fronteira começava logo detrás da Igreja de S. Domingos.
Pela mão de quatro guias coevos (Manuel de Castro Sampaio, o brasileiro Henrique C. R. Lisboa, o Conde de Arnoso e Bento da França), vamos percorrer os bairros chineses de Macau de há cerca de um século, fixando-nos no tipo dos seus habitantes, no seu trajo, casas, alimentação, usos e costumes. No percurso descritivo, teremos ocasião de observar que, em determinados quarteirões, como o Manduco, faldas do Monte (Si-shén = monte dos dióspiros), Travessa dos Diabinhos (hoje dos Anjos) e principalmente S. Lázaro e S.to António as comunidades portuguesa e chinesa conviviam, paredes meias, em boa harmonia.
Entre os grupos étnicos ou sub-raças que povoam a província do Kuongtông, assinalam-se, por ordem decrescente em número e importância, os Han, os Lai (da ilha de Hainão, afins dos Tailandeses), os O, os Miu ou Meao (que predominam no norte do Laos), os Yueh, os Wui, os Chong e os escassos Keng. 
Em Macau, encontram-se exemplares de todos, mas sobressaem os Han, chineses mais puros, que desceram do norte e se miscigenaram com os Yueh (196 a. C.) e os malaios da costa, durante a dinastia Han Posterior (25-220 p. C.). Falam o Punti (nativo) ou cantonense, língua somente oral, que era mais castiça no povo das cidades e campos dos distritos de Cantão e Siu-hing (Kou-yiu). A actual democratização do ensino, porém, nivelou mais a pronúncia, mormente nos grandes centros urbanos: Cantão, Fat-shán, Macau e Hong Kong.
Apresentavam os cantonenses (Han), há um século, face carnuda, tez trigueiro-pálida, lábios grossos e descorados, nariz achatado, pupilas escuras ou castanhas em olhos de amêndoa, barba rala e cabelo preto e luzidio. O regime alimentício e a higiene europeias, todavia, têm-lhes esbranquiçado a pele, suavizado gradualmente as fisionomias e aloirado levemente o próprio cabelo. Por imposição dos Manchus, os chineses rapavam o cabelo à navalha, excepto desde o alto da cabeça à nuca, onde o deixavam, formando o rabicho, que um retrós negro apertava na extremidade e tornava mais longo. Enquanto trabalhavam, os operários, criados e tancareiras enrolavam o rabicho em volta da cabeça e as últimas cobriam-se com um lenço.
As senhoras de distinção apanhavam o cabelo todo atrás, entufavam-no, erguiam-no em forma de duas asas, junto às orelhas, e prendiam-no com um travessão de prata ou oiro (penteado de borboleta). As mulheres solteiras enfeixavam o cabelo numa trança que lhes descaía pelas costas abaixo. Com frequência, prendiam-no num botão, do lado direito do fato.
Muitos dos chinas ricos de Macau eram mandarins honorários, que aqui se tinham acolhido de guerras civis ou na sua reforma. Isto mesmo aconteceu, em Kowloon, com os oficiais civis e do exército chineses, após 1911. Vestiam aquelas cabaias compridas de seda, calção do mesmo tecido, meias de algodão fino e sapatos de seda preta, com base alta de papel branco, fazendo bico na ponta. De inverno, enfiavam sobre a cabaia um gabão, acolchoado com algodão em rama (min-nap). Ordinariamente, quando saíam à rua, faziam-se transportar em cadeirinhas ou liteiras, algumas delas de luxo, que dois ou quatro cules carregavam aos ombros, por meio de dois varais de marmeleiro seco ou pingas.
As damas de distinção sobressaíam pelas cabaias de "mangas perdidas" ou muito largas, pelo corte mais elegante da roupa e pelo abuso dos cosméticos e jóias, sobretudo de jade.
