segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Novas obras de Lio Man Cheong

Lio Man Cheong, um dos mais conceituados pintores da actualidade em Macau, elaborou recentemente uma série de novos trabalhos - aguarelas - dedicada à indústria dos panchões. Outrora foi uma das mais significativas no território mas hoje desaparecida resta apenas uma fábrica desactivada,  a Iec Long, na Taipa.
Nascido em 1951 em Zhuhai (China), Lio Man Cheong vive em Macau desde criança (chegou com 10 anos). Começou a expor o seus trabalhos na década de 1970. Do seu currículo faz ainda parte - até à década de 1990 - a elaboração dos anúncios de grandes dimensões usados pelos cinemas locais para anunciar os filmes em exibição.
Sugestão: 
Curta-metragem "Iec Long", de João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata.
Short film "Iec Long" by João Pedro Rodrigues and João Rui Guerra da Mata.
"For Iec Long, we worked with real elements: archival imagery, historical documents, anthropological and cultural research... But first and foremost we're storytellers, we work from within our own experience. On one hand, documentaries continue to play an important role on defining, exposing and transforming social realities, but on the other hand, we find storytelling through image and text most riveting when films, which may incorporate the essential qualities of traditional documentaries, are not fully objective and neutral. And don't fully transmit the truth, because the idea of an inherent truth is in itself a fallacy.." 
The directors JPR and JRGM.
O processo de produção tinha mais de uma dezena de fases, muitas delas em modo artesanal e num contexto de condições precárias em que jovens mulheres e crianças trabalhavam manuseavam o material explosivo como forma de sustentar as famílias.


domingo, 10 de fevereiro de 2019

Two Years in China: Narrative of the Chinese Expedition

"Two years in China: narrative of the Chinese expedition, from its formation in April 1840, till April 1842; with an appendix, containing the most important of the general orders & despatches published during the above period" é um livro da autoria de Duncan McPherson MD (médico). Edição Saunders and Otley, 1842 .
O livro aborda o período de Abril de 1840 a Agosto de 1842, relativo à 1ª Guerra do Ópio (1839-1842) que terminou com a assinatura de um tratado de paz, o Tratado de Nanqing (Nanjing), a 29 de Agosto de 1842, entre as autoridades britânicas e o imperador chinês.
Duncan testemunhou os acontecimentos destes anos enquanto cirurgião integrado na "37th Madras Native Infantry", um dos vários regimentos de infantaria que sob comando de oficiais britânicos e constituído por soldados indianos defendia da presença dos britânicos na Índia e os interesses da Companhia Britânica da Índia Oriental que praticamente controlava o comércio entre a Ásia e o Ocidente.
Excerto do cap. 6 relativo a Macau:
This city as has already been remarked is built on the peninsula of an island called by the Chinese Gowman. The extreme breadth of the Portuguese settlement is about three quarters of a mile and its length three miles. The chief beauty of the town consists in a long line of well built houses on the beach with a broad walk in front called the Pria Grande. On the heights above the town forts are built which certainly have the appearance of strength from without but a glance into the interior which the Portuguese are not fond of granting will at once convince the most superficial observer that they would soon yield even to a small nine pounder battery.
True there are large guns in their forts but like those of the Chinese they have vent holes large enough to allow the thumb to enter and their gun carriages would certainly tumble to pieces in the first fire. The British merchants are the sole prop and support of the town independent of the maney circulated by them two thirds of the revenue is derived from a tax levied upon their goods and property. The Chinese authorities exercise supreme sway over the city. In a few hours they have the power of stopping all supplies not a house can be built nay even a door cannot be made to communicate between one house and another without first obtaining the permission of the resident mandarin to do so Robberies and assaults are of common occurrence in the city but no redress can be obtained the Portuguese hand the party over to the Chinese authorities who in return refer them to the Portuguese.
The majority of the Portuguese inhabitants are the most miserable looking beings possible. From constant intermarriages with the Chinese it is with difficulty that the natives of the two separate countries can be distinguished and with the exception of the governor and his staff there is not one family with whom the English associate.
Litogravura meados século 19
There are about three hundred soldiers in the town all of whom originally came from Goa and other Portuguese settlements in India. They are respectful and well dressed The pay their officers receive appears miserably small in our estimation though they themselves live very comfortably on it. An ensign receives eight dollars a lieutenant ten and a captain twenty dollars a month besides perquisites. The greatest attraction in Macao is Mr Beale's aviary where the noble bird of paradise is seen This bird has been in Mr Beale's possession for upwards of twenty years Another place worth visiting is Camoens Cave It is situated in the centre of a large garden and is formed by several immense piles of granite rocks thrown as if casually together a large hollow space being left in the centre It was here that Camoens composed the Lusiades An inscription over his tomb denotes that he was born in 1524 and died in 1579.

sábado, 9 de fevereiro de 2019

Digressão à China do SCP no Verão de 1978

A propósito do post de ontem relativo ao reatamento das relações diplomáticas entre Portugal e China em Fevereiro de 1979, recordo um outro acontecimento que serviu para 'relançar' essas relações diplomáticas: Refiro-me à digressão do Sporting Clube de Portugal* à China, iniciada a 25 de Junho de 1978, a primeira viagem de uma equipa de futebol europeia àquele país.
Para além dos jogadores e equipa técnica, a comitiva integrava João Rocha, presidente do Sporting Clube de Portugal; Veiga Simão, na qualidade de consultor da missão e de ex-embaixador de Portugal na ONU, responsável pelos primeiros contactos pós-25 de Abril com os diplomatas chineses acreditados junto da sede da ONU, em Nova Iorque; e Carlos Ricardo, primeiro-secretário da Associação Democrática de Amizade Portugal-China. Para Carlos Ricardo esta digressão transcendeu "o âmbito desportivo para se fixar no objectivo de uma maior aproximação entre os dois povos".
A digressão ocorreu entre os dias 27 de junho e 10 de Julho de 1978. O jogo entre a selecção de China e o SCP ocorreu a 30 de Junho. Cerca de 100 mil chineses viram no Campo dos Operários em Pequim a equipa portuguesa ganhar por 2-0.
* o SCP tinha uma filial em Macau criada em 1926.

