domingo, 30 de novembro de 2014

"Mapping" em Évora até 5 de Janeiro

"Mapping" é um conjunto fotográfico transversal e ecléctico que abarca diferentes estéticas e expressões artísticas e que se apresenta como um levantamento íntimo e pessoal por parte de oito fotógrafos locais, de gerações e culturas distintas, sobre o espaço urbano e os traços arquitectónicos do passado e do presente de Macau, cidade multicultural com quase cinco séculos de história.

Nesta mostra oito fotógrafos (portugueses, macaenses e chineses) residentes em Macau - Carmo Correia, Chan Hin Io, Lam Chung Kit, Lei Ioi Fa Frank, Lúcia Lemos, João Ó, Tang Kuok Hou e Wong Chon Kit - mostram diferentes olhares sobre o território. Depois das passagens pelo Porto, Torres Vedras e Setúbal, a exposição pode ser vista de 4 de Dezembro e até 5 de Janeiro no Museu de Évora.

sábado, 29 de novembro de 2014

Figuras de Jade: os portugueses no extremo oriente

É curioso verificar que a publicação do livro Figuras de Jade – Os Portugueses no Extremo Oriente, de António Aresta, com a chancela do Instituto Internacional de Macau, acabou por acontecer no ano em que se assinala o centésimo aniversário do nascimento de Armando Martins Janeira (1914-1983), um dos diplomatas de maior prestígio do século XX português.1 E porquê essa ‘curiosidade’, perguntar-se-á. Porque é muito verosímil que António Aresta (AA), um dos investigadores que mais escreve sobre a nossa História a Oriente, escolheu Figuras de Jade para título – perfeito, pela imediata associação que fazemos entre jade e China – porventura inspirado (ele, que é um bibliófilo e conhece praticamente tudo o que se refere ao orientalismo português) no título Figuras de Silêncio, de Armando Martins Janeira. Paralelismo duplamente interessante: Martins Janeira resgata do esquecimento aqueles portugueses de outrora que deixaram inscrito no Japão o nome de Portugal, como o do escritor Wenceslau de Moraes, o senhor ‘Portugaru’ da ilha de Tokushima, que tão empenhadamente deu a conhecer o arquipélago nipónico no nosso país 2. António Aresta faz o mesmo, privilegiando as «Figuras de Jade» de Macau, mas incluindo, com toda a justeza, o nome e a obra do grande embaixador Armando Martins Janeira.
Cumprida esta ‘nota prévia’, vamos então ao conteúdo de Figuras de Jade – Os Portugueses no Extremo Oriente.
São 39 as figuras desta galeria de ilustres3, em que o autor concilia passado e contemporaneidade, cultura erudita e cultura popular, sinologia e missionação, educação e ensino, política e História, língua portuguesa e ‘crioulo maquista’, romance e poesia. Sendo injusto individualizá-las, porque todas deram precioso contributo para a afirmação da presença portuguesa, havendo mesmo algumas por quem nutro profundo respeito e admiração, porque as conheci pessoalmente (caso de, por ordem alfabética, Benjamim Videira Pires, Carlos D’Assumpção, Graciete Batalha, Henrique de Senna Fernandes, José dos Santos Ferreira, José Silveira Machado, Manuel Teixeira), uma há que gostaria de apontar, por ter sido a única que nunca chegou a pisar solo macaense: Eça de Queirós (1855-1900), o nosso romancista por excelência, que do Oriente só conheceu mesmo o Próximo, por ocasião da inauguração do Canal de Suez, no Egipto, país que percorreu (além da Palestina e parte da Síria) entre Outubro de 1869 e Janeiro de 1870.
Dele, diz-nos António Aresta:
[Eça de Queirós] «revelou-se um estudioso atento da cultura chinesa e japonesa, acompanhando as então mais recentes tendências de opinião dos intelectuais franceses, que desde Voltaire e Montesquieu mantinham acesa uma sinofilia de grande envergadura teórica e com intervenção política. Procura, dirigindo-se ao comum dos leitores, desfazer a imagem estereotipada do chinês, veiculada pelo jornalismo e pela literatura: Mas esses povos da Extrema Ásia, por ora só os conhecemos pelos lados exteriores e excessivos do seu exotismo. Com certos traços estranhos de figura e trajo, observados em gravuras, com detalhes de costumes e cerimónias, aprendidos nos jornais (artigo ‘variedades’) e sobretudo com o que vemos da sua arte, toda caricatural ou quimérica – é que nós formamos a nossa impressão concisa e definitiva da sociedade chinesa e japonesa. Para o Europeu, o Chinês é ainda um ratão amarelo, de olhos oblíquos, de comprido rabicho, com unhas de três polegadas, muito antiquado, muito pueril, cheio de manias caturras, exalando um aroma de sândalo e de ópio, que come vertiginosamente montanhas de arroz com dois pauzinhos e passa a vida por entre lanternas de papel, fazendo vénias4
O que Eça de Queirós quis dizer – a nós, ocidentais – é que é fácil resvalar para o anedótico, para o superficial, para a espuma do ser, para o que julgamos inferior civilizacionalmente. Denunciar essa apressada e preconceituosa visão do Outro, foi uma das razões que levou António Aresta a incluí-lo na sua galeria de figuras de jade, num propósito que muito tem a ver com aquilo que Guilherme Valente (GV), outro intelectual bem conhecido de Macau, tem vindo a realçar em palestras e artigos que vai escrevendo. Num desses artigos, GV citou Goethe – que afirmava não se deslocar a lugar nenhum fora do seu país que não fosse para descobrir as particularidades de cada cultura e chegar através delas ao universal humano que existe espalhado pela Terra inteira – e Confúcio: «A natureza dos homens é a mesma. São os seus hábitos que os separam». Eça e Aresta comungam desta mesma visão.
