domingo, 24 de março de 2019

A casa de Wenceslau de Moraes

Em 1928, um ano antes de morrer, Wenceslau de Moraes escreve, a pedido de um amigo japonês, a sua biografia:
«Sou português. Nasci em Lisboa (capital do país) no dia 30 de Maio de 1854. Estudei o curso de marinha e dediquei-me a oficial da marinha de guerra. Em tal qualidade fiz numerosas viagens, visitando as costas de África, da Ásia, da América. Estive cerca de cinco anos na China, tendo ocasião de vir ao Japão a bordo de uma canhoneira de guerra e visitando Nagasaqui, Kobe e Yokohama. Em 1893,1894, 1895 e 1896, voltei ao Japão, por curtas demoras, ao serviço do Governo de Macau, onde eu então estava comissionado na capitania do porto de Macau. Em 1896, regressei a Macau, demorando-me por pouco tempo e voltando ao Japão (Kobe). Em 1899 fui nomeado cônsul de Portugal em Hiogo e Osaka, lugar que exerci até 1913. Em tal data, sentindo-me doente e julgando-me incapaz de exercer um cargo público, pedi ao Governo português a minha exoneração de oficial de marinha e de cônsul, que obtive, e retirei-me para a cidade de Tokushima, onde até agora me encontro, por me parecer lugar apropriado para descansar de uma carreira trabalhadora e com saúde pouco robusta. Devo acrescentar que, em Kobe e em Tokushima, escrevi, como mero passatempo, alguns livros sobre costumes japoneses, que foram benevolamente recebidos pelo público de Portugal.»
Lei Chi Ngok 李志岳 Li Zhiyue 1996.
Watercolour and pencil on paper

No livro "Traços do Extremo Oriente”, publicado em 1895, Wenceslau de Moraes escreve à sua irmã sobre a sua casa em Macau:
“(…) Compreendes, pois, o penoso trabalho a que me dei ao pôr pé na China, acompanhado de duas malas com roupa e dum caixote com livros, vendo-me por primeira vez nos complicados apuros de precisar dum abrigo em terra. Coragem! mãos à obra! A primeira preocupação era naturalmente a escolha da casa. Encontrei-a, comum, banal, como todas as casas de aluguer de todos os países; numa rua qualquer, ou antes num beco, com vizinhos à direita e à esquerda, e na frente também; não faltando olhares acessos em bisbilhotice, a entrarem sem cerimónia para dentro das minhas cinco janelas. Por fora é pobremente pintada a ocre amarelo, destacando as gelosias verde-salsa; por dentro uma demão de cal, duma alvura imaculada, cobre uniformemente as paredes dos aposentos, dando-lhes assim uns ares de mesquita árabe, que não deixam de seduzir-me. Os meus vizinhos fronteiros são chinas, graças a Deus. Sem o minimo ponto de contacto com o meu modo de ser, interessados dissemelhantemente na vida, pelos usos, pelos hábitos, pela língua, pelos afectos, pelas crendices, pouco os deve preocupar o que faz no seu albergue o vizinho europeu, o ‘fan-quai’, o diabo estrangeiro. E para mim – confesso-o aqui entre nós – proporciona-me o ensejo, esta boa gente chinesa, de em horas de fastio distrair-me em devassar-lhe a íntima existência; condenável egoísmo o meu, em que me pese dizê-lo….”. (...)
Em "A Minha Casa" escreve:

"Está tudo bem. Estes quadros japoneses, destacando das paredes muito brancas, trazem-me ao espírito uma agradável reminescência do maravilhoso país de Nipão, que há anos percorri com tanto interesse. Na estante, perfilam-se na melhor ordem os meus livros preferidos, os meus bons companheiros. Sobre a mesa ampla, uma verdadeira mesa de trabalho, espadanam folhas viçosas dum vaso de porcelana do Japão; a um canto, numa jarra, um ramo de flores frescas e perfumadas; o papel, as penas, o tinteiro, o tabaco, as bagatelas de uso habitual, agrupam-se, amontoam-se, numa desordem toda minha, convidando ao trabalho de espírito, na paz serena da solidão."
O primeiro tenente Venceslau de Morais chegou a Macau a 7 de Julho de 1888. Em 1890 foi nomeado um novo governador: Custódio Miguel Borja. Em 16 de Outubro desembarcou na Praia Grande. A 20 de Janeiro de 1891, Morais assumiu o comando interino da Estação Naval de Macau. Só exerceu o comando até Março. Terminada a comissão nos mares da China, a "Tejo", sob o comando de Morais, regressou ao reino de Portugal. 
De regresso a Macau, em 1891, Morais foi promovido a capitão-tenente e nomeado imediato do capitão do porto de Macau. Foi depois mandado reassumir as funções de delegado do Superintendente da Importação e Exportação do Ópio, em Macau. A 30 de Dezembro de 1893 foi promovido a capitão de fragata sendo exonerado a 3 de Fevereiro de 1894 e a 16 de Abril tomou posse do cargo de professor de Matemática Elementar do Liceu Nacional de Macau.
A 4 de Julho de 1897 Morais seguiu para o Japão na comitiva do governador de Macau, coronel Eduardo Galhardo. A missão foi recebida em Quioto pelo imperador Meiji. Regressou a Macau a 28 de Agosto do mesmo ano.
A 22 de Setembro de 1897 Morais foi nomeado para fazer parte do júri de exames de instrução secundária no liceu de Macau. A 8 de Junho de 1898 Morais foi exonerado de imediato da capitania de Macau, para ser nomeado encarregado da gerência interina do Consulado português de Kobe e Osaka. Nunca mais regressaria a Macau onde esteve entre 1888 e 1898.
Eis algumas das referências ao território nos textos que escreveu:
Carta de 20 de Maio de 1895: "Temos a peste em casa. Contam-se já centenas de vítimas entre os chineses, e bastantes entre os macaenses; os europeus têm sido até agora poupados. A enorme população do Bazar foge para diferentes pontos da China. Macau acha-se muito despovoada. Está feita a paz entre a China e o Japão."
No livro Traços do Extremo Oriente... sobre a Gruta de Camões:
"O jardim da Gruta de Camões é um dos sítios mais aprazíveis do nosso pequenino domínio no Extremo Oriente; ao prestígio da sua velha lenda reúne o encanto natural da posição culminante dos horizontes vastos, da vegetação vigorosa que aqui encontra asilo, aconchegada com as rochas contra a fúria inclemente dos tufões. (...) "Vê-se em baixo a cidade, a amálgama prodigiosa das negras casas chinesas, a linha serpeada das vielas; e chega-nos confuso o som de mil pregões dos bazares, o papear insólito dos garotos, o ruído dos tantãs e dos foguetes festivos."
Sobre um passeio com o seu cão:
"Há pouco, os caminhos brancos de luar, alcatifados pela sombra rendilhada do arvoredo, convidavam ao passeio. Agora não, estão lôbregos. A cidade repousa: são mais de dez horas, e em solo chinês a actividade exterior declina ao cair da noite. Dentro das habitações, portas fechadas, trabalha-se ainda porventura, ou bebe-se chá em íntimo convívio; e, nos cenáculos de prazer, os ricos fumam ópio, ou saboreiam repastos prodigiosos, enquanto que as raparigas, flores, nos cabelos e cingidas em sedas lhes cantarolam trovas, ou lhes enviam sopros capitosos ao doce arfar das suas ventarolas. Ao longe ressoavam os tantãs."
Carta de 1905 ao seu amigo e condiscípulo da Escola Naval, José Godinho de Campos:
"Vão-me aparecendo ganas de largar este poiso. Mas, largando-o, é a reforma e a modorra, não provavelmente no Reino, mas talvez em Macau, onde os fados me chamam. Ora, custa-me a decidir-me por este sepulcro antecipado; bem mais valeria que o diabo me levasse daqui; mas vaso ruim não quebra, e posto que fraco, não morro... Se me reformar... Para Macau é que conto ir viver. Em que havia de dar o 'Loti português'!..."

