sexta-feira, 22 de junho de 2018

Rua do Padre Luis Frois S. J.

A imagem é do final década de 1920. Av. da Praia Grande e Rua do Padre Luis Frois S. J.; do lado esq. o Palácio das Repartições: o edifício do lado dto. corresponde ao local onde está actualmente o hotel Metrópole.


O que se conhece hoje por Rua do Padre Luís Fróis começou por serchamar Calçada do P. Fróis. Depois mudou o nome para Calçada do Governador e já mais recentemente recuperou o nome deste jesuíta que viveu algum tempo em Macau. 
O padre Luis Fróis nasceu em 1532, provavelmente em Lisboa e morreu no Japão em 1597. A sua “Historia de Japam” é uma das fontes mais importantes para a história do Japão do séc. XVI. A rua como seu nome começa na Rua da Praia Grande e termina na Rua Central, em frente do Beco do Gonçalo.
Emissão de selos em 1997 nos "400 anos da morte do Padre Luis Frois"
Nasceu em Lisboa, em 1532 e com 16 anos conclui os estudos na área de Humanidades ingressando depois na Companhia de Jesus. Ao fim de dois meses de noviciado, embarca em Lisboa a 17 de Março do mesmo ano, numa viagem para a Índia, sem nunca mais voltar a Portugal. Chega a Goa a 9 de Outubro de 1548. Entre 1548 a 1561, inicia os seus estudos no Colégio de São Paulo distinguindo-se pela forma como descreve as actividades dos missionários em Goa e Malaca. Ordenado padre em 1561 será em Goa que terá diversos encontros com Francisco Xavier - o último em 1554 - que iriam marcar profundamente a sua vida. Parte para Macau em 1562 e dali inicia a sua viagem para o Japão como missionário da Companhia de Jesus.
Chega a Yokoseura, (na actual Província de Nagasaki), em Junho de 1563, no período de apogeu da missão jesuíta no Japão e um mês após o baptismo do primeiro dáimio japonês, (Bartolomeu) Omura Sumitada. Ali começa a escrever uma longa série de cartas e variadíssimas relações e tratados, nos quais descreve em detalhe as actividades dos padres e da Missão. O valor histórico destas cartas é inestimável e são os documentos que encerram mais detalhes sobre a vida quotidiana dos missionários no Japão. Após a sua chegada a Kyoto, conheceu o shogun Ashikaga Yoshiteru, e privou mais tarde com Oda Nobunaga, (o shogun que iniciou o processo de centralização e unificação do poder no Japão e pôs fim a um longo período de guerra civil) tendo inclusivamente em 1569 permanecido por um breve período de tempo na residência privada de Nobunaga, em Gifu, enquanto escrevia os seus livros.
Em 1577, passa pelo reino de Bungo, (actual província de Oita). Durante esse período, o dáimio local, Otomosorin, converteu-se e é batizado com o nome Francisco de Bungo. Mais tarde, em 1581, Fróis é novamente chamado a Nagasaki, como secretário do Vice-Provincial, o Padre Gaspar Coelho.
Nessa altura, e a pedido de Alexandre Valignano, iniciou a sua Historia de Japam, que ainda hoje é uma importante fonte para os estudiosos da História do Japão e da missão jesuíta entre 1549 e 1593.
Luís Fróis acompanha o Padre Gaspar Coelho como intérprete na importante visita efectuada ao novo líder do Japão (1586), o shogun Toyotomi Hideyoshi, que precede a emissão do decreto de expulsão de todos os missionários no Japão, editado no ano de 1587. Hideyoshi considerava a missão evangelizadora do missionários jesuítas um entrave à reunificação política do país.
Após a expulsão dos religiosos por parte das autoridades japonesas, Luís Froís continua a desenvolver o seu trabalho como missionário na clandestinidade e consagra a maior parte do seu tempo à redacção do manuscrito da sua História do Japão.
Em 1592, e a pedido do Padre Alexandre Valignano, viaja como seu secretário para Macau, onde termina o relato da organização da viagem de uma embaixada japonesa a Roma: iniciada em 1582 e composta por 4 jovens samurais, que chegam a Lisboa em 1584, e depois partem para Roma, onde são recebidos por Gregório XIII. Esta embaixada deixou a Europa em Abril de 1586 e chegou ao porto de Nagasaki, em 1590. Nessa altura dá por concluída a sua História do Japão, episódio documentado numa carta enviada ao Padre Acquaviva. Mas o seu estilo de escrita não agrada a Valignano, o qual critica severamente muitos dos aspectos de uma obra que é considerada actualmente como referência indispensável a todos os que estudam a História do Japão.
Todo o trabalho que desenvolveu teve como base a sua experiência pessoal. É um testemunho directo e, de certa forma, autobiográfico desse momento histórico do Japão e da presença missionária da Companhia de Jesus.
O seu estado de saúde fragiliza-se. Luís Fróis receia que o seu manuscrito se perca em Macau e, para que a sua História do Japão fosse salva, decide fazer o sacrifício e volta doente e exausto a Nagasaki, no ano de 1595. Na última fase da sua vida deixa-nos os escritos daquela que é talvez a sua melhor obra, O Relato da Morte dos 26 Mártires de Nagasaki, de 15 de Março de 1597. O texto foi enviado passando pelas Filipinas, escapando assim à censura do padre Valignano, mas assim que este tomou conhecimento da ação, solicitou a Roma o arquivo do referido documento, que apenas será publicado em 1935.
Já na última etapa da sua vida, e com 62 anos, Fróis escreve talvez uma das suas melhores obras: a Relação da morte dos 26 Mártires de Nagasaki (a 15 de Março de 1597), onde mais uma vez demonstra o seu profundo conhecimento da cultura japonesa. Este texto serviu para esclarecer certos aspectos discutidos entre os historiadores japoneses em torno da identificação do local exacto do martírio, e foi só no ano de 1956 que o local, a colina de Nishizaka, foi declarado histórico na cidade de Nagasaki e erigido um monumento representando os 26 mártires na ordem que Froís descreveu.
Terminada a obra, o estado de saúde de Luís Fróis agravara-se. Morre no Colégio de São Paulo em Nagasaki, a 8 de Julho de 1597. 
Luís Frois foi figura primordial na primeira evangelização do Japão e um nome inegavelmente ligado à vida cultural e religiosa de Nagasaki. Pode ler-se gravado no monumento a ele erigido no Parque dos Mártires uma frase que resume a sua vida: «Ele escreveu a História do encontro entre Portugal e o Japão».
Texto elaborado a partir de um artigo da embaixada de Portugal no Japão (Tóquio).