O evento na imprensa portuguesa da época. (clicar para ver em tamanho maior)
João Rocha, chefe da delegação desportiva, levava consigo uma mensagem escrita do primeiro-ministro Mário Soares e do Presidente da República, Ramalho Eanes, para o governo chinês. A delegação foi recebida pelo vice-primeiro-ministro da China e o governador militar da província de Pequim, Marechal Ten Xie Lie
A digressão revelou-se um sucesso mas em Portugal o 2º governo constitucional acaba por ser exonerado a 27 de Julho e o que fora alcançado por via da diplomacia e do desporto teve de ser adiado por mais alguns meses.
Entretanto a China deu outros sinais de empenho: convidou  - foi o primeiro convite do género desde 1950 - o governador de Macau (Garcia Leandro) para as comemorações do 29 º aniversário da fundação da República Popular da China (a 1 de Outubro), celebrou-se um acordo de cooperação entre a Agência Noticiosa Portuguesa (ANOP) e a homólogo chinesa, a Xinhua; e um jornalista português foi convidado a visitar a China. Gonçalo César de Sá foi o jornalista e recordou assim essa viagem num artigo publicado na revista Nam Van, n.º 13 (1.6.1985): “Quando em Novembro de 1978, como convidado da agência noticiosa Nova China, fui recebido em Pequim pelo vice-ministro dos Negócios Estrangeiros, Yu Zhan, era-me dado o primeiro sinal público de que o estabelecimento das relações diplomáticas com Portugal estava iminente."
Com a devida vénia reproduzo parte do Diário (secreto) de Pequim, da autoria de António Graça de Abreu sobre esta visita e que vivia em Pequim na altura:
Depois de vencer o Porto por 2-1, na final da Taça de Portugal aí veio a rapaziada verde a caminho de Pequim. Trouxeram uma grande comitiva, 41 personagens entre jogadores, dois árbitros, fotógrafos, jornalistas e figuras públicas. Como não há ainda relações diplomáticas, foi o PCP (m-l), único partido reconhecido pelo PC chinês, quem mexeu os cordelinhos para a concretização da viagem e, para dar sequência ao trabalho, cá estão os militantes Carlos Ricardo e Mourato Costa, meus amigos nas lides partidárias em Lisboa, com o disfarce de serem dirigentes da ADAPC (Associação Democrática de Amizade Portugal-China). O Eduíno Gomes (Vilar), secretário-geral do PCP (m-l), também é um grande sportinguista. Tudo tem funcionado quase na perfeição. Veio também o Veiga Simão, antigo ministro da Educação de Marcelo Caetano e ex-embaixador na ONU e hoje próximo do PS, como uma espécie de chefe da delegação desportiva, mas com uma missão política semi-secreta, a de entregar uma carta do nosso presidente Ramalho Eanes endereçada ao Hua Guofeng ou ao Deng Xiaoping saudando os homens mais poderosos da China e solicitando os bons ofícios de ambos para o rápido restabelecimento das relações diplomáticas.
O futebol foi divertido, uma vitória de 2 a 0 sobre a selecção da China e um empate 0 a 0 com a equipa de Pequim. Os chineses já dão uns bons chutos na bola e gostei de ver o Estádio dos Operários de Pequim cheio como um ovo, eram mais de 100 mil chineses entusiasmados, a aplaudir. No fim do segundo jogo tive a sorte de regressar do estádio para o hotel Pequim — onde os jogadores e comitiva estão alojados –, viajando no autocarro juntamente com os craques verdes, o Manuel Fernandes, o Inácio, o Laranjeira, o Artur, o Jordão (que chegou de canadianas à China, por estar em recuperação de uma perna partida).
O presidente João Rocha, que percebeu viver eu em Pequim, veio, em privado, fazer-me uma pergunta singular. Queria saber onde poderia comprar uns pós chineses, milagrosos, que faziam maravilhas no revigoramento sexual masculino. Não era para ele, tinha sido o pedido de um amigo. Eu até pensei que poderia ser para dar aos jogadores que assim ocupariam melhor os tempos livres. Creio que se tratava de uma mezinha explosiva elaborada a partir de corno de rinoceronte, produto caro, às vezes falsificado, de facto à venda em farmácias de medicina tradicional chinesa, mas eu não era especialista na matéria. Disse ao João Rocha para falar com os intérpretes da comitiva, eles próprios poderiam tratar da compra da droga benfazeja. Ignoro qual foi o resultado.
No estádio dos operários toda a equipa do Sporting foi recebida e cumprimentada pelo general Chen Xilian (1915-1999), um velho combatente da guerra contra o Guomindang de Chiang Kai-shek (participou na Longa Marcha!) e contra os japoneses, hoje membro do Politburo do Partido Comunista da China, comandante militar de Pequim e um dos vice-primeiros ministros. Tudo isto é sinal da importância que os chineses deram à visita do Sporting, alargando a via que conduzirá em breve ao estabelecimento das relações diplomáticas."
Excerto de notícia da Agência Lusa de 4.2.2019 com declarações de um dos jogadores do SCP que participou na digressão à China.
"Todos olhavam para nós: trazíamos roupas coloridas, cada um tinha o seu estilo, enquanto [os chineses] pareciam todos iguais", descreve assim, o ex-futebolista, Pequim no verão de 1978. Portugal e China não tinham ainda relações diplomáticas, mas quatro anos antes, a Revolução dos Cravos tinha derrubado o regime fascista do Estado Novo, tornando inevitável a aproximação ao país asiático, que se começava então a libertar da ortodoxia maoísta."Nós tínhamos acabado de sair do fascismo, e viemos para um país que era do mais puro socialismo que existia. O mais igualitário que havia", recorda Onofre à agência Lusa. "Roupa, cortes de cabelo, todos de bicicleta; era igual para toda a gente: homens ou mulheres", realça.
A Revolução Cultural (1966-76), radical campanha política de massas lançada pelo fundador da China comunista, Mao Zedong, estava ainda fresca. Durante aquela década de caos, dezenas de milhões de pessoas foram perseguidas, presas e torturadas, sob a acusação de serem "revisionistas", "reacionárias" ou "inimigos de classe", forçando a sociedade chinesa a uma homogeneidade quase absoluta.
A digressão do SCP foi promovida pela Associação Democrática de Amizade Portugal-China, uma organização criada pelo Partido Comunista de Portugal (Marxista-Leninista), o único grupo político português reconhecido então pelo Governo chinês.
Um alto funcionário chinês comparou então o Sporting com a equipa de pingue-pongue americana que foi a Pequim em 1971, abrindo caminho à histórica viagem do presidente Richard Nixon à China, em fevereiro do ano seguinte.
"Os americanos, que jogaram com uma bola pequena, abriram uma pequena porta. Os portugueses jogaram com uma grande bola e abriram uma porta grande", disse o presidente da Associação Chinesa de Amizade com os Países Estrangeiros, Wang Bingnan. O Sporting, que acabara de ganhar a Taça de Portugal, frente ao FC Porto, venceu a seleção chinesa por 2-0 e nos dois outros jogos que disputou na China, ganhou um e empatou outro.
O futebol chinês era ainda uma modalidade amadora e a seleção do país, que não estava sequer inscrita na FIFA, era composta sobretudo por operários.
"Primeiro a Amizade, Depois a Competição", era, aliás, o lema que regia o desporto na China. Ainda assim, "os jogadores chineses corriam sempre atrás da bola" e "davam trabalho exatamente por isso", descreve Onofre, que recorda a viagem, desde Portugal, como uma "aventura". "Saímos ao meio-dia de domingo de Lisboa, chegamos aqui na terça-feira: foram três ou quatro paragens. Na altura tivemos que contornar o Vietname [a guerra tinha acabado poucos anos antes], não podíamos sobrevoar", revela.
O antigo jogador lembra-se de visitar a Muralha da China e o Palácio de Verão, dois ex-libris da China, mas o que mais o impressionou foi a paisagem humana.
"No final dos turnos, na avenida junto à praça Tiananmen, eram milhões de pessoas a sair das fábricas de bicicleta. E havia um outro carro que tinha que se desviar, porque eles iam direitos, naquela tranquilidade deles", conta.
A entrevista à Lusa decorreu em Pequim, para onde Onofre regressou, no ano passado, agora como treinador de futebol numa escola pública da capital chinesa. A pobre e isolada China que o português conheceu no verão de 1978 converteu-se, entretanto, na segunda maior economia do mundo, alargando a classe média em centenas de milhões de pessoas, num ritmo sem paralelo na História moderna. (...)

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Bastidores da diplomacia em torno de Macau