sábado, 23 de março de 2019

Greve dos "conductores dos carros jinrickshas" em 1895


Até à vulgarização do automóvel em meados do século XX, os transportes em Macau eram feitos por carruagens puxadas a cavalo, cadeirinhas e riquexós ou jerinxás. As cadeirinhas eram uma espécie de liteiras, carregadas por dois ou mais homens. No caso das cadeirinhas enquanto a esmagadora maioria tinha de recorrer ao aluguer, os mais abastados tinham a sua cadeirinha particular. Para se perceber o quanto se vulgarizaram refira-se que logo em 1872 se encontravam na “praça” cadeirinhas para alugar sendo mesmo publicadas no Boletim Official a tabela de preços a praticar entre outras regras no âmbito do Código de Posturas do Leal Senado da Câmara de Macau (21 Novembro 1871 e revisão em 11 de Maio 1872). A partir de 1900 as cadeirinhas foram sendo progressivamente substituídas pelos riquexós.
O primeiro regulamento deste meio de transporte data de 1883, tendo sido alterado em 1888. Incluía questões relacionadas com a sinalização, estacionamento, circulação e preços do respectivo aluguer. 
Jerinxás juntos aos Correios na Praia Grande ca. 1900
Como forma de regularizar este sistema de transporte o governo optou pela concessão em regime de monopólio o que se veio a revelar-se uma má opção a ponto de terem surgido nos últimos anos do século 19 várias greves. 
Notícia do jornal Echo de Macau de 3 de Janeiro de 1895:

"Estão em greve os conductores dos carros jinrickshas [riquexós]. É a segunda vez que isto acontece. Já estava previsto que o regime de monopolio traria por repetidas vezes estas semsaborias. O monopolista não pode explorar o publico, porque não pode alterar a tabella dos preços, visto que se obrigou por contrato a respeitá-la. Resta-lhe portanto explorar o trabalho insano dos pobres conductores. Augmentou o aluguel dos carros, exigindo dos conductores 17 avos por dia em logar de 15, além de urna pataca de deposito para garantia do mesmo aluguel. Reagindo contra esta exigencia, os conductores fizeram greve, que dura ha dois dias, causando serios inconvenientes ao publico. Quem cederá? É de crér que o monopolista terá de ceder, porque o contracto de monopolio, se não nos falha a memoria, obriga-o a pôr em circulação um certo numero de carros, sob pena de rescisão do contracto. [...] N’estas circunstancias, o único expediente que resta ao monopolista, para salvar a situação, é importar conductores para substituir os actuais, o que traz sérios inconvenientes, porque é de crer que os antigos conductores, acossados pela fome, sejam impelidos a cometer desatinos."
Para tentar revolver o problema, surgiu a hipótese de municipalizar este serviço. Uma ideia reflectida na imprensa local.Veja-se por exemplo o artigo publicado no jornal a A Verdade, de 15.6.1909 com o título: "Municipalização do serviço dos carros jinrickshas":
Sob o titulo neologico, aventa a Vida Nova a ideia de municipalizar o serviço dos jinrickhas, isto é, ficar o Leal Senado com o exclusivo dos serviços de transporte, ou, falando mais tecnicamente, da recovagem, assumindo esta corporação os direitos e deveres de recoveiro."

sexta-feira, 22 de março de 2019

Escolas para "meninas" na segunda metade do século 19


1862: Escola de Meninas dirigida por "mestras francesas", irmãs do Instituto de S. Paulo

1872: escola de instrucção primária para o sexo feminino

quinta-feira, 21 de março de 2019

Da Varanda de Santa Sancha

O brigadeiro António Adriano Lopes dos Santos (1919-2019) tomou posse como Governador em Abril de 1962 e terminou funções em 1966. Em 1991 deu a conhecer algumas memórias do seu mandato numa crónica intitulada "Da Varanda de Santa Sancha*: Memórias do Ex-Governador António Adriano Faria Lopes dos Santos", publicada na Revista de Cultura, nº 16, (Outubro/Dezembro de 1991) e da qual recupero aqui alguns excertos:
* referência à residência dos governadores de Macau
(...) Convidado em Nampula, em Outubro de 1961 (governava então o distrito de Moçambique), para Governador de Macau pelo Professor Dr. Adriano Moreira, aceitei o cargo com a prévia condição de ser simultaneamente nomeado Comandante-Chefe das Forças Armadas de Macau, isto por duas razões que na altura reputava fundamentais:
- Não desejar abandonar a carreira militar, da qual já estava afastado havia quase 3 anos;
- Desejar minimizar possíveis atritos, muito em voga na época, levantados entre o Comando Militar e o Governo, o que ficava eliminado à partida colocando o Comandante Militar na dependência hierárquica do Comandante-Chefe e Governador.
Só que o Comandante Militar era na altura coronel, aliás militar distintíssimo, o coronel de Art. ª Eduardo Bessa, e o Governador era tenente-coronel! Assim, e pela primeira vez na história das Forças Armadas Portuguesas, foi nomeado, pelo Governo de Salazar, Comandante-Chefe de Macau, com prerrogativas definidas na Carta de Comando, um tenente-coronel, tendo como subordinados um coronel, Comandante Militar, e um Capitão de Fragata, Comandante Naval. Tudo correu depois sem quaisquer atritos, dadas as excelentes relações pessoais mantidas com ambos aqueles comandantes. Não deixou, contudo, de ser uma situação singular, fora dos mais elementares princípios da hierarquia militar. Tudo se teria resolvido, sem qualquer aumento de encargos, pois as funções de Comandante-Chefe não eram remuneradas, através da graduação no posto imediato. Mas, inexplicavelmente, não o quiseram fazer. (...)
A primeira vez que fomos recebido pelo Dr. Salazar, em Abril de 1962, pouco depois de tomar posse do cargo de Governador, deparámos na então muito modesta e austera residência do Presidente do Conselho de Ministros, em S. Bento, com maquetas de bairros implantados num simulacro de urbanização, pretensamente destinados a alojar em Macau, talvez milhares de refugiados. Tal ideia era da iniciativa de D. Fernanda Jardim, representante em Portugal da Caritas e pessoa com acesso - que diziam relativamente fácil - ao Dr. Salazar.
Ao passar pelas maquetas perguntou-me: já viu isto? Respondi afirmativamente, insistindo ele a seguir: e que acha? -Não me parecem adaptadas nem adequadas para refugiados chineses, atenta a sua forma de viver muito especial e o seu baixo nível de vida. Respondeu com o silêncio habitual que o caracterizava, pois se sabia que gostava muito mais de ouvir do que de falar.
Escusado será dizer que as maquetes, apesar de enviadas para Macau, não foram executadas, nem os projectos constituíram encargo de Macau, como aquela senhora pretendia, alegando ter o Dr. Salazar aprovado a sua execução...! (...)
Já em 1958, o Governador de Macau, Comandante Correia de Barros, antigo aviador naval, com comissão de serviço prestada em Macau, havia proposto ao Ministério do Ultramar a execução dum aeródromo nos terrenos do Porto Exterior, incluindo o Projecto no Plano Intercalar de Fomento 1959/62, elaborado a seu pedido, pelo signatário, então chefe do Estado-Maior da Guarnição, na sua qualidade de engenheiro, e com a concordância do então Comandante Militar. (...)
De regresso duma missão oficial a Timor, passou por Macau, em 1966, o professor Edgar Cardoso, figura então já sobejamente conhecida e altamente prestigiada, em Portugal e no estrangeiro, pelos seus projectos, tidos como revolucionários, no domínio das pontes. (...) Perguntou se não estava nos planos do Governo ligar Macau à Taipa, ao que a resposta foi de imediato afirmativa, só que a falta de verbas disponíveis não havia ainda permitido a sua inscrição no Plano de Fomento em execução, mas que tal teria lugar no Plano seguinte, uma vez construída a ligação Taipa-Coloane. Imediatamente se ofereceu para fazer o primeiro estudo da ponte Macau-Taipa, por um preço simbólico, apenas suficiente para dar cobertura às despesas.
No dia seguinte propôs-se ao Governador fazer o estudo por 300 contos, o que levou o Governador a transmitir a respectiva proposta ao Ministro do Ultramar. Assim se concretizou o primeiro passo para uma obra a todos os títulos notável para o progresso e desenvolvimento de Macau e das Ilhas. Mas a ponte só foi possível graças à grande dedicação e tenacidade do Governador Nobre de Carvalho, que soube vencer todas as dificuldades e contratempos, vendo o seu trabalho coroado com a inauguração em fins de 1974, no termo do seu mandato. (...)