quinta-feira, 21 de junho de 2018

Setting Off from Macau: Essays on Jesuit History during the Ming and Qing Dynasties

Setting Off from Macau - Essays on Jesuit History during the Ming and Qing Dynasties. Edição de 2015
Sinopse:
It is impossible to understand the early history of the Society of Jesus and the Catholic Church in China without understanding the preeminent role played by the island of Macau in the Jesuit missionary endeavor; indeed, it can even be said that Catholicism would not exist in China if there was no Macau. This book seeks to restore Macau to its proper place in the history of Catholicism and the Jesuit missions in China during the Ming and Qing dynasties by offering a unique insight into subjects ranging from the origins of Jesuit missionary work on the island to the history of Jesuit education and Catholic art and music on the Chinese mainland.
Tang Kaijian was born in Hunan province, China. He is Professor of History at the University of Macau. His research focuses on the history of Macau, Chinese Catholic history, and the history of Chinese borders and ethnicities.

quarta-feira, 20 de junho de 2018

Polícia Militar: história resumida

A Polícia Militar é a corporação que exerce o poder de polícia no âmbito interno das forças armadas tendo sido criadas na década de 1950. Em Portugal cada um dos ramos das Forças Armadas Portuguesas dispõe da sua própria polícia militar: Polícia do Exército (PE) - até 1975, chamada "Polícia Militar (PM)" -, no Exército PortuguêsPolícia Aérea (PA), na Força Aérea Portuguesa; Polícia Naval (PN), na Marinha Portuguesa.

Entre 1962 e 1975 (com a extinção do CTIM) existiram 8 unidades da PM em Macau num total de 435 militares. No transporte de e para Macau usaram navios como o "Timor" e o "Niassa", entre outros. O último pelotão foi e regressou por via aérea. Entre outras funções, asseguravam a guarda do Palácio do Governo. Foram mobilizados em média por tempos superiores aos habituais dois anos de comissão de serviço.
Dezembro 1962: desfile junto ao Palácio do Governo
Pelotão de Polícia Militar 38 - 17 Julho 1962 a 23 Outubro 1964: total de 41 militares durante 739 dias; tinha como mascote, o “Átila”, um cão de raça Pastor-alemão. Todos os elementos do PPM 38 foram distinguidos com a Medalha Comemorativa da Expedição a Macau, de acordo com o despacho ministerial de 2 de Abril de 1963.
Pelotão de Polícia Militar 932 - 5 Agosto 1964 a 22 Junho 1966.
Pelotão de Polícia Militar 1084 - 12 Abril 1966 a 27 Julho 1968.
Pelotão de Polícia Militar 2027 - 16 Abril 1968 a 19 Setembro 1970.
Companhia de Polícia Militar 2428 - 12 Agosto 1968 a 3 Fevereiro 1971.
Pelotão de Polícia Militar 2228 - 4 Junho 1970 a 16 Outubro 1972.
Pelotão de Polícia Militar 3124 - 2 Julho 1972 a 5 Julho 1974.
Pelotão de Polícia Militar 8275 - 28 Maio 1974 a 3 Outubro 1975.



 Frente ao Palácio do Governo
Na Estrada de S. Francisco

terça-feira, 19 de junho de 2018

Ou Mun: Coisas e Tipos de Macau

Ninélio Barreiro estava em Macau na década de 1950. Foi nessa altura que escreveu um conjunto de crónicas (1952 a 1955) que seriam depois publicadas entre Fevereiro e Junho de 1957 no "Sábado Popular" o suplemento do vespertino Diário Popular.
Esses textos seriam reunidos na década de 1990 num livro intitulado “Ou-Mun – coisas e tipos de Macau”, editado em 1994 e integrado na colecção “Rua Central”, do Instituto Cultural de Macau. A capa e direcção gráfica é de Victor Hugo Marreiros (imagem ao lado).
Do índice fazem parte:
- Seis figuras típicas de Macau: tancareira, barbeiro de rua, narrador de histórias, cule, vendedores ambulantes e cantadeira;
- templos chineses: Ma Kok Miu, Lei Tong Pan, Kun Iam Tong e Lin Fong Miu;
- Festividades: Bolo Lunar e Ano Novo Chinês;
- Ritos e tradições: o casamento chinês e os funerais;
- Minivocabulário português - cantonense.