Os trabalhadores e lojistas trajavam calças largas de ganga preta ou de côr, caminhavam descalços e de tronco nu, durante o verão, e andavam em cabelo. Os cules usavam chapéus de palha de grande circunferência (tudum) e serviam-se de alpercatas sem meias.
As mulheres de classe baixa vestiam a cabaia curta (blusa) de ganga preta ou azul, e calças folgadas da mesma fazenda. Quase todas andavam descalças, costume que hoje abandonaram.
O sombreiro ou guarda-chuva era de papel oleado, com armação de bambu e cores garridas, como nas clássicas aguarelas japonesas, mas já se iam então introduzindo chapéus de sol europeus.
As habitações da "cidade china" de Macau, há um século, eram de um ou dois andares, sem luz nem ventilação suficientes. As casas ricas assemelhavam-se umas às outras, na traça. No exterior, rodeava a vivenda um muro alto de pedra ou tijolo. Formavam, às vezes, o portal de entrada três arcos consecutivos de cantaria, ou madeira esculpida. Vinha depois o vestíbulo, ao fundo do qual se abria outra portaria tríplice, que dava acesso a um pátio, onde estavam as salas de visitas. Sucessivamente em vários corpos de edifícios, desenvolviam-se os apartamentos para habitação, intermeados de implúvios quadrados, com árvores miniaturais (p'un-ch'oi) e um tanque de água e correspondendo-se por corredores de portas circulares. Os aposentos destinados às mulheres situavam-se sempre nos pavilhões mais recuados.
Os pobres residiam nos subúrbios, em barracas com muros de adobes e tectos de palha. Nas partes alagadiças de Sank'iu e Sá-Kóng, levantavam-se tugúrios em estacaria. As tancareiras e suas famílias, originárias de Fu-Chau, ocupavam o escalão ínfimo da sociedade. Viviam confinadas aos seus barcos, ancorados no Porto Interior ou na Praia Grande, com os filhos, maridos (que podiam trabalhar na cidade), cães, galinhas, porcos e cozinha.
O Bazar era um amontoado de ruas tortuosas e estreitas, muitas das quais perduram hoje, moradias baixas e coladas umas às outras, numa irregularidade que perturba a vista, pelos inúmeros paus, tabuletas, roupas a secar, cordas e utensílios de toda a espécie, dispostas nas fachadas ou atravessando as ruas ao alto.
A densidade altíssima da população, a continuidade das casas, com janelas apenas na frontaria, a estreiteza das vias públicas, a promiscuidade em família de homens e animais, a falta de separação entre bairros comerciais e de residência, a avidez de aproveitamento de quase todos os rés-dos-chãos para o negócio e o atávico desleixo e pouco asseio dos chineses, à sua volta, transformavam a sua enorme área habitacional numa emanação constante de cheiros de almíscar, ópio, verniz, azeite e sobretudo peixe e esterco. Ainda hoje, a passagem, pela Travessa do Soriano, Rua dos Mercadores, Beco das Caixas e outras artérias, tem de fazer-se depressa e de nariz tapado...
"A mobília das habitações chinesas tinha uns longes da que no século XVIII se usava na Europa. Ostentavam-se ali belos móveis, magníficas madeiras, mármores notáveis, relevos, recortes e doirados primorosos, pois em obras de talha têm os chins muita perícia".
Nos talhos, viam-se suspensas as grandes peças de carne e as aves, já sem penas. Debaixo de toldos, na rua e ao lado de bancos, preparava-se o chá e cozinhava-se em fogareiros, como nas tascas das romarias. Vendedores ambulantes apregoavam frutas, as belas lechias, de cor de tijolo como os abrunhos e com o delicado sabor de uvas moscatéis. Outros apregoavam hortaliças. Um formigueiro de chinas atulhava as ruas numa grande azáfama. De vez em quando, elevava-se a uma grande altura um hão, casa de penhores, (como) a do sr. Chung-Volong que tinha nada menos de seis andares. No pavimento térreo, estavam os empregados ocupados na escrituração; os cinco andares para onde se subia por uma estreita escada, não tinham nenhuma divisória e eram, em toda a sua extensão, ocupados de alto a baixo e a todo o comprimento por filas paralelas de magníficos armários de madeira, onde se conservavam os penhores. Entre cada fila, havia apenas o espaço necessário para dar serventia aos armários. Estas casas eram tão bem organizadas, que mesmo gente que não necessitava de dinheiro, depositava nelas, nas diferentes estações, para melhor os conservar, os vestuários de que não precisava. Os ferros-velhos ou tin-tins lembravam as instalações da nossa feira da ladra, em Lisboa.