A posição geográfica de Macau, território encravado na China Continental, envolvido por águas chinesas, praticamente sem recursos naturais, aconselhava, por parte do Governador de Macau, a manter os desejos de boa vizinhança com a China Continental. (...)
Desejo apenas salientar as dificuldades que o governo enfrentava na década de sessenta. Ver-bas largamente insuficientes, com o orçamento, em 1966, a rondar os 50 milhões de patacas, o que em pouco ultrapassava os 8 milhões de dólares norte-americanos. Valor aproximado tinha então o orçamento do Plano de Fomento o que, no total, significava uma disponibilidade anual, para o governo e serviços autónomos, da ordem dos 500 mil contos; números que, em valor acrescentado, não têm paralelo com os orçamentos actuais. De resto, também não são comparáveis com as de hoje as estruturas dos departamentos públicos e empresas privadas da altura, e consequente capacidade de produção e de realização.
Bastará lembrar que, ainda em 1966, o governo de Macau era constituído pelo Governador, com um chefe de gabinete, um secretário e um ajudante de campo, apoiado pelos serviços públicos encabeçados por chefes de serviço.
Durante o meu governo as soluções tinham de ser pensadas e repensadas, sobretudo quando os problemas eram de natureza política em relação à RPC, ou afectos a organizações ou a pessoas a ela ligadas. Para isso contribuía a não existência de relações diplomáticas com a RPC e também a presença em Macau, até Abril de 1965, da Delegacia Especial do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Formosa, de que falaremos adiante.
Aliás, Macau foi sempre, ao longo de mais de quatro séculos de presença portuguesa, um território, embora minúsculo, muito difícil de governar, um quebra-cabeças quase permanente para os capitães-generais e, depois, para os Governadores. Apesar de tudo, nunca a bandeira portuguesa deixou de flutuar nos mastros da "cidade do Nome de Deus, não há outra mais leal". 
Considerámos sempre fundamental aumentar a presença de elementos qualificados, naturais de Macau, em lugares de importância da Administração, como entendemos ser indispensável a colaboração de figuras de relêvo locais, portugueses, alguns naturais de Macau, e da comunidade chinesa. Foram muitos, e é justo salientar que se obteve sempre a melhor colaboração de todos.
Assim, eram com frequência ouvidas - quanto a assuntos com previsíveis implicações políticas, ou quanto a outros que chegavam ao governador já com problemas criados, alguns ridículos na aparência, mas reais frente a interesses chineses.
Destes citarei, sem ir mais longe, os das hortas da Ilha Verde e dos Aterros do Porto Exterior, terrenos com frequentes interesses para construção ou para arruamentos. O Conselho do Governo, presidido pelo Governador e com reuniões reservadas, era também ouvido com frequência. Não vou citar nomes para evitar melindres. 
 A tranquilidade do território significava, para o governo, condição "sine qua non" do seu desenvolvimento. Na verdade, procurava-se, através do aumento e melhoria das actividades industriais, fomentar o progresso do território, pois não podia apoiar-se essencialmente, como sucedia, nas receitas da concessão do ouro, então a maior, e da concessão do jogo. Daí que a matriz determinante da acção govemativa fosse o factor político relativamente, claro está, à R. P. C.. Como consequência, tinha especial interesse para o Governo estreitar as relações com algumas entidades chinesas de Macau.
Ho Yin, como presidente da Associação Comercial e deputado à Assembleia Nacional Popular em Pequim, como representante dos chineses de Macau, era o mais saliente dirigente da comunidade chinesa de Macau, já comprovado amigo dos portugueses e, do antecedente, membro do Conselho Legislativo.
Sem dúvida homem notável e esclarecido, mostrou-se sempre disponível e pronto a colaborar com o Governador na resolução de casos "difíceis" com implicações políticas locais ou externas em relação à RPC. De notar que este conceito tinha, em Macau, um significado mais lato que o usual. Por vezes pequenas questões afectas à administração portuguesa, serviços públicos, departamentos militares ou Leal Senado, envolvendo população ou interesses chineses, avolumavam-se, sobretudo quando intervinha a Associação dos Operários, na pretensa defesa dos interesses dos associados. Mas, e não só, outras figuras de relêvo da comunidade chinesa, como Ma Man Kei, vice-presidente da Associação Comercial, Chui Tak Kei, vogal da Comissão Administrativa do Leal Senado, Roque Choi, procuravam defender os interesses de Macau, perante o Governo.
De salientar que pouco tempo após a minha chegada a Macau, logo a seguir à ocorrência do incidente em que foram recolhidos nos limites das nossas águas, por uma vedeta da Polícia Marítima e Fiscal, alguns fugitivos da RPC, perseguidos por uma vedeta chinesa, em conversa com Ho Yin concluí pela grande vantagem em iniciar contactos com o Sr. Ho Ping, efectivo representante da RPC em Macau e gerente da firma Nam Kwong, verdadeiro entreposto comercial da RPC em Macau. Os contactos passaram a realizar-se, mas com carácter reservado e na residência de Santa Sancha.
Considerei-os sempre da maior utilidade, durante cerca de três anos, mantendo nós as melhores relações pessoais, embora não oficiais, como é óbvio, com pleno conhecimento do Ministro do Ultramar e do Dr. Salazar. Aliás o Sr. Ho Ping só contactava o Governador em casos considerados graves, principalmente relacionados com actividades da Delegacia da Formosa, ou quando recebia indicações do Governo de Cantão, geralmente através de cartas, escritas em cantonense, de que era portador, já traduzidas em português, sempre dirigidas ao "Sr. António Lopes dos Santos", pelo chefe do Departamento de Negócios Estrangeiros do Governo de Cantão.
Durante o meu governo três problemas eram levantados com relativa frequência por aquelas autoridades e transmitidos por cartas que normalmente o Sr. Ho Ping ou o Sr. Ho Yin, me entregavam, sempre acompanhados por Roque Choi que as explicava em Português:
- A exigência da entrega às autoridades da RPC dos sete fugitivos atrás indicados, afirmando serem espiões com crimes praticados antes da fuga, reclamação que nunca foi atendida, alegando o governo de Macau o direito de asilo político, mantendo-os o governo presos, para evitar piores implicações com a RPC;
- O aluguer, afirmavam aquelas autoridades, da emissora de radiodifusão oficial de Macau aos americanos, sob a capa de uma sociedade comercial, constituída no território. O governo de Macau estudou profundamente o assunto e a natureza da Sociedade a quem a direcção da Emissora tinha alugado as horas de emissão, por contrato, tendo o governador, ouvido o consultor jurídico, decidido considerar aquele contrato nulo e de nenhum efeito e suspender o aluguer, o que motivou um recurso daquela empresa para o Conselho Superior Ultramarino ao qual foi negado provimento, o que fez morrer o assunto;
- As actividades da Delegacia do Governo da Formosa em Macau, consideradas pela RPC atentatórias da sua soberania e criminosas. Na verdade, provou-se que aquela Delegacia apoiava, se é que não dirigia, actividades clandestinas contra a RPC. Mais do que um posto diplomático era um centro de actividades clandestinas e de espionagem. Assim, por determinação do governo central através do Ministério do Ultramar, foi aprovada a proposta do Governo de Macau e encerrada aquela Delegacia em Abril de 1965, após várias e infrutíferas tentativas em contrário do Governo da Formosa.
Refira-se, por curiosidade, que os E.U.A., da sua equipa diplomática sediada em Hong Kong, dispunham de nada mais nada menos do que de sete cônsules acreditados em Macau, cada um deles com o seu "pelouro" específico. Macau era, nessa altura de difíceis relações entre os E. U. A. e a China, uma excelente porta de entrada. (...)