Excerto do livro onde Ninélio Barreiros dá a conhecer as origens da obra:
"A razão de ser deste volume surgiu recentemente de sugestões que me foram feitas, no sentido de reunir todas as crónicas escritas e publicadas em ‘Sábado Popular’ – suplemento do Diário Popular – no ano de 1957 de Fevereiro a Junho, isto é, dois anos após o meu regresso de Macau. Decidi fazê-lo, não tanto pelo valor dessas crónicas, breves apontamentos sobre as figuras típicas, os costumes e o exotismo chinês, mas pelo que tudo isso representa, pelos conhecimentos adquiridos in loco, pelo impacto que todas aquelas figuras, todos aqueles costumes, todo aquele sortilégio provocaram em mim, despertando não só a minha curiosidade como o interesse em pesquisar para entender, em decifrar para transmitir.
Nos muitos dias ali passados, no dia a dia intensamente vivido, cada vez mais me sentia preso ao sortilégio emanado das coisas e das gentes e, de tal sorte que hoje, volvidos trinta e sete anos, nem o tempo, nem a distância me fizeram esmorecer o carinho, a paixão e a saudade com que acompanho a vida de Macau, qual ente querido, cuja ausência se sofre e se lamenta.
Tendo percorrido algumas zonas de duas grandes partes do mundo, a Ásia e a África, tendo vivido em terras de costumes e falas diferentes das do continente em que nasci, nenhuma delas se enraizou mais em mim, nenhuma delas me provocou maior sedução, nem outra ficou mais presa à minha vida e aos meus sentimentos, do que essa encantadora e fulgurante terra de Macau. E de tal modo ela se arraigou, de tal maneira se prendeu que, ainda hoje, de vez em quando, sonho que estou em Macau. E a cada despertar corresponde uma triste desilusão… Publicar estas crónicas é, pois, não só um dever de divulgar as suas belezas, o seu encantamento e sortilégio, mas antes de mais, uma forma de retribuir um pouco do muito recebido. É este o meu tributo a Macau."

segunda-feira, 18 de junho de 2018

"Tea Party" no hotel Riviera em Junho de 1930

Factura de uma "Tea Party" passada em nome do "Reitor do Liceu Central de Macau". O documento não o menciona mas quem ocupava o cargo na altura era o Dr. Telo de Azevedo Gomes (1892-1974)O recibo nº 05971 tem a data de 13 de Junho de 1930 e foi emitida pela gerência do "The Hotel Riviera". Ao todo a "festa de chá " custou 23,30 patacas. Na época o Liceu funcionava no nº 89 da rua Conselheiro Ferreira de Almeida - na zona do Tap Seac, actual edifício do Instituto Cultural de Macau. 
A instituição teve várias classificações - entre Nacional e Central. Em 1937, até chegou a ter como patrono Luís de Camões, mas por pouco tempo, passando a ser denominado Liceu Nacional Infante D. Henrique.
Curiosidades: 
19 Abril 1930 - instalação de um telefone no gabinete do reitor; 
23 Outubro 1930 - instalação eléctrica no edifício.
Entrada do edifício com busto de Camões

domingo, 17 de junho de 2018

Travessa da Praia

A Travessa da Praia (onde fica o restaurante O Porto) é uma das transversais da Estrada da Areia Preta e o topónimo remete para os tempos em que ali existiu de facto uma praia...
Travessa da Praia: foto da década 1920
Montanha Russa, Colina de Mong Há e Praia da Areia Preta: vista a partir da Estrada de D. Maria
 No livro "Macao: The Holy City - The Gem of the Orient Earth", da autoria de J. Dyer Ball editado em 1905, pode ler-se sobre a praia da Areia Preta: "Just before reaching the Barrier a short distance is the bathing place, the whole coast line here forming with the sandy beach on the seaward side a magnificent roughly semi-circular bay. Many large fishing stakes are seen with the hovels of their owners perched up amongst the rocks."


Estrada e Praia da Areia Preta num postal ca. 1900

Sobre esta praia Luís Gonzaga Gomes escreveu: “Um dos sítios outrora mais procurados pelos chineses pela razão da sua beleza era a magnífica praia da Areia Preta. Incrustada numa pequena angra era ali que nas tardes de Verão os habitantes desta cidade concorriam em grande número para se divertirem, quer nadando quer gozando a fresca aragem vinda do mar. Frente à enseada, as escalvadas Nove Ilhas e a Lêng-Têng quebravam a monotonia do extenso horizonte com as suas recortada s silhuetas, disfrutando-se assim da praia um admirável e inspirador cenário. Enterradas na praia, os recifes e os penhascos, brunidos e exalviçados pela ressaca das vagas, forneciam outra nota de graciosidade ao local já de si tão aprazivelmente encantador.”

sábado, 16 de junho de 2018

Uma carta de Zanzibar

Este envelope é raro a vários níveis. Primeiro porque foi remetido de Zanzibar (ao largo da costa da Tanzânia, em África e depois porque surge apenas com o nome do destinatário e sem a morada respectiva. Claro que estamos a falar de uma correspondência de 1954 numa altura em que Macau não tinha tanta população como hoje... e, não menos importante, Fred Gellion, era um nome sobejamente conhecido no território. Era nada mais, nada menos que o Presidente da MELCO.

quinta-feira, 14 de junho de 2018

O "Armazém do Boi"

Situado no cruzamento da Avenida do Coronel Mesquita com a Avenida do Almirante Lacerda, o Armazém do Boi tem um nome que remete para as origens deste edifício construído em 1912 e renovado em 1924. Era o antigo estábulo municipal que servia como local de armazenamento do gado importado da China enquanto aguardava abate no matadouro situado na zona da Barra.
Década 1920: ao fundo o Armazém do Boi visto da Av. Coronel Mesquita
O Matadouro Municipal situava-se na Rua de S. Tiago da Barra, por trás da actual Pousada de São Tiago. O gado era conduzido através das ruas de Macau, ao longo da Avenida do Almirante Lacerda, do bairro do Patane e da zona do Porto Interior. Fotografias da década de 1950 a 1960 testemunham este facto. Em finais de 1980, o governo decidiu desactivar o Matadouro da Barra e construir um novo matadouro na Ilha Verde. Foi também desactivado o Armazém do Boi que foi entretanto (2003) transformado em espaço de cultura. Está classificado este ano como edifício de interesse arquitectónico.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Dédalo de ruas estreitas e imundas