O autor escolheu figuras que pertencem já ao domínio da história, com excepção de Agustina Bessa-Luís. O peso intelectual, o lugar que ocupa na literatura portuguesa e o facto de ser natural do Norte (nasceu em Vila Meã e vive no Porto), como o autor (natural de Marco de Canavezes, reside com a família em Penafiel), justificam a quebra da regra. Por feliz coincidência, a editora Guimarães prepara-se para assinalar com um conjunto de iniciativas os 60 anos da publicação de Sibila, a saga que a colocou no justo patamar que tem no panorama literário português. A Quinta Essência, o romance que Agustina escreveu sobre o triângulo Portugal, Macau e China, depois de uma visita que fez ao Território em 1999, devia ser, nas palavras do autor, “de leitura recomendada para todos quantos se interessam pela dimensão histórico-cultural e social de Macau. Os grandes romances têm essa força sublime de ensinar a cogitar e a conjugar as paixões da alma”.
Um aspecto que ressalta deste livro é o seu oportuno didactismo, que resulta do facto de o seu autor ser também Professor e de haver nos seus escritos uma fortíssima componente pedagógica. António Aresta, que viveu os últimos anos de administração portuguesa em Macau, é licenciado em Filosofia, mestre em Filosofia e doutorando em Filosofia, com uma extensa obra publicada sobre História de Macau, História das Ideias, História da Educação, sinologia e cultura em sentido geral. Macau (e o Oriente) está sempre presente nos seus estudos de cariz mais intelectual, em artigos publicados em revista de especialidade ou em jornais, em conferências e palestras, ou quando nos revela personalidades ou aspectos do passado de Macau que vai descobrindo nas suas pesquisas. E assim contribui de forma sistemática e generosa para a preservação dessa ‘memória comum’ de Macau. Nos dias de hoje, em que, com a força avassaladora de casinos e de migrações, se corre o risco de apagamento dos sinais de uma História multissecular, a preservação dessa ‘memória comum’ a todos responsabiliza: ao Governo da RAEM, ao Governo Central da RPC, ao Governo da República Portuguesa, à Universidade de Macau, ao Instituto Politécnico de Macau, às Universidades Portuguesas, às instituições culturais de Macau e suas congéneres portuguesas, à Escola Portuguesa Macau (esta última, que tem feito um grande esforço para situar os alunos no correcto lugar histórico do chão que pisam, deveria fazer da leitura do livro uma proposta para trabalhos escolares. Fica a sugestão). E, claro, a todos os investigadores, de cá e de lá, que amam Macau e a particularidade da sua existência e admiram quem, como estas ‘figuras’, tornou maior o exíguo território.
Obra informativa, sistematizada, bem escrita e, por tudo isto, de agradável leitura, com um inegável valor pedagógico, muito gostaria que Figuras de Jade fosse o primeiro tomo de um conjunto mais vasto de personalidades a destacar. Porque não há presente com sentido sem o apoio da memória. Ora, como investigador compulsivo que é, sempre actualizado em matérias bibliográficas, será de esperar que António Aresta nos venha a surpreender com mais Figuras de Jade. E de novo com o apoio do Instituto Internacional de Macau, instituição que, como o nome sugere, pretende continuar a fazer de Macau aquilo que constitui verdadeiramente o seu ADN natural: uma antecâmara onde materializações de pólos civilizacionais diferentes sempre se encontra(ra)m e enriquece(ra)m mutuamente.
Notas:
1-Armando Martins Janeira, homenageado a 27 de Setembro no Centro Cultural de Cascais, deixou-nos um extenso legado bibliográfico. Figuras de Silêncio é um livro que resgata do esquecimento os portugueses que, pela sua inteligência, cultura, capacidade diplomática, domínio da língua japonesa e dedicação ao arquipélago, se tornaram personalidades preponderantes da nossa história no Extremo Oriente.
2-Assinala-se este ano o 160º aniversário do nascimento de Wenceslau de Moraes (1854-2014).
3- Agustina Bessa-Luís, Almerindo Lessa. Álvaro Semedo, Armando Martins Janeira, Benjamim Videira Pires, Camilo Pessanha, Carlos Assumpção, Charles Boxer, Eça de Queirós, Eugénio de Andrade, Fernando Lara Reis, Francisco Rondina, Gabriel de Magalhães, Graciete Batalha, Henrique de Senna Fernandes, João Gomes Ferreira, João Rodrigues, Joaquim Guerra, Joaquim Afonso Gonçalves, José dos Santos Ferreira, José Gomes da Silva, José Horta e Costa, José Joaquim Monteiro, José (Jack) Maria Braga, José Miranda e Lima, José Silveira Machado, Leôncio Alfredo Ferreira, Luís de Almeida, Luís Fróis, Luís Gonzaga Gomes, Manuel da Silva Mendes, Manuel Teixeira, Maria Anna Acciaioli Tamagnini, Maria Ondina Braga, Martinho Montenegro, Pedro Nolasco da Silva, Vicente Nicolau de Mesquita, Wenceslau de Moraes.
4-Figuras de Jade, p.39.
Artigo da autoria de Celina Veiga de Oliveira publicado no JTM de 26.11.2014