Os colaus, casas de pasto, tinham largas e luxuosas escadarias e os espelhos dos degraus sempre dourados. Havia alguns que eram ao mesmo tempo hospedarias, pois dispunham de quartos para dormir. Era nos colaus que os chinas faziam as suas parties fines. Os criados gritavam do cimo da escada os nomes das iguarias escolhidas, tal como quem diz: "Sala meio bife!"
Eram numerosas as casas de fan-tan. Iluminadas com balões e lanternas, estavam abertas durante todo o dia e até à meia-noite. Os chinas ricos e os europeus, para se não misturarem com a gentalha, subiam ao andar superior e jogavam sentados em volta duma balaustrada que se elevava do sobrado roto desse pavimento. O dinheiro das paradas fazia-se subir e descer, em cestos de palha suspensos de cordas, atadas à balaustrada. O arrematante do exclusivo do fan-tan pagava à Fazenda a quantia de cento e vinte mil patacas por ano.
A lotaria do Vae-Seng era também outro vício do china (de há um século, em Macau). Sempre que havia exames de Estado em Pequim e provinciais em Cantão, de 3 em 3 anos, cada bilhete da lotaria incluía 20 apelidos de candidatos. Cada colecção de mil bilhetes formava uma série e cada série constituía uma lotaria com três números. O prémio era ganho pelo bilhete que contivesse maior número de apelidos de candidatos premiados. Havia bilhetes de meia pataca, uma, duas, três, cinco e dez. Com um bilhete de dez patacas, podiam ganhar-se seis mil. Desde que o governo chinês permitiu a venda dos bilhetes em Cantão, o arrematante do Vae-Seng em Macau pagava apenas trinta e seis mil patacas anuais (ao governo português).
Prosperavam, então, neste Território, várias indústrias: bastantes fábricas de chá, que faziam excelente negócio, uma de tabaco, uma de cozedura de ópio, a de cimento da Ilha Verde e três de desfiar seda, a maior das quais era a Hap-Keng-Lun, em que se empregavam quatrocentas e tantas mulheres. Isto fez baixar consideravelmente o número das infelizes que se entregavam à prostituição. A pesca e a salga de peixe ocupava em Macau, nas últimas décadas do século XIX, pelo menos dez mil pessoas e o seu valor elevava-se em cada ano a oitocentas mil patacas.
Exportavam-se, finalmente, para a Europa "as tranças cortadas aos cadáveres dos chinas", donde se fabricavam cabeleiras postiças. Havia ainda um clube chinês para fumar ópio, que o Conde de Arnoso descreve com pormenor.
A alimentação dos chineses de Macau, nos fins do século passado, constava de tim-sâm (despertar o coração) ou yam-ch'á (beber chá), pela manhã, nas "casas de chá" ainda existentes na Rua Nova de El-Rei (Cinco de Outubro), de duas refeições cheias, uma por volta do meio-dia e outra cerca das 18 horas, e do siu-yé (noite alta), antes de deitar e depois do jogo do mahjong.
