terça-feira, 22 de janeiro de 2019

A "chinoiserie"... chinesice

O comércio com a China foi monopólio dos portugueses desde o século XVI até à primeira metade do século XVII, sendo substituídos pelos holandeses a partir de 1630-40 mantendo-se na zona até ao século XIX.
Apesar da manutenção de Macau para além desta data, Cantão foi o único porto chinês aberto ao comércio internacional depois do encerramento de todos os portos em 1757, no reinado de Qianlong (乾隆). Em Cantão foi estabelecida uma área reservada aos estrangeiros, fora dos muros da cidade, e um conjunto de regras que visavam impedir o contacto entre a população local e os ocidentais.
A ocidente era grande a curiosidade pelo antigo e misterioso império da China com os poucos viajantes que por lá passavam a contar histórias de cidades,  produtos e costumes exóticos. Depressa esse exotismo tornou-se num bem de consumo muito procurado e os artistas e comerciantes chineses aproveitaram a situação.
Com o acesso a Cantão - via Macau - dos estrangeiros, a partir do século 18, dá-se um intercâmbio entre as artes chinesa e ocidental, cada uma reflectindo a influência da outra. E as encomendas dos ocidentais aos chineses dispararam. Desde os serviços de porcelana, pinturas, lacas, pratas, marfins e mobiliário. O comércio destes produtos originou a divulgação no ocidente da arte chinesa e também a sua imitação, dando origem à chamada 'chinoiserie', palavra francesa que designa a imitação ou evocação dos estilos chineses na arte ou na arquitetura ocidentais, o equivalente à palavra em português 'chinesice'.
Os objectos de laca tornaram-se nas encomendas ocidentais mais difundidas. Assim desde o século XVIII e sobretudo no XIX apareceram móveis lacados, caixas, pratos e tabuleiros decorados com motivos chineses e europeus.
Legenda das duas imagens deste post:
1-  Leque de marfim e guache sobre papel com três vistas panorâmicas - Hong Kong, Macau (ao centro, vista da baía da Praia Grande) e Cantão - feito ca. 1850/50.
2 - Tampo de mesa de descanso feito em madeira lacada ca. 1830/1840 sendo o motivo a baía da Praia Grande.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Chorographia de Portugal Illustrada: 1893


Chorographia de Portugal Illustrada
1ª Edição, 1893
Lisboa: Guillard, Aillaud & Cª 
1 atlas + 55 páginas de texto e imagens + 20 mapas; Ilustrado e brochado.
de António Ferreira Deusdado (1858-1918)
Além de 50 gravuras referentes ao Continente e às Colónias Portuguesas, integra ainda 20 mapas a cores, em separado uns e outros nas páginas do texto:
Mapas de Portugal orográfico, hidrográfico, hipsométrico, geologico, dialectológico e político...
Mapa mundo com localização das colónias; 
Mapas dos arquipélagos dos Açores, Madeira e Cabo Verde; Mapa do distrito da Guiné; Mapas das Ilhas de S. Tomé e Príncipe; Mapas de Angola, Moçambique, Goa, Damão, Diu, Macau e Timor; Mapamundi: Portugal e suas colónias.

Posição geographica e limites:
Esta província consta da cidade de Macau na China, e de metade da ilha de Timor na Oceania, com a pequena ilha de Pulo-Cambing.
Macau está situado a 22" li' de lat. N. e a 122" 45' de long. E. de Lisboa. Faz parte da ilha Kiã-Chan na entrada do rio de Cantão, denominado também Si-Kiã. Ao sul de Macau ficam as ilhas de Taipa e de Coloane; pertencem também a Portugal, assim como a ilha de D. João.  A parte que nos pertence da Ilha de Timor está entre as lat. 8° 20' e 40° 9* S., e as long. 134° e 136°20' E. de Lisboa. O resto da ilha pertence aos Hollandezes.
Aspecto physico e clima:
A provincia de Macau é accidentada por alguns montes, e o seu clima é muito saudavel; comtudo ha febres paludosas, causadas pelas emanações dos terrenos que as marés deixam a descoberto.  (...)
Configuração do litoral:
A E. da ilha de Macau fica a bahia de Macau a que ali chamam rada de Macau, onde fundeiam os navios de maior lotação. Do lado O. fica o porto interior, formado pelo canal que communica com o rio de Cantão. (...)
Orographia:
Notam-se na peninsula de Macau alguns montes graníticos, que se levantam sobre a costa E. O mais elevado é o do Guia, a NE. da cidade, com 106 metros. A Ilha da Taipa tem uma montanha de 102 metros, e a ilha Kai-Kó eleva-se a 170 metros. (...)
Divisão administrativa:
A província divide-se em dois districtos: o de Macau e o de Timor. O districto de Macau forma dois concelhos o de Macau e o da Taipa e Coloane. O districto de Timor forma com a ilha de Pulo-Cambing um governo subalterno. Esta província é administrada por um governador de provincia, que è também governador do districto de Macau. O concelho da Taipa e Coloane é governado pelo comandante da Taipa. Um governador subalterno administra o districto de Timor.
A cidade de Macau, capital de toda a província, tem 72.000 habitantes. Constitui um município, cuja gerencia está confiada ao Leal Senado de Macau. É defendida pelas fortalezas do Monte, da Guia, da Barra, do Bom Porto, de S. Francisco, de S. Pedro e de D. Maria II. (...)
Producções:
A peninsula de Macau, sendo occupada pela cidade, nada produz, importando do território vizinho tudo o que precisa para o seu consumo. (...)
Commercio e Portos:
Importa Macau ópio em bruto, tecidos de algodão, sedas, chá, bebidas alcoólicas. A exportação consiste em chá, opio preparado, sedas, artefactos chinezes.
Macau é porto franco. O seu commercio faz-se principalmente com Hong-Kong, Cantão, Batavia e Goa.
Pertencentes á diocese de Macau ha o vicariato geral de Timor, que administra eclesiasticamente aquella nossa possessão, e o vicariato geral de Malaca, que compreende as missões de Malaca e de Singapura, as quaes possuem diversas egrejas, capcllas, ecollegios. A companhia de Jesus tem em Macau uma estação de quatro padres missionários e um irmão auxiliar, alem das missões de Hainão e Hiangsão as ilhas circumvisinhas, e deTimor.
Instrucção publica:
A instrucção especial é ministrada no seminário diocesano de Macau e n'uma escola de pilotagem na mesma cidade. A instrucção primaria tem duas escolas para o sexo masculino e duas para o feminino. Em Timor apenas existe uma escola primaria para o sexo masculino.
Organisação judicial e militar:
Comprehende duas comarcas: uma em Macau, outra em Dilly, dependentes da relação de Goa. A força militar é constituída por uma companhia de artilheria de guarnição, destinada a guarnecer as fortalezas e pontos fortificados da referida cidade e suas dependências, um corpo de policia, e um batalhão formado de nacionaes. A força militar em Timor é de cinco companhias formadas pelos habitantes, com o nome de companhias dos Moradores de Timor.
População e superfície:
A população de Macau está avaliada em 72,000 habitantes e uma superfície de 375 hectares. (...)
Historia:
Foi em 1557 que os portuguezes obtiveram do imperador da China a concessão da peninsula de Macau, em reconhecimento dos serviços por elles prestados no exterminio dos piratas que infestavam aquellas costas. Foi Fernão Magalhães que descobriu a ilha de Timor em 1522. Em 1640 os hollandezes apoderaram-se da parte da ilha de Timor que ainda hoje possuem. Pelo tratado de 1850 cedemos á Hollanda os direitos que tínhamos sobre as ilhas das Flores, de Solor e Adenara, ficando definitivo o nosso domínio na ilha de Timor na região denominada dos Bellos e sobre a ilha de Pulo-Cambing.