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Caça em "território chinez": 1911

Em Fevereiro de 1911 a Secretaria Geral do Governo da Província de Macau publica no Boletim Oficial um aviso dirigido especialmente à "attenção de todos os o indivíduos que costumas ir caçar para fora dos territórios da colónia, para a conveniencia de o não fazerem, quando tencionem caçar em territorio chinez, sem irem munidos do passaporte respectivo." Refira-se que nesta época a caça (bem como a pesca) eram actividade lúdicas que se efectuavam também em Macau e nas ilhas da Taipa e Coloane.
Na obra "Os Dores", da autoria de Henrique de Senna Fernandes e publicada após a sua morte, aborda-se o tema. O livro começa assim... "Era uma tarde triunfal de sol, naquele dia de Outono de 1908. O Verão de S. Martinho continuava luminoso, o céu sempre límpido, sem um cisco de nuvem. O canal, entre as ilhas da Taipa e Coloane, fulgia de miríades de cintilações, a paisagem circundante muito nítida, como se desenhada a lápis. Soprava uma viração seca, de temperatura vivificante, tão longe das agruras da canícula. Recolhida a vela, a embarcação deslizou na enseada de Seak Pai Ván, para fundear na linha da praia, onde as águas subiam e desciam mansamente. (...) Dos cinco passageiros que tinham alugado a embarcação de recreio para a pesca à linha ou à cana, ao largo de Macau, quatro saltaram para terra, mergulhando as pernas na onda ligeira" (...)

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Macau no Primeiro Quartel de Oitocentos

"Macau no primeiro quartel de oitocentos", de Jorge de Abreu Arrimar, é um trabalho de história que abrange as vertentes política, económica, social, e também cultural, do território de Macau no primeiro quartel do século XIX. O seu autor – historiador, escritor e antigo director da Biblioteca Nacional / Central de Macau (1986-98) – produziu uma investigação baseada em importante documentação de arquivo e enquadrada na conjuntura política internacional em que a história macaense se insere, nomeadamente no âmbito das relações entre a China e as potências coloniais europeias. Aborda, igualmente, as rivalidades inter-europeias e os conflitos regionais no sul da China. O agitado meio mercantil de Macau, com o negócio do ópio cru (anfião) em crescente protagonismo, os grupos sociais do território macaense e as suas interacções, o poder político e a controversa questão da soberania, são, igualmente, temas tratados neste livro, edição deste ano do ICM.
A obra é constituído por dois volumes: vol. 1 - Influência e poder do ouvidor Arriaga; vol. 2 - António José da Costa uma voz dissonante. O primeiro volume tem por base a tese doutoramento em História Moderna, e o segundo volume a prova complementar desta mesma tese, apresentadas em 2007 na Universidade do Açores.
O primeiro volume é o resultado da pesquisa iniciada há já alguns anos, quando o autor ainda residia em Macau, tendo por objetivo principal o estudo de uma época profundamente marcada pela figura polémica e intrigante do ouvidor Miguel de Arriaga Brum da Silveira. O facto de Jorge Arrimar ter vivido nos Açores e em Macau, e Arriaga ser natural daquele arquipélago atlântico, motivou-o a estudar a vida e a obra desta relevante personagem de Macau oitocentista. Para além disso, esta era uma época menos estudada pelos historiadores da presença portuguesa no Extremo Oriente, mais interessados em épocas anteriores (séc. XVI-XVIII) e imediatamente posteriores, sobretudo a partir de meados do séc. XIX, quando a Guerra do Ópio dá origem ao nascimento da colónia inglesa de Hong Kong
O segundo volume é já o produto de uma fase posterior, quando, empenhado em encontrar fontes para trabalhar o tema da prova complementar, o investigador foi atraído por um conjunto de documentos, depositado no fundo Macau do Arquivo Histórico Ultramarino, que constituía o processo judicial que envolvera o ouvidor Arriaga e António José da Costa, macaense e figura da elite local. O recurso de António José da Costa, enviado a D. João, príncipe regente de Portugal, a pedir justiça contra os “veixames contra elle praticados” pelo ouvidor Arriaga, é uma importante peça da coleção de documentos estudados por este autor, especialmente porque denuncia aspetos sociais e económicos mais subterrâneos e que, geralmente, escapam a outros documentos, mais formais e menos transparentes. A análise feita permitiu clarificar aspectos mais obscuros relacionados com o comércio do ópio, as suas ligações e interdependências, o clientelismo e a corrupção, o grau de instrução dos moradores e as manipulações a que estavam sujeitos e os motivos mais de pendor pessoal que os terão levado a intervir na guerra contra os piratas. Neste volume, o autor apresenta a transcrição dos documentos do processo referido, mostrando como era tentacular o poder do ouvidor de Macau e como foi singular e dissonante a forte resistência que lhe opôs António José da Costa.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Telemóveis no início da década de 1990

Troço final da Avenida da Amizade: hotel Presidente, hotel Lisboa e edifício da Polícia...

1991: o serviço telefónico móvel (Telemóvel) lançado em Macau em Novembro de 1988, atingiu no final do mês de Dezembro do ano passado os 2.226 assinantes, disse à Lusa fonte da CTM. A rede Telemóvel da Companhia de Telecomunicações de Macau (CTM) cobre a região de Macau, a colónia britânica de Hong Kong, a província de Guangdong e a cidade de Xangai na República Popular da China. As licenças, que em Novembro de 1990 correspondiam a dois mil assinantes, são válidas por um ano e emitidas pelos Correios e Telecomunicações de Portugal (CTT). A taxa de assinatura anual para o Telemóvel oscila entre 2.600 patacas em Macau, e 3.500 Patacas na província de Guangdong para três áreas itinerantes. Além da taxa de assinatura, os utentes têm que pagar uma taxa de utilização por minuto para chamadas recebidas e/ou originadas, que oscila entre 1,10 patacas, em Macau, e 3,50 patacas em Xangai.
Nesta vista parcial da baía da Praia Grande no início da década de 1990 (com a Penha ao fundo), destaque para o Campo dos Operários ao lado da Escola Comercial; o edifício do Liceu já demolido; o hotel Sintra e os edifícios D. Leonor e Luso-Internacional.
Ponte Nobre de Carvalho e Porto Interior
Fotos publicadas no jornal Macao Daily News

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Alguns aspectos do artesanato (1967)

Pequeno (47 páginas) mas importante de livro de Ana Maria Amaro que fez uma recolha do artesanato (dos panchões às cordas) que se fazia em Macau até à década de 1960. O livro foi publicado em 1967 pelo Centro de Informação e Turismo e teve uma tiragem de 500 exemplares.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Lapsos e erros - III