O chá da manhã (hoje europeizado pelo café)era uma ocasião de convívio com amigos, parentes e sócios, em andares pejados de comensais, que falavam mais em voz alta do que propriamente comiam. Tomava-se canja e, entre libações de chá sem açúcar, provavam-se bolinhos de camarão, de carne picada, ma-t'ai-cou, ló-pá-cou (bebinca de nabos), arroz "glu-glu" (nó-mai) com recheio de galinha, etc., ser-vidos aos quatro, em cestinhos redondos de vime e trazidos em carros de rodas. Ainda hoje, o delicioso yam-ch'á é assim. As duas refeições principais compunham-se, como ainda hoje, de arroz cozido em banho-maria sem sal, conduto de peixe ou carne e hortaliça, com fruta e caldo quente no fim. Os chineses nunca bebiam água fria, nem comiam carne de animais agrícolas: vaca, búfalo, cavalo. Um acompanhamento apreciado era (e é) o dos ovos gelatinosos, conservados em lodo. Não se usavam toalhas, nas mesas.
Nos dias de festa, a ementa constava de dezenas de pratos (mais do que agora), regados com lipum ou sio-chau (vinho destilado do arroz). Entre as delicadezas mais saborosas, contavam-se: o bicho do mar (hói-sam), que era uma espécie de enguia gelatinosa e curta, as barbatanas de tubarão demolhadas (yue-ch'i), saliva de andorinhas dos Parcéis (yin-vó), pato assado (a que os macaenses sentiam nojo), "borrachinhos" cozidos em molho de sutate (especialidade do restaurante Fat-Sio Lau), etc..
Não desdenhavam os chineses de certos pratos macaenses, sobretudo dos seus doces, como o baji (arroz doce à indiana), ondi-ondi (bolinhos de farinha recheados de jagra), alua (bebinca de unto de vaca), camalenga (abóbora ralada e açúcar candi), os fios de ovos ("cabelos de anjo") que Mme. Phaulcon levou para a Tailândia, etc..
As festas do Ano Lunar, que duravam duas semanas, a procissão do deus da guerra (Kuan-Tai), do Cheng Meng (5 de Abril) e do Chông Yeung, dos barcos Dragões e do Bolo Bate-Pau, os galos de porcelana nos telhados contra a formiga branca, os mendigos, o auto china, as visitas aos templos, o hotel de Pedro Yen-Ke, com quartos especiais para os ingleses se embriagarem nos fins-de-semana, os combates de grilos e de galos (estes trazidos da Indonésia) e outras muitas coisas mais, pouco ou nada mudaram, desde então.
Se acabaram os rabichos e os pés descalços, dum modo geral, também desapareceram a elegante cabaia comprida, que um modista de Xangai modernizara para as senhoras, os sapatos de seda e tantas modas chinesas de outrora.
Em 1878, fez-se um recenseamento, que atribuiu a Macau 68.086 habitantes, mas que Bento da França crê subiriam a 100.000. O tráfico dos cules chineses, de 1851 a 1874, deu aos agentes espanhóis, peruanos e cubanos fortunas rápidas e colossais. Após a última data, porém, a animação e prodigalidade dos europeus (as senhoras, como a baronesa do Cercal, chegavam a mudar de vestido e toilette três vezes numa soirée, como praticam ainda as noivas chinesas, no banquete de núpcias) esmoreceram muito.
Cédula de um cule de Macau: 1876
A "cidade china" principiou a dar o tom, a côr, o gosto e a azáfama dominantes à velha urbe. Os locanes, aquartelados principalmente no antigo convento de S. Domingos, completavam a falta de praças europeias. Usavam o sapato e a meia china apolainada, calção largo e azul, casaco da mesma fazenda, largo também e apertado por um cinturão. Na cabeça traziam o chapéu de palha chinês, com as armas reais pintadas na frente e as palavras "Guarda Policial de Macau". A tiracolo, uma espingarda "Remington". Deste quartel, situado no centro da "cidade china", se originou o nome cantonense Yeng-Tei Kai (Rua do Quartel), por que é conhecida a Rua dos Mercadores.
Artigo (texto em itálico): "A 'Cidade China' há cem anos", da autoria de Benjamin Videira Pires, publicado na Revista de Cultura, Vol. 2, nº 7/8 (Outubro/Março 1988/1889).