Gov. Lopes dos Santos no aeroporto de Lisboa de regresso a Macau: 10.5.1965

De seguida reproduzo um depoimento de Garcia Leandro publicado no jornal Ponto Final, também ele ex-governador de Macau (1974-1979), sobre o mandato de Lopes dos Santos:

“Governou Macau em época politicamente difícil para Portugal e para a China, a que se adicionaram também problemas financeiros locais, tendo criado um excelente relacionamento com as comunidades locais e com os representantes da R. P. da China. Deste período ressalta como decisão fundamental o ter alargado para 25 anos a concessão do jogo à STDM, com revisões possíveis em cada cinco anos.” (...) 
Embora o contrato com a STDM tivesse representado um grande salto qualitativo dado pelo antecessor de Lopes dos Santos - Jaime Silvério Marques - em 1961, a fixação de um limite de apenas cinco anos não permitia exigir àquela Sociedade um plano de grandes investimentos de médio e longo prazo. “Com a alteração de Lopes dos Santos tal tornou-se possível, situação de que ainda vim a beneficiar com a primeira grande revisão do contrato dos jogos com a STDM assinado em Abril de 1976, em que a posição do Governo saiu muito reforçada, não só nas receitas que aumentaram muito, mas também noutras condições como as relacionadas com a fiscalização e respectivos controlos. Foi um processo muito difícil e tenso, tendo o futuro vindo a provar a justeza das exigências do Governo; veio a verificar-se que a SDTM poderia pagar muito mais, o que posteriormente se concretizou. E uma árvore para crescer precisa sempre de uma semente; o bem-estar e os créditos que Macau passou a receber e que têm vindo sempre em crescendo têm a sua origem nestas sementes lançadas há mais de quarenta anos”.

quarta-feira, 20 de março de 2019

Eliza Ruhamah Scidmore (1856–1928)

Nascida no Iowa (EUA), Eliza Scidmore (1856-1928) foi a primeira redactora oficial da revista National Geographic. Foi igualmente fotógrafa e chegou a pertencer à administração da NG.
Em 1876, com 19 anos, foi enviada para relatar a Exposição Internacional do Centenário em Filadélfia pelo “National Republican”, tornando-se uma das primeiras mulheres jornalistas do país. 
Aventureira, empreendeu uma viagem até ao então inexplorado Alaska e foi ainda ao Japão, muito desconhecido no ocidente. Em 1890 tornou-se membro da National Geographic Society (criada em 1888). Um conselho composto apenas por homens elegeu-a como “correspondente da administração”. Quando o presidente da NGS lhe pediu opinião sobre a revista ela respondeu que “precisava de um abanão.” Em 1909 pediu ao editor da NG para imprimir as suas fotografias de templos chineses a cores. A série de 11 imagens foi publicada em 1914 e Eliza recebeu 450 dólares, o valor mais alto pago pela revista até então.
Eliza Scidmore continuou a colaborar com a NGS enquanto atravessava a Ásia. Após a Primeira Grande Guerra, mudou-se para Genebra para fazer a cobertura noticiosa da recém-criada Liga das Nações.
Morreu em 1928 e foi sepultada no Japão. Todos os anos, na Primavera, a cidade de Washington celebra o seu legado. Depois da sua primeira visita ao Japão, em 1885, Eliza Scidmore passou três décadas a sensibilizar as autoridades locais para que se plantassem cerejeiras na cidade. Actualmente, as fugazes flores das cerejeiras atraem a esse local mais de 1,5 milhões de visitantes todos os anos.
Eliza Ruhamah Scidmore (1856–1928) was an American writer, photographer, journalist and geographer, who became the first female board member of the National Geographic Society. Scidmore was born in 1856 in Clinton, Iowa. Her interest in travel was aided by her brother, George Hawthorne Scidmore, a career diplomat who served in the Far East from 1884 to 1922. Eliza was often able to accompany her brother on assignments and his diplomatic position gave her entree into regions inaccessible to ordinary travelers. Her career as a travel writer began in 1883 during a trip to Alaska which she documented in her first book, Alaska, Its Southern Coast and the Sitkan Archipelago (published 1885).
It was on their return to Washington, D.C. in 1885 that Eliza had her famous idea of planting Japanese cherry trees in the capital. She joined the National Geographic Society in 1890, soon after its founding, and became a regular correspondent and later the Society's first female trustee. 
Though Scidmore contributed articles to many popular magazines, she was most active for National Geographic (between 1893 and 1914). Scidmore promoted intercultural understanding and cooperation and particularly encouraged the relationship between America and Japan, where her brother served as a Consul General in Yokohama. She was decorated by the Japanese emperor for her sympathetic reporting of Japanʹs treatment of prisoners of war during the Russo-Japanese War.
She died in Geneva, Switzerland on November 3, 1928, at the age of 72. Her grave is at the Yokohama Foreign Cemetery, Yokohama, Japan next to the graves of her mother and brother.
Books/Livros:
Alaska, Its Southern Coast and the Sitkan Archipelago (1885); Jinrikisha Days in Japan (1891); Westward to the Far East (1892); Java, the Garden of the East (1897); China, the Long-Lived Empire (1900); Winter India (1903); As the Hague Ordains (1907). 
As cerca de uma dezena de fotografias de Macau da autoria de Eliza Scidmore foram registadas, segundo as notas da própria autora, em 1896. Aqui ficam alguns exemplos. Em cima uma fotografia com a legenda "Approach of Macao".
The barrier gate - limit of the portuguese territory, Macao (Porta do Cerco)
Old fort from Boa Vista hotel (Forte do Bom Parto)

terça-feira, 19 de março de 2019

Façade du Grand Temple a Macao

No livro "Monuments de tous les peuples: décrits et dessinés d'après les documents les plus modernes" escrito por Ernest Breton (1812-1875) em 1846 encontra-se uma ilustração do templo de A-Ma com a legenda: "Façade du grand temple à Macao". O livro teve várias edições, incluindo em várias línguas e as ilustrações também surgiram ora a preto e branco ora coloridas. Seguem-se alguns excertos relativos a Macau.
Para além do texto, François Pierre Hippolyte Ernest Breton, que foi ainda arqueólogo, assina também a autoria das ilustrações.
"Le grand temple de Macao est un des plus élégants édifices de l'empire; mais aussi il n'en est point dont aspect soit moins approprié à sa destination. Ses portiques gracieux et coquetes semblent bien plutôt former l'entrée d'un lieu destiné au plaisir que donner accès à un sanctuaire consacré à la prière."
"O grande templo de Macau é um dos mais elegantes edifícios do império; mas é também aquela cujo aspecto parece ser o menos apropriado ao seu destino. Seus pórticos graciosos e coquetes parecem formar a entrada de um lugar mais destinado ao prazer do que a dar acesso a um santuário dedicado à oração."
"Outre ces grandes places fortes le sol de la Chine et surtout les côtes et les bords des rivières sont couverts de forts comme celui qui défend l entrée du Tigre ou celui qui s élève à plus de trente mètres au milieu de la ville de Fou yang fou ou de fortins isolés construits exactement sur le modèle des tours qui flanquent leurs murailles. Ces fortins ont quatorze à quinze mètres de hauteur on y entre par une voûte pratiquée à une certaine élévation au dessusdu niveau du sol et qui par conséquent n est accessible qu au moyen d une échelle que la garnison a soin de retirer après elle. Ces tours carrées ont deux étages sont crénelées et défendues par quelques pièces de canon mais leurs murailles n ont guère que trente trois centimètres d'épaisseur et ne pourraient résister un seul instant à l'artillerie européenne. Je ne ferai qu indiquer en terminant les forts de Nossa Senora de la Guia, de San Francisco, de la Peina et autres qui défendent Macao ils sont l'ouvrage des Portugais et comme tels ne doivent point attirer ici notre attention."

segunda-feira, 18 de março de 2019

Fortalezas Extramuros, Baluartes e Fortins


Na edição da revista Macau de Janeiro de 1999 Beatriz Basto da Silva assina o artigo intitulado “Fortalezas Extramuros, Baluartes e Fortins”. Segue-se um excerto sobre o Fortim de São Pedro - em cima numa imagem da década 1930, pouco antes da demolição:
"A meio da Baía da Praia Grande, coadjuvando com as suas operações os Fortes de S. Francisco (a Norte) e do Bom Parto (a Sul), encontrava-se quase rasante e de atalaia ao Porto Exterior este fortim de pequenas dimensões.
Aparece referido em variadas plantas e gravuras antigas de Macau mas nada dele resta, coincidindo o local onde existiu com uma pequena praça onde se levanta hoje a estátua em memória de Jorge Álvares, o primeiro português a chegar à costa da China.
As referências escritas - entre elas a do cronista António Bocarro - permitem-nos datá-lo de 1622 e, em 1775, ainda se conservava a primitiva planta triangular.
A tarefa de assegurar a defesa da ampla baía foi substituída, com o tempo e o modo, pelo uso em casos de pompa e circunstância, quando se impunha saudar com salvas de artilharia a chegada de navios amigos, de novos governadores, de visitantes ilustres ou então nascimentos insignes, enlaces reais e outros acontecimentos de excepção.
Essa finalidade era, todavia, perigosa para a segurança dos edifícios próximos, entre eles a antiga residência do Governo, que teve de ser demolida por causa dos estragos da trepidação a que se juntava a inclemência dos tufões. Em 1934 o que restava do velho fortim foi arrasado quando se traçou um novo arranjo e aproveitamento da Baía da Praia Grande."
Localização do Fortim de S. Pedro na Baía da Praia Grande

domingo, 17 de março de 2019

El Pabellón de Macau

Por estes dias, há 90 anos, ultimavam-se as obras relativas à participação de Macau na Exposição Ibero-Americana de Sevilha, 1929.
Em cima excerto do Guia Oficial da exposição onde se destaca a representação de Macau com um "pavilhão especial" cuja "instalação e decoração oferecem um espectáculo curioso e atraente". No pavilhão de Macau, com uma área de 200 metros quadrados (outras fontes referem perto de 350) e localizado frente ao Pavilhão de Portugal na avenida com o mesmo nome estiveram expostos artigos de "mais de 100 espécies diferentes alguns dos quais verdadeiramente exóticos.
Em baixo retirado do Catálogo Oficial da Exposição Portuguesa em Sevilha. 
O Pavilhão de Macau foi idealizado pelos arquitectos Guilherme e Carlos Rebello
Sugestão de leitura:
"Macau A Mais Antiga Colónia Europeia no Extremo Oriente".
Macau: Escola Tipográfica do Orfanato, 1929. 151 pág.
Monografia histórica escrita por ocasião da Exposição Portuguesa em Sevilha.

Entrada do pavilhão e anúncios da O. C. Moosa no catálogo da Representação de Macau

sábado, 16 de março de 2019

Charles Gesner van der Voort (1916-1991): "Charles in Shanghai"

Amateur historian Pieter Lommerse is preparing a book about a Dutch merchant, living in Shanghai in the late 1930s, early 1940s. With a group of Dutch bachelor friends, he lived in the last days of colonialism in China. What did their look like? What did they experience in Shanghai, and what happened to them in WW2?
Through relatives, colleagues and business partners of the friends, the author has collected memories, stories, letters, biographies and photographs of this bygone era. The photos are so plentiful – and beautiful – that several are shown in the website Flickr.
Charles worked for Holland-China Trading Company (HCHC), which had offices in Hong Kong, Shanghai, Tianjin (Tientsin), Rotterdam and London. One of the first employees (and later director), Willem Kien, started to work for HCHC at the company’s start in 1903. He made business trips to cities along the China coast, including Macau. From two of these trips, photos are preserved, from 1917 and ca. 1935.
In 1917 he travelled with The Hongkong, Canton and Macao Steamboat Company, Limited. A portrait shows Willem Kien on the Macau quay.
https://www.flickr.com/photos/161392673@N02/46829874391/in/dateposted-public/
Ca. 1935 he made a trip of which the original photo wrapper has been preserved, which still has the photographs in them. There was no description, but through the power of the internet, several places in Macau were recognised: Our Lady of Penha Church, Penha Hill, Lou Lim Ieoc Garden, Outer Harbour (Porto Exterior) landfills.https://www.flickr.com/photos/161392673@N02/46823805972/in/dateposted-public/
https://www.flickr.com/photos/161392673@N02/46823719252/in/dateposted-public/
More photos from the book to be published “Charles in Shanghai” can be found here:
https://www.flickr.com/photos/161392673@N02/39073554971/