domingo, 20 de janeiro de 2019

Regimento do Ouvidor de Macau nas partes da China: 1587

Em 1580, por sua iniciativa a comunidade portuguesa que vivia em Macau procedeu à eleição de um Ouvidor (Rui Machado) - magistrado equivalente aos juízes de fora e aos corregedores - segundo a legislação vigente em Portugal. nesta altura era o capitão-geral" que governava o território. Por volta de 1582, uma assembleia de moradores, convocada por iniciativa de D. Melchior Carneiro, escolheu para sua administração a forma senatorial baseada nas franquias municipais outorgadas pelo Rei a algumas cidades em Portugal. Em 1583 foi adoptado o nome de “Senado da Câmara”, composto por dois juízes ordinários, três vereadores e um procurador da cidade, todos escolhidos anualmente por eleição popular. Detinham o poder político, judicial e administrativo.
Em 1586 o Senado de Macau voltou a pedir ao rei a cessação do poder jurisdicional do Capitão sobre Macau, e finalmente, obteve a autorização. Em Fevereiro de 1587, o Rei de Espanha nomeou um Ouvidor para Macau para governar os assuntos de administração e de justiça.”
O primeiro Ouvidor chegou a Macau ainda antes da criação oficial do Senado. O "Título do Regimento do Ouvidor de Macau nas partes da China" - na imagem - data de 16 de Fevereiro de 1587 e torna o cargo independente do Capitão das Viagens:
"E o dito ouvidor não poderá ser preso nem empresado durante o tempo de seu cargo por caso nenhum crime nem cível excepto por mandado do Vice-Rei ou da Relação. E porque importa muito àboa administração da justiça que os ouvidores tenham autoridade que convém aos cargos que lhes faço mercê e de serem sujeitos aos capitães nasciam muitos inconvenientes e eram oprimidos de maneira que não podiam cumprir com a sua obrigação com a inteireza e liberdade que convém aos serviços de Deus e meu e querendo nisto prover hei por bem e mando que os capitães das viagens do Japão não tinham nenhuma jurisdição nem superioridade sobre o dito ouvidor de Macau, nem se intrometam em coisa alguma do que a seus cargos pertence. Outrossim, hei por bem e mando que o dito ouvidor governe a dita povoação juntamente até chegar em Agosto o capitão da viagem com a pessoa que os moradores dela elegeram por capitão no tempo que está sem ele."
Sobre as questões militares, o Ouvidor estava dependente do Capitão das Viagens durante a sua estadia em Macau. Durante a ausência, o Ouvidor, juntamente com a pessoa que os moradores elegiam como capitão, governavam Macau. Como a partir de 1606, o Rei só mandava escolher letrados para este cargo, veio assim a reforçar-se ainda mais o seu poder de facto.
Segundo o "Regimento" (regulamento), o Ouvidor tinha de ter conhecimento de todas as causas cíveis e crimes e os efeitos cíveis que em seu juízo se processarem; seria ele a ditar a sentenças, remetendo os casos fora da sua jurisdição para a Apelação de Goa; tinha competência de mandar passar cartas testemunháveis e de nomear escrivães ao seu serviço; actuava ainda como juiz dos órfãos mas estava expressamente proibido de qualquer intervenção na jurisdição chinesa:
"E mando que o dito ouvidor se não intrometa na jurisdição que o mandarim daquela povoação tem sobre os chins e chincheu e nos casos que se moverem entre os moradores e a eles fará inteiramente cumprimento da Justiça ".
Apesar destas ordens expressas, os governadores intrometiam-se amiúde na jurisdição dos Ouvidores. Assim, a 13 de Setembro de 1728, o Rei de Portugal emitiu uma ordem para todos os governadores das possessões da Ásia portuguesa, ameaçando-os com a pena de demissão se violassem a jurisdição dos Ouvidores. Na prática, mesmo alegando a razão de Estado ou conservação pública, só poderiam obrigar o Ouvidor por meio de três ordens sucessivas e por escrito, das quais este ou os interessados poderiam interpor recurso.
Em Macau até a Câmara (do Senado) se queixou das opressões de alguns dos Ouvidores, pedindo para se anexar este cargo ao do vereador mais velho. Defendia por isso a extinção do lugar do Ouvidor, pois Macau era uma terra pequena onde os juízes ordinários e o dos órfãos podiam julgar os pleitos, dando recurso para a Apelação de Goa, quando se justificasse.
A 20 de Abril de 1720, o Rei, acabaria por satisfazer este pedido e extinguiu a Ouvidoria, passando as suas atribuições para os juízes dos concelhos. A consequência directa foi um excessivo poder do Senado.
Em 1783 o Vice-Rei da Índia propôs ao Rei a restauração da justiça real em Macau e a partir de 1787 passou a mandar de novo ouvidores para Macau.
Em 1803, na sequência de uma reforma judicial, a Ouvidoria foi oficialmente restaurada e com maiores competências do que antes. Além das funções anteriores, passou a conhecer das apelações dos juízes ordinários, a efectuar as devassas como as dos corregedores das comarcas, a exercer a função de juiz administrador da alfândega, juiz dos órfãos e executor da Fazenda Real. Estava isento da jurisdição dos governadores e devia respeitar a jurisdição do Mandarim do distrito, sobre os chineses.
Em simultâneo, foi criada a Junta de Justiça, órgão composto pelo Governador, o Ouvidor, o comandante militar, os juízes ordinários, dois vereadores mais antigos e o Procurador, para julgar os recursos das decisões do Ouvidor.
A 7 de Dezembro de 1836 a Ouvidoria acabaria finalmente por ser extinta no âmbito de uma reforma da justiça na Comarca da Relação de Goa. A administração do governo de Macau fica entregue ao Senado e ao Governador.
Para elucidar esta peculiaridade de Macau recordo dois testemunhos coevos:
Relatório do Ministro do Ultramar, Sá da Bandeira, apresentado às Cortes em 1836:
"(...) Esta cidade, que tem perto de trinta mil habitantes, conta com apenas quatro ou cinco mil súbditos portugueses; os mais são chinas, regidos por leis e autoridades chinesas. Em consequência desta circunstância, em atenção às suas relações com o Império da China, do qual depende inteiramente esta Colónia ou Feitoria, tem uma espécie de administração peculiar que é muito melindroso alterar. (...)"
Ofício do Juíz de Direito de Macau, José Maria Rodrigues de Bastos, dirigido ao Barão da Ribeira Sabrosa, a 26 de Setembro de 1839:
"(...) Não pude deixar de admirar, vendo aqui estabelecidos 2 Governos, China e Português, cada um governando seus súbditos em boa paz; conservando-se assim um Estado dentro de outro Estado, durante 3 Séculos. Se isto, e a nossa aliança com a China; fossem tomadas em boa consideração, não se veria este Estabelecimento, varias vezes complicado com os Estrangeiros, e com especialidade com os Ingleses." (...)

