sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Em Demanda do Cataio

"Em Demanda do Cataio. A Viagem de Bento de Goes à China 1603-1607" é um livro da autoria de Eduardo Brazão, publicado pela Agência Geral do Ultramar pela primeira vez em 1954 (cor vermelha) tem tido várias edições posteriormente (a azul a de 1969), inclusive em Macau, pelo ICM.
Conforme o sub-título indica, a obra é sobre a viagem de Bento de Goes à China na altura conhecida pelo Ocidente portugueses de Cataio ou Grão-cataio.
Na introdução Eduardo Brazão escreve assim:
"(...) Se ao Veneziano (Marco Polo) cabe a glória de ter apresentado à Europa medieval o fabuloso mundo do Oriente, foi um português que, nos princípios do século XVII, escreveu o último capítulo das viagens famosas de Polo, identificando o Cataio, que tão miùdamente este descrevera, com a China do Norte. Chamou-se Bento de Goes esse já quase desconhecido que nestas páginas é modestamente lembrado."
Catai, Cathay ou Cataio é um nome originário da palavra kitai (契丹, Qìdān), nome de um povo nómada que fundou a dinastia Liao, que dominou a maior parte do norte da China de 907 a 1125, e cuja área de 'jurisdição' corresponde ao actual Quirguistão. Os dois termos começaram por ser empregues pelos europeus depois da publicação do livro de Marco Polo que se referia ao sul da China como Manji.
Em baixo, um mapa de 1570, de Abraham Ortelius, onde assinalei a vermelho a expressão já utilizada - Cataio. Noutro mapa mais antigo, de 1450, surge a expressão Chataio.

O frei agostinho espanhol, Martin de Rada, que visitou a China em 1575 escreve na sua "Relacion de las cosas de China que propriamente se lhama taybin": "O país que nós comummente chamanos China era chamado pelo veneziano Marco Polo o reino de Cataio, talvez por que assim era então chamado; pois quando ele ali chegou, que foi cerca de 1312, era governado pelos Tártaros".
O primeiro a identificar o Cataio terá sido o navegador italiano Giovanni da Empoli, ao serviço de Portugal. O facto pode ser comprovado em duas cartas que ele escreveu (1514 e 1515). Em 1524, António Pigafetta informava que as duas cidades principais da "Gran China" eram "Namchin" e "Combatu": Nanquim e Cambalu. Tomé Pires, na Suma Oriental, escrita em 1513-1515, chama à capital da China, Gambara e Gambera. 
A propósito de nomes, refira-se que nome Pequim figura pela primeira vez numa carta de Cristóvão Vieira, da comitiva de Tomé Pires, escrita em Cantão, em 1520. Mas voltemos ao tema do post...
Em 1590, o Pe. Monserrate afirmava que a antiga região de "Seres" era o Cataio da Idade Média. O Pe. Mateus Ricci, S. J., identificou também a China com o Cataio. Em 13 de Outubro de 1596, escreveu  de Nanquim ao Pe. Cláudio Aquaviva (Roma): "Por fim, quero escrever uma curiosidade que, penso, V. P. e outros se regozirarão de ouvir, e é uma conjectura que fiz, que a cidade de Nanquim, aonde fui o ano passado, metrópole e sede real antiga da China, por várias conjecturas penso ser o Cataio de Marco Polo.... e assim o Cataio, segundo a minha opinião, não é outro reino senão o da China"

Acontece que os jesuítas da Índia assim não entenderam, já que suspeitavam que o antigo Cataio fosse uma região para lá do Himalaia, onde se acreditava que habitava populações cristãs, o que não sucedia na China.
Para tirar teimas, o visitador Nicolau Pimenta enviou uma expedição ao Cataio. O rei D. Filipe II, em carta de 24 de Janeiro de 1601, aprovou a expedição e mandou que o vice-rei da Índia, Aires de Saldanha, e o arcebispo de Goa, D. Aleixo de Jesus de Meneses, pusessem à disposição do visitador os meios necessários. Neto de Gois (Goes) foi o escolhido para chefe desta expedição. Bento de Góis. Bento de Góis nascera, em 1562, nos Açores. Sôfrego de aventuras, embarcou para a Índia, onde lutou como soldado, entregando-se ao jogo e aos prazeres. Entrando um dia numa capela de N. Senhora, em Travancor, lançou-se aos pés da imagem da SSma. Virgem, chorando os seus pecados. Em Fevereiro de 1584, ingressou na Companhia de Jesus. Em 1595, fez parte da missão ao Grão-Mogol, chefiada pelo Pe. Jerónimo Xavier, sobrinho de S. Francisco Xavier. Em 1601, o imperador Achar mandou Bento de Góis por seu embaixador a Goa. Em 29 de Outubro de 1602, Góis partiu de Agra com uma caravana e atravessou todo o Industão em direcção ao nordeste, entrou no Afganistão, chegou a Kabul, atravessou a cadeia de Hindu-Kush, atingiu Yarkand, seguiu o antigo Caminho do Ouro-Maralbashi, Aksu, Kustsha, Korla, Karashar, Turfan, Hami- atravessou o deserto de Góbi e chegou à Grande Muralha, que atravessou em Chia-yu-kuan. No Natal de 1605, atingiu Su-chow e ali ficou um ano, à espera de atingir Pequim.
Os comerciantes muçulmanos chamavam a Pequim, "Kambalu", e à China "Cataio". Ricci, então em Pequim, escreveu-lhe várias cartas e uma chegou ao seu destino. Mandou-lhe também um criado cristão para o conduzir à capital. Era um china que falava português. Tinha o nome 'português' de João Fernandes, e o nome chinês de Chung Ming. Chegou em Março de 1607 e Góis morreu pouco depois, a 11 de Abril. Percorreu mais de 6 mil quilómetro em 3 anos...
Num relato feito por Toscano podemos perceber melhor aquele momento:
"Quando o Irmão Bento ouviu pronunciar palavras na língua pátria, abriu os olhos, tomou as cartas que vinham de Pequim, e erguendo as mãos ao Céu recitou todo o Cântico do velho Simeão: "E agora, Senhor, deixai ir o vosso servo em paz". Beijando e lendo as cartas, conservou-as toda a noite sobre o coração, recomendando que se dissesse ao Pe. Ricci que ele não havia encontrado cristãos, e que a ninguém mais se ordenasse a viagem através da Ásia para chegar ao Cataio, que não era outro senão a China."
A título de curiosidade, e a propósito do tema, refira-se que o primeiro europeu a chegar ao Tibete foi o padre António de Andrade, jesuíta português, natural de Oleiros, em 1624. Em Agra, na Corte do Grão Mogol, António de Andrade ouvira a vários viajantes a referência a uma civilização em que julgou reconhecer o Prestes João do Oriente. O relato dessa viagem Em demanda do Grão Cataio ou Reynos de Tibete foi traduzido para onze línguas. 
Nota: À época, os portugueses tinham-se estabelecido em Macau há muito pouco tempo tempo (1555-57) e desde logo com padres jesuítas da Companhia de Jesus; o tema pode ainda ser aprofundado noutros livros:
- Viagens na Ásia Central em Demanda do Cataio: Bento de Goes e António de Andrade
- Em Demanda do Grão Cataio, de Beckert d'Assumpção, editado em 1973, com ilustrações de Júlio Gil incluiu o relato da viagem de Bento de Gois da India à China por terra. 

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Recordando o General Melo Egídio

Nuno Viriato Tavares de Melo Egídio (1922-2011), foi governador de Governador de Macau de 1979 a 1981. Nessa qualidade foi o primeiro governador de Macau a visitar a República Popular da China (1980), cerca de um ano depois de Portugal e China terem restabelecido as relações diplomáticas.
Excerto de uma entrevista de 1999 em que Melo Egídio resume o seu mandato:
“O Presidente Ramalho Eanes convidou-me para desempenhar as funções de governador de Macau em Dezembro de 1978. Aceitei e comecei a preparar-me para o desempenho das funções. Ainda não sabia quando se realizaria a posse. O ministro dos Negócios Estrangeiros era então Freitas Cruz, que eu tinha conhecido em Moçambique e de quem era, aliás, muito amigo, e resolvi procurá-lo para fazer uma panorâmica da situação. As negociações para as relações diplomáticas decorriam lentamente em Paris ao nível dos dois embaixadores em França, de Portugal e da China, instruídos pelos respectivos governos. Eu falava frequentemente com o general Eanes e mais ou menos assumimos um compromisso tácito de que aguardávamos que estivesse esclarecida a situação para depois tomar posse como governador de Macau.
E assim foi. O estabelecimento das relações diplomáticas dá-se no dia 8 de Fevereiro de 1979 e eu tomo posse em Belém exactamente no dia imediato. Nas próprias palavras do Presidente na minha posse, o restabelecimento de relações que não se processavam já há muito tempo marcou o início de uma nova era na amizade multissecular entre Portugal e a China, mas, com a situação clarificada, poderia ter muito melhores resultados e poderiam obter-se os êxitos que ambos desejávamos, Portugal e a China, relativamente a Macau.
(...)
Eu falo sempre com saudade da visita que fiz à China em Março e senti-me até distinguido, não por ser eu, mas por ser o chefe da administração portuguesa e também porque desde 1949 não havia visitas oficiais de governadores de Macau, visto não existir relacionamento diplomático.
Fui convidado pelo ministro do Comércio Externo que me disse que eu podia ser acompanhado com comitiva que entendesse até um determinado limite e que iriam ser abordados assuntos de interesse recíproco. Acompanhado pelo secretário adjunto para os Assuntos Económicos e das Obras Públicas e Comunicações, iniciei a minha visita no mês de Março, estando programadas várias visitas, fundamentalmente à capital, a Xangai e, já no regresso a Macau, a Cantão, onde, dada a proximidade, teria oportunidade de tratar de assuntos de interesse recíproco, com muita incidência em Macau. A visita decorreu de tal maneira bem, com cordialidade, cumprindo naturalmente o programa pré-estabelecido, que a certa altura um funcionário do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês perguntou-me se eu não teria interesse em contactar alguma outra entidade na China.
«Assim de repente, de repente, gostaria muito de contactar um homem, mas ele tem uma estatura tão elevada, não estatura física, mas estatura mental e envergadura política, que é o primeiro homem forte da China, Deng Xiaoping. Gostaria muito de estar com ele, mas antevejo que isso seja muito difícil.» E ele disse: «vamos ver.» A resposta foi-me dada no mesmo dia à tarde e foi afirmativa. Eu tive um encontro com o vice-primeiro-ministro chinês no dia 18 de Março de 1980. O encontro teve uma duração de cerca de 20 minutos. Foram tratados variadíssimos assuntos a nível mundial. Ele era um perfeito conhecedor do que se passava no resto do mundo e obviamente que teve de se falar no estabelecimento de relações diplomáticas, nos efeitos desse estabelecimento de relações, relativamente às relações de Portugal com a China e da China com Portugal, com Macau.
Gov. Melo Egídio numa visita a Coloane em 1979
Ele tinha sabido através de órgãos de comunicação social que em Macau havia uma certa preocupação pela nova situação criada. Com um sorriso nos lábios, disse-me que não percebia bem essa preocupação, que achava que agora é que não deveria haver preocupação nenhuma, porquanto existia uma situação clara, absolutamente definida e, portanto, fora encontrada com certeza a paz e a tranquilidade necessárias para o desenvolvimento económico e social do território que ele considerava que se ia mesmo dar. E não se enganou. Deng Xiaoping, o homem a quem a China muito deve, porque a abriu ao exterior, foi realmente o filósofo da teoria um país dois sistemas que permitiu o desenvolvimento da China. Mais uma vez ele teve razão.
Deng Xiaoping dava realmente uma importância extraordinária, mesmo prioritária, às relações culturais. Quando se abordou quais eram as consequências desse estabelecimento de relações, a troca de determinadas entidades, de embaixadores, de adidos militares, de embaixadas de carácter económico, ele disse-me que era tudo verdade e era muito importante, mas mais importante ainda era o intercâmbio entre as pessoas, porque as pessoas são difusoras de cultura.
Os chineses levam a cultura da China a Portugal e os portugueses trazem a cultura de Portugal à China. Para Deng Xiaoping os laços culturais eram os laços mais importantes que podem unir os homens e, afinal de contas, os laços culturais englobam tudo aquilo que possa depois vir”.

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Vagas de frio

Uma forte "monção de Inverno” associada a uma “massa de ar frio” está a atingir grandes partes da Ásia por estes dias e também tem afectado o estado do tempo em Macau provocando baixas temperaturas. No passado dia 24 na zona da Taipa Grande os termómetros registaram 1.6 graus.
Apesar do clima sub-tropical, Macau fica no hemisfério Norte e também o frio se faz sentir no Inverno. As temperaturas nesta época costumam baixar mas raramente se aproximam dos 0 graus. 
Se tivermos em consideração os registos dos serviços de meteorologia é preciso recuar a Janeiro de 1949 para encontrarmos um dos meses mais frios de sempre. A 7 de Janeiro desse ano o mercúrio desceu até aos 2 graus. Nos primeiros 19 dias do mês a temperatura mais elevada não foi além dos 11 graus, registando-se vários dias com temperaturas entre os 3 e os 7 graus.
Estas vagas de frio ocorrem esporadicamente. Em Novembro de 1994 e de 2009, por exemplo, também de registaram temperaturas a rondar os 8 graus.

domingo, 24 de janeiro de 2016

Imagens de Macau n"A Volta ao Mundo" de Ferreira de Castro (2ª parte)

São mais de uma dezena as ilustrações e fotografias de Macau que surgem no livro "A Volta ao Mundo" de Ferreira de Castro. Do dragão chinês nas ruas da cidade à avenida Almeida Ribeiro; da escultura chinesa de Tiê Kuai Li à vista parcial da cidade;  das ruínas de S. Paulo à Porta do Cerco, Gruta de Camões, etc.
Seleccionei apenas algumas fotografias e uma ilustração. Neste último caso, trata-se do Pagode da Barra, uma ilustração da autoria de Roberto Nobre, um dos vários ilustradores do livro.
Na legenda "O Pagode da Barra, templo chinês dedicado a Á-Má, rainha do céu, do qual teria derivado o nome da colónia portuguesa". 
No texto Ferreira de Castro escreve: “Um dos mais ricos, graças aos seus panos escultóricos e variedade de ornamentação, é o Pagode da Barra, quási na extremidade da península. Votado a Á-Mà, rainha do céu, dela terá derivado o nome da colónia – Amagan primeiro, Amacao depois e Macau por fim."
Na imagem acima - "outra vista parcial desta colónia portuguesa no Extremo-Oriente" - pode ver-se uma parte da então denominada Av. Vasco da Gama - o que corresponde hoje à av. Sidónio Pais. Ao fundo a Ilha Verde e o isto que foi construído no início do século XX para lhe dar acesso. Em primeiro plano, ao centro, o Monumento da Vitória, sobre os holandeses, e à esquerda vista parcial do quartel da flora. 
Ao lado dois aspectos de Macau no final década de 1930:  "estrada da colina da Penha" e "uma rua da cidade"  onde se destaca o Palácio das Repartições.
Tendo em conta o âmbito do blogue naturalmente que dei apenas destaque ao que a Macau diz respeito, mas importa referir que o livro é também assinalável pelas referências a outras latiudes e no que à Ásia diz respeito, vale a pena ler e ver a China e o Japão através do olhar de Ferreira de Castro.
"Queremos ir a Macau. Previnem-nos, porém, de que não poderemos fazer sem nos vacinarmos contra a cólera e quedarmos seis dias em Hong Kong, à espera dos resultados. O director geral da Sanidade, médico inglês, isenta-nos, amavelmente, do segundo dever. Ele próprio nos dá a injecção". Excerto.
Macau escapou praticamente incólume à guerra (em termos de destruição material), mas o mesmo não sucedeu a grande parte do mundo que Ferreira de Castro visitou em 1939.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Imagens de Macau n"A Volta ao Mundo" de Ferreira de Castro (1ª parte)

Em 1939, com o apoio do jornal A Noite e da Empresa Nacional de Publicidade, o escritor Ferreira de Castro e a mulher viajam pelo mundo. Desta viagem resulta a obra A volta ao mundo, publicada originalmente em fascículos entre 1940 e 1944, e de que já antes abordei aqui no blogue.
Em vésperas da Segunda Guerra Mundial, o escritor Ferreira de Castro e Elena Muriel, sua mulher, iniciam uma volta ao mundo (1939) e, fruto das circunstâncias, vão ver in loco o que pouco tempo depois seria bem diferente, em virtude da guerra. Viaja em vinte navios diferentes, sem guias nem hora certa de embarque, faz o relato da viagem em diários - incluindo a sua passagem por Macau no fascículo 13 - e à chegada a Portugal seriam editados em fascículos coleccionáveis. Para além da mestria do texto destaque para a abundante iconografia, das fotografias às ilustrações. Roberto Nobre assina as gravuras a duas cores, Júlio Amorim e Jorge Barradas as tricromias dos extratextos com artefactos e costumes regionais aguarelados. Roberto Nobre (1903-1969) foi crítico de cinema e um dos maiores ilustradores portugueses do seu tempo.
Excerto do livro publicado originalmente em fascículos entre 1940 e 1944 num total de 17 tomos.
"Concertaram-se, na nossa época, várias formas de se dar a volta ao Mundo. Em anos de remansosa paz, um navio americano abala de Nova York e, de casco branco, mastros festonados de gaivotas, ladeia Américas e Áfricas, detém-se, aqui, ali, em três ou quatro cidades, e corta, depois, o Índico. Mas da grande Índia mostra somente Bombaim e Ceilão; da longa península de Malaca não se verá mais do que Singapura e da China imensa apenas a minúscula ilha de Hong-Kong. Outrora, ainda ele se aventurava até outras plagas. De ano para ano foi minguando, porém, as milhas da sua rota, que assim, passagens mais baratas, ajuntaria maior número de clientes. Não se cura de revelar ao Mundo os passageiros e sim de lhes permitir dizer aos amigos que eles deram a volta ao Mundo. Viagem de bom conforto, nas cidades visitadas esperam guias e automóveis, que levam os curiosos aos monumentos principais e, depois, os reconduzem a bordo, para que se lavem da poeira do Oriente, jantem bem e bailem até de madrugada, enquanto o talhamar vai singrando em direitura a outro porto. De Hong-Kong, o navio, que, até ali, só fundeou nas extremidades dos continentes, despede, a toda a brida, para algumas ilhas do Pacífico, ansioso de transpor o Panamá e em Nova York lançar a âncora, férreo ponto final em superficial capítulo. 
Assim e «A volta ao Mundo colectiva», cruzeiro de luxo por mares distantes. Há, também, «A volta individual ao Mundo». Companhias de navegação, para o efeito ajustadas, acordaram vender trânsito marítimo, com diminuídos preços, aos que pretendem rodear a esfera terrestre e volver ao ponto de partida. Viagem menos cómoda do que a outra, quem a realiza torna-se servo não do muito ou pouco interesse do sítio visitado, mas da entrada e saída dos navios em que o seu bilhete lhe permite embarcar. Sujeito está a quedar-se dois dias onde desejaria demorar-se duas semanas e duas semanas onde lhe bastaria ficar dois dias apenas. E a menos que possa seu tempo perder, este viajante solitário verá, enervado, partir o único navio de sua conveniência, que não é, geralmente, o navio que ele tem direito a tomar."

 No próximo post darei conta das fotografias e ilustrações de Macau

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Almeida Santos: 1926-2016

O presidente honorário do Partido Socialista, António Almeida Santos, falecido esta segunda-feira aos 89 anos, foi uma figura destacada da política portuguesa, tendo desempenhado cargos que o levaram a ter um contributo importante para a história recente de Macau.
A ligação de Almeida Santos ao território começa logo a seguir ao 25 de Abril de 1974. Regressado de Moçambique a Portugal após a Revolução dos Cravos, Almeida Santos iniciava no I Governo Provisório uma longa e destacada carreira política, onde pontifica a presidência da Assembleia da República, a segunda figura do Estado português.
Mas muito antes, a 16 de Maio de 1974, menos de um mês depois do 25 de Abril, Almeida Santos tomava posse como Ministro da Coordenação Interterritorial, cargo que ocuparia ainda nos II, III e IV Governos Provisórios, até 1975. É nessa qualidade que faz a primeira visita oficial a Macau, um dossier que estava na “gaveta dos assuntos pendentes da revolução”, como escreve João Guedes na obra “Laboratório Constitucional”.
Almeida Santos 10.6.1999 em Macau. Lusa
O jornalista e investigador recorda que tardou a vinda ao território “de representantes oficiais do governo de Lisboa que trouxessem indicações claras sobre o que ia acontecer” depois do 25 de Abril. “É neste contexto de receio” que o ministro da Coordenação Interterritorial faz a sua primeira deslocação ao Oriente”, recorda Guedes.
Depois de ter estado em Timor, Almeida Santos decide passar por Macau, uma visita que o investigador Moisés Silva Fernandes nota ter sido “a primeira de um ministro do governo central português desde 1969”.
Acompanhado por Garcia Leandro, que viria a ser governador de Macau, Almeida Santos adiantava que Lisboa esperava estabelecer relações com Pequim antes de encetar conversações sobre o futuro do território.
Num discurso, no auditório diocesano, a 10 de Outubro de 1974, Almeida Santos tentou atenuar a “perturbação nos espíritos” relativamente a “uma certa indefinição sobre o futuro político de Macau”, argumentando que “Macau era e será sempre um caso especial”, lembra Silva Fernandes no artigo “A Normalização das relações Luso-Chinesas e a Questão da Retrocessão de Macau à China, 1974-1979”. Para Almeida Santos, o território não era uma colónia, já que “nunca Portugal esteve em Macau pela força”, nem isso se poderia admitir no futuro. Na mesma ocasião, Almeida Santos prometeu que seria concedida maior autonomia político-administrativa a Macau, nomeadamente através do novo Estatuto Orgânico do território que viria a ser publicado em Fevereiro de 1976, diploma no qual Almeida Santos teve uma grande influência.
Começava assim uma nova era para Macau que tinha agora a autonomia que há muito era desejada no território, observou João Guedes. Mas também para Almeida Santos se abria um novo capítulo na relação com a “jóia rara” que dizia ser Macau, desta feita já nos bastidores, da política e dos negócios.
Em resposta a Marinho e Pinto, que o acusara de ser “um dos advogados que mais negócios fizeram à custa do que é público”, Almeida Santos escreveu no jornal Público de 3 de Junho de 2015 que o “enche de orgulho” o facto de “ter estado na origem da constituição da sociedade Geocapital”, algo que o próprio dizia ter proposto a Stanley Ho e Ferro Ribeiro, que, juntamente com Ambrose So, são os accionistas de referência da empresa sediada em Macau. O nome de Almeida Santos aparece ainda como presidente da mesa da assembleia geral da Geocapital, uma empresa onde dizia ter “uma modesta participação”.
Artigo da TDM - Rádio Macau de 19.1.2016

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

O "Orient Express" da Northwest Orient Airlines

Legenda da fotografia utilizada na imprensa estrangeira em 1957 a propósito das ligações da Northwest Airlines ao Oriente (Hong Kong).
Housewives in Macao, a picturesque Portuguese colony near Hong Kong, do much of their marketing right on the sidewalk. Vendors set up attractive displays of homegrown fruits and vegetables or breads and pastries. macao is recommended by Northwest Orient Airlines to travelers taking its Airventures tot he Orient. It's only a three-hour boat ride from teeming Hong Kong and is a mixture of Chinese, Spanish and Portuguese. It is only a few steps from Red China and one can see sentries patrolling the border, but is safe for tourists.

No artigo ao lado, publicado jum jornal dos EUA em 1957, uma referência à Northwest que nos comunicados de imprensa referia-se, por exemplo, a uma das imagens de marca de Macau na época, o fabrico de panchões, importante fonte de receita para a economia local, e que eram exportados, sobretudo para os EUA.
Na notícia sugere-se aos turistas que visitem a zona no Inverno, onde as temperaturas são mais agradáveis do que na Primavera e Verão onde a humidade também é mais intensa.
Ao lado, um anúncio de 1952 da Northwest Airlines revelando a rota "Orient Express" feita com recurso aos Boeing 377 Stratocruiser.

Na década de 1950 a Northwest não era a única companhia aérea a voar do Ocidente para Hong Kong. Havia ainda, por exemplo, a Boac.
Os primeiros aparelhos deste tipo (double-decker) entraram ao serviço da empresa em 1949. Permitiam viagens mais rápidas e mais confortáveis na travessia do Pacífico. Os Stratocruiser começaram a voar da costa oeste dos EUA para Honolulu em 1950 e para Tokio, via Alaska, em 1952. 
Tinha passagem assegurada por Hong Kong, permitindo aos turistas que pretendessem visitar Macau, sair na colónia britânica e apanhar o ferry numa viagem com a duração de cerca de três horas. Esta ligação da Northwest durou até à década de 1960 e teve outros aviões, caso do Super Constellation...


Em 1955 a rota do Orient Express era esta: Nova Iorque, Washington, Detroit, Chicago, Seattle, Anchorage, Tóquio, Manila e Hong Kong.

domingo, 17 de janeiro de 2016

Praia Grande por Eduard Hildbrandt ca. 1860

Eduard Von Hildbrandt (1817-1869) foi um pintor paisagista alemão que ganhou reputação depois de ser nomeado pintor da Corte Real Prussiana em 1848 embora já antes se tivesse evidenciado nas paisagens que pintou  nomeadamente no Brasil e nos EUA. Por volta de 1860 faz uma viagem à volta do mundo e passa por Macau. Um das suas obras mais conhecidas do território retrata a baía da Praia Grande. Mas também pintou a zona do Templo da Barra.  Em Macau encontrou semelhanças com o Rio de Janeiro e a Madeira...
"A maior parte de minhas horas livres foram dedicadas ao estudo da literatura inglesa de viagens. Também no sentido prático não poderia ser chamado de iniciante; as viagens que até agora realizei pareceram-me ser suficientes para ousar o grande empreendimento. Nos anos 1844-45 estive na América do Sul e do Norte, 1847-49 viajei pela Madeira, Ilhas Canárias, Espanha e Portugal, estive na Itália, Egito, Síria,Turquia e Grécia em 1851-52, em 1856 empreendi por fim uma viagem ao Cabo Norte."



sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Os Hawker Osprey em medalhas

Medalha Hawker Osprey III - Presença no Oriente - 1938-1942
N.M.R.P. "Afonso de Albuquerque e Bartolomeu Dias" 1935-1938

Em Julho de 2015 a INCM disponibilizou uma colecção de 10 medalhas de prata com as aeronaves mais significativas dos últimos 100 anos - Dez Décadas de Força Aérea. Dessa série - limitada a 300 exemplares - faz parte uma (imagem abaixo) com os Hawker Osprey que têm uma forte ligação a Macau.


Os hidroaviões Hawker Osprey foram adquiridos para equipar os avisos de 1.ª classe Afonso de Albuquerque e Bartolomeu Dias, constituindo-se como sistemas integrados na missão dos navios, conferindo-lhes capacidade operacional acrescida na recolha de informação e combate. A grande dificuldade na execução das manobras de arrear e içar as aeronaves para bordo, em condições adversas de mar, foram a grande limitação à sua utilização operacional a partir dos navios. Com o deflagrar da guerra sino-japonesa em 1937, estes hidroviões conjuntamente com outros do mesmo tipo, adquiridos para o efeito, foram enviados para Macau. Foi então reativado o Centro de Aviação Naval a partir do qual se efetuaram missões de soberania no espaço aéreo do território português do Oriente.
Texto da INCM

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Movimento de 'vapores' em Janeiro de 1863

O recorte acima é do Boletim Oficial publicado em Janeiro de 1863 e que dá conta das ligações marítimas entre Macau, Cantão e Hong Kong asseguradas por embarcações a vapor da empresa The Hong Kong, Canton and Macao Steamboat Company
A imagem intitulada "Central city and harbour" é já do início do séc. XX e pode-se ver uma parte dos cais do Porto Interior onde esses vapores atracavam.
The Hong Kong, Canton and Macao Steamboat Company was started, to provide steamship connection between Macao, Hong Kong and Canton. The American shallow-draft river steamers Kinshan (the first boat of this name), White Cloud and Fire Dart were the company's earliest acquisitions. 
O vapor Kinshan numa fotografia ca. 1865 da autoria de Sylvester Dutton
O cais da "Canton and Macao Steamers" em Cantão

domingo, 10 de janeiro de 2016

Relatorio da missão extraordinaria de Portugal a Siam

"Relatorio da missão extraordinaria de Portugal a Siam de que foi encarregado Como Ministro Plenipotenciario de S.M.F. o Conselheiro Isidoro Francisco Guimaraes, Governador Geral de Macao, etc, etc, etc." é o titulo do documento da autoria de Isidoro Francisco Guimarães impresso em Macau pela Typographia de J. da Silva (localizada no nº 7 da rua Central em 1859.
Isidoro Francisco de Guimarães foi Governador de Macau entre 1851 e 1863, reportando-se este relatório à visita efectuada a Banguecoque entre 20 de Janeiro e 17 de Fevereiro de 1859. 
A viagem começou em Macau a 8 de Janeiro e ao fim de seis dias, "como monção favorável", estavam na capital do reino do Sião (actual Tailândia)
O livro como cerca de 40 páginas descreve o encontro com o Praklang (Ministro dos Negócios Estrangeiros; a audiência concedida por Rama IV; descrição pormenorizada do cerimonial da corte siamesa na recepção de embaixadores e emissários estrangeiros; descrição do palácio e do gabinete do monarca siamês; discurso do embaixador de Portugal, proferido na audiência de 27 de Janeiro de 1859 com o rei do Sião; discurso de Rama IV na mesma cerimónia; texto integral do tratado de Amizade, Comércio e Navegação entre os Reino de Portugal e Sião; Regulamento para os navios portugueses que vierem a Siam.
O regresso a Macau aconteceu a 17 de Fevereiro de 1859 a bordo do brigue Mondego. Passou por Singapura a 8 de Março, "sahindo dalli para hongkong no dia 18 a bordo do vapor inglez Carthage que chegou a Hongkong no dia 28".
Dali o governador seguiu no vapor "portuguez Fernandes que partia para Macao, e pelas 4 horas da tarde chegou à cidade do seu governo, onde foi recebido com as honras devidas à sua cathegoria".
O percurso da viagem está assinalado no mapa abaixo.
O brigue Mondego, de 20 peças, foi construído no Arsenal da Marinha pelo construtor Joaquim Jesuíno da Costa e lançado à água em 28 de Outubro de 1844. Em 1845, largou para Angola a fim de servir na Estação Naval da Costa Ocidental d'África para repressão do tráfico de escravos. Em 1849, partiu de Luanda para Lisboa. No ano seguinte, largou para Timor e conduziu Lopes de Lima o Presidente da Comissão encarregada de negociar os limites de Timor. Em 1851, parte da guarnição do brigue desembarcou (35 praças) por ordem de Lopes Lima, destacou, em serviço da Armada, a fim de animar a colonização portuguesa nestas ilhas; largou para Laga; deu fundo em Dalbutidana onde venceu numa luta renhida com piratas macassares. Mais tarde, o navio voltou a Dalbutiana incendiado a povoação. Em Maio de 1852, saíu a cruzar e deu fundo na Taipa. Em Julho de 1852 largou para Timor, conduziu o novo Governador Capitão D. Manuel de Saldanha da Gama. Em Setembro do mesmo ano, embarcou sob prisão, Lopes de Lima, devido as negociações com os holandeses terem sido conduzidas de modo que Portugal perdeu todas as ilhas situadas ao norte de Timor. 
Desde 1855, passou a servir na Estação Naval de Macau. Em Outubro de 1856, largou para Hong-Kong com o Governador de Macau. Em Julho do ano seguinte, saiu em cruzeiro para a costa da China e, em Maio, visitou vários portos da China. Em Janeiro de 1859, largou para Sião e conduziu o Governador de Macau. Em Dezembro do mesmo ano, partiu de Macau com destino a Lisboa. Reparou em Singapura, tendo o construtor naval assegurado que o navio podia empreender sem receio a sua viagem para a Europa. Partiu em 20 de Dezembro desse ano. Durante a travessia o navio sofreu graves avarias conservando-se à tona com grandes dificuldades. Tendo avistado a galera americana "Uriel", de Boston, pediu socorro. Da galera prontificaram-se a recolher o pessoal, com extrema dificuldade, em consequência do grande mar. Durante a faina de salvamento, o Mondego afundou-se com os seus 40 tripulantes. O total de sobreviventes foi de 66 e o de falecidos 44. Os náufragos do Mondego chegaram a Lisboa em 26 de Abril de 1860.

sábado, 9 de janeiro de 2016

Biografia do padre Áureo e Castro: 2ª parte

Excerto do primeiro capítulo do volume VIII da colecção “Missionários para o Século XXI”, edição do Instituto Internacional de Macau (IIM). Livro da autoria de João Guedes, este volume é dedicado ao Pe. Áureo Nunes e Castro, missionário, músico e pedagogo, que nasceu na Candelária do Pico (Açores) em Janeiro de 1917 e faleceu em Macau em Janeiro de 1993.
“Fazer a história da vida do padre Áureo da Costa Nunes e Castro é contribuir para trazer à luz uma área da cultura de Macau ainda bem mal iluminada. Trata-se da memória da música, na sua área vulgarmente chamada clássica, ou erudita. Buscando na história, desde que a documentação existe preservada, o que corresponde essencialmente aos séculos XIX e XX as referências à música são muitas e variadas. A passagem por Macau dos seus intérpretes é conhecida e ficou assinalada, mas isto apenas quanto aos intérpretes, já que quanto aos compositores as referências são poucas e mais raras ainda as que dizem respeito a compositores clássicos que, pode dizer-se, quase não existem de todo. 
É pois neste contexto de raridade que avulta a biografia de Áureo Castro, autor que ‘só não foi uma figura que enfileirou com os grandes compositores apenas porque escreveu pouco’. Áureo Castro nasceu na ilha do Pico, nos Açores, um arquipélago que sempre contribuiu significativamente para engrossar as fileiras dos missionários católicos que partiam para o mundo. Note-se porém que de entre as ilhas do arquipélago é, em termos comparativos demográficos, o Pico que mais missionários entregou à igreja católica romana (12,3%) relativamente às restantes ilhas açorianas. Por outro lado Áureo Castro é originário de um arquipélago onde a generalidade da população possui propensão intrínseca para a música que se reflecte não só no seu característico folclore inspirador de vários géneros musicais em Portugal e não só, mas também na forma como o culto da música é acarinhado tanto institucionalmente quanto a nível privado pelas famílias. Por outro lado, ainda, Áureo Castro pertencia a um clan que produziu figuras eminentes da Igreja com destaque para seu tio, o cardeal D. José da Costa Nunes, bispo de Macau e de Goa que atingiria a dignidade de Camerlengo da Santa Sé, tendo sido um dos primeiros prelados a integrar o Concílio ‘Vaticano II’ por indicação expressa do Papa João XXIII. Apesar da conjuntura familiar e das origens, porém, Áureo Castro não estaria predestinado a atingir qualquer notoriedade não fora a sua formação ter sido ministrada no Seminário de S. José de Macau, colónia onde chegou a 15 de Setembro de 1931. Nessa data o seminário, pode dizer-se, que congregava em si o que de melhor se praticava em termos pedagógicos em Macau, desde o desporto à música, passando pelas ciências e pela educação física. (…) 
Áureo Castro revelou durante os seus anos de estudo boa aptidão escolar, mas também particular inclinação para a música que não deixaria de ser notada pelos seus professores e que viria a determinar o seu futuro como missionário. Concluído o curso seria ordenado em plena ‘Guerra do Pacífico’ (1943), ocupando as funções de pároco na Sé e em S. Lourenço. Simultaneamente leccionaria canto coral e religião e moral em várias escolas. A par de tudo isso encetou também carreira breve como jornalista no jornal católico ‘O Clarim’. Para além do jornalismo e da sua intervenção apostólica, Áureo Castro era um produto do seu tempo, dominado pelos nacionalismos crescentes e pela omnipresença do ‘Estado Novo’ de Salazar. Não admira por isso que tenha aderido à ‘União Nacional’, o partido único do regime. Esta adesão, porém, deve-se sem dúvida em grande parte senão inteiramente à influência tutelar de seu tio, o cardeal D. José da Costa Nunes, que em conferências, nos jornais e em livros proclamava a missão redentora de Salazar de reunir o estado e a igreja desavindos em Portugal para ressuscitar o nome de Portugal pelos quatro cantos do universo terrestre. (…) 
Todavia, era muito mais a música do que as ideologias políticas, ou filosóficas, que verdadeiramente o cativava, ingressando por isso com grande entusiasmo, ainda que com a apreensão de não conseguir fazer o melhor, que decorria da sua tendência para o perfeccionismo, que o fazia escrever e reescrever os seus trabalhos inúmeras vezes que em 1951 ingressa no Conservatório Nacional de Lisboa onde se formaria com distinção. O regresso a Macau em 1956 marca uma viragem profunda na sua vida quando a música passa verdadeiramente a constituir o centro das suas preocupações, primeiro com a fundação do Grupo Coral Polifónico, mas principalmente com a criação da Academia de Música S. Pio X de que seria o principal esteio e que durante décadas seria também a única instituição de ensino que preparava músicos para o ingresso no ensino superior não só em Portugal, mas também em vários outros países do mundo, com destaque para o mundo anglo-saxónico. No âmbito da Academia de Música S. Pio X organizou inúmeros concertos para os quais convidou músicos com carreira internacional. Em 1983, em colaboração com o compositor inglês Stuart Bonner, fundaria a Orquestra de Câmara de Macau com músicos amadores e professores da Academia que mais tarde seria incorporada no Instituto Cultural de Macau. Áureo Castro entregou a sua vida inteiramente à música. No entanto todos os que com ele privaram são unânimes hoje em afirmar que, apesar da sua paixão pela arte, o que o impelia verdadeiramente era a missão. A música era o seu instrumento de apostolado. 
(…) Neste âmbito compôs uma obra sólida mostrando-se precursor nomeadamente quando funde nalgumas composições a música ocidental e oriental. O seu espírito um tanto introvertido, que contrastava com o de outros missionários do seu tempo, fez que não conhecesse como eles tanta exposição mediática durante a vida, mas a sua obra não deixou de ser reconhecida através da condecoração que seria atribuída à sua Academia e a medalha de Mérito Cultural que pessoalmente lhe seria conferida. As condecorações valem o que valem, mas certo é que Áureo Castro, o missionário que veio da ilha do Pico nos Açores, se ergue como um dos grandes expoentes da cultura de Macau do século XX.”

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Biografia do padre Áureo e Castro: 1ª parte

Missionário, músico e pedagogo é como o padre Áureo Nunes e Castro, um açoriano do Pico, é descrito numa biografia recentemente publicada em Macau, um território onde ainda se mantém vivo o seu legado.
A obra, que constitui o volume VIII da coleção "Missionários para o Século XXI", do Instituto Internacional de Macau, foi escrita por João Guedes, jornalista e investigador da história de Macau, autor de diversos livros, que fez a sua "estreia" no género da biografia.
Nascido na Candelária do Pico (Açores) em Janeiro de 1917, o padre Áureo Nunes e Castro morreu em Janeiro de 1993 em Macau, onde passou a maior parte da sua vida dedicada à Igreja e à música, sendo a Academia S. Pio X, que fundou e dirigiu desde o início até praticamente à sua morte, uma espécie de marca viva da importância que teve na cultura em geral e na música erudita.
"Creio que esta biografia traz a público uma coisa ignorada: a própria vida dele. Em Macau várias figuras distinguiram-se em diversos campos, mas a música no âmbito cultural é uma coisa pouco falada, não aparecem na história da música vultos como aparecem na literatura ou na pintura. O padre Áureo e Castro é uma excepção importantíssima na área da música e particularmente na da música sacra", realçou João Guedes à agência Lusa.
Áureo e Castro veio para Macau aos 14 anos para integrar o Seminário de São José, numa altura em que "havia uma corrente de estudantes que eram recrutados pela Igreja Católica e que vinham de dois pontos de Portugal - Freixo de Espada à Cinta e Açores" -, numa altura em que a evangelização da China seria o destino, como contextualiza João Guedes.
Contudo, "quando o padre Áureo já está formado, a revolução já tinha acontecido e surge a República Popular da China [1949] e, portanto, esses padres todos ficaram impedidos de seguir para a China e ficaram em Macau".
"Normalmente eram professores, mas dedicavam-se a outras coisas. Por exemplo, o padre [Manuel] Teixeira dedicava-se à História, (...) o padre Lancelote Rodrigues aos refugiados, o padre Benjamim Vieira Pires era poeta (...). Eles constituíam, na altura, a inteligência de Macau", indicou João Guedes, antes de avançar para a figura que traça ao longo de uma centena de páginas.
Em 1961
"O padre Áureo e Castro gostava de música, era um músico acima da média e acaba por ser escolhido para ir para o Conservatório de Música de Portugal para tirar o curso de maestro/compositor. Vai para lá, sai formado com altas notas e regressa a Macau para fundar uma filial do Conservatório de Música de Lisboa, o que depois não acontece por vicissitudes várias, de maneira que acaba por se fundar a Academia S. Pio X".
Como nota João Guedes, "ele não emparceirou com os grandes compositores mundiais apenas porque escreveu pouco" - esta é, aliás, a opinião, que vem citada no livro, do maestro Simão Barreto, que foi aluno do padre Áureo e Castro.
Entrando pela musicalidade, o autor da biografia destaca um "Te Deum", composto em finais da década de 1950, "que se manteve inédito durante muitos anos depois da sua morte e que foi tocado há poucos anos", e peças soltas, definindo-o com um "precursor", dado que tem uma série de trechos em que "foi capaz de introduzir um elemento novo de fusão entre o Ocidente e o Oriente na música clássica".
Esses trechos "são tocados por vários pianistas de renome internacional", segundo João Guedes.
"A cultura em geral e a música erudita em particular muito lhe devem e o estado reconheceu o seu papel atribuindo-lhe a Medalha de Mérito Cultural, condecoração que imporia também à sua Academia S. Pio X de que foi alma inspiradora e trave mestra", lê-se na obra, em que se salienta que Áureo e Castro "encerrou definitivamente um ciclo da cultura em que foi iniludível protagonista, marcando definitivamente uma época".
Notícia da Agência Lusa de 6.1.2016

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

"A New Voyage Round the World" de William Dampier (1691)

"A New Voyage Round the World" de William Dampier foi publicado pela primeira vez em 1691 (imagem ao lado). Em 1717 já tinha tido seis edições!
De seguida um excerto do capítulo 15 intitulado "Macao, a chinese and portuguese town near Canton in China" publicado num edição de 1927:
"(...) Our people were met by an officer at their landing; and our quartermaster, who was the chiefest man in the boat, was conducted before the governor and examined of what nation we were, and what was our business here. He answered that we were English and were bound to Amoy or Anhay, which is a city standing on a navigable river in the province of Fokien in China, and is a place of vast trade, there being a huge multitude of ships there, and in general on all these coasts, as I have heard of several that have been there. He said also that, having received some damage by a storm, we therefore put in here to refit before we could adventure to go farther; and that we did intend to lie here till after the full moon, for fear of another storm. The governor told him that we might better refit our ship at Amoy than here, and that he heard that two English vessels were arrived there already; and that he should be very ready to assist us in anything; but we must not expect to trade there but must go to the places allowed to entertain merchant-strangers, which were Amoy and Macao. 
Macao is a town of great trade also, lying in an island at the very mouth of the river of Canton. It is fortified and garrisoned by a large Portuguese colony, but yet under the Chinese government, whose people inhabit one moiety of the town and lay on the Portuguese what tax they please; for they dare not disoblige the Chinese for fear of losing their trade. However the governor very kindly told our quartermaster that whatsoever we wanted, if that place could furnish us, we should have it. Yet that we must not come ashore on that island, but he would send aboard some of his men to know what we wanted, and they should also bring it off to us. That nevertheless we might go on shore on other islands to buy refreshments of the Chinese. After the discourse was ended the governor dismissed him with a small jar of flour, and three or four large cakes of very fine bread, and about a dozen pineapples and watermelons (all very good in their kind) as a present to the captain."

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Macau nas anedotas de Bocage

É sabido que Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765-1805), simplesmente Bocage, embarcou para a Índia, com destino a Damão, em 1786 , a bordo da nau “Nossa Senhora da Vida, Santo António e Maria Madalena”, fazendo escala no Rio de Janeiro. Contra todas as expectativas, desertou e refugiou-se em Macau donde sairia para Lisboa em 1790, auxiliado por amigos, entre eles, Lázaro da Silva Ferreira, governador interino. O Padre Manuel Teixeira, emérito historiador de Macau, procurou com o seu raciocínio dedutivo registar a trajectória do poeta : “ Presumimos que Bocage estivesse em Macau desde Setembro ou Outubro de 1789 a Março de 1790, em que partiu para Lisboa. A razão é simples. Ele compôs em Cantão uma elegia à morte do príncipe D. José. Ora este faleceu a 11-9-1788, mas a notícia só chegou a Macau a 15-9-1789 e a Cantão pela mesma altura”. Terá sido provavelmente essa aventura oriental que consolidou ainda mais o pendor boémio e aventureiro da personalidade marcante deste livre-pensador amante das liberdades.
Não obstante a fugaz estadia de poucos meses, dedicou a Macau e a algumas personalidades uns quantos poemas, quase todos bem conhecidos e bastante bem contextualizados. De resto, é duvidoso associar Bocage a um infrene universo de anedotas, anedotas de todos os géneros, incluindo aquelas lendariamente eróticas e satíricas. As polémicas, sobretudo aquelas travadas com o seu inimigo roaz, o frade lagosta, José Agostinho de Macedo, a sua aventurosa errância oriental , o proselitismo generoso dos seus discípulos da Escola Elmanista ou o peso de uma tradição gulosa por situações extraordinárias e insólitas , terão contribuído para mitificar a sua personalidade, vincando a multidimensionalidade da sua vivência e exponenciando a sua genialidade, maestria poética, incluindo o improviso, terreno onde se revelou um temível contendor. Daniel Pires, na apresentação da 7ª edição das Anedotas do Bocage refere que “não é menos verdade que houve editores que, para ganharem dinheiro facilmente, instrumentalizaram o seu nome, optando pelo primarismo e pela obscenidade. Confundiram talvez conscientemente erotismo com pornografia, sensualidade com boçalidade, ironia subtil com sarcasmo”. Até ao 25 de Abril de 1974, Bocage polarizou as anedotas de cunho político porque a liberdade de expressão não existia, mutilando-se assim a sua vera dimensão poética.
Do manancial de anedotas cuja autoria lhe é dada, Macau ocupa este lugar absolutamente marginal na sua criatividade :
Nicolau Tolentino e Bocage tinham os pés muito grandes e sempre que se encontravam improvisavam epigramas um ao outro. Uma vez disse Tolentino a Bocage :

Eram três juntas de bois
E daqueles mais selectos
A puxar pelos teus sapatos
E os teus sapatos quietos.

Bocage respondeu :

Se o Padre Santo tivesse
Um pé dos teus, Nicolau
Podia, mesmo de Roma
Dar beija-pé em Macau.

Pouco mais do que a veia cómica e vagamente anti-clerical se pode realçar neste improviso. Daniel Pires adiciona esta preciosa informação : “em Macau, faz parte do patois local a palavra bocagem que, sintomaticamente, significa anedota”. Cândido de Figueiredo registou no seu dicionário, em 1913, a palavra “bocagem” como sendo um termo brasileiro do sul que significa “palavreado”. A mesma origem ?
Artigo da autoria de António Aresta publicado no JTM de 16.11.2015

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

As primeiras provas de Karting

O karting surgiu em Macau através da delegação local do Automóvel Clube de Portugal em 1965. Poucos anos depois a modalidade teve uma 'demonstração' - primeira e única vez - sendo integrada no programa do Grande Prémio de Fórmula 3 numa prova de cinco voltas ao circuito da Guia. 
Cartaz da 3ª edição de "Karting de Macau" em 1968. Agradecimentos a JD
Em 1968 ocorreu uma prova de âmbito internacional numa pista improvisada num troço da então denominada Av. Oliveira Salazar, entre a zona do liceu e a praça Ferreira do Amaral. (ver fotos)
Já em 1987 a modalidade seria reactivada com a realização de uma corrida de demonstração em que participaram pilotos de Macau e de Hong Kong.
A partir de 1988 o ACMC começou a organizar campeonatos e a prática da modalidade aumentou substancialmente entre os jovens.
O actual piloto profissional, André Couto, começou neste tempo. Recordo-me bem já que era meu colega no liceu. Em Outubro de 1996 foi inaugurado o kartódromo na ilha de Coloane, uma pista onde já se disputaram várias provas a contar para o mundial da modalidade.

Fotos do arquivo Fotold (excepto primeira)

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Lei Seng Chong: 1926-2015

Lei Seng Chong, fundador e presidente do jornal Ou Mun Iat Pou, o diário de maior tiragem de Macau, morreu na passada quarta-feira, com 90 anos. Além de director do jornal pró-Pequim, Lei Seng Chong foi presidente do Grupo de Média e Cultura de Macau, vice-presidente da 1.ª e 2.ª Comissão para a Lei Básica de Macau do Comité Permanente da Assembleia Popular Nacional, tendo ainda integrado a Comissão de Redaçcão da Lei Básica de Macau.
Nascido em 1926 na vizinha província continental de Cantão, o antigo director do jornal Ou Mun integrou com tenra idade as forças de resistência à ocupação japonesa, tendo integrado um dos pelotões que mais se notabilizaram no combate às tropas nipónicas, o pelotão de Dongjiang.
Depois do final da guerra, Lei Seng Chong radicou-se em Macau, onde se distinguiu na defesa dos valores defendidos pelas forças comunistas de Mao Zedong. No território, Lei abriu uma livraria, encarregando-se da venda de publicações ditas patrióticas. Em 1958, em conjunto com um grupo de amigos, fundou o jornal Ou Mun, ocupando primeiro o lugar de editor chefe e depois o estatuto de director. Ainda em 2011 morreu um outro fundador do jornal. 
Com um conhecimento profundo da literatura e da cultura chinesa, Lei foi presidente do jornal Ou Mun, liderou o Grupo de Média e Cultural de Macau e ocupou cargos de direcção em algumas das mais influentes associações do território e do Continente. Em Macau, presidiu a título honorário à Associação dos Escritores de Macau e à Associação dos Trabalhadores da Imprensa do Território. Na República Popular da China foi vogal da União dos Artistas e Literatos ocupando funções semelhantes na Associação dos Escritores da China.
O ex-director do Ou Mun foi representante da província de Cantão no 7.º Congresso Nacional Popular, tendo ainda representado a Região Administrativa Especial de Macau na 8.ª e 9.ª Conferência Consultiva Política do Povo Chinês, bem como à nona edição do Congresso Nacional Popular.Foi distinguido em 2009 com as medalhas de honra do Lótus e do Grande Lótus pelo contributo dado para o desenvolvimento de Macau ao longo de mais de meio século. 

domingo, 3 de janeiro de 2016

Um selo com uma tiragem de... 10 exemplares


Os produtos filatélicos de Macau são dos temas mais apreciados pelos leitores. Chego a essa conclusão não só pelo número de pageviews mas também por alguns e-mails que me enviam.
Desta vez resolvi falar de mais uma curiosidade... do selo com a menor tiragem de sempre... muito provavelmente em todo o território português. Trata-se do selo de 10 avos azul esverdeado, tipo D. Carlos I Mouchon com a sobrecarga “REPUBLICA” impressa a vermelho já no território onde os selos já estavam aquando da implantação da República em substituição da Monarquia. Os especialistas no assunto alegam que, em rigor, estes selos nunca deveriam ter sido "sobrecarregados" pois o Decreto de 4 de Julho não o contemplava, ao contrário do que é mencionado na Portaria nº 234 (ver imagem). 
O assunto gerou polémica - e não apenas em Macau - tendo sido elaboradas várias sindicâncias para se perceber o que realmente se tinha passado...
Veja-se então o que diz o Decreto de 4 de Julho de 1913:
- Só serão sobrecarregados os selos emitidos em 1902 (D. Luís I e D. Carlos tipo Diogo Neto com sobretaxa) além dos selos de D. Carlos I tipo Mouchon com a sobrecarga “PROVISORIO” 
(ver imagem abaixo;
- Apenas serão objecto das sobrecargas os selos que por cada uma das taxas ou tipos existissem mais de 1.000 unidades;
- Só eram passíveis de serem sobrecarregados os selos até aos valores de 400 reis;
Ou seja, os de 10 avos deveriam ter sido excluídos...
Excerto do relatório da sindicância onde se pode atestar ter sido colocada a 'sobrecarga' REPUBLICA em apenas 10 selos.

Os selos D. Carlos I tipo mouchon que existiam em Macau (com diferentes valores faciais)