Esta placa chegou a existir em tempos mas na verdade deve ler-se "Travessa do  Paiva" (e não "da"). Nesta travessa (cuja placa actual já está corrigida) morou, por exemplo, o Ouvidor Arriaga no século XIX e a casa pode ser vista aqui.
 A Travessa do Paiva começa entre a Rua Central e a Rua de S. Lourenço e termina na rua da Praia Grande, ao lado do Palácio do Governo. 
A travessa num quadro de G. Smirnoff na década 1940; em baixo uma imagem do século XXI vendo-se à esquerda parte do Palácio do Governo
De acordo com Monsenhor Manuel Teixeira, a rua evoca o nome de uma família com tradições no território.Manuel Teixeira Francisco José de Paiva nasceu em Macau em 1801 e faleceu em 1822  sendo sepultado na igreja do convento de S. Francisco. O seu filho, com o mesmo nome, foi "juiz ordinário de Senado" em 1831; "Encarregado dos Negócios Sínicos" em 1836 e 10 anos depois, com o posto de major, foi 1º comandante do Batalhão Provisório organizado pelo governador Ferreira do Amaral. Foi ainda o primeiro cônsul de Portugal em Hong Kong (1846) e Comendador da Ordem de Cristo. Morreu a 13 de Dez. de 1849.
Agradecimentos: Armando Cação.

domingo, 23 de novembro de 2014

Dois "marcos" na Avenida Horta e Costa

Início da avenida junto ao Mercado Vermelho
Fim da avenida no início do séc. XXI (cima) e meados do séc. XX (baixo)
Cruzamento da Av. Horta e Costa com a Av. Sidónio Pais

Nos extremos da Avenida Horta e Costa estão dois marcos: um fica junto ao Mercado Vermelho e outro por baixo do viaduto que dá acesso ao túnel da Guia. Têm a particularidade de serem uma raridade, únicos até, em termos de marcos toponímicos em Macau. Numa das faces a pedra tem a inscrição “Avenida Conselheiro Horta e Costa”.
Conhecido por ter sido governador, a ligação de Horta e Costa a Macau é anterior a essa nomeação. Capitão de engenharia, José Maria de Sousa Horta e Costa (1858-1927) tomou posse como director das Obras Públicas de Macau a 2 de Novembro de 1885 prestando  “o juramento aos Santos Evangelhos de bem e verdadeiramente servir o referido lugar, debaixo do qual prometeu cumprir as suas obrigações”. Estava longe de saber que a experiência no cargo lhe seria muito útil anos mais tarde quando é nomeado governador de Macau por duas vezes. Primeiro de 1894 a 1897, e depois, de 1900 a 1902.
Enquanto responsável máximo pelo serviço de Obras Públicas, Horta e Costa fez publicar a 1 de Julho de 1886 um relatório onde faz o diagnóstico do território aos mais diversos níveis e de forma minuciosa: urbanismo, vias públicas, construção, conservação dos edifícios, arborização, saneamento, higiene e salubridade, etc. E também revela “dotes” de governante… Para ele era “importantíssimo que os orçamentos sejam feitos com todo o rigor. Pede-o o interesse da Colónia, que muitas vezes, julgando fazer uma obra por uma determinada quantia, se vê forçada a despender outra maior, distraindo-a para isso de verbas destinadas a um fim diverso; exige-o a dignidade do engenheiro, que nunca fica em muito boa posição, quando é forçado a fazer um orçamento suplementar, a não ser que se dêem causas verdadeiramente fortuitas e imprevistas”.
Desta forma, quando assume o cargo de governador pela primeira vez, Horta e Costa conhecia muito bem Macau. É, simultaneamente, Enviado Extraordinário e Ministro Plenipotenciário junto de Sua Majestade o Imperador da China e Rei de Sião. Um cargo importante no contexto do problema dos limites de Macau e a consequente definição de fronteiras e a jurisdição sobre as ilhas da Lapa, D. João e Montanha. O assunto era melindroso, prolongou-se durante séculos e, em bom rigor, “só terminou com o fim da administração portuguesa”, segundo o professor António Aresta.
A Macau de Horta e Costa tem, segundo o censo de 1896 um total de 78.627 habitantes, dos quais 74.568 são chineses. Os portugueses eram 3.898. Os estrangeiros são em número reduzido e dividem-se entre dinamarqueses (4), suecos (1), siameses (1), americanos (7), japoneses (14), italianos (7), franceses (2), holandeses (1), espanhóis (14), mouros (26), alemães (5) e ingleses (79). A esmagadora maioria (70%) não sabe ler 70,4%. Existem apenas 1.523 estudantes e 55 professores. As profissões mais representativas são os marítimos (21.724), os criados (8.082) e as costureiras (4.662). É do seu tempo a inauguração do Liceu (1894) e enormes progressos na área da saúde. Em 1895 começa a funcionar no Leal Senado um Posto Médico permanente. O primeiro! Mas também vai viver o tufão de 29 de Julho de 1896 que deixou um enorme rasto de destruição e um número assinalável de mortos. Parte da cidade será reconstruída. O urbanismo é outra das marcas do governo de Horta e Costa. No artigo nº 26 do Código de Posturas Municipais do Concelho de Macau, de 19 de Dezembro de 1896, pode ler-se: “o Leal Senado não consentirá que as faces exteriores dos prédios construídos no estilo ou gosto europeu sofram qualquer modificação adequada ao gosto chinês, nem também que o aformoseamento de qualquer bairro, largo ou rua, seja prejudicado por novas construções à chinesa, a destoarem das existentes, ou do projecto de melhoramentos futuros”. Na realidade isso nem sempre veio a acontecer. A 8 de Junho de 1896 o Leal Senado decidiu atribuir a Horta e Costa o título de Cidadão Benemérito. Justificam tal distinção porque a ele “se deve o grande impulso havido para o saneamento da cidade, tendo sido para este fim expropriados dois bairros inteiros, como o de Volong e o de Tap-seac, que eram antes verdadeiros focos de infecção, e em breve serão os lugares mais saudáveis de Macau” e porque a “este ilustre governador se deve a remoção de um extenso cemitério china em Sakong, onde havia alguns milhares de cadáveres sepultados; por seu tino administrativo soube conseguir esta remoção, que sempre trazia desgostos e atritos, sem provocar a mínima queixa; este cemitério de Sakong está hoje convertido em um bairro de operários bem arruado e bonito com casas relativamente cómodas e elegantes”.
Horta e Costa seria governador de Macau uma segunda vez, de 1900 a 1902. Seguiu depois para a Índia onde foi governador geral do Estado da Índia até à República de 1910 altura em que pediu a demissão. Morreu em 1927 com a patente de coronel. Em Macau o seu nome está numa avenida e… numa rua. A razão da existência destes marcos (quando terão sido ali colocados?) pode estar no facto de, de alguma forma, delimitarem o que era o limite urbano da cidade no final do século XIX. Dali, até ao mar ou Porta do Cerco, só se avistavam algumas casas de fim-de-semana, as vilas, o Hipódromo e pequenas aldeias habitadas por chineses. Tudo o resto eram baldios, muito deles pantanosos.
Artigo da autoria de João Botas publicado no JTM de 23.10.2014

 Na placa toponímica acima pode ler-se Avenida Conselheiro Horta e Costa

sábado, 22 de novembro de 2014

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Emissão "Luís de Camões": Novembro 1958

Faz-se público que, por despacho de S. Ex.ª o Ministro do Ultramar de 15 do corrente, foi aprovada a emissão de notas de novo modelo, dos valores de 10, 25, 50 e 500 patacas, a lançar cm circulação na província de Macau, com as seguintes características:
Dimensões e cores:
Nota de $10 (145mmx70 mm). Frente: Azul com fundo esbatido rosado e esverdeado. Verso: Azul com irisado lilás, rosa e amarelado. Nota de $25 (160mmx75mm). Frente: Castanho-vivo com fundo esbatido castanho-claro, lilás, verde e amarelado. Verso: Castanho-vivo com irisado lilás, amarelo e verde. Nota de $50 (165mmx75mm). Frente: Cinzento com fundo esbatido verde e rosa.Verso: Cinzento com irisado azul-rosa e verde. Nota de $500 (175mmx85mm). Frente: Azeitona com fundo esbatido amarelo e lilás.Verso: Azeitona com irisado castanho muito claro, lilás e verde. A composição das notas é igual em todas as denominações como segue:
Frente1.º É constituída por um emoldurado, limitado por um friso guilloché.
2.º Na parte superior o título «Banco Nacional Ultramarino» em letras brancas, assente sobre o emoldurado.
3.º Por baixo, já no corpo da nota, o mesmo título em caracteres chineses.
4.º Por baixo, em tipo de letra muito pequena, «Decreto-Lei n.º 39221».
5.º Na parte central, no alto, os dizeres «Macau» e, por baixo, o valor da nota por extenso, repetido por baixo em caracteres chineses.
6.º Por baixo, a data «Lisboa 20 de Novembro de 1958».
7.º Por baixo, à direita «O Governador» e à esquerda «O Administrador», com as assinaturas em fac-símile.
8.º Na parte inferior, a meio, o escudo nacional, com palmas e laço.
9.º Os dizeres do centro, incluindo o escudo nacional, assentam sobre uma roseta dúplex de desenhos complicados e multicores.
10.º O número da nota figura na parte superior à direita, repetido na parte inferior à esquerda.
Na nota de 25 patacas, e só nesta nota, o número é precedido da letra B (indicação de série).
11.º À direita e abaixo a efígie de «Luís de Camões» emoldurada em oval, e, à esquerda e acima, a marca de água, com a mesma efígie de perfil, dentro de um círculo:
12.º No canto superior direito e inferior esquerdo a importância da nota em algarismos e nos cantos opostos o mesmo valor em caracteres chineses.
Verso1.º No alto, em letras brancas, o título «Banco Nacional Ultramarino».
2.º Na parte central, uma alegoria, constando da figura, a meio corpo, de uma mulher, quase de costas e rosto de perfil, contemplando o mar, onde se destaca uma nau com a cruz de Cristo nas velas, uma caravela com pano aberto e mais perto uma galé.
Em segundo plano divisa-se um navio a vapor.
3.º À direita, o verso da marca de água, cercado por um friso curvilíneo e fundo claro.
4.º À esquerda, nas costas da efígie, o emblema do Banco assente sobre uma roseta com desenhos em traços finos e fundo claro.
5.º Inferiormente, a importância da nota por extenso.6.º Nos cantos superior direito e inferior esquerdo a importância em algarismos e nos cantos opostos em caracteres chineses.
Para ser publicado no «Boletim Oficial» de Macau.
Direcção-Geral de Economia, 23 de Fevereiro de 1960. O Director-Geral, interino, José F. Trindade Martinez
Algumas curiosidades sobre esta emissão: 
- Em 1948 foi feita a '1ª parte' desta emissão: nesta '2ª parte' desapareceu no verso a legenda “Pagável na Colónia de Macau” substituída por “Banco Nacional Ultramarino” e em baixo o valor da nota.
- Impressas na Bradbury Wilkinson & Co. Ltd, (New Malden, Reino Unido) com diferentes dimensões e diferentes cores.
- Foram colocadas em circulação a partir de 1960 e retiradas de circulação em 1982.
- A nota de 500 patacas teve uma emissão de apenas 4 mil exemplares e retirada de circulação em 1965.
- A nota de 50 patacas teve uma nova emissão em 1976.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

"Tiffin" Menu: New Macao Hotel em 1920


Esta ementa do "New Macao Hotel" pertence ao espólio do antigo vice-cônsul dos EUA em Hong Kong (1920-21), W. Egelbert Schenck, e é de Novembro de 1920. O hotel ficava na Praia Grande muito perto de onde hoje está o hotel Metrópole e foi um dos vários do tipo ocidental que existiam no início do século XX no território.

Entre outras curiosidades na ementa destaque para o endereço para telegramas com o nome "Phoenix"; a mensagem "No chits received from non-residents". Ou seja, os não residentes, leia-se turistas, não podiam pagar a refeição com senhas/vales.
Há ainda uma advertência. "Para que se evitem mal-entendidos" nos pedidos, os clientes são aconselhados a pedir pelo número  que surge na ementa e não pela descrição. Entre a oferta disponibilizada tinham sopa, uma prato de peixe, várias entradas incluindo omeleta de tomate, caril de vitela, salada mista, queijo, fruta da época, café ou chá.
O "Tiffin Menu" (refeição leve/almoço) foi impresso na Tipografia Mercantil N. T. Fernandes e Filhos nesse mesmo ano: 1920.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Postal: Fushimi Maru

O Fushimi Maru era um dos muitos vapores que no final de década de 1920 faziam a ligação entre o Oriente (Japão) e o Ocidente, sendo utilizado pelos que pretendiam viajar de e para Macau. As viagens duravam mais de dois meses e tinham escalas em cidades como Yokohama, Kobe, Moji, Shanghai, Hong Kong, Singapura, Malaca, Penang, Colombo, Suez, Port Said, Marselha, Londres e Antuérpia. 
Este postal foi enviado de Singapura para Macau em Outubro/Novembro de 1925 e o destinatário parece ter sido o Comandante da canhoneira Pátria.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Gazeta de Macao

A 3 de Janeiro de 1824 apareceu o semanário Gazeta de Macao, jornal que substituiu A Abelha da China, cujo último número, LXVII (67), saiu com a data de 27 de Dezembro de 1823, o dia seguinte à chegada a Macau do Conselheiro Miguel de Arriaga Brum da Silveira. Tudo tinha começado a 19 de Agosto de 1822, quando numa assembleia geral reunida no Senado se procedeu à eleição por sufrágio popular dos novos membros da Câmara e em Macau se instalou um governo constitucional, presidido pelo chefe dos liberais, o major vereador Paulino da Silva Barbosa.
As antigas autoridades de Macau revoltaram-se contra o novo governo e por duas vezes tentaram-no derrubar, mas ambas as tentativas fracassaram. Na primeira, a 13 de Setembro de 1822, após ser descoberta a conspiração contra o Governo liberal do major Barbosa e sendo o Conselheiro Arriaga acusado da sua autoria, foi este preso das 7 para as 8 horas da noite do dia 15 Setembro e encarcerado na Fortaleza do Monte. Quando após a segunda abortada tentativa, em 15 de Novembro de 1822, os revoltosos foram presos, o Conselho decidiu mandar para Goa os militares implicados e o Governador militar, José Osório de Castro Cabral e Albuquerque, considerado um dos principais conspiradores, seguir para Lisboa, conjuntamente com o Conselheiro Arriaga. Mas, quando a 25 de Março de 1823 embarcava, Arriaga conseguiu escapar do barco e seguiu numa embarcação para Whampoa (em mandarim Huangpu), porto junto a Cantão.
A 23 de Setembro de 1823, com a ajuda dos militares vindos de Goa na fragata Salamandra em Junho desse ano, os conservadores voltam ao poder e ficam os Agostinhos, em substituição dos Dominicanos, a controlar o semanário A Abelha da China. Se até então o jornal saia à quinta-feira, passou a partir dai e nas suas 14 edições seguintes a sair ao sábado e tinha como editor António José da Rocha que, apesar de viver no Convento de Sto. Agostinho, não era padre. Assim, na semana seguinte, a 27 de Setembro de 1823, A Abelha da China era já a voz do novo governo conservador e dizia que os macaenses acabavam de “renunciar para sempre aos delírios duma imaginação exaltada.”
Na Gazeta de Macao número VI, sábado, 7 de Fevereiro de 1824 pode-se ler “Macao – Artigo d’ Ofício – para o Ilustríssimo Conselheiro Miguel de Arriaga Brum da Silveira, estando ele em Cantão. IIlustríssimo Senhor Não fica ao alcance deste Governo dar a V. Senhoria provas do seu agradecimento, pela eficácia com que V. Senhoria socorreu a Fragata Salamanca, não só com dinheiros e mantimentos, mas até destruindo as intrigas, que contra ela se armavam pela parte da Nação Chinesa, a quem queriam fazer persuadir, que a dita Fragata era um Corsário inimigo, que vinha hostilizar Macau. Também não pode este Governo dar a V. Senhoria uma satisfação análoga aos atentados cometidos contra a Pessoa de V. Senhoria pelo anterior monstruoso, ilegal, e intruso Governo, cujas arbitrariedades e despotismos são bem conhecidos de V. Senhoria, e de toda esta Cidade, de que os efeitos ainda se sentem, e se sentirão por muitos anos, cujos objectos serão tratados em tempo, e lugar competente: por tanto se limita este Governo a pedir a V. Senhoria queira quanto antes restituir-se à sua Casa e Família donde poderá V, Senhoria auxiliá-lo com os seus conhecidos talentos, quando V. Senhoria julgue que a sua estada em Cantão já se não faça necessária para manejar os negócios Chineses a bem desta Cidade, como até o presente tem feito. Deos Guarde a V. Senhoria muitos anos. Macao em Sessão do Governo 13 de Outubro de 1823.” É assinada por Fr. Francisco, Bispo de Macau, João Cabral de Estifique e Ignácio Baptista Cortella.
Quatro dias depois, Arriaga envia uma resposta à carta agradecendo, mas dizendo que “hajam de permitir que ainda por mais algum tempo continue a vigorar-me dos males passados, demorando-me aqui mesmo, aonde de mais, talvez possa ser útil a essa Praça pelo Plano Comercial, que hei concebido em favor de único ramo mercantil, que ai se conhece, e eu suponho sinónimo com a existência política do Estabelecimento, como participei ao Leal Senado em data de ontem...”
O Conselheiro Miguel de Arriaga, vindo de Cantão, chegou a Macau em 26 de Dezembro de 1823 e no dia seguinte, saiu o último número do semanário A Abelha da China. Como esse jornal lhe trazia más memórias, terá feito questão em que o nome fosse mudado e assim, logo na semana seguinte, 3