Em 1837 o governador de Macau, Adrião Acácio da Silveira Pinto, equipara, efectivamente, o Leal Senado, a mera Câmara Municipal, sendo reafirmado em 1844 pela rainha D. Maria II, por Carta de Lei de 2 de Março.

sábado, 19 de janeiro de 2019

O Mapa de Diogo Ribeiro: 1527

A representação gráfica da percepção humana do mundo foi evoluindo ao longo dos tempos. Os primeiros registos remontam ao século 6 a.C. mas para este post escolhi um do século 16, considerado o primeiro mapa-mundi científico e onde se pode ver a China, incluindo a zona sul, onde fica localizado Macau. Nesta altura, 1527, ainda faltavam cerca de 30 anos para o 'assentamento' dos portugueses no território.
Diego Ribeiro ou Diogo Ribeiro (? - 16 de Agosto de 1533), foi um cartógrafo e explorador de origem portuguesa que trabalhou desde 1518 ao serviço da coroa espanhola. Diego/Diogo  trabalhou nos mapas oficiais espanhóis do Padrón Real (ou Padron Geral) entre 1518-1532. Também produziu instrumentos de navegação, incluindo astrolábios e quadrantes. Fez ainda as cartas de marear e instrumentos náuticos para a viagem de  circum-navegação de Fernão de Magalhães (1522).
O mais importante trabalho de Diogo Ribeiro é o Padrón real de 1527. O mapa principal é o primeiro mapa-mundi com base em observações empíricas da latitude, ou seja, o primeiro mapa-mundo científico. Existem 6 cópias atribuídas a Ribeiro.
No mapa surgem com precisão as costas da América Central e do Sul, mas não inclui nem a Austrália nem a Antártida. O subcontinente indiano surge muito pequeno e pode ver-se claramente a expressão "China" bem como a indicação de "Cantom" (Cantão). Aliás, os contornos do Extremo-Oriente são os mais fidedignos até então. O mapa mostra, pela primeira vez, a real extensão do Oceano Pacífico. Mostra, pela primeira vez, a costa norte-americana como um contínuo e a demarcação do mundo resultante do Tratado de Tordesilhas (1494).

Diogo Ribeiro, a Portuguese cartographer working for Spain, made what is considered the first scientific world map: the 1527 Padrón real, the first world map based on empiric latitude observations. There are 6 copies attributed to Ribeiro.
The layout of the map (Mapamundi) is strongly influenced by the information obtained during the Magellan-Elcano trip around the world (1522). Diogo's map delineates very precisely the coasts of Central and South America and also Asia. However, neither Australia nor Antarctica appear, and the Indian subcontinent is too small. The map shows, for the first time, the real extension of the Pacific Ocean. It also shows, for the first time, the North American coast as a continuous one (probably influenced by the Estêvão Gomes exploration in 1525). It also shows the demarcation of the Treaty of Tordesillas (1494).

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Os 'vários' "Echo Macaense"



Porventura inspirado no facto de o Boletim do Governo ter passado a ser bilingue em 1838 - pelo menos em parte mas sempre prevalecendo como válida a versão em português -, em 1893 surge em Macau o jornal "Echo Macaense: Semanário Luso-Chinez", também em português e mandarim, o primeiro no género.
Durou até 1899 e ao longo da sua existência teve vários subtítulos: 'nasceu' como "Semanário Luso-Chinês (25.07.1893); depois passou a ser "Jornal político, literário e noticioso" (18.07.1894) e ainda foi "Jornal político, noticioso e literário" (26.04.1896).
O primeiro número  deste semanário é de 18 Julho de 1893 e o último (nº 235) foi impresso a 17 Setembro de 1899... há 120 anos.


Fundado por Francisco Hermenegildo Fernandes, proprietário de uma das mais importantes tipografias de Macau, a N. T. Fernandes e Filhos, o Echo Macaense teve no corpo redactorial nomes como Pedro Nolasco da Silva e Constâncio José da Silva e ainda teve a colaboração do então médico em Macau Sun Yat Sen (amigo de Hermenegildo), que viria a ser presidente da república chinesa em 1911.