A 8 de Fevereiro de 1979, ao fim de quatro décadas de costas voltadas (desde a subido ao poder do Partido Comunista em 1949) Portuga e República Popular da China restabeleceram relações diplomáticas. O dia não podia ser mais auspicioso, já que na China o número 8 representa muito mais do que um algarismo. Foneticamente a pronúncia da palavra remete para uma outra em chinês, "prosperidade". Acresce que por via disso o 8 é considerado um dos números mais afortunados na numerologia chinesa.
Esse reatar de laços diplomáticos entre dois países que tinham comum Macau há vários séculos dar-se-ia em Paris (8.2.1979 - foto em baixo) quando os embaixadores português, António Coimbra Martins, e chinês, Han Kehua, assinaram o comunicado conjunto sobre o estabelecimento de relações diplomáticas e a chamada "acta das conversações sobre a questão de Macau".
Portugal acabara de ver implantada a democracia pelo que a turbulência política e social era ainda muito forte.  Recorde-se que só a 6 de Janeiro de 1975, Portugal reconheceu o governo da República Popular da China...
Três anos depois, em Janeiro de 1978,  o embaixador chinês em França aborda o homólogo português e propõe que os dois "fossem habilitados a convir nos termos do protocolo oficial que precederia e determinaria a troca de embaixadores, sendo aplanadas as divergências que pudessem surgir." Lisboa acaba por aceitar mas pouco depois cai o primeiro governo constitucional...
Em Junho de 1978 o Conselho de Ministros define Macau como território chinês sob administração portuguesa e a 10 de junho Han Kehua (1919-2013) surge, pela primeira vez, na recepção organizada pela embaixada de Portugal para assinalar o Dia de Portugal.
Segundo António Coimbra Martins (ACM), Macau, um "problema legado pela História (...) deveria ter uma solução apropriada" que passaria por um acordo entre ambas as partes quanto ao princípio da retrocessão ao estabelecerem-se as relações diplomáticas.
O documento viria a chamar-se "ata secreta", ou "ata das conversações havidas em Paris".
Os anos que se seguiram ficariam marcados por muitos episódios complicados... Portugal teve quatro governos entre 23 de Julho de 1976 e 7 de Julho de 1979), um documento que estava a ser negociados pela diplomacia saiu nos jornais... Do lado chinês a instabilidade era vista de lado, mas ACM realça o empenho de Kehua e a sua "constante disponibilidade para a fazermos vingar, o seu caráter determinado e paciente, a sua cordialidade para comigo e a sua simpática sensibilidade ao ponto de vista português".
Ultrapassadas a dificuldades acerta-se a data de 8 de Janeiro de 1979 para assinar os protocolos. Portugal pede alterações ao texto, Pequim acede mas só em alguns pontos. Freitas Cruz, Ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal tem mesmo de ir a Paris. 8 de Fevereiro de 1979 é a nova data agendada e assim foi.
Em Maio de 1985, no decurso de uma visita do Presidente da República Ramalho Eanes a Pequim, a China informou Portugal que desejava abrir negociações para discutir o estatuto de Macau. Em Abril de 1987 os dois países assinam a denominada "Declaração Conjunta", a que se segue um processo de transição que terminaria com a cerimónia da transferência de soberania a 20 de dezembro de 1999.
Feita esta contextualização reproduzo um excerto de um artigo da autoria de Bárbara Reis publicado no jornal Público a 30.4.2017 (excepto imagem e respectiva legenda).
O antigo Hospital de S. Rafael (esq.) tornou-se após 1999 o consulado de Portugal em Macau e o antigo hotel Boa Vista (dta.) passou a residência do cônsul de Portugal em Macau e Hong Kong. Únicos dois espaços considerados actualmente 'território' português.

«As negociações sobre a transferência de Macau duraram nove meses e, para Augusto Santos Silva, são “um marco na história diplomática de Portugal”. E ajudaram, 30 anos depois, a eleger António Guterres secretário-geral das Nações Unidas. Tudo podia correr mal. Era essa a convicção do lado português quando, a 30 de Junho de 1986, começaram as negociações com a China para discutir a transferência de poderes de Macau.
Portugal perdera o “hábito de contactar as autoridades da China”, lembrou há dias João de Deus Ramos, um dos diplomatas que integraram a delegação portuguesa. E além disso as posições de ambos eram muito distantes, havia pouco tempo para negociar e o “posicionamento emocional era o oposto: a China ia ganhar um novo território e Portugal ia perdê-lo”.
Entre a chegada ao poder de Mao Tsetung na China (1949) e o 25 de Abril em Portugal (1974) as relações diplomáticas estiveram cortadas. E mesmo após o fim do Estado Novo, foram precisos cinco anos para Lisboa abrir a sua primeira embaixada em Pequim. Era tal o afastamento que, nos correios, ninguém sabia onde era Putaoya (Portugal em mandarim) e alguns telegramas diplomáticos foram para o lixo.
A primeira coisa a fazer era estudar. “Entre 1979 e 1985, quando o Presidente Ramalho Eanes visita a China, a nossa aprendizagem é muito lenta”, contou o diplomata numa conferência no Museu Oriente sobre a assinatura, faz hoje 30 anos, da Declaração Conjunta Luso-Chinesa sobre o Futuro de Macau, que estabeleceu os termos da transferência de soberania do território. É nessa visita que Pequim diz formalmente que quer iniciar as negociações. Em Portugal, onde a opinião pública é apanhada de surpresa, o Governo começa a preparar-se. O embaixador Rui Medina (1925-2012) é escolhido para chefiar a delegação, que inclui, além de João de Deus Ramos, Nuno Lorena, cônsul-geral em Hong Kong, José Henriques de Jesus (delegado do primeiro-ministro Cavaco Silva) e Carlos Gaspar (delegado do Presidente Mário Soares). Octávio Neto Valério, embaixador de Portugal em Pequim, era consultor, e António Vitorino, então secretário-adjunto do governador de Macau, estava no backoffice para o trabalho jurídico.
Os "velhos amigos" e outros truques
“É nessa altura que o Rui Medina traz livros, pareceres do arquivo do ministério e um opúsculo sobre as tácticas negociais chinesas”, conta João de Deus Ramos. O livro, Chinese Political Negotiating Behavior 1967-1984, é escrito por Richard Solomon, ex-funcionário do Conselho de Segurança Nacional norte-americano, e foi publicado pelo think-tank RAND em 1985 para ajudar o Departamento de Estado. Classificado como secreto, foi parcialmente desclassificado dez anos depois na sequência de um processo judicial do Los Angeles Times no âmbito da Lei de Acesso à Informação. Solomon diz que as técnicas de negociação chinesas bebem da tradição ocidental e da cultura marxista-leninista, mas que as “qualidades mais distintivas são baseadas na cultura chinesa”. A mais singular é “o esforço para desenvolver e manipular relações interpessoais fortes com os negociadores estrangeiros - um padrão a que chamamos ‘jogos de guanxi’ ou jogos de relações”. Esta abordagem vem da tradição confuciana aplicada à política. “Os chineses desconfiam de negociações impessoais e legalistas. Por isso, identificam um interlocutor simpático e cultivam uma relação pessoal, uma espécie de amizade (you-yi), e a seguir tentam manipular sentimentos de boa vontade e obrigação, culpa ou dependência para conseguirem o que querem”, escreve Solomon.
Os chineses são “muito bons” a fazer duas coisas, sublinha: arrastar as negociações e resistir a expor a sua posição até saberem exactamente qual é a do adversário. Há outras características-padrão: tentam sempre que as negociações sejam em território chinês e “orquestram a hospitalidade meticulosamente”. E tácticas de pressão clássicas: tentam sempre pôr o interlocutor na defensiva e a sentir que não tem controlo sobre o processo. E “são peritos em colocar os estrangeiros numa posição em que parece que são eles [e não os chineses] que estão a pedir alguma coisa”. Além disso, depois da cartada do “amigo” apresentam-se como vítimas. “A principal característica das suas tácticas de pressão é fazer o negociador estrangeiro sentir que a sua relação de amizade com a China está em risco, que ele não fez o suficiente para ser considerado um ‘velho amigo’.” Um dos conselhos do opúsculo é este: “Resiste à lisonja de ser chamado ‘velho amigo’ ou ao sentimentalismo que a hospitalidade chinesa suscita.”
"Todos lemos o opúsculo e quando as negociações começaram estava de facto lá tudo”,
contou João de Deus Ramos na conferência organizada pela Fundação Oriente, o Instituto Português de Relações Internacionais da Universidade Nova de Lisboa e o Instituto Diplomático do Ministério dos Negócios Estrangeiros. “Mas nós caímos à mesma naquela conversa do ‘meu velho amigo’; ‘isto é apenas a minha opinião pessoal’; não se chega à conclusão de nada numa reunião, fica tudo para a próxima; quando queremos adiar, eles mostram pressa; quando queremos fechar, eles adiam. Os negociadores chineses são muito bons.”
Mas nestas negociações - que a 13 de Abril de 1987 acabaram por abrir um novo ciclo nas relações diplomáticas entre os dois Estados - havia duas coisas a favor de Portugal.
Uma era o valor político de Macau. “Como é óbvio, os chineses são o que são, e nós aqui pequeninos à beira-mar plantados. Mas em relação a Macau, a assimetria era diferente. Para a China, resolver Macau era uma questão crucial, de unidade do Estado. Nós sabíamos que eles estavam com a cabeça na guilhotina. Macau era mais importante para a China do que para Portugal”, disse Carlos Gaspar na conferência.
A pressa de Pequim
O outro factor era o tempo. Queriam tudo resolvido em dois ou três meses, pois tinham o XIII Congresso do Partido Comunista Chinês desse Outono como horizonte. Em 1984, a China tinha negociado com o Reino Unido a transferência de Hong Kong - que ficara marcada para 1997 - e queria “fechar” Macau o mais depressa possível. “Os chineses tinham pressa e tinham um calendário: Setembro de 1987. Nós dizíamos: ‘Mas qual é a pressa?’”, contou Gaspar.
Portugal viu nesta urgência uma vantagem negocial. Para Lisboa, a data era irrelevante. “Desde 1976 que tínhamos resolvido a questão, ao reconhecer que Macau era território chinês sob administração portuguesa. O que queríamos era garantir o melhor estatuto para a população local”, contou António Vitorino, ex-comissário europeu e ex-ministro da Defesa.
Na primeira ronda - em Pequim, claro - os chineses propuseram que a transferência fosse feita em simultâneo com Hong Kong. “Mas a única data que não aceitávamos era que fosse a de Hong Kong”, conta Gaspar. Era uma questão política e uma questão de honra. A data de Hong Kong não tinha nada a ver com Portugal, mas sim com os tratados entre Londres e Pequim. E as relações entre Portugal e a China eram autónomas, não um prolongamento do imperialismo britânico.
Foi a primeira surpresa dos chineses. Portugal recusou a proposta e argumentou que era “injusto” e “discriminatório” a transição de Macau ser mais pequena do que a de Hong Kong. E usou aquilo que Vitorino resume como “o argumento Calimero”: “Vocês dizem isso porque somos pequeninos. Não fariam isso se fossemos os ingleses.” Era um argumento que “não podia ser usado muitas vezes, mas que fazia mossa”. Os chineses não queriam dar a ideia de que tinham dois pesos e duas medidas para portugueses e para britânicos.
Henriques de Jesus junta-se à história: “Ouvir um ‘não’ é uma das piores coisas que podem acontecer a qualquer negociador. Devemos tentar entrar na cabeça do adversário e saber quando é que nos vai dizer ‘não’, tentar antecipar e nunca deixar que eles digam ‘não’. Fui ouvir os chineses e eles disseram que a transferência não podia passar do fim do século.”Quando António Barreto escreveu um artigo a sugerir que a transferência de Macau fosse feita, simbolicamente, nos 500 anos da chegada de Jorge Álvares a Macau, o que fazia passar a linha encarnada de Pequim, “a China mandou imediatamente um ministro a Lisboa dizer que nem pensar”, contou Gaspar. “E as negociações foram interrompidas.”
Neste início o ambiente era tenso e à noite, quando estavam no quarto de hotel, os negociadores portugueses punham o ar condicionado e as ventoinhas no máximo e falavam muito depressa, com medo de possíveis escutas. O objectivo era complicar a vida aos tradutores.
A convicção de João de Deus Ramos é que a China subestimou Portugal. No seu livro Em Torno da China – Memórias Diplomáticas (Caleidoscópio, 2016), o diplomata escreve que os chineses terão acreditado que iam ter “um processo sem divergências” com os portugueses. E mesmo em Portugal, diz Henriques de Jesus, houve quem defendesse que a delegação portuguesa fosse enviada a Pequim com “uma mera tradução mais correcta das primeiras propostas chinesas”. O vice-ministro dos Negócios Estrangeiros Zhou Nan, que tinha chefiado as negociações sobre Hong Kong e chefiava agora as de Macau, “terá dado a entender aos seus superiores que, depois da Inglaterra, com Portugal ia ser um ‘processo sumário’”. À terceira ronda, “ainda as partes não tinham noção do que seria o bottom line de cada um”, escreve Ramos, Pequim propõe que a transferência seja feita em 1998. O ambiente desanuviou pouco depois, quando Lisboa aceitou o ano 2000 como limite.
Acabou por ser Dezembro de 1999. "Transferir Macau não era uma festa, mas uma tristeza, por razoável que fosse. Não sendo uma data festiva, não devia ser nem no Natal, nem no Ano Novo", explicou Henriques de Jesus. Ficou 20 de Dezembro.
Nem sete cavalos travam as palavras
Era tempo, finalmente, de tratar das questões de substância. A nacionalidade era a mais complexa. Já era claro que os enquadramentos jurídicos dos dois países eram incompatíveis e a China, ao contrário de Portugal, não aceitava a dupla nacionalidade. O que foi conseguido é o que “separa radicalmente os acordos sino-portugueses dos acordos sino-britânicos”, diz Gaspar, pois garante a um quinto da população chinesa de Macau o reconhecimento da nacionalidade portuguesa.
De todos, Henriques de Jesus foi sempre o mais optimista. “Há 30 anos, nenhum de nós conhecia o futuro da China, mas por causa da minha experiência em Macau, eu era o que tinha mais confiança. Sabia que podíamos confiar na palavra dos chineses. Eles dizem que quando uma palavra sai para fora, nem sete cavalos a conseguem travar.”
No total, foram nove meses frenéticos. Quatro rondas (40 horas à mesa das negociações) e 11 reuniões do grupo de trabalho (mais 440 horas).
O resultado de tudo isto? A Declaração Conjunta assinada a 30 de Abril de 1987 deu a Macau um sistema de direitos e liberdades de modelo ocidental, garantiu os direitos dos chineses interessados em manter uma ligação com Portugal, um sistema político consolidado, contribuiu para o crescimento do ensino da língua portuguesa na China e foi o princípio da construção de uma
“relação especial e densa” entre Portugal e China e Portugal e Macau. A síntese é do ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, que, para novidade de alguns, acrescentou mais um resultado: o apoio da China à candidatura de António Guterres para secretário-geral das Nações Unidas.
“Foi claro entre os cinco membros permanentes do conselho de segurança da ONU que nos contávamos com o apoio empenhado e militante da França [a favor do candidato António Guterres] e que o segundo que mais nos apoiava era a China. Não quero desmerecer a Rússia, cuja posição era clara (“não apoio, mas não serei hostil”), nem do Reino Unido e dos EUA. Mas do P5, a China foi um dos dois que mais claro e explícito tornou o seu apoio a Guterres e mais cedo. Ouvíamos dos nossos interlocutores chineses dois argumentos: reconheciam Portugal como um país com uma voz activa e uma posição equilibrada, balanced foi a palavra que mais ouvimos. Mas os chineses tinham um argumento específico: ‘Nós conhecemos-vos há 500 anos e negociámos a Declaração Conjunta de Macau e vocês honraram todos os compromissos. Tudo o que disseram que iam fazer, fizeram. São um país em quem confiamos'.”»