“Quem desembarca do vapor de Hong Kong, no porto interior, e quer vir à Praia Grande, tem de atravessar um dédalo de ruas estreitas e imundas, orladas por casas de paredes escuras e tristes. Há principalmente uma travessa muito estreita, junto à Rua de Felicidade por onde têm de passar todos os que quiserem transitar em jenrickshas. 
É tão estreita que um homem de braços abertos não pode passar por ela. É ela a Travessa do Tintureiro (Tai Pang Hong), ou Travessa do Falcão, com menos de cem metros que, começando no Largo do Senado, termina na Rua dos Mercadores. Houve em tempos um projecto bastante grande de fazer uma larga avenida, que partindo do Largo de Caldeira no porto interior, viesse acabar na Praia Grande, passando pela frente do edifício do Leal Senado. 
Para esse fim seria preciso expropriar um bom número de casas chinesas, e uma parte da casa que é actualmente o Hotel Hing-kee, e calculava-se que seriam necessários $30 000. Não pedimos agora tão grandiosa obra. Por enquanto talvez bastaria modificar a Rua de Felicidade, alterando-a gradualmente desde o seu começo na Rua Marginal (Rua do Visconde de Paço d’ Arcos), para torná-la transitável para jinrickshas, que agora não podem subir a ladeira que a vem ligar com a Rua dos Cules. 
Os prédios da Rua de Felicidade pertencem a uma sociedade de negociantes abastados, que são bastante condescendentes. Não será difícil persuadi-los a converter, as que hoje servem de lupanares, em lojas mais asseadas e com frontarias mais alegres, com o que eles virão finalmente a lucrar. Essa transformação não poderá deixar de ser lentamente feita, mas se o governo melhorar aquela rua de modo que a torne mais frequentada, os proprietários por seu próprio interesse irão transformando os prédios, enxotando dai os lupanares.”
in O Macaense, 1.11.1890
Nota: Referência ao que viria a ser a Av. Almeida Ribeiro (San Ma Lou) que viria a ficar pronta no final da década de 1910; a nova artéria ligaria então o Porto Interior à baía da Praia Grande.

terça-feira, 12 de junho de 2018

Michelle Ruggieri

Jack M.Braga no livro "The beginnings of printing at Macao", de 1962, escreve que o padre Michelle Ruggieri foi o primeiro europeu a publicar um livro em chinês em Macau em 1585. Um livro de catequese. Admite-se no entanto que o livro possa ter sido impresso na China, onde foi usado nas missões religiosas dos jesuítas. Michele Ruggieri, Luo Mingjian (羅明堅, zi 復初, (1543-1607), nasceu em Spinazzola (Nápoles) em 1543. Doutorado em Roma em Direito entrou para a Sociedade de Jesus. Em 1577 foi para a Índia, onde esteve alguns anos e em 1581 foi para a China. Em Macau aprendeu chinês (a aprendizagem foi tão rápida que ficou intérprete da delegação portuguesa que anualmente negociava o comércio em Guangdong) e teve aí contacto com o Visitador jesuíta Alessandro Valignano, superior da missão jesuíta no Oriente. Realizou a primeira missa em solo chinês, escreveu o primeiro catecismo em chinês e foi o primeiro europeu a traduzir os livros Clássicos Chineses. Na China missionou até 1588 quando voltou à Europa. Morreu em Salerno em 1607.

segunda-feira, 11 de junho de 2018

Tascas portuguesas em Macau

Tascas portuguesas em Macau – naquele tempo não havia fast food

A arte culinária é componente essencial da cultura de qualquer povo. Os portugueses que o digam: em cada recanto do mundo que percorremos, sempre levámos o incomparável sabor das nossas iguarias. Macau não constitui excepção a esta regra: há pouco mais de meio século, existiam aqui diversas casas de pasto, onde se provava a típica dobrada com feijão branco ou a suculenta caldeirada à nossa moda. Tudo regado com bom vinho de cepa lusa… O progresso, porém, veio alterar este panorama. Com o rodar dos tempos, as casas de pasto foram fechando para dar lugar aos incaracterísticos especializados em ‘fast food’. 
Hoje, praticamente só A Vencedora subsiste como derradeiro exemplo das velhas tascas portuguesas de Macau. É certo que os pratos confeccionados fora das paragens lusitanas pecam muitas vezes por falta de casticismo. Ou porque não existem condimentos apropriados, ou pelas carências provocadas pela distância, ou por excesso de improvisação dos cozinheiros, a verdade é que o gosto pela mestiçagem que sempre revelámos noutros domínios também se estendeu à gastronomia. De qualquer modo, geralmente a assimilação tem a virtude de fazer sobressair, ainda mais, a saudade dos mais variados petiscos – prova insofismável de que através do repasto também nos sentimos ligados ao torrão natal.
No caso específico de Macau, a culinária portuguesa foi desenvolvida não só pelos nossos compatriotas mas também pelos chineses que conviveram de perto com soldados e marinheiros, fazendo a sua aprendizagem nos ranchos e messes dos quartéis ou a bordo dos navios de guerra em missão de soberania. Nos alvores do século já havia diversas casas de pasto espalhadas pela cidade. Mas as que fizeram história concentravam-se, há cerca de 50 anos, na Rua do Campo ou suas imediações, como aconteceu com A Japonesa, nome que o seu proprietário registou por estar casado com uma filha do Império do Sol Nascente. Por essa altura, na mesma artéria, também abriram as portas a Casa do Povo e a Aurora Portuguesa - fundadas por Eugénio Jorge, que ainda mantém descendência no Território, embora nenhum dos filhos tivesse seguido a vocação do progenitor. Eugénio Jorge explorou igualmente o célebre Quiosque, que dispunha no andar térreo de um concorrido jogo de bilhar. Hoje, o Quiosque encontra-se no mesmo local – defronte do Centro Católico – mas foi transformado, há longos anos, em biblioteca chinesa. (...)
Ementas portuguesas fizeram igualmente fama no Restaurante Lisboa e, mais tarde, no Lusitano e no Kai San, fundado por um antigo miliciano na Travessa dos Anjos, onde se jogava a popular ‘laranjinha’, com as características do provinciano jogo da malha, mas jogado com bolas de madeira a tabelar numa bola mais pequena, chamada ‘carriça’. Este passatempo, muito vulgar nas antigas tascas portuguesas, também aqui já passou de moda. A Cecília, na Rua Pedro Nolasco da Silva, também se dedicava à confecção da nossa culinária, à semelhança de tantas outras casas de pasto que abriam e fechavam as portas consoante o fluxo do negócio. De propriedade de cidadãos chineses existiam, já no dealbar dos anos trinta, o Fat Siu Lau, na Rua da Felicidade, e A Vencedora, na Rua do Campo. Só estas duas acabaram por resistir à erosão dos tempos, chegando aos nossos dias. Mas o Fat Siu Lau veio a perder as características que o popularizaram até ao mais recôndito recanto de Portugal: a cozinha portuguesa de permeio com o pombo assado e o arroz ‘à Malo’ – distorção do nome de Mário pronunciado pelos empregados chineses, e que teve origem num dos seus mais assíduos clientes, Mário Morais Alves. 
Na verdade, só A Vencedora subsiste como casa de pasto, apesar de o ex-proprietário ter já entregue o negócio aos filhos. Foi o velho A Kuan, com o precioso auxílio de sua mulher, que fomentou o negócio legado por seu pai, negócio que resiste desde há 73 anos e que o tornou no mais popular poiso dos militares durante os períodos de licença. A Kuan, não só apresentava as ementas a preços módicos como também nos momentos de aflição monetária, auxiliava os habituais clientes a desenvencilhar-se dos seus problemas momentâneos.
Adamastor
Distante da maioria das casas de pasto, num ponto outrora pacato da cidade, existia o Adamastor, situado na Avenida Horta e Costa, a poucos metros do Mercado Vermelho. O proprietário, o chinês Lam Iu, baptizou a sua casa de comidas em homenagem ao vaso de guerra do mesmo nome, onde serviu como ajudante de cozinha e com tamanha dedicação que o comandante do navio o incorporou na guarnição, finda a comissão de serviço, durante a viagem de regresso a Lisboa. Depois de regressar a Macau, Lam Iu trabalhou no Palacete de Santa Sancha, ao tempo do Governador Tamagnini Barbosa, vindo anos depois a dedicar-se à exploração da cozinha portuguesa como ramo de negócio. Foi o Adamastor que em meados dos anos setenta viu entrar, como seu fortuito cliente, o filho de Tamagnini Barbosa, que, integrado na primeira romagem de saudade organizada pela Casa de Macau em Lisboa, aproveitou para dar um abraço ao velho cozinheiro após uma ausência de mais de trinta anos. Lam Iu nutria tanta admiração pelos vindouros da ocidental praia lusitana que em todas as suas refeições utilizava o azeite português. Nestes dias em que a ‘fast food’ se tornou moda citadina, do Adamastor só resta o imponente edifício duma instituição bancária.”

  1. Texto de Alberto Alecrim publicado na Revista Macau, Dezembro 1988

domingo, 10 de junho de 2018

Sumário dos Luziadas: 1937


"Sumário dos Luziadas" é uma edição da Imprensa Nacional de Macau em 1937 com 68 páginas. (30 p. em chinês e 38 p. em português) Ampliação do discurso proferido no dia 10 de junho de 1937, no jardim da gruta de Camões em Macau. De António Maria da Silva na época o Chefe da Repartição Técnica do Expediente Sínico.


  


“Os Lusíadas andam traduzidos em grego, latim, espanhol, francês, italiano, inglês, alemão, holandês, dinamarquês, sueco, húngaro, boémio, polaco, russo, árabe e hebreu. Os chineses, porém, desconhecem-nos, por não possuírem na sua língua uma única tradução. Foi por isso que S. Exa. o Governador de Macau, Sr. Dr. Artur Tamagnini de Sousa Barbosa, determinou que eu fizesse uma ampliação do discurso por mim proferido na Gruta de Camões , em 10 de Junho de 1937, dia de Camões e a publicasse em chinês, dando assim a conhecer aos habitantes desta grande porção do continente asiático o conteúdo da nossa admirável epopeia (…)
Finalmente, devo dizer que o texto chinês dêste apanhado sumário dos Lusíadas, não está em linguagem tão chã e tão pobre como o original em português, visto que me auxiliou a redigi-lo na língua sínica o Sr. Ch´u-Pui-Chi, distinto letrado da Repartição Técnica do Expediente Sínico e profundo conhecedor da língua de Confúcio.”

sábado, 9 de junho de 2018

Banda do Batalhão de Macau e Coreto do Jardim de S. Francisco


A maioria dos coretos foram construídos sob os ideais da Revolução Francesa tornando-se lugares de cultura a que a população tinha acesso de forma livre e gratuita. Entre finais de oitocentos e os primeiros anos do século XX foram construídos em madeira ou em ferro, assumiram as formas mais variadas. Localizavam-se sobretudo nas praças ou jardins dos centros das vilas e cidades e depressa se tornaram o palco privilegiado para a actuação das bandas de música, civis e militares, sobretudo aos fins de semana e dias de festa. 


Entre meados do século 19 e 1935, no coreto do Jardim de S. Francisco, havia música todas as tardes de quinta-feira e domingo. Ora por bandas militares, como foi o caso da Banda do Batalhão de Macau (imagem ao lado, programa de 1866) ou pela Banda Municipal da Câmara de Macau, dirigida pelo maestro Constâncio José da Silva (macaense). 
Com a extinção das ordens religiosas em Portugal (1834), o governo de Macau apropriou-se do espaço ocupado pela ordem franciscana e criou o primeiro jardim público de Macau, o Jardim de S. Francisco (1861), projectado por Matias Soares. O coreto seria demolido em 1934/5, com a abertura da Rua de Santa Clara. 
A Banda de Macau tinha ligações a Goa, Moçambique, Timor e Sião. A Banda dos Amadores Portugueses, sediada em Hong Kong nos finais do século XIX, foi outra das bandas que actuou com regularidade no coreto do Jardim de S. Francisco.


O Jardim de S. Francisco, o primeiro jardim público de Macau, foi construído na década de 1860, com uma área de 6.293 metros quadrados. Adolpho Loureiro descreve assim o jardim a 17 de Setembro de 1883: “pequeno jardim publico, que tinha antigamente a fórma de um jardim symetrico e regular, medido e traçado a compasso, e que o meu collega Brito tentou transformar num jardim e parque moderno, á ingleza. Esta muito limpo e varrido, e é este o seu único merito, tendo muito pequena área e sendo vulgares as plantas que o adornam.”
Numa edição do jornal O Progresso de 1916 pode ler-se: "Música no jardim publico de S. Francisco passa agora a tocar, nas 5ªs e nos Domingos, das 16 às 18 horas, durante o Inverno…” Numa edição do jornal O Liberal de 1922 uma outra notícia: “À noite, neste jardim, com animada concorrência de público tocou com geral aplauso uma pequena banda organizada e regida pelo sr. Assis.” 
Em chinês chama-se Jardim dos Castelhanos (Ka-Si-Lán-Fá-Yun - 加思欄花園), por ter sido fundado por franciscanos castelhanos.

sexta-feira, 8 de junho de 2018

Dragagens no início do século XX

Postal "Macau" com 4 ilustrações alusivas aos trabalhos de dragagem para os grandes aterros da década de 1920 relativos aos trabalhos dos Portos de Macau. Nas imagens: Draga Impulsora; Dragagem em Macau-Siac; Bacia Sul do Patane e Testas dos Estaleiros.

Sugestão de Leitura: 
Macao and its harbour : projects planned and projects realized (1883-1927) 
Bulletin de l'École française d'Extrême-Orient Année,1991 
de que reproduzo aqui a parte da conclusão:
Mapa de 1925

(...) With the construction of the Porto Exterior in the 1920s and the improvement of harbour facilities in the Porto Interior, Macao, no doubt, changed its appearance, but the original aim behind the harbour works was not achieved: Macao's external trade did not develop in the way that it had been hoped for, nor did the gap between Macao and Hong Kong narrow. Macao's infrastructure had improved but the economic benefits deriving from these improvements were minimal. Some technical and political problems always remained, the international press was not in favour of Macao, and most Portuguese felt disappointed. One even commented: "O porto de Macau para nada serve, senào para nos atormentar." In short, Hong Kong remained the leading port in the area and Macao continued to rely on Hong Kong for much of its trade with countries other than China.

Instead of reviving its international connections, Macao had become a fishing port with thousands of Chinese fishing vessels, mostly small wooden boats, going in and out every year. In 1930, around thirty percent of Macao's exports were generated by these fishermen. True, some steam ships also called at the Portuguese colony but these ships were rather small in size and it was always difficult to maneuver them in and out of the harbour. Some of Macao's efforts to open new international cargo lines even came close to a tragicomedy: "Um agente de navegaçâo holandês, Van Genepp, anunciou um dia a abertura de praça para о transporte de carga de Macau para Singapura. О navio veio ao porto artificial de Macau, e a carga embarcada nâo foi além de 5 toneladas!" And another case: "Quando о Pêro de Alenquer estava em Macau, anunciámos com a dévida antecedência que о navio traria carga para Lisboa mediante preços módicos. Tôda a carga que ali metemos andou à volta de 200 toneladas, e esta na quasi totalidade constituida por mobilias e objectos pessoais de funcionários da Colónia!"41

Certainly, until the 1960s regular shipping services existed between Macao and Lisbon with two or three ships arriving each year in Macao but almost no major cargo or passenger ship would come in from places other than Lourenço Marques, Timor, Goa, or Lisbon. There were plans, or rather dreams, to intensify traffic between Timor and Macao but Timor was so remote and so backward that such dreams had no chance of fulfillment.42 In the fifties, Macao's textile industry began to expand but at that time most of Macao's exports, mainly cheap consumer goods, went to Portuguese overseas territories, not to leading industrial countries. Moreover, a good deal of these exports were channelled through Hong Kong. Macao's role in international trade remained marginal.

In 1949 an economist wrote on Macao:43 "O porto ainda era frequentado em 1866 рог 238 navios, sendo 53 de guerra e 185 de mercantes (sem contar os da carreira de Hongkong) com uma tonelagem de 87.543 toneladas, percentes as seguintes nacionalidades: 43 ingleses, 28 espanhóis, 23 franceses, 20 hamburgueses, 16 holandeses, 11 Portugueses, 10 italianos, 8 bremenses, 6 prussianos, 6 russos, 4 americanos, 2 peruanos, 2 siameses, 2 havaianos, 1 belga, 1 hanoveriano, 1 dina- marquês e 1 chileno. Hoje, o movimento de navegaçâo é quase limitado aos barcos de pesca e aos navios de carreira de Macau-Cantâo e Macau-Hong Kong." And he continues: "É nisto tudo que consiste о fatalismo fluvial de Macau."

Whether, in the end, it was really the "fatal" river deposits that caused the decline of Macao's harbour in terms of its "internationality", is difficult to tell. In 1866 Macao still traded in opium and kulis. When improvements of the harbour began, trade in these two "commodities" had almost come to an end and no goods equally significant for both the domestic market and for overseas markets were found to replace these two. Macao had "missed the boat" and the construction of the Porto Exterior came too late to revive Macao's entrepôt function. It certainly came at a time when Hong Kong had already diversified its own trade and when chances of diverting some of that trade from the attractive business environment of the British colony to the tiny and backward peninsula of Macao were minimal.
Notas:
41 Both quotations from Freitas Morna, O porto exterior, p. 14. (42) See, for ex., Gama, "Macau e o seu porto", p. 90; Freitas Morna, O porto exterior, pp. 14-15. (43) Lobo, "A économie de Macau", p. 14.

quinta-feira, 7 de junho de 2018

"Macau visto por Lio Man Cheong": postais década 1990

Portaria n.º 32/95/M de 20 de Fevereiro: Emite e põe em circulação selos postais alusivos à emissão extraordinária «Macau visto por Lio Man Cheong. São as pinturas incluídas nos selos os trabalhos deste artista de Macau.






quarta-feira, 6 de junho de 2018

O 'Tai Fong' de 1874


No final do século XIX o brigue português Concórdia, com capacidade para 226 toneladas, era presença assídua no porto de Macau fazendo transporte de passageiros e carga para Goa e Malaca.
No Boletim do Governo do Estado da Índia, de 1876, pode ler-se: "Administração geral dos correios, 8 de abril de 1876  O administrador geral, M. J, da Costa Campos. As malas para Macau, Singapura e Pinang pelo brigue Concordia fechar-se-hão nesta repartição no dia 19 do corrente às 3 horas da tarde".
Como era Macau nessa época?
Recorro ao "Macau Factos e Lendas" de Luís Gonzaga Gomes para responder...
"Corria, suavemente, o Outono, em Macau, no ano de 1872 (...) Vivia-se assim, despreocupadamente, pensando cada um em divertir-se da melhor forma que pudesse, sem precisar de pensar no dia de amanhã, pois o próspero negócio da emigração dava para que toda a gente andasse ocupada e passasse os dias sem problemas económicos que a atribulassem. Surtos no porto, viam-se três barcos de guerra nacionais, a corveta a vapor «Duque de Palmela», a escuna de guerra «Príncipe Carlos» e o vapor de guerra «Camões», além dos navios mercantes como a galera «Viajante» do comando de Francisco Jerónimo de Mendonça; a barca «Cecília» comandada por H. Mesquita e o brigue «Concórdia». Naves doutras nações demandavam também o nosso porto, como o vapor italiano «Glensannox», o vapor espanhol «Buenaventura», que sairia no dia 30, com destino a Havana, levando a bordo 84 colonos chineses, a galera da mesma nacionalidade «Alaveza», as barcas francesas «Blanche Marie» e «Veloce», os brigues «Maggie» e «Water Lily» e a galera «Star of China», que navegavam sob bandeira inglesa, a barca da confederação germânica «Vidal» e os vapores de guerra chineses «An-Lan», «Chien-Jui» e «Ngan-Tien» (...) As disponibilidades que abarrotavam os cofres do tesouro público foram, no entanto, bem aproveitadas, pelo inteligente governador, Visconde de S. Januário, de nome, Januário Correia de Almeida, bacharel formado em Matemática, que chegara a Macau, com o posto de capitão do Estado-maior, tendo exercido, anteriormente, o cargo de governador geral da Índia. (...)"
Até que em Setembro de 1874 um violento tufão atingiu Macau... O Concórdia foi uma das 'vítimas'...
Sugestão de leitura: O Maior Tufão de Macau, de Pedro Fragoso de Matos, Editorial Minerva, 1985


No livro "O Caminho do Oriente", da autoria de Jaime do Inso, editado em 1932, é assim relatada a passagem do tufão de 1874 por Macau...
Na fortaleza do Monte, e na Guia, tinha-se içado o último dos sinais de tufão, o peior, o mais terrível, constituído por uma sinistra cruz negra, que significa que o tufão está prestes a passar por cima de nós.
Ao mesmo tempo, ouviram-se os três tiros de prevenção, lúgubres, espaçados, ecoando pela cidade. Havia muito que as últimas lorchas tinham vindo acolher-se, como gaívotas de asas abertas, ao abrigo do porto interior, e que as pobres tankareiras fugiram aterradas ao grito de «Tai-Fong!» - grande vento! - puxando nervosas ao «Liu-Liu» em busca de uma doca, um recanto, onde pudessem aguardar com mais esperança a fúria da destruição.

A população marítima de Macau é importante, contando mais de cincoenta mil habitantes que, na maior parte, não têm outra habitação além dos seus barcos, alguns dos quais uns pobres esquifes, os «tankás» onde, num prodígio de arrumação, vive uma família completa - mãe, pai e filhos - com a sua cosinha, as suas esteiras, o seu altar.
Vem um tufão, e os pobresitos, que são aos centos, já sabem que alguns têm de ser sacrificados, pois que só por milagre escaparão todos àquela roleta da morte. A China, até no furor das tempestades manifesta o seu cunho inconfundível e aterrador. Um tufão, é qualquer coisa de estupendo, de monstruoso, a desafiar a estabilidade do mundo.
Desaparece a noção de segurança, e toda a Natureza se reveste de uma maldade tétrica e tão profunda que, ao pé dela, a tristeza que, mais ou menos, sempre paira no Oriente, chega a parecer uma alegria de invejar!
Com dias de antecedência, o terrível fenómeno meteorológico que, em geral, se forma muito ao largo, no Pacífico, vai dando sinal de si, por várias formas, ainda a centenares de milhas de distância. A temperatura subindo e que asfixia, a cor do céu em fogo ao pôr do sol, a convergência das nuvens altas, ou cirros, em forma de penas - os «rabos de galo» - a pressão atmosférica cujas perturbações nas marés se vão acentuando à medida que o tufão avança, a altura das águas e, até, o aparecimento do chamado «bicho tufão» - tudo constitui outros tantos sinais percursores da passagem de tão indesejável fenómeno.
Além disso, a atmosfera, e todo o ambiente, revestem um tal aspecto de quietação sufocante, como que uma pausa ameaçadora da convulsão que se prepara, que o tufão, por assim dizer, se pressente num mal estar que nos aflige.

Içado o último dos sinais, e mesmo antes disso, tomam-se precauções especiais, tanto em terra como no mar.
Efeitos do tufão de 1874 na zona da Praia Grande

Portas e janelas são trancadas para evitar que o vento as abra, o que poderia acarretar sérios prejuísos como, por exemplo, fazer saltar os telhados, e chegam a apagar-se todos os fogos, pelo perigo de incêndios a que ninguém poderia acudir. A vida paralisa, as ruas ficam desertas à espera que o cataclismo passe e, para se fazer idéia da violência com o que o vento sopra, basta citar o facto sucedido uma vez, quando, tendo-se avariado as linhas telefónicas, foi preciso mandar um homem ao Monte, para onde teve de ir subindo de gatas, e onde chegou quási nu, porque o vento lhe tinha arrancado o fato aos pedaços!
No mar, paira sempre uma incerteza, - apesar dos cuidados, das amarras reforçadas e dos abrigos que se procuram - porque os golpes do tufão são traiçoeiros e difíceis de parar. Com a antecedência possível, arriam-se os mastaréus, ferram-se os toldos, etc., e tudo se fecha e amarra, ficando o navio preparado para receber um dilúvio. As máquinas prontas, um oficial - quando não é o Comandante na ponte, e tudo a postos como se fosse a navegar.
A passagem de um tufão que vai sendo assinalado dia a dia, e até hora a hora, pelos observatórios do mar da China, trás sempre uma perturbação considerável em todos os pontos por onde passa, e que é acompanhada de prejuísos de toda a sorte, inclusive nas vidas. Compreende-se pois, como a época dos tufões na China, de Junho a Outubro, não encontre paralelo nas nossas estações, e imprima mais um «fades» especial àquele clima, a que não faltam certos quadros duma grandiosidade tétrica.
Assim, uma vez, era em Cheong-Ma-Koc, no Rio do Oeste, e em véspera de tufão. O navio estava com os dois ferros, a meio do rio e em frente do pagode. Veio o pôr do sol e o céu tomou o aspecto mais fantástico que se possa imaginar. Não era céu, era um brazeiro, o poente a arder - uma loucura de fogo, uma fornalha incandescente, um vermelho de metal fundido ferindo a vista, desconcertando a imaginação!
Tenho visto muitos poentes lindos, emocionantes, desde os do Cabo da Boa Esperança, de reflexos típicos, nostálgicos, aos coloridos surpreendentes de Zanzibar, do Mar Vermelho, do Índico, até à delicadeza das cores do céu no Japão e à tristeza indízível de um sol de inverno na Sibéria; tenho visto no céu, maravilhosas pinturas de luz que chego a recordar com saudade, tanto elas me afectam e encantam.
Mas um pôr do sol assim, como aquele de Cheong-Ma-Koc - um quadro que tinha não sei quê de diabólico, de dantesco, línguas de fogo inverosimeis cobrindo três quartos do céu no maior incêndio imaginável, como se fosse o próprio céu a arder, irradiando cores impossíveis de reproduzir, que não há palavras que pintem, nem imaginação que possa fantasiar - um pôr de sol assim, nunca vi nem espero mais tornar a ver.

No dia seguinte, caiu a tempestade sobre aquelas terras da China, com todo o furor, e a velha Pátria, alterosa, sem que se lhe pudesse ter mão, foi garrando a pouco e pouco, e esteve em risco de ficar sepultada numa extensa várzea onde a água subiu tanto, que só restavam visíveis os últimos ramos das árvores. Com um trabalho insano para toda a guarnição, e com a ajuda das máquinas, lá se foi palmilhando mais para meio do rio, quando o vento permitiu, e sempre com um ferro no fundo. Só depois de passadas quatorze horas na ponte pude ver o navio, finalmente, em segurança, se bem que já muito a montante do pagode.