Área de superfície

Já em outros posts me referi à evolução da área de superfície da península de Macau e ilhas da Taipa e Coloane. Neste post fica o registo de forma mais sistemática e uma fotografia tirada do alto de Coloane, vendo-se o istmo que liga esta ilha à Taipa e ao fundo, Macau. Em menos de 100 anos a área de superfície de Macau mais do que triplicou...
Actualmente (2017), a área de superfície de Macau e ilhas é de 30,8 Km2: 9.3 península, 7.9 Taipa, 7.6 Coloane, 6.0 Cotai.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Chapel in the Great Temple of Macao

O livro "China: in a series of views, displaying the scenery, architecture, and social habits, of that ancient empire" é da autoria de George Newenham Wright (1790-1877) com ilustrações de Thomas Allom (1804-1872). A edição é de 1843 (Londres) e no volume 1 explica-se que os desenhos são feitos a partir de originais por Thomas Allom, sendo o texto da autoria do reverendo Rev. G. N. Wright. Neste caso a imagem original do Templo de A-Ma é de Auguste Borget.

Withdraw thee from yon pagan throng awhile;
The temple's din and bustle, both forsake;
And, where repose in each fair form doth smile, 
From the gaunt brotherhood thy lesson take:
He errs, the page of life, recluse, who cons,
In monkish zeal Franciscan, Dervise, Bonze.
C. J. C. 

Many resemblances between the monastic habits of the Roman Catholic Church and worship, and those of the priests of Buddha, have been observed. The missionaries themselves acknowledged the fact; and some of them, notwithstanding their unquestionable learning and philosophy, have exhibited an unbecoming weakness in speaking, or rather writing, on this coincidence. The arrangements of the temple of Macao may probably present a still closer resemblance to the modes of Christian conven- tual life, than those of temples in the interior, from the accidental circumstance of the presence of Roman Catholic churches in this particular place : but, wholly independent of any such adventitious aid in the argument, the analogy in costume, mode of life, form of worship, and other essential considerations, is so very striking, that no European can witness the ceremonies in a Buddhist temple, without being forcibly reminded of it. Here, at Macao, is an extensive collegiate or monastic establishment, the residence of bonzes, who observe celibacy, dress in the simple vesture depicted in our view, and live principally upon the bounty of the benevolent.
The walls of their apartments are not as plain and unpretending as their garments: richly ornamented with carved-work, interspersed with basreliefs, and occasionally decorated with paintings, their homes present an appearance of wealth and elegance; and, if public report were not too often identical with public calumny, it might be added, that the luxuries and pleasures of life are not excluded from the bonze's board. Entering by the chief porch, which is decorated in a style of grace, delicacy, and perfection, equal to that of the central building; animals of monstrous conception, but cleverly executed, are placed on pedestals at either side. Escaping from this contemptible specimen of art, the principal apartment of the temple is reached, where all those horrible mummeries that belong to the theory of Buddhism are performed. The high altar of idolatry stands precisely opposite to the great circular window, represented in the view of the Facade; and, when the rays of the sun flow in upon the hideous idols of the scene, their disgusting shapes, their imperfect structure, and their senseless nature, are so ridiculously displayed, that it is difficult to say whether their votaries are more entitled to pity or contempt. Besides the multitude of idols, as varied in size and material as in form and attitude, the articles that surround the spectator are infinite; and few who come here to pray can find leisure for the purpose, attention being diverted by the objects that present themselves at every point of space in this cabinet of curiosities.
The walls are decorated like those of our military armories, with halberds, swords, matchlocks, drums, tom-toms, and other ensigns of power, or conquest, or submission; lanterns of different patterns, and sizes, and colours, are suspended from the roof, besides festoons or garlands of many-coloured ribands, united by metal clasps. Bonzes are continually in attendance upon the worshippers; and one of their duties, a duty however in which they have a direct pecuniary interest, is that of selling little slips of red paper, inscribed with moral maxims, or forms of prayer, or the objects of some petition which the votary desires to present to his tutelar god. This traffic is constant and profitable, and yields a handsome revenue to the college.
On the high altar, tapers of sandal-wood are always burning; to these the supplicant approaches, lights his red paper, then laying it, at the feet of his favourite idol, accompanies its combustion with suitable entreaties for assistance or protection. A door, generally standing open, and around which a number of idle bonzes are collected, discloses a long corridor leading to the banqueting hall and cells; strangers, however, are but jealously admitted even to peep within these precincts. At the opposite side of the temple from that by which the visiter enters, a staircase leads down to a second esplanade, more limited in extent, but equally pleasing in all its accompaniments. In the semicircular area before the chief facade, a broad paved terrace, close to the margin of the waves, is enclosed by a stone parapet, profusely- sculptured, and on which are graven moral maxims and sentences, extracted from the Book of Fate, or other foolish fictions. Amidst the rocks that rise abruptly, and with a peculiarly picturesque effect, above the water, a small chapel is intruded, containing an image of Buddha, over which a large paper lantern is suspended. Beside this tiny temple, is a second building, with a porcelain roof, something of an Italian cornice and decoration, but having a spacious circular opening in front, that occupies the principal part of the whole elevation.
On a rock immediately opposite the window, stands a pedestal, with a recipient vessel, for the offerings of the humane and zealous amongst the visiters. Whether the expectation associated with the little hexagonal pedestal may extend its influence to any portion of the faithful, it is difficult to decide ; but certainly the number that visit this secluded and romantic part of the temple is considerably smaller than is constantly to he seen in the principal cella of the building. This fact is the more remarkable, because the scenery around the little chapel is highly picturesque, and of that mixed and contrasted character that pleases particularly in China. The terrace has been gained from the sea, the site of the temple from the ledge of rock, and the intermixture of the beauties of nature with the works of art is as close and complete as a Chinese artist could desire. Yet hour succeeds to hour, in this sequestered spot, and neither the tread of a footstep, nor the sound of a voice, falls on the ear of the miserable bonze, who sits within view of the place of tribute, and presents a taper to the devotee to light his dedicatory red paper at, which he comes to offer in the adjoining chapel.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Mapa "Asie - Partie de la Chine": 1827

Publicado por Philippe Vandermaelen (1795-1869) em 1827 em Bruxelas. Este "Partie de La Chine" faz parte do "Atlas Universelle", o primeiro atlas a ser produzido em escala uniforme num total de 6 volumes. Este faz parte do segundo volume dedicado à Ásia.
Título original:
Atlas universel de géographie physique, politique, statistique et minéralogique, sur léchelle de 1/1641836 ou d’une ligne par 1900 toises.
Dressé par Ph. Vandermaelen. Lithographié par H. Ode. Brussels, 1827. 6 Volums: .Europe 2.Asie 3.Afrique 4.Amérique Septentrionale 5.Amérique Méridionale 6. Océanique.
Philippe Vandermaelen's "Atlas Universelle" was the first world atlas to be produced at a uniform scale, one of the earliest produced by lithography and showed all areas of the world, by 182,7 in 6 volums. 