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

O Ano Novo chinês no final do século 19

Na edição de 30 de Janeiro de 1895 do jornal Echo Macaense está um pequeno artigo sobre o ano novo chinês:
“É bem merecido este curto descanso, pois não ha no mundo povo algum mais laborioso e mais tristemente avergado ao trabalho, do que o chinez. (...) D'esta pressão economica, transmittida de geração em geração, é que procedem a frugalidade e a tenacidade no trabalho que caracterizam o povo chinez, e o habilitam a levar de vencida os outros povos na lucta do trabalho".
A festividade fazia-se sentir sobretudo na chamada 'cidade chinesa',  as ruas da zona do Bazar, principalmente a Rua do Jogo e a Rua Nova d’el Rei que ficavam repletas de gente para fazer compras e onde em qualquer canto montavam-se barracas de jogo que atraíam os que procuravam a sorte. No porto interior, as embarcações enfeitavam-se, durante o dia, com bandeiras encarnadas e, de noite, com lanternas o que provocava uma vista deslumbrante.
Ainda segundo o Echo Macense, mas de 7 de Fevereiro de 1897:
“À meia noite de 1 do corrente, véspera do anno novo, começaram a queimar-se grandes quantidades de panchões e os filhos do império celestial, com suas familias, dirigiram-se ao pagode do Hong-kongmiu, a baterem as cabeças aos seus deuses. Esta cerimonia durou até às 3 horas da madrugada. No dia do anno novo a semsaboria desceu 5 graus abaixo do que eu tinha observado na véspera. As lojas fecharam as suas portas. E nas ruas, apparecia, de espaço a espaço, uma ou outra familia a largar os seus baguinhos nas bancas do cluclu, ou algum guloso a besuntar os beiços com o cebo de um pato
assado, d’esses que se vendem nas próprias bancas do jogo."