O historiador amador Pieter Lommerse está a prepar um livro sobre um comerciante holandês,  que viveu em Xangai entre a década de 1930 e a de 1940. Com um grupo de amigos solteiros holandeses, ele viveu nos últimos dias do colonialismo na China. Como eram? Que experiência viveram em Xangai e o que lhes aconteceu na Segunda Guerra Mundial? Através de familiares, colegas e parceiros de negócios dos amigos, o autor recolheu memórias, histórias, cartas, biografias e fotografias dessa época. As fotos são tão abundantes - e lindas - que várias são mostradas no site Flickr. Charles trabalhou para a Holland-China Trading Company (HCHC), que tinha escritórios em Hong Kong, Xangai, Tianjin (Tientsin), Roterdão e Londres. Um dos primeiros funcionários (e posteriormente director), Willem Kien, começou a trabalhar para o HCHC no início da empresa em 1903. Ele fez viagens de negócios para cidades ao longo da costa da China, incluindo Macau. De duas dessas viagens, as fotos são preservadas, de 1917 a ca. 1935. Em 1917, viajou nas embarcações da empresa The Hongkong, Canton and Macao Steamboat Company, Limited. Por volta de 1935 fez uma viagem da qual o rolo original das fotografias foi preservado. Através do poder da internet, vários locais em Macau foram reconhecidos por diversas pessoas, incluindo o João Botas do blog Macau Antigo: aterros da Igreja de Nossa Senhora da Penha, Colina da Penha, Jardim Lou Lim Ieoc, Porto Exterior (Porto Exterior).


Jardim Lou Lim Ioc
Aterros do Porto Exterior
Zona onde foi construído o Reservatório no final da década 1930
Palacete de Santa Sancha
Charles Gesner van der Voort worked in Shanghai for Holland-China Trading Company (HCHC), which had offices in Hong Kong and Tientsin (Tianjin) also. Charles grew up in Dordrecht, did an internship for Holland-China Handelscompagnie (HCHC) in Rotterdam and went to Shanghai for the company.
Due to the Japanese-Chinese war and WWII, trading became more and more limited. In March 1943, Charles, and most of the remaining Dutch in Shanghai, were interned by the Japanese. Luckily, he was in one of the more humane Japanese camps, and all the people he knew have survived.
Several of his bachelor friends were called for duty in the Dutch army. Charles was exempted due to brother service, his brother Wim served in the Dutch army and fought at Grebbeberg, when the Germans invaded the Netherlands in May 1940. Most bachelors managed to get to England ("Engelandvaarders"). Two of them became commando, and participated at the battle of Arnhem and the liberation of Walcheren. One became an RAF pilot. Another returned to the East, as an intelligence officer, and served in Ceylon, Australia and New Guinea. Miraculously, all Charles' bachelor friends survived the war. His sons Peter and Michael were awed by their stories and through them, I was able to find relatives of the once bachelor friends.
They also helped me find survivors of the Japanese camp Chapei in Shanghai where Charles was interned. They provided me with stories and drawings of camp life.
Making this book, pre-war Dutch society in Shanghai started to become visible again, like a jig-saw, piece by piece.

sexta-feira, 15 de março de 2019

Barca de Transporte Martinho de Mello: 1866


As viagens da "Martinho de Mello" entre Macau e Lisboa eram habituais em meados do século 19 conforme se atesta por um relato de 1865: "(...) a barca Martinho de Mello, que a 19 de outubro do mesmo anno de 1865 partiu com destino a Macau e escala por Timor. Seguiu-se atravessar o mar da índia, e procurar depois as ilhas da Oceania. Java e Timor fôram na quinta parte do mundo os pontos principaes (...)  De Timor passou a barca Martinho de Mello ao porto de Macau, e d’ali voltou para Lisboa, onde chegou já no anno de 1866. (...)"
Ao lado um anúncio publicado no Boletim do Governo de Macau a 9 Abril de 1866 assinado pelo 1º tenente comandante da barca de transporte Martinho de Mello.
No anúncio dá-se conta que a embarcação partirá rumo a Lisboa no final desse mês com escala por Moçâmedes, Benguela e Luanda e se informa sobre os preços a pagar pelos fretes dos mais variados produtos, incluindo o chá que custa "quatro mil réis por caixa de meio pico" sendo o preço das "demais fazendas a vinte e três mil reis por tonelada de cinquenta pés cúbicos".
pé: 12 polegadas/33 cm
pico: 50 Kg

quinta-feira, 14 de março de 2019

Thomas e William Daniell, as feitorias de Cantão e... Macau

Thomas Daniell (1749-1840) era já um conceituado pintor quando, juntamente com o seu sobrinho e aprendiz do ofício William Daniell (1769-1837), conseguiram autorização para se instalarem na Índia como pintores/ilustradores por parte da Companhia das Índias Orientais Partiram de Inglaterra a 7 de Abril de 1875 a bordo do Atlas - uma das primeiras paragens foi a Madeira - rumo à China tendo chegado a Whampoa no final de Agosto desse ano e vivido vários meses entre Cantão e Macau, produzindo inúmeros desenhos.
Thomas e William Daniell considerados os grandes pintores da Índia do séc. 18
De Macau partiram para Calcutá na Índia onde chegaram em 1786 e viveram cerca de uma década. No regresso a Inglaterra em 1794 - tendo passado novamente por Macau e Cantão - transformaram os esboços em pinturas a cores que depois foram usadas em vários livros, incluindo o "Oriental Scenery" publicado em 6 volumes entre 1795 e 1808 (com mais de uma centena de ilustrações) sendo um enorme sucesso em termos de vendas e no "A Picturesque Voyage to India by the Way of China" publicado em 1810 e onde surge a Gruta de Camões.
Sobre o primeiro livro numa notícia de jornal de 1795 pode ler-se: "Views in the East Indies. Proposals for publishing twenty-four views in Hindostan, consisting of some of the most interesting specimens of Oriental scenery; in which are represented many beautiful, as well as magnificent, examples of the architecture of that extraordinary country, with such other incidental accompaniments as have a reference to the manners and customs of its inhabitants"

Sampanas junto a Macau por William Daniell que tinha na altura apenas 15 anos mas durante toda a viagem escreveu um diário que se veio a revelar muito útil no regresso a Inglaterra.
Ilustração "Camoens Cave" é uma das 50 (22 são sobre a China) incluídas no livro "A Picturesque Voyage to India by the Way of China" de Thomas Daniell e William Daniell, publicado em 1810. Crítica ao livro publicada no "The Monthly Review or Literary Journal" de 1872:
"To European eyes Oriental Scenery has a very marked and peculiar character arising not only from the plants which constitute the foliage of the landscape but from the style of architecture which pervades the buildings. That the public are much indebted to the pencil of the Messrs Daniells for numerous beautiful views of interesting objects in this quarter of the globe all persons who have frequented the Exhibitions at Somerset House must be ready gratefully to bear witness and since fine paintings are beyond the reach of the great majority of amateurs of the arts we are happy to inform them that these gentlemen have executed designs on a scale of expence which is adapted to the pockets of those who cannot purchase large pictures.
Even a long series of richly tinted etchings however cannot be bought for a trifle though the sum required for them bears a very small proportion to that which must be paid for similar representations on a grand scale in oil In taking this opportunity of announcing A Picturesque Voyage ta India by the Messrs Daniells we would offer them our best thanks for the high gratification which their productions have often afforded us and though we may not be able to augment their fame we shall at least have the satisfaction of paying eome tribute to their pre eminent genius and exertions by which the romantic scenery and stupendous antiquities of India have been brought home to our contemplation.
 A small portion indeed of their labours is now before us but the style of execution is extremely creditable to their taste and is a fair specimen of the whole The volume which exhibits fifty coloured etchings of views taken during a voyage to India and China i introduced by a short preface and contains also brief explanations subjoined to the plates From the former we extract some remarks which will elucidate the objects of the work and shew that the Messrs Daniells are not less sensible as authors than ingenious as artists."


Excertos do diário de William a propósito das embarcações chinesas que pintou:
Chinese are equally ignorant of geography and they have no methods for discovering the latitude and longitude different placer and always if possible keep close to die. The vessels exhibited in the plate are evidently ill adapted to a voyage nor is the three masted junk presented in a preceding of a structure to contend with the tremendous gales so experienced in the Chinese seas.
The hull of these junks is curved form the fore part instead of being round as is usual European vessels is square and flat like the stern and both are tar above the deck it is without a keel and the diameter the mainmast is sometimes equal to that of an English man of war sixty guns. The sails are wrought from the fibres of the and are often furled and unfurled like a fan the rudder is placed an opening of the etern and is usually taken up in sands and It frequently happens that one of these junks is the common of a hundred merchants whose goods are lodged in separate. A ship of the largest size carries one thousand tons and hundred men each of whom has his humble birth containing a and a pillow. The compass is placed before an altar on burns a taper composed of wax tallow and sandal wood dust divided into twelve equal divisions which are intended to out the progress of the hours. Numbers of these vessels sail season from Canton on commercial expeditions and it is that ten thousand seamen perish annually in the Chinese seas one embarks on this perilous enterprize without taking a farewell of his family and friends and should it be his fate to his restoration is joyfully celebrated as a resurrection from It would perhaps be impossible to discover a man who like bad had made a seventh voyage in one or two passages to via the adventurer makes his fortune the only object stimulating to draw him from his native home.

Desenho das feitorias de Cantão em 1785 por William Daniell

Para um melhor enquadramento sobre o papel de Macau no acesso a Cantão no século 18, publico parte de um artigo da autoria de Luís Gonzaga Gomes sobre a "Momentânea paralisação do comércio em Cantão".
(...) Ocupava Iông-Tcheng, o terceiro imperador da última dinastia, a tártara ou manchu, o trono do grande Império chinês, ou, mais precisamente, corria o ano de 1745, quando o porto de Cantão foi destinado ao comércio estrangeiro. Separada da French Island (Ilha Francesa) por estreito braço do Rio Pérola, surgia a ilhota, pelos estrangeiros conhecida por Dane's Island (Ilha Dinamarquesa), sendo assim denominadas por os traficantes dessas duas nacionalidades terem desfrutado, primitivamente, o privilégio de se estabeleceram nas suas margens e utilizarem os seus armazéns, e onde os mareantes podiam refazer as suas energias grandemente depauperadas por longas e tormentosas viagens. (...) Pouco mais adiante, apertada entre a ilha de Ho-Nam e a ilha de Junco ficava a ilha de Uóng Pou (Whampoa), donde se elevava, esguio e hirto, um alto pagode de vários andares. Esta ilhazinha era povoada por uma população duns milhares habitantes, que se entregavam a labores que se relacionavam, directa ou indirectamente, com a navegação estrangeira, pois era ao largo dela que ficava situado o ancoradouro de todos os barcos estrangeiros que entravam em Cantão, significando as palavras Uóng Pou "Fundeadouro Amarelo".
Este bocado do rio de Pérola, mais conhecido por rio de Cantão, oferecia, por essa altura dos princípios do século XIX, a mais surpreendente imagem dum próspero porto chinês, pois coalhavam-no barcos nativos de mais diversos feitios, incluindo os enormes juncos de cabotagem de todo o extenso litoral chinês os quais se aventuravam também até aos portos da Celebes, Bornéu, Java, Singapura e Manila, juncos esses que há muito desapareceram para darem lugar às lorchas ou a outros barcos de maior leveza e rapidez".
Ao longo da fronteira ilha de Ho Nam, ancoravam intermináveis filas de juncos pertencentes aos monopolistas do sal, que traziam não só este precioso e indispensável condimento de T'in-Pák como carga variada de diversas partes da costa sudoeste de Macau, e a meio do rio deslocava-se incessantemente uma fantástica multidão de barcos de carga e de passageiros vindas do interior, de residências flutuantes, barcos de diversões denominados "barcos-flores", sampanas, barbearias, quitandas e cozinhas flutuantes, vendendo a mais prodigiosa variedade de objectos, de peças de vestimenta, de comes e bebes, de medicamentos, enfim, uma estonteante e infinita variedade de artigos de consumo, tudo isso misturado com um ensurdecedor barulho de gente a gritar, de cães a ladrar, de galinhas a cacarejar e do mortificante estralejar de estalos, traduzindo esta caótica balbúrdia uma vida de intensa animação e exótico colorido. (...)
De Whampoa a Cantão ia-se de barco a remos, levando a curta travessia nada mais nada menos que duas horas, pois grande perícia era exigida para se enfiar por entre aquela desordenada multidão de barco. (...)
Era mesmo na marginal de Cantão entre o subúrbio ocidental e o rio, que estavam situadas as célebres "feitorias" estrangeiras
(ilustração acima), as quais ocupavam um terreno de 1000 pés de leste a oeste, 300 pés distantes da água do rio, oitenta milhas distantes de Macau, 60 da ilha de Lintin, 40 dos Fortes de Bogue (vocábulo derivado da palavra portuguesa "boca") e 10 do fundeadouro de Whampoa.
Essas feitorias, treze ao todo, motivo por que eram conhecidas em chinês por "Sâp-Sám Hóng" (Treze Feitorias), nem todas eram estrangeiras e distinguiam-se umas das outras por sonoros nomes. Assim, a dinamarquesa chamava-se Uóng-K'ei (Bandeira Amarela); a espanhola Lui Sông (Luzon); a francesa Kou-Kong (Público Elevado); a do negociante chinês Chungqua, Mán Un (Dez Mil Fontes); a americana Kuóng-Un (Dilatadas Nascentes); a imperial Má-Ieng (Águias Gémeas); a Pou Sôn (Preciosidade e Prosperidade); a sueca Sôi (primeira sílaba de Sôi-Tin, que significa Suécia em chinês); a antiga inglesa Lông-Sôn (Gloriosa Prosperidade); a Chow Chow que significa mista; a Fông T'ai (Enorme Abundância); a nova inglesa Pou-Uó (Harmonia Protegida); a holandesa Tcháp-I (Rectidão Concentrada); e a designada por ingleses por Creek, I-Uó (Justiça e Paz)".
Cada feitoria era constituída por filas de edifícios de três andares no estilo colonial europeu. A dinamarquesa dispunha de sete filas, a holandesa de oito e a americana era a que possuía menos. A palavra fila é expressa em chinês pelo som "hóng" daí o referirem-se os ingleses às feitorias pela designação "Foreign Hongs". A existência duma nova e duma velha feitoria inglesa deve-se ao facto de se terem feito novas construções após o grande incêndio de 1822, que destruiu parte da velha feitoria inglesa e 12 000 prédios, lojas e templos chineses do subúrbio ocidental". (...)
Os estrangeiros eram, na generalidade, designados pelos chineses por "Hong-mou-kuâi", diabos de cabelos vermelhos, sendo tal designação sido primeiramente aplicada aos holandeses, ou "fán-kuâi" (diabos estrangeiros); os parses, por trazerem o cabelo à escovinha, chamavam-nos "pák-t'au kuâi" (diabos de cabeça branca); aos moiros mó-ló kuâi (diabos mó-ló, corrupção da palavra portuguesa "mouro"); aos portugueses "sai-ieóng kuâi" (diabos do oceano ocidental, pois que assim eram conhecidos desde o século XVI) e aos macaenses "ou-mun kuâi" (diabos de Macau). (...)"

quarta-feira, 13 de março de 2019

A Flora de Macau e uma exposição em 1882

Uma das vertentes da intensa actividade científica do professor e botânico Júlio Augusto Henriques (1838-1928) foi a organização de um Museu Botânico “com a finalidade de dar a conhecer a utilidade do estudo do reino vegetal”.
Neste museu estavam representadas as então possessões portuguesas ultramarinas, incluindo os longínquos territórios de Macau e Timor, com particular destaque para as colecções de Macau e Timor de 1880-1882.
O envio destas remessas para a Universidade de Coimbra terá resultado da solicitação dirigida pelo Professor Júlio Henriques ao antigo aluno da Universidade e Secretário-geral do Governo de Macau e Timor, José Alberto Homem da Cunha Côrte Real.
Júlio Henriques pretendia obter para o Herbário da Universidade, exemplares da flora de Macau e para o Museu Botânico, artefactos fabricados com matérias vegetais daquela região (ex.: amostras de tecidos, esteiras, chapéus, mobiliário, etc.). Na mesma altura, José Alberto Côrte Real foi, também, encarregado pelo Governador da Província de Macau e Timor (Joaquim José da Graça) de reunir amostras de produtos industriais desta província e outros objectos com destino ao Museu Colonial de Lisboa. Para cumprir o pedido do Governador e, ao mesmo tempo, satisfazer a solicitação do professor de Coimbra, José Alberto Côrte Real reuniu, com o auxílio de uma comissão constituída por vários cidadãos, uma importante colecção de artefactos de uso corrente derivados de matérias-primas vegetais comummente utilizadas em Macau.
Segundo José Alberto Corte Real em declarações publicadas no Boletim da Provincia de Macau e Timor de 28 de Junho de 1880 “este passo dado no caminho do progresso pode contribuir para que se estabeleçam relações commerciaes com a metropole e se desperte o desenvolvimento de industrias de utilidade popular” Assim, a colecção foi exposta no Leal Senado antes de ser enviada para a Metrópole.
O material enviado foio acompanhado de uma extensa e cuidada lista de todos os objectos, com informação acerca da respectiva utilização, preço e dos nomes populares em língua chinesa. Por último, os objectos que não existiam em duplicado, continham indicação do seu destino: Museu Colonial ou Museu de Coimbra.
A primeira remessa chegou a Portugal em Agosto de 1880 e integrava unicamente exemplares de Macau (cerca de 500 objectos); a segunda foi recebida em Março de 1882 e era composta por 130 objectos de Macau e Timor.
Em Coimbra, esse material foi dividido nas colecções de Botânica e Antropologia e ambas integram actualmente o acervo do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra.
O Instituto de Coimbra foi uma academia científica, literária e artística fundada em Coimbra em 1852, no contexto da Regeneração, e que se manteve em actividade até 1982. No âmbito das actividades publicaram um jornal científico e literário anual denominado "O Instituto: jornal scientifico e litterario". No Vol. 30 segunda série. Julho de 1882 a Julho 1883, encontramos um artigo sobre a exposição em que esta publicação se baseia num outro artigo publicado num jornal Macaense a 28 de fevereiro de 1882.

terça-feira, 12 de março de 2019

Vista do jornalista José de Freitas à China: 1964

Entre 6 e 22 de Abril de 1964 o jornalista José de Freitas, do “Diário Popular” viajou pela China ao serviço daquele jornal tendo publicado inúmeros artigos. José de Freitas já conhecia Macau e publicara em 1941 “A China Antiga e Moderna” pela Biblioteca Cosmos, dirigida por Bento de Jesus Caraça. Filho de uma das lendas do jornalismo republicano da primeira metade do século, Amadeu de Freitas, José seria porventura o mais sinólogo dos jornalistas portugueses da década de 1960, e não escondia a simpatia pelo regime chinês.
As quinze crónicas - "Viagem num Mundo Diferente" - sobre a viagem à China foram redigidas já em Lisboa e publicadas no Diário Popular, sempre com destaque de primeira página, a partir do dia 7 de Maio e até ao dia 26. Freitas publicaria ainda um livro sobre esta viagem intitulado “A China Vence o Passado”.
Edição de 21 de Maio de 1964

O pedido de visto para José de Freitas ir à China foi feito em 1963 e só seria aceite um ano depois. Portugal e China não tinham relações diplomáticas. De um lado estava Salazar, do outro Mao que, segundo Freitas, "estava em todo o lado". Entre as inúmeros restrições impostas, nomeadamente de fotografar, José de Freitas foi obrigado a ter um “acompanhante jornalista”, Choi Hong Seong, que serviu de intérprete e guia. 
Ainda assim, escreveu numa das crónicas: "Visitei a China como jornalista independente, alheio a quaisquer combinações, sem a subordinação dos convites, exclusivamente com dinheiro do meu jornal." E... "Durante a minha estada na China deram-me sempre muito mais jantares do que notícias".
Um dos episódios desta visita mereceu chamada de capa numa das edições do DP, a 21 de Maio de 1964 (imagem acima) com o título "Uma Explosão Atómica parecia o temeroso espectáculo a que assisti na imensa planície chinesa de Hopei". O episódio ocorreu a 12 de Abril e deu-se quando o jornalista viajava de comboio em direcção a Pao Ting.
"Quase na linha do horizonte, não posso precisar a quantos quilómetros de distância, formara-se uma nuvem mais cinzenta do que o próprio céu cinzento, a destacar-se, com contornos nitidamente limitados, claramente definidos. Tinha a vaga forma de um cogumelo. (...) Dentro da própria nuvem havia laivos negros. (...) Depois do cogumelo grosseiro, era uma cunha, como se fora um triângulo suspenso no céu, para mudar de tamanho e tomar o aspecto de uma bola achatada. Parecia que dentro da nuvem – no seio da própria nuvem – havia uma força inteligente que a domava e afastava ou aproximava de nós, a movia no espaço para um lado, para outro, dando-lhe sempre formas variadas e singulares. (...) O estranho fenómeno, o cogumelo, o trágico cogumelo, estava agora cada vez mais negro, raiado de preto. Depois agitou-se num vaivém e desfez-se. O espectáculo singular demorara pouco mais de cinco minutos."