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Arborização no século XIX

Segundo António Estácio, "De entre os botânicos ligados a Ordens Religiosas, merece destaque o Padre Jesuíta João de Loureiro (1710-91) que, vindo de Goa, aqui permaneceu durante quatro anos (1738-42), antes de seguir para a Cochinchina onde viveu trinta e seis anos e em que recolheu dados que lhe permitiram redigir a "Flora Cochinchinense", editada em Lisboa no ano de 1790. De entre as várias espécies da Flora de Macau que classificou, podemos mencionar, a título meramente exemplificativo, o Longane (Euphoria longan (Lour.) Steud.); o Vompi (Clausena lansium (Lour.) Skeels); a Tangerineira Anã (Fortunella marginata (Lour.) Swingle); a Árvore da Pata de Pato (Schefflera octophylla (Lour.) Harms); o Falso Castanheiro (Aleurites montana (Lour.) Wils.); etc., assim como o Alfenheiro da China (Ligustrum sinense Lour.) e a Laranja-Mandarim (Citrus nobilis Lour)"

Com o governador Coelho do Amaral (1863-66) dá-se a construção do Jardim de S. Francisco, o primeiro jardim público do território.
José Gomes da Silva, no Relatório anual relativo a 1870 realça a necessidade de árvores "não só na cidade, mas também nas encostas e cumes de alguns montes".
Entre 1877-79, com o governador Carlos Eugénio Corrêa da Silva, viriam a ser plantadas na cidade duas centenas de árvores.
Entre 1883 e 1887 foram mandadas plantar pelo Governador Tomás da Rosa 60.000 árvores em Macau. A tarefa esteve a cargo do agrónomo Tancredo Caldeira do Casal Ribeiro. Entre 1887 e 1893 foram plantadas na cidade cerca de 16.000 árvores. Ao todo, temos o equivalente a quase uma árvore por cada habitante de Macau na época. Vejamos alguns dados sobre o tema incluídos em relatórios da época publicados no Boletim do Governo...

Vista ca. 1880
1885 - “Uma cordilheira se estende e limita parte da cidade do lado L. [...] As encostas d’estes montes com uma enfezada vegetação n'uns pontos, escalvados n'outros, mostrando em vários sítios a natureza granítica do seu solo, apresentavam um aspecto desolador e triste ainda ha pouco, aspecto que actualmente vão já perdendo; e mais tarde serão formosissimos bosques, graças aos cuidados e interesse que sua Ex. a o Governador Roza tem tomado, em aformosear e beneficiar Macau com larga arborisação. 
(...) É limitada a peninsula ao SO por uma grande montanha, em cujo plateau assenta uma arruinada ermida -- monte da penha. A encosta da montanha que olha para a cidade é muito arborisada, produzindo encantadora vista; a que olha para o mar descae escabrosamente até à fortaleza denominada da Barra. O resto da cidade é quasi todo plano."

Augusto Pereira Tovar de Lemos - Relatório do Serviço Médico da Província de Macau e Timor, 1 de Fevereiro de 1886, in Boletim da Província de Macau e Timor.

Por esta altura uma das zonas verdes de grande dimensão no território era o Jardim Luís de Camões. O processo para aquisição do jardim foi iniciado pelo antigo Capitão do Porto de Macau, João Eduardo Scarnichia, quando deputado no Parlamento de Lisboa, em Maio de 1880, mas só em 1885 o governador Tomás de Souza Roza telegrafou ao Ministro da Marinha e Ultramar, Manuel Pinheiro Chagas e, depois de autorizado, comprou a propriedade à família Marques.


1885 - "A utilidade que resulta da arborisação, o elevadíssimo papel que ella assume na hygiene publica é tão conhecido e demonstrado que me abstenho de demorar, repetindo o que já é do dominio publico. Basta que diga que breve se devem sentir os beneficos efeitos da cultura emprehendida pelo Ex. mo Sr. Governador. O arvoredo que, tirado d'um viveiro da quinta da Flora cuidadosamente tratado foi transplantado para varios pontos da cidade e em especial para a cordilheira que por E circunda o grande largo denominado Flora, já hoje se apresenta viçoso e bonito. A cultura é em larga escala, e entre os cinco ou seis annos lucrarão a hygiene e o aformoseamento da cidade. Aquelles montes que pela sua nudez, pelo seu granito, e rochas em pontos a descoberto impressionavam tristemente o viajante, aqueles montes que pela sua natureza mais convidavam a trabalhos de dynamite, e mais pareciam proprios a fornecer pedra para construção de casas, do que para alimentar em seu seio um vegetal qualquer, converter-se-ão em formosos cerrados bosques. O estrangeiro que visitar Macau receberá as mais gratas impressões. 
Segundo se vê no relatorio feito pelo agronomo o Ex. mo Sr. Tancredo do Casal Ribeiro, plantaram-se por duas vezes em julho de 1883 e março de 1884 as seguintes especies. 
Pinus sinensis..................... 20,000 pés
Cupressus japonica.............. De cada uma 300 pés
Aleurites triloba..................
Ailanthus glandulosa..........
Poinciana pulcherrima........
Laurus camphora................
Ficus elastica......................
Erytrina...............................
Morus alba..........................3,000 pés
Já depois d'isso mais alguns milhares se tem posto, e actualmente em grande actividade se continua no mesmo trabalho."

Augusto Pereira Tovar de Lemos - Relatório do Serviço Médico da Província de Macau e Timor, 1 de Fevereiro de 1886, in Boletim da Província de Macau e Timor.
Monte da Guia em 1895
1885 - "Mostrar aqui quaes as muitas vantagens da arborisação, indicar quanto lucrará a cidade de Macau, quando as suas montanhas aridas e escalvadas ha pouco, se apresentarem cobertas com um luxuriante tapete de verdura, patentear os beneficos resultados, que a hygiene, a salubridade e o aformoseamento da cidade alcançarão, quando a arborisação, assás e devidamente desenvolvida e espalhada, transformar esta terra calida e ardente, n'um ameno e ridente bosque de arvoredo, não é intento meu, porque são bem conhecidas estas vantagens, e em toda a parte, e por todos, é recomendada a arborização, como um dos meios mais efficazes, para conseguir o saneamento do solo e das camadas atmosphericas. (...)