A queima de panchões era constante, trazendo muitas inconvenientes à população. Em alguns anos, chegou mesmo a ser interrompido o trabalho nas repartições públicas devido ao excesso de barulho e o governo proibiu o rebentamento a determinadas horas da noite.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

Wu Li / Wu Yushan / Simão Xavier da Cunha: 1632-1718

Wu Li (1632-1718) was a Chinese painter, poet and calligrapher. He became a jesuit priest who studied in the College of St. Paul of Macau where he arrived in 1680. In 1681, two years after he painted this work (above), Wu Li was baptized as a Christian (Simão Xavier da Cunha), a most uncommon thing to do for a man of his background. Ordained in Macao as a priest in 1688, he was sent in 1689 to do missionary work in Shanghai, where he died in 1718.

Wu Li (pintor, calígrafo, poeta e missionário) nasceu em 1632 em Changshu, na província de Jiangsu (capital é Nanjing).  
Ganhou à nascença o nome Qili sendo também conhecido por Wu Yushan. Devido à existência de um poço muito fundo (Mo Jing) em Yan Zi, onde vivia, ganhou o epíteto de ‘Mo Jing Dao Ren’, o que significa "Taoista do Poço Profundo”. Foi batizado com o nome ocidental de Simão Xavier da Cunha, pintor, poeta e missionário.

Wu Li foi para Macau em 1680 com Philippus Couplet, jesuíta belga, e residiu no Colégio de S. Paulo - Ordem dos Jesuítas - onde estudou latim e teologia. Foi ordenado padre em 1688 (aos 57 anos) em Nanjing e começou a pregar na zona de Xangai, onde viria a morrer em 1718.

Wu Li foi também “um dos ‘Seis Mestres de Qing’, juntamente com Wang Shimin, Wang Jian, Wang Yuanqi, Wang Hui e Yun Shouping, tendo uma influência profunda na história da arte chinesa e no desenvolvimento do Catolicismo na China.

Yushan dominava a caligrafia, a pintura, a poesia, e tinha jeito para tocar alaúde. Nos escritos que deixou podem encontrar-se diversas referências a Macau. Alguns exemplos:
- "Em meados do Inverno do ano de Gengshen do reinado de Kangxi, cheguei a esta terra acompanhado de Filipe Couplet." (a ida para Macau)
- "Pousei nesta casa de sossego três ou quatro anos." (os anos em que estudou no Colégio de S. Paulo)
- "Comecei a estudar a doutrina religiosa no Colégio de S. Paulo aos 50 anos de idade. Durmo e como no segundo piso, passando a vida a apreciar o mar."

- "Estes 20 a 30 anos de aprendizagem da pintura foram, para mim, como remar contra a maré. Empenhei todos os meus esforços e nunca abandonei a vontade de aprender... Se manejar o pincel e a tinta é já tão difícil, nem imagino como será a aprendizagem da doutrina religiosa."  (a faceta de pintor)
- "O toque do sino vindo da traseira da colina, desperta os sonhos dos monges." (...) As aulas são divididas em duas partes, das seis às sete da manhã e das seis às sete da tarde, depois das quais se pode ouvir o toque dos sinos."  (o dia-a-dia no colégio de S. Paulo).
Nota: O primeiro chinês a ser ordenado padre (jesuíta) foi Zheng Mano (nome de baptismo, Manuel Siqueira) em Coimbra, no ano de 1663. Desta época existem registos de pelo menos mais dois jesuítas chineses enviados pelo Visitador Francesco Saverio Filippuci (1632-1692) para Macau: Liu Yunde (nome católico Bras Verbiest) 1628-1707 e Wan Qiyuan (Paulo Banhes) 1631-1700, ordenados em Nanking em 1688 pelo bispo chinês dominicano Lo Wanzao.



terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Ano Novo Chinês: 1974

Esta festividade tem tido ligeiras alterações ao longo dos tempos. No blogue existem vários posts sobre o tema - ver etiqueta Ano Novo Chinês - pelo que hoje sugiro uma viagem à década de 1940 e ao início da década de 1970, mas concretamente ao ano de 1974
Num dos eventos de celebração do ano novo chinês a 24 de Janeiro de 1974 - signo do Tigre - o governador Nobre de Carvalho deslocou-se à Escola Primária Oficial Luso-Chinesa "Sir Robert Ho Tung (1862-1956)" (inaugurada em 1951).
Na ocasião os alunos declamaram poesia, apresentaram pequenas peças de teatro e danças folclóricas portuguesas e chinesas.

Foram ainda entregues prémios e diplomas aos alunos.
Ano Novo Chinês de 1970 na Rotunda Ferreira do Amaral, um dos locais onde se fazia a queima de panchões.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Feliz Ano Novo Chinês | 春节快乐 | Happy Chinese New Year

Feliz Ano Novo Chinês | 春节快乐 | Happy Chinese New Year
Composição gráfica de Rita Figueira Pereira

Segundo a lenda Buda marcou um encontro com todos os animais no dia de Ano Novo Chinês. Doze animais responderam ao seu apelo e Buda atribuiu um ano a cada um deles. A partir de então, Buda anunciou que as pessoas nascidas no ano de cada animal teriam alguma personalidade desse animal
Como o ciclo lunar é formado por 12 animais, significa que de 12 em 12 anos o mesmo animal se repete. 
Este ano, o novo ano lunar começa a 5 de Fevereiro dando início a mais um ciclo do ano novo chinês, desta vez sob o signo do Porco. O Porco é o animal que fecha o ciclo de rotação dos 12 signos do calendário lunar chinês. Representa a inteligência e o poder de observação.
Também conhecida como Festival da Primavera, esta
festividade é uma tradição com mais de 2.000 anos na China e a principal festa de reunião das famílias chinesas, que leva milhões de pessoas a percorrerem centenas e até milhares de quilómetros até à terra natal naquele que é o maior movimento migratório do mundo.

恭賀新禧
Feliz Ano Novo Lunar
Happy Chinese New Year



A este propósito recordo um excerto de um artigo da autoria de Ana Maria Amaro intitulado "Ano Novo Chinês: festa da primavera" que versa a festividade sob o ponto de vista antropológico. No blogue existem vários textos sobre esta tradição ao longo dos tempos. Bata clicar na etiqueta "ano novo chinês".
Resquício de um mesmo antigo culto no Império do Meio parece testemunhar a festividade do Ano Novo com todo o seu antigo ritual em grande parte já esquecido. Contudo, várias são as práticas que chegaram aos nossos dias. De entre estas são de citar a incineração do Deus da Cozinha (Chou Kuan), figura que, durante o ano, as chinesas conservadoras não deixam de venerar com incenso, velas e flores, retirando-o e queimando-o no dia 24 da 12a lua, celebração do Solstício de Inverno, que precede o advento do novo ano, altura em que tal imagem é, de novo, entronizada no seu nicho, precisamente na hora zero entre a hora do rato e a hora do boi (23-1) do un tan (). Porquê esta especial veneração do Deus da Cozinha nas celebrações do Ano Novo? Uma hipótese que avançamos é que esta divindade represente o próprio fogo que, nos lares ou antigos fornos, era preciso manter sempre aceso nos tempos arcaicos da civilização chinesa. As cerimónias do renovar do fogo, e as festividades que sublinhavam o fim da estação morta, durante a qual se interrompiam os trabalhos do campo, rematadas por festividades orgíacas em simpatia com o culto da fertilidade, segundo no-las descreve Marcel Granet, parecem apontar para uma celebração comum a todos os grupos de economia agrícola. É também de assinalar que o primeiro dia do ano era considerado na China o dia do galo - o anunciador do nascer do sol - emblema do fogo e da ressurreição, nas antigas civilizações mediterrânicas.
Nos primeiros anos da Dinastia Chau (1222 (?) - 255 AC) o Ano Novo começava na actual 12a Lua. contudo, os calendários diferiam de Estado para Estado, pelo que, procurar estabelecer-se uma cronologia, é hoje extremamente difícil. Em 104 AC foi reformado o calendário na China, mas o calendário Gregoriano do Ocidente só foi adoptado em 1912, pelo Governo da República.
Depois da reforma do ano 104 AC, o dia de Ano Novo passou a coincidir com a 1a Lua Nova depois do Sol entrar na Constelação da Águia, o que corresponde a um período situado entre os nossos dias 21 de Janeiro e 20 de Fevereiro. A partir de 1912 o dia Ano Novo passou, tal como no Ocidente, a ser celebrado no dia 1 de Janeiro, mantendo-se, porém, a antiga data que o povo rural não poderia deixar de festejar, data que se transformou na actual Festa da Primavera, tal como havia acontecido na Europa com o nascimento do Entrudo.
Na China Imperial, segundo os Anais de Chau, o ano religioso começava na Primavera, envolvendo a sua celebração grandes cerimónias realizadas pelo Soberano, pelos Magistrados e pelo povo. Estas cerimónias constavam do culto do Céu, da Terra e dos Antepassados. As interdições impostas pela estação invernal haviam findado, recomeçando os trabalhos nos campos. O próprio Imperador sacrificava a Séong Tai (o Soberano do Alto) sendo o dia preciso ditado pelos Antepassados através da adivinhação pela carapaça da tartaruga. A vítima era um touro de pelagem ruiva e chifres pequenos que, antes, fora escolhido pelo próprio Imperador.
Quando os homens-galos (kai ian) anunciavam nesse dia o nascer do sol, o Rei, que se mantivera 10 dias em abstinência, envergava o seu traje bordado com figurações do Sol e da Lua, colocava a tiara de 12 pendentes, e num carro decorado com símbolos representando 12 chamas e Dragões, aliados ao Sol e à Lua, dirigia-se ao terrapleno circular situado a sul da capital e destinado aos sacrifícios. Ali, com grande solenidade, ao som de instrumentos musicais, procedia então à imolação do touro sagrado.
Iniciava-se deste modo a nova estação, a Primavera, e com ela o retorno aos trabalhos agrícolas. Festas orgíacas entre o povo, dispersavam os jovens pelos campos. Havia alegria e repastos abundantes. Os aldeãos pincelavam, nessa altura, as ombreiras das portas das suas casas com o sangue das vítimas imoladas, para afastarem deste modo os malefícios e atraírem as graças do Alto no Ano Novo que então começava. Com o mesmo objectivo faziam estalar, pelo fogo, colmos de bambu seco.
Tal como, no Ocidente, o Cristianismo transformou as festas pagãs, adoptando-as, também na China o Confucionismo, no século III AC, logrou transformar as antigas celebrações orgíacas em festas de coesão familiar e de veneração dos Antepassados. Assim, das antigas práticas de celebração do Ano Novo, chegaram até nós os papéis vermelhos, com ou sem dísticos congratulatórios pincelados, principalmente os 3 papéis rectangulares que se colam nos umbrais das portas das casas, a substituir, imitando-o, o sangue das vítimas imoladas e os panchões, os estalos da Índia, que atroam os ares durante três dias consecutivos, causando o gáudio das crianças e inundando o solo com o vermelho auspicioso dos seus envólucros rasgados pela pólvora, a substituir o ruído dos antigos colmos de bambu queimados. Manteve-se também, através dos séculos, a veneração do Céu e dos Antepassados, bem como a consolidação da coesão familiar e social mediante práticas rituais domésticas e nos templos.
Outro costume que vem dos antigos tempos e que em Macau tem ainda numerosos cultores, é a oferta dos lâi si, o dinheiro da sorte, envolvido em saquinhos de papel vermelho que, não ostentavam os elementos simbólicos com que hoje auspiciosamente se decoram.
Há, ainda, que referir a troca de cartões de Boas Festas com frases eruditas e/ou simbólicas formulando votos de Ano Novo próspero e feliz. Se há quem defenda que esta é uma criação europeia, difundida pelos ingleses nos meados do século XIX, a verdade é que já muito antes os letrados chineses trocavam grandes cartões vermelhos. finamente pincelados com frases auspiciosas, acompanhando os presentes que a tradição manda, ainda, que se enviem, de que se receba só uma parte e que se retribuam, dentro do arcaico complexo cultural do dom e da reciprocidade. Estes cartões evoluíram e, hibridando-se com aqueles que os ingleses introduziram mais tarde no oriente, deram as actuais formas mistas, que em Macau e em Hong Kong se mantêm, e onde os antigos valores simbólicos perduraram e são valorizados. É de notar que estes motivos simbólicos, apesar de bastante variados, correspondem geralmente às 3 felicidades mais ambicionadas: longa prole, promoção social e longa vida.
Não iremos alongar-nos descrevendo o que resta das antigas cerimónias da Abertura do Ano em Macau e dos seus manjares rituais em que se prima pela abundância, variedade e simbolismo. No entanto, há que referir que, desde a comida de abstinência aos pratos requintados que se lhe seguem, há ainda uma variegada gama de bolinholas, pevides, cogumelos, algas, rizomas e sementes de loto que, tal como as tangerinas, reproduzem por homofonia frases que são votos muito auspiciosos de Feliz Ano Novo. É que no Ano Novo todas as palavras, bem como todos os actos, devem ser cuidadosamente seleccionados. Apenas se devem pronunciar palavras fastas e assumir atitudes auspiciosas.
O Ano Novo é traduzido também, ainda hoje, pelo arriscar da sorte no jogo, à maneira de augúrio de riqueza no ano que vai começar. Cruzam-se sorrisos de alegria entre muito ruído, aliado ao vermelhão que sai das casas e enche as ruas, espalhado pelo chão, pelo vestuário, e até pelos lábios pintados das crianças.
Neste dia, a renovação é obrigatória: nos trajes, nas casas, nas refeições, no próprio interromper do trabalho. É a renovação Cósmica espelhada na Terra.
Esquecem-se as penas e os revezes. Troca-se o ano velho pela juventude do Ano Novo que é recebido com esfuziante alegria e saudado pelos votos que se permutam em cordiais saudações: Kong Hei Fat Choi, Kong Hei Fat Choi! Artigo d de Ana Maria Amaro in Revista de Cultura, nº 22 Jan./Mar. 1995, ICM, Macau.

domingo, 3 de fevereiro de 2019

"Vésperas do ano novo chinês"

"(...) Vésperas do novo ano! Pelo Bazar vai a azáfama que antecipa os dias solenes - as floristas não têm mãos a medir: flores de papel, de seda, de penas multicolores, de nácar, de filigrana. Os confeiteiros cristalizam os saborosos frutos orientais, flores, legumes, e até as raízes e sementes de algumas plantas como o gengibre e o lotus. Nas montras prendem os nossos olhos as ricas sedas de variegadas cores e complicados arabescos. Os caracteres chineses indicam grandes reduções de preços e em volta dos balcões aglomeram-se as chinesinhas, delgadas silhuetas, de cabaias estreitas e cabelos luzidios. As suas mãozitas delicadas, de dedos afusilados, procuram, de entre as mais brilhantes, a seda de cor alegre, a mais vistosa, para os próximos dias de festa.(...)
Vésperas do Ano Novo! Até as jóias diminuíram de preço. Soou a hora obrigatória de pagar as dívidas e quem tem dinheiro empatado precisa vender, embora com prejuízo.(...)
Que lindo presente de ano novo! Em que cabelos negros irá poisar aquela flor tão branca? E já que falo das flores feitas de pérolas, porque não vos levar comigo pela rua das flores verdadeiras, criadas por Deus sob este sol de oiro que as coloriu e desabrochou? Peónias e peónias rosadas, lindas e perfeitas, alinham-se sobre prateleiras em anfiteatro, de um lado e outro da rua, e é uma só mancha cor de rosa, uniforme, a destacar-se do verde cinabre dos vasos de porcelana chinesa. Mais adiante, as árvores anãs, de troncos grossos e rugosos, de folha verde e copada que não excedem e por vezes não atingem três palmos de altura.
Com os seus bugalhinhos de oiro a luzir por entre a folhagem, dispostas em vasos, as tangerineiras pequeninas dão, mais além, uma nota de cor. Um pomar em miniatura para regalo dos nossos olhos! As dálias, os crisântemos formam massiços vermelhos, amarelos, brancos, cor de carne pálida! E os troncos dos pecegueiros? Símbolo do amor, quem não quererá levar para casa uma dessas hastes elegantes onde botões e flores mal entreabertas são leves toques de luz rosada? Mas o que por toda a rua se encontra, numa exuberância encantadora, é a flor do novo ano: «Soi Sin Fá». Traduzida à letra, quer dizer: Fresca flor da água, porque é dentro dela que os seus bolbos rebentam e florescem. De folhas verdes, lanceoladas, corola branca e transparente, de aroma perturbante, tem afinidades com os aromáticos junquilhos da nossa terra. Florindo só nesta época, a superstição chinesa consagra-lhe um grande culto.(...)
Vai caindo a tarde, nas moradias chinesas acendem-se as grandes lanternas de papel envernizado que baloiçam ao vento, ladeando a porta de entrada. As frontarias brancas reflectem as suas sombras oscilantes. Mas só as casas particulares conservam ainda nas suas fachadas as tradicionais lanternas. A este povo, que tem um culto instintivo pela flor e pela luz, a electricidade deslumbrou-o. De dia, o sol penetrante que obriga a caminhar de pálpebras descidas. Luz esplenderosa em demasia, para nós ocidentais, mas para o qual, Deus, na sua infinita perfeição, criou os olhos oblíquos.

Maria Ana Acciaioli e o marido, Governador Tamagnini Barbosa.
Oculto o sol, por detrás das altas montanhas, a noite cai rapidamente. O crepúsculo que atinge nestas paisagens uma suprema beleza, não permite êxtases. É belo, mas é rápido. Para afastar a noite e os seus pavores o céu enche-se de estrelas e o bairro chinês de luz. Milhões de lâmpadas eléctricas, apinhadas, formando arabescos, flores, aves, caracteres, iluminando as montras, as varandas, brilham num esplendor de apoteose teatral.(...)
Brilham ainda numa intensidade e atracção diabólica as casas de jogo. O «Fan-Tan»! Quem, vivendo na China, desconhece o sortilégio dêsses dois monossilabos? Felicidade de alguns, desgraça de tantos! Jogo de uma morosidade que impacienta o ocidental, é aquele que mais interessa este povo que nunca tem pressa, que se extasia e pára ante uma flor, um pássaro, um brinquedo, quanto mais perante um monte de sapecas doiradas que lhe pode trazer a fortuna!(...)
Estamos em vésperas de novo ano e pelas ruas do Bazar alinham-se as mesas do «Clu-Clu». A garotada rodei-as extasiada ante as cores garridas e os números tentadores, e os seus olhitos cintilantes contam de relance as pintas negras dos dados de marfim, enlevo de gente modesta que tenta fortuna com simples moedas de cobre.(...)
Vésperas de novo ano! Nos interiores das casas ricas vão-se adornando as mesas de sacrifício, com flores e frutos, as mobílias com vistosas colgaduras; nas casas pobres lavam-se as paredes negras do fumo dos pivetes. Que ao menos uma vez por ano a água ali entre na sua missão purificadora!

Observado de relance o aspecto alegre e bizarro do bairro chinês, em véspera de ano novo, subamos ao alto da Penha, com a sua igreja, bem portuguesa, donde a nossa vista alcança até muito longe... para além das montanhas azuladas. Nas águas cinzentas do rio vão-se alinhando as lorchas de velas enroladas e mastros hirtos. Vão-se arrimando ao longo da avenida marginal do porto interior, esperando a hora de se engalanarem, e são tantas, tantas, que em vão as contaria. Para cima de oitocentas, dizem-me, mas lá ao longe há mais velas que se aproximam."
"Vésperas do Ano Novo Chinês", da autoria de Maria Ana Acciaioli Tamagnini, publicado no Boletim Geral das Colónias Nº 53, Novembro de 1929.

sábado, 2 de fevereiro de 2019

A "Jornada" de António Albuquerque Coelho


António de Albuquerque Coelho (1682-1745) ocupou vários cargos no chamado império colonial português, tendo sido Governador de Macau e de Timor.
Na sua vida efectuou uma viagem de Goa até Macau que durou exactamente um ano e que ficou para a história pois um dos seus subordinados, o Capitão João Tavares de Velez Guerreiro, escreveu um livro sobre essa viagem de 30 de Maio de 1717 a 29 de Maio de 1718.
http://macauantigo.blogspot.com/2012/08/antonio-de-albuquerque-coelho-1682-1745.htmlO livro tem como título "Jornada, que Antonio de Albuquerque Coelho, Governador e Capitão General da Cidade do Nome de Deos de Macao na China, fez de Goa até chegar à dita cidade no anno de 1718: dividida em duas partes/escrita pelo Capitão João Tavares de Vellez Guerreiro".
As primeira edição foi feita em Macau logo em 1718 e seguiram-se mais duas edições:
- Jornada que o senhor Antonio de Albuquerque Coelho governador e capitam geral da Cidade do Nome de Deos de Macao na China, fes de Goa athe chegar a ditta cidade, pelo capitam Joam Tavares de Velles Guerreyro. Macau s.n.,1718
- Jornada, que Antonio de Albuquerque Coelho, Governador e Capitão General da Cidade do Nome de Deos de Macao na China, fez de Goa até chegar à dita cidade no anno de 1718 : dividida em duas partes / escrita pelo Capitão João Tavares de Vellez Guerreiro... Lisboa Occidental na Officina da Musica, 1732.
- Jornada de Antonio de Albuquerque Coelho, por João Tavares de Vellez Guerreiro, com uma carta-prefácio de J. F. Marques Pereira, Lisboa, Escriptorio, 1905.
Esta última tem a particularidade de incluir um prefácio de João Feliciano Marques Pereira (1863-1909), em homenagem a seu pai, António Feliciano Marques Pereira (1839-1881) que desempenhou funções administrativas e diplomáticas em Macau e noutras partes do Oriente.
A história do mandato de governador de Macau começa em Maio de 1717 quando o Arcebispo Primaz de Goa, D. Sebastião de Andrade Pessanha, substituto legal do Vice-Rei, Vasco Fernandes César de Menezes, que partira para o Reino, nomeou António de Albuquerque Coelho como Governador de Macau.
Albuquerque deveria embarcar no único navio que estava para partir mas estava sob o comando do seu inimigo Francisco Xavier Doutel, que levantou se fez ao mar na noite de 22 de Maio sem o avisar. Albuquerque decidiu então partir a pé com a sua comitiva até à outra costa da Índia, onde tencionava apanhar outra embarcação. Na sua comitiva seguiam o capitão João Tavares de Velez Guerreiro, que mais tarde descreveu a viagem, o ajudante Inácio Lobo de Menezes, mais dois portugueses, João Nunes e Pascoal Ribeiro, cinco cafres cativos e dois clarins.
Chegaram a S. Tomé de Meliapor (ocupada pelos portugueses) a 16 de Julho ao fim de percorrerem 2600 km. Como não conseguiram encontrar um navio que os levasse, Albuquerque comprou um, iniciando a viagem a 5 de Agosto. Seguiram rumo a Malaca, ao fim de dois meses atingiram Johor (no sul da Malásia) onde ficaram durante o inverno e só prosseguiram viagem a 18 de Abril de 1718. Doentes, foram obrigados a desembarcar na ilha de São João (Shangchuan, a cerca de 300 km de Macau) onde os chineses os trataram e encaminharam depois até Macau onde chegaram a 29 de Maio de 1718.
Albuquerque tomaria  posse do cargo no dia seguinte, 30 de Maio. Por essa altura, já estava em Goa um novo Vice-Rei, D. Luis de Menezes, 5.º conde da Ericeira e 1.º Marquês do Louriçal que lhe escreve uma carta com data de 6 de Maio confirmando-o no cargo onde ficou até 9 de Setembro de 1719. O Vice-Rei recebera indicação da Corte de Lisboa para um novo Governador, António da Silva Tello de Menezes. à espera da chegada do novo governador, Albuquerque fic
ou em Macau até 18 de Janeiro de 1720, data em que embarcou para Goa na fragata Nossa Senhora das Brotas.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Ano do Porco e Flôr de Panchão

Este é o mês do início do novo ano lunar, sob o signo do porco, símbolo de riqueza e abundância na cultura chinesa, e também no ocidente, se nos lembrarmos de tempos mais antigos, em que ter um porco era sinónimo de que a comida não faltava à mesa.
A festividade remete ainda naturalmente para os panchões.
A Pyrostegia venusta, flor trepadeira, nativa no Brasil, por exemplo, e também existente em Macau, é conhecida popularmente com vários nomes: flor-de-são-joão, cipó-de-são-joão, cipó-bela-flor, marquesa-de-belas, cipó-pé-de-lagartixa, cipó-de-lagarto, nativa em quase todo Brasil, é uma trepadeira.
Ao longo deste mês irei publicar vários posts sobre o ano novo chinês.
PS: Em Janeiro último o blogue registou 15.116 pageviews. Total desde 2008: mais de um milhão e 400 mil.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

"Empress of China"


A 3 de Setembro de 1783 era assinado o Tratado de Paris chegando ao fim a Guerra de Independência Americana com Inglaterra a reconhecer a soberania dos Estados Unidos. Nascia assim um novo país...
No início desse ano tinha sido lançado à água o "Empress of China" (Imperatriz da China), também conhecido como "Chinese Queen" (Rainha da China) um veleiro de 360 ​​toneladas e três mastros. Terminado o conflito, a embarcação foi adaptada ao transporte de mercadorias e o capitão do navio, John Green (1736-1796), entrava agora numa nova fase de vida no mar.
A ele vão juntar-se Robert Morris (1734-1806), Thomas Randall (1723-1797) e Samuel Shaw (1754-1794) que juntamente com outros sócios, investem numa aventura inédita: fazer a primeira viagem da nova nação até à China com objectivos políticos e comerciais, já que porto de Cantão estava aberto aos ocidentais, nomeadamente aos países europeus, como a França, Portugal, Inglaterra e Holanda... e de onde as notícias que chegavam davam conta de "bons negócios".
No Empress of China, Shaw ficou responsável pela carga no valor de 120.000 dólares que seguia no porão do navio: chumbo, 2600 peles de animais, tecido fino de camelo, algodão, alguns barris de pimenta e 30 toneladas de ginseng, uma raiz que cresce selvagem na América do Norte e que os chineses usavam muito devidos aos seus poderes curativos.
A 22 de Fevereiro de 1784  - dia de aniversário do presidente George Washington - o Empress of China partia para a primeira viagem de uma embarcação norte-americana à China. A partida deu-se em Nova Iorque rumo a Cantão, mas com paragem em Macau, onde chegaram seis meses depois, a 23 de Agosto.
Na colónia portuguesa, o capitão Green contratou pilotos chineses para guiar o navio pelo Rio das Pérolas até Whampoa (chegou a 28 de Agosto), na rota para Cantão, onde nesse ano foi registada a chegada de 40 navios estrangeiros. A cidade ficava a apenas 12 milhas de Cantão e era ali que os grandes navios aguardavam os negócios feitos pelos encarregados de carga. Em Cantão as autoridades limitavam a entrada do número de estrangeiros e apenas podiam circular na zona das feitorias estrangeiras. Samuel Shaw (imagem abaixo) passou cerca de 4 meses a negociar: a vender o que trazia e a comprar vários produtos chineses, sobretudo chá. Concluídos os negócios e com o porão do Empress of China recheado, partiram de Macau a 28 de Dezembro 1784 rumo aos Estados Unidos onde chegaram a 11 de Maio de 1785 conseguindo um lucro de 30 mil dólares.
Curiosidades:
- Em 1786 Shaw tornou-se no primeiro cônsul dos EUA na China (até 1789)...
- Em 1786 foram cinco os navios norte-americanos a chegar a Cantão.
- Shaw viria a fazer várias viagens entre os EUA e a China; na quarta, no regresso a casa, não resistiu à doença e morreu perto do Cabo da boa Esperança com apenas 40 anos.
- Entre os produtos trazidos da China na primeira viagem estavam muitas porcelanas; o presidente dos EUA comprou um serviço de porcelana dessa carga.
- Em 1986, como forma de assinalar a viagem do Empress of China, a China emitiu uma moeda comemorativa em prata no valor de 5 yuan.


No livro "Remarks on China and the China Trade", de Robert Bennet Forbes, editado em Boston em 1844, o autor recorda essa viagem recorrendo ao diário de Samuel Shaw.
Alguns excertos do livro:

(...) On the 4th of August the ship cleared Gaspar Straits and on the 23d anchored in Macao Roads in China. We see by these extracts how extremely difficult the navigation was in those seas. It required men of nerve for commanders and great caution was necessary at every step In the present day it is very uncommon for ships to find themselves twenty miles out of their reckoning on making Java. Head after a passage of from eighty to one hundred days and it is very common for ships to run through the Straits of Sunda by night and also through the still dangerous Straits of Gaspar and without touching for supplies and a captain or mate who does not understand the use of the chronometer and lunar observations both by sun and stars distance is or ought to be considered unfit for his station. (...)
The arrival of the Empress of China at Macao Roads was a matter of no small moment; for Mr Shaw tells us that in the morning the French Consul visited us with several gentlemen from Macao and on leaving was saluted with nine guns. On the 25th of August we came to sail and in passing the Triton saluted her with nine guns which was returned with an equal number.
The city of Macao says the writer of Anson's voyage is a Portuguese settlement situated on an oland at the entrance of Canton River. It was formerly very rich and populous and capable of defending itself against the power of the adjacent Chinese governors but at present it is much fallen from its ancient splendor for though it is inhabited by Portuguese and hath a Governor nominated by the King of Portugal yet it subsists merely by the sufferance of the Chinese who can starve the place and dispossess the Portuguese whenever they please.

Moeda de prata de 5 Yuan (1986) com imagem da Empress of China
This obliges the Governor to behave with great circumspection and carefully to avoid every circumstance that may give offence to the Chinese. This description of Macao was perfectly just up to the late great changes brought about by the quarrel between Great Britain and China when it became somewhat less under the authority of the Chinese though the Portuguese hold the place upon the same tenure as formerly. Mr Shaw says The situation of Macao is very pleasant and the gentlemen belonging to the European nations trading to Canton are well accommodated there.
As soon as their ships leave Canton and the factors have settled their accounts with the Chinese they return to Macao where they must reside until the ships of the next season arrive. The Dutch Danes and English had gone to Canton a few days before our arrival. From Macao we proceeded towards Canton and on the 28th on opening the shipping at Whampoa we saluted them with thirteen guns which were returned by each nation. At eight o clock we came to anchor and again complimented the ships with thirteen guns. The French sent two boats to assist us in coming to anchor the Danish sent an officer to compliment the Dutch a boat to assist and the English to welcome your flag to this country. In the afternoon the gentlemen of the Empress of China returned these civilities and on leaving the ships were saluted with from seven to nine guns the Empress returning the salute of each there being not less than seven ships and the country ships as the Bengal and Bombay traders are called apologized for not doing the same on account of the lateness of the hour it being after sunset. (...)"


quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Mapas "Jesuítas"

Este mapa de ca. 1650 e tem como título "Royaume d'Annan Comprenant les Royaumes de Tumkin et de la Cocinchine" - "Designe par les Peres de la Compagnie de Jesus." Traduzido será "Reino de Annan incluindo os reinos de Tunkin e da Conchichina - Desenhado pelos padres da Companhia de Jesus". A 'gravação' é de Jean Somer e foi feita para Nicolas Sanson, historiador e cartógrafo (1600-1667) and Pierre Mariette, editor, colecionador e negociante de arte (1596-1657). O mapa abarca uma parte da Ásia, de Macau ao Cambodja, centrado no sudeste e em particular o Vietname. Feito com bastante detalhe mostra as regiões onde existiam missões dos jesuítas.
Detalhe da localização de Macau e versão a cores
Curiosidade: Um mapa do "Rouyame de la Chine"/Reino da China publicado em 1652 por Sanson não inclui a indicação de Macau.
Noutro mapa (ver imagem), de 1656 com o título "La Chine Rouyame" já surge o nome "Macao". 
Em baixo mapa "Abbrege de la Carte de la Chine du R.P. Michel Ruggiery Jesuiste", 1670.
Reprodução em 1670 de um mapa da China pelo jesuíta Michele Ruggieri onde assinalei Macau.
Michele Ruggieri (1543-1607) foi um padre jesuíta italiano e um dos fundadores das missões jesuítas na China, juntamente com Matteo Ricci, entre outros. Ruggieri foi dos primeiros a elaborar mapas da China a partir de fontes chinesas.

Voltarei aos mapas "jesuítas" muito em breve...