E é bom de notar que, além d'estas, muitas outras, simplesmentte de adorno, foram collocadas nos differentes jardins, e muitos milhares de pinheiros, que foram dispersamente semeados por todas as montanhas de Macau, já hoje apresentam um satisfactorio estado de desenvolvimento, e em breve farão desapparecer a aridêz d'aquellas regiões graniticas.
No anno findo, a que mais especialmente me devo referir, foram plantadas em varios pontos 5344 arvores, e no viveiro da Flora, cujos canteiros foram destinados, uns á reproducção por meio de estaca, e outros ás diversas sementeiras (...)"

José Maria de Sousa Horta e Costa, Director das O. P. - Relatório da Direcção das Obras Públicas da Província de Macau e Timor, 1 de Julho de 1886, in Boletim da Província de Macau e Timor, de 14 de Setembro de 1886

1886 - "Relativamente á arborisação continuou este serviço em grande escala. Plantaram-se, como se vê no mappa junto, 6/813 arvores, isto é mais 1469 do que no anno anterior, e no viveiro da Flora cujos canteiros são destinados uns á reproducção por estaca outros a sementeiras existem actualmente para serem plantadas no futuro as seguintes arvores (...)"
José Maria de Sousa Horta e Costa, Director das O. P. -  Relatório Sobre Obras Públicas, in Boletim da Província de Macau e Timor, 3 de Novembro de 1887.
Mapa relativo a 1886
1887 - O grande promotor das zonas verdes em Macau foi o governador Tomás de Sousa Rosa (1883-1886). 
Adolpho Loureiro no livro No Oriente De Nápoles à China, refere-se assim ao caso numa visita ocorrida em 1883 aos viveiros da Flora: 
"Aqui estivemos examinando os viveiros e as sementeiras florestais, para as quais o meu bom amigo Rosa teve muitas vezes de empunhar a enxada para ensinar os chins como qualquer saloio dos arredores de Lisboa sabe fazer os alfobres, os machos e as regadeiras. A arborização daquelas encostas vai auspiciosa, e grande serviço presta o Governador ocupando-se de tão grande melhoramento. Como aqueles sítios serão bonitos, quando os terrenos esbranquiçados, cortados de sulcos abertos pelas águas das chuvas, áridos e secos, estiverem vestidos de verdura!..." 
O Conde de Arnoso, que foi com Tomás da Rosa para Macau em 1887, refere-se assim ao tema no livro Jornadas pelo Mundo: 
"A península de Macau, cercada de ilhas, pequena como é, com a sua várzea fertilíssima e as suas seis colinas dum relevo gracioso -- Guia, Penha de França, Mong-Ha, D. Maria e Gruta de Camões é tudo quanto se possa imaginar de mais pitoresco. Quando daqui a alguns anos as sessenta mil árvores, criadas e mandadas plantar por Tomás Rosa, e que parecem vingadas, cobrirem com a sua sombra aquelas encostas, Macau será um verdadeiro paraíso e concorridíssima estação de Verão do Extremo Oriente. Já agora os habitantes de Hong-Kong procuram, no clima natural de Macau, um refúgio aos excessivos calores desta quadra. É com verdadeiro prazer que um português se encontra em Macau mesmo depois de ter visitado Aden, Colombo, Singapura, Saigão e Hong-Kong, onde os ingleses e franceses, a peso de ouro, têm criado estabelecimentos de primeira ordem. Nada nos envergonha".
Mapa relativo a 1887
1888 - "Tem progredido o serviço d'arborisação geral como se pode inferir do mappa n. ° 3 onde tambem está mencionada a sua importancia. A ausencia de tufões durante estes ultimos annos deu logar a que as arvores dispostas n'uma orientação adequada e beneficiadas pela natureza do terreno se tenham desenvolvido, concorrendo poderosamente para o aformoseamento e para a hygiene da cidade. (...)" Amancio de Álpoim de Cerqueira Borges Cabral - Director das O. P - Relatório Sobre as Obras Públicas relativo ao ano económico de 1888 a 1889, 1 de Julho de 1889,  in B. P. M. T., de 3 de Dezembro de 1889.
Mapa de 1889
Podemos verificar a consciência ecológica no final do século XIX nas normas introduzidas no Código das Posturas Municipais relativas aos jardins públicos:
Art. ° 72. ° É prohibido cortar, ou arrancar flores, ou outras quaesquer plantas dos jardins publicos, sob pena de $1 de multa.
Art. ° 73. ° É prohibida a entrada nos jardins publicos a maltrapilhos, mendigos, ou pessoas trajadas indecentemente, embriagados, ou que por qualquer circumstancia offendam a moral publica, sob pena de $2 de multa.

 Avenida Vasco da Gama (e Coreto) ca. 1898
Em 1898, por ocasião da Comemoração dos Quatrocentos Anos do Descobrimento do Caminho Marítimo para a Índia, foi inaugurada a Avenida/Alameda Vasco da Gama. Tinha 65 metros de largura e 500 metros de comprimento, ocupando uma área de, aproximadamente três hectares, incluindo um vasto jardim.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Qi sheng yan hai tu - Mapa costeiro das 7 províncias

Foi feito entre 1787 e 1806 este Qi sheng yan hai tu - 七省沿海图 - cuja tradução é  Mapa costeiro das 7 províncias.
Trata-se de um mapa feito em rolo e onde são assinaladas 7 províncias costeiras da China, incluindo Guanggong/Cantão, onde se inclui Macau (que assinalei com um círculo). Em baio a imagem é do zoom/detalhe de Macau.
This a scroll map of the China coast unrolled to show the mouth of the Pearl (Zhu) River and the Macau peninsula. It was made betwen 1787 and 1806. The translation of the Chinese name is: Coastal map of seven provinces.
Translation of a text from the map:
"The coastal region of Xing Hui and Hu Men in Canton Province consists of an important strategic point which should be given sufficient defense attention. This region is heavily infested with inner river bandits and sea pirates who can sail in and out freely. It also shares a border with Macao, where foreign boats and ships visit frequently. Those foreign vessels are always to be guarded against."
The map is similar, in content and format, to the six maps in Chen Luntong’s Hai quo wen jian lu (Eyewitness accounts of the coastal regions)*, made in 1730.
The oldest permanent European settlement in Asia, Macau was established in 1557 by the Portuguese, who at that time dominated European trade with Asia.

Num do textos incluídos no mapa pode ler-se:
"A região costeira de Xing Hui e Hu Men na Província de Cantão é um importante ponto estratégico que se deve ter em atenção  em termos de defesa. Essa região está fortemente infestada de bandidos e piratas do mar que podem navegar livremente; partilha fronteira com Macau, onde passam com frequência barcos e navios estrangeiros. Deve-se sempre proteger dessas embarcações estrangeiras”.
O mapa é similar, em conteúdo e formato, aos seis mapas incluídos na obra Hai quo wen jian lu, de Chen Luntong (relatos de testemunhas oculares das regiões costeiras)*, feitos em 1730. O mais antigo assentamento europeu permanente na Ásia, Macau, foi estabelecido em 1557 pelos portugueses que na época dominavam o comércio europeu com a Ásia.
*Título original/Original title: Hai guo wen jian lu/Chen Lunjiong zhu; Ma Junliang chong ding. Chen, Lunjiong, fl. 1703-1730.

domingo, 13 de janeiro de 2019

Sketches in Macao: 1832 e 1838




A 29 de Setembro de 1825 chegava a Macau o pintor inglês George Chinnery (auto-retrato ao lado) oriundo de Calcutá.
Ficou-se pelas costas do sul da China desde então e até à data da sua morte em 1852. Viveu a maior parte do tempo em Macau. Até meados dos anos trinta efectuou visitas periódicas a Cantão; visitou igualmente Whampoa, Lintin (em 1837) e Hong Kong (em 1846), mas Macau tornou-se na sua terra até à morte, jazendo hoje no cemitério Protestante de Macau.
No seu diário a 7 de Maio de 1833 Harriet Low escreveu: "Levanta-se às cinco horas, sai para a rua e faz esboços e merece com toda a justiça o pequeno-almoço". E acrescentou "divertido" e "fascinantemente feio".
Em Macau Chinnery ficou fascinado com a cidade e a arquitectura: igrejas, templos e a baía da Praia Grande. Teve muitos seguidores e imitadores - Thomas Watson (1815-1860), William Prinsep (1794-1874) e Marciano Baptista (1826-1896) - enriquecendo ainda mais o seu legado. Viveu primeiro na Rua do Hospital e depois no nº 8 da Rua Ignacio Baptista - junto à igreja de s. Lourenço - onde também tinha o estúdio.
Chinnery morreu a 30 de Maio de 1852 sem deixar testamento. As suas obras e bens foram vendidos em hasta pública.
Em 1974, no bicentenário do nascimento de Chinnery, uma placa foi inaugurada no memorial do cemitério pelo governador de Macau, o general José Nobre de Carvalho. A placa incluiu a inscrição: “Pela vida daquele que, viajando longe da terra de seus pais, encontrou nesta cidade um refúgio das aflições e preocupações mundanas de seus primeiros anos". Uma edição especial de selos também foi publicada. E a Travessa do Hospital dos Gatos tornou-se a Rua de George Chinnery.
Extremamente meticuloso na sua arte, Chinnery deixou registos em forma de cartas. Mas isso fica para um próximo post...
Sobre o título deste post aqui fica a justificação: Chinnery faxzia primeiro esboços (sketches) e só depois 'partia' para o trabalho final. Felizmente para todos nós ele não deitava fora os esboços e por isso hoje podemos apreciar cerca de uma centena de obras dele feitas em Macau.
On the 29th of September 1825 the English artist George Chinnery (self portrait up side) landed at Macao from Calcutta.
From 1825 until his death in 1852 he remained on the South China coast. For most of this time he lived in Macao. Until the mid 1830s he made periodic visits to Guangzhou; he also visited Whampoa, Lintin (in 1837) and Hong Kong (in 1846), but Macao became his home until his death, and he lies buried in Macao's Protestant cemetery.
"He gets up at 5 o'clock and goes out and makes sketches and earns his breakfast certainly [...]" wrote Harriet Low in her diary on 7th May 1833. She also added “amusing” and “fascinatingly ugly”.
He lived first at Rua do Hospital and after at 8 Rua Ignacio Baptista - near St. Lawrence church, where he also had his studio. Chinnery was delighted by Macao's scenery and architecture: churches, temples and the seafront. He had many pupils and imitators - Thomas Watson (1815-1860), William Prinsep (1794-1874), and Marciano Baptista (1826-1896) - and his influence endured long after his death.
Chinnery died of a stroke at his home on 30 May 1852. He did not leave a will, and nobody claimed his belongings, which included cases full of paintings and sketches, which were sold by judicial order. In late July that year, a grand auction of the contents of his studio was held in Macau, attended by the cream of Hong Kong society.
In 1974, on the bicentennial anniversary of Chinnery’s birth, a plaque was unveiled at the memorial by the Governor of Macau, General Jose Nobre De Carvalho. The plaque bears a dedication: “For the life of one who, journeying far from the land of his fathers, found in this city a haven of refuge from the besetting tribulations and worldly cares of his earlier years.  A special stamps editon was also published. And Travessa do Hospital dos Gatos became Rua de George Chinnery.
Chinnery's letters will be a theme for a next post...
About the title of this post: Chinnery first draw sketches and only after that the final work. Luckily for all of us he did not throw away the sketches and so today we can appreciate about a hundred works of him made in Macau.



There are at least 2 editions of "Sketches in Macao" (1832) and (1838):
Existem pelos menos dois álbuns de "Sketches in Macao" (1832) e (1838):
- The sketches in the Album belonging to Major Henry Keswick date from 1835 to 1841.  View of S. Domingo Church and Cross opposite Cathedral, Macao, and inscribed on a stone " Sketches in Macao," faintly signed " Geo. Chinnery (1774-1852) or G.C.
- The Reeves Macao Album, 1836-1837
signed with initials and inscribed on the front pastedown "I have added a few sketches in water colour which I hope you'll approve of - GC"
Approximately 200 sketches of Macao and environs comprising scenery and street scenes, sketches of Chinese figures, Tanka boats and boat people, animals, junks, sampans and other sailing craft, 69 leaves, with one loosely inserted sheet (with sketches after Chinnery), 45 pages with multiple sketches, 31 pages with single sketches, including one view of Sao Francisco Fort across two pages, the majority pencil filled in with pen and sepia ink, 5 watercolour, 5 pencil, pen and ink and sepia wash, 9 pencil, the leaves 273 x 203mm., one panoramic sketch of S. Pedro Fort and the Praya Grande extended on the left with an addition 121 x 191mm., the majority inscribed in Chinnery's (Gurney) shorthand and dated (18)37, five dated 1836.
John Russell Reeves (1804-1877), was a East India Company Assistant Inspector of Teas at Canton (appointed 1827).






 Panorâmica com perspectiva sobre o nordeste da península de Macau
 O Fortim de S. Pedro foi um dos pontos de referência predilectos de G. Chinnery registando daqui várias perspectivas sobre a baía da Praia Grande.


 Igreja S. Domingos: desenho de Chinnery e foto século 21

 Vista panorâmica sobre Macau (ao fundo) a partir dos montes de Heng Sheang

sábado, 12 de janeiro de 2019

"Macao Clings to the Bamboo Curtain"

Na edição de Abril de 1969 - há 50 anos - na revista National Geographic foi publicado um artigo de 20 páginas sobre Macau. O texto é da autoria do jornalista Jules B. Billard e as fotos de Joseph J. Scherschel que estiveram no território durante o período do ano novo chinês desse ano. O título: “Macao Clings to the Bamboo Curtain” relembra outro, de 1953, também da NG: "Macao, a hole in the bamboo curtain" (9 páginas).

O longo artigo começa assim:
“Macao Clings to the Bamboo Curtain – The West` s oldest trading post on the China coast, this overseas province of Portugal is European in outward appearance but Chinese in spirit and culture.”
"Macau agarra-se à cortina de bambu - O posto de comércio mais antigo do Ocidente na costa da China, esta província ultramarina de Portugal é europeia em aparência, mas chinesa em espírito e cultura ”.
A expressão "Cortina de Bambu" refere-se à versão asiática da Cortina de Ferro (Europa ocidental vs Europa de leste) e marca a divisão ao redor de Estados comunistas do leste da Ásia durante a Guerra Fria, especialmente da República Popular da China, mas excluindo a União Soviética.
E continua...
"The green and red flag of Portugal, faded and bit frayed at the edges, shivered on its staff a top Government House in Macao. It caught my eye as I walk along the banyan-shaded Rua da Praia Grande, where the avenue's graceful sea wall curbs Brown waters of the bay. And, in that moment, it took on a special symbolism for me. The aging colors spoke of bygone brilliance for this bit of Portugal tacked to the asian mainland. tha trembles that swept the cloth told of a breeze out of Communist China next door. Macao, so mute a thing as a flag reminds you, sways precariously with each stirring of its giant neighbor.
Yet, it exists - and has for 400 years - as an intringuing, anormal, a tiny outpost amid the power and vastness of an alien land. (...)


Entre os vários temas abordados pelos repórteres da NG destaque para o comércio do ouro que representava transacções num total de 30 milhões de dólares - Macau importava lingotes de outro que depois transformava em peças de joalharia e afins - e que rendia aos cofres do governo - pela aplicação de impostos - perto de um milhão e 500 mil dólares. A este propósito é fotografada uma macaense de nome Alda Dias numa das muitas joalharias existentes em Macau.

 

O governador Nobre de Carvalho e o secretário geral Alberto Eduardo da Silva (substituía o governador de forma interina na sua ausência) surgem numa fotografia tendo como fundo um quadro do Presidente da República de Portugal, Américo Thomaz.
Numa outra foto - tirada do Farol de Guia - mostra-se uma panorâmica sobre o território na altura com 280 mil habitantes. É ainda publicado um mapa da "Macao City" onde se referenciam as principais 'atracções' do território à distância de 75 minutos de viagem de
hydrofoil de Hong Kong.
É uma "senhorita" de nome Maria do Carmo Rego que acompanha os jornalistas pela cidade, nomeadamente às Ruínas de S. Paulo, cuja fotografia ocupa uma página inteira da revista. Outro dos locais visitado é a Porta do Cerco onde o jornalista faz questão de ir e explica que depois dos acontecimentos de Dezembro de 1966 são desaconselhadas presenças demasiado próximas do lado chinês.
A propósito dos tempos turbulentos que se seguiram à subida ao poder dos comunistas em 1949, o jornalista explica que, "como sempre, Macau tem sido como um bambu flexível que não verga nem perante o pior dos tufões". São ainda referidas as constantes manifestações anti-imperialismo nas ruas de Macau.
Henrique de Senna Fernandes, na altura o responsável máximo pelos serviços de turismo, e Luís Gonzaga Gomes, são dois dos entrevistados referidos na reportagem. Senna Fernandes afirma que o segredo de Macau é ter sido sempre o local onde o Ocidente e o Oriente se encontraram...
Os refugiados são outros dos temas abordados explicando as diversas fases da história em que Macau serviu de porto de abrigo. Em 1962, explica-se, chegaram a Macau mais de 1200 refugiados todos os meses, a maioria da China, fruto da 'revolução cultural' em curso. O alto comissário para os refugiados (ONU), William McKoy, afirma que 70 mil estão por aqueles dias em Macau.
As principais actividades económicas de Macau também são abordadas com destaque para a indústria dos panchões com exportações diárias na ordem das toneladas por dia sendo 80% destinadas ao mercado norte-americano. Os jornalista visitam uma das fábricas mais importantes, a Kwong Hing Tai, acompanhados do gerente, Chang Tac, e do administrador dos concelhos das ilhas da Taipa e Coloane, Gastão Barros.
O jogo era outro dos principais motores da economia local explicando o jornalista que para a mente de muitos orientais, "o jogo não é um vício mas antes uma paixão".
A este propósito uma das fotografias é tirada dentro do casino flutuante (com a legenda:Patrons place bets from above in a double-decker floating casino, Macao)   e outra mostra Stanley Ho (que poucos anos antes passara a deter o exclusivo da exploração do jogo em Macau) e o arquitecto Liang Tat Man fotografados com a maqueta do casino-hotel Lisboa frente à entrada do edifício na altura quase concluído (seria inaugurado em Fevereiro de 1970). Antes deste projecto houve outro.
A questão da dependência das drogas é outro dos assuntos abordados, referindo-se o centro de recuperação de toxicodependentes da ilha da Taipa, a cargo de Lages Ribeiro, da PSP.
Uma fotografia de grande dimensão encerra as duas últimas páginas da reportagem. Nela pode ver-se juncos ao porto do sol no Porto Interior. O jornalista termina o texto com uma referência a uma texto gravado na gruta de Camões que classifica o território como a pérola do oriente.
O artigo da NG seria referido na edição de Maio de 1969 do Boletim Geral do Ultramar: "Um artigo sobre Macau numa revista norte-americana" onde se destaca apenas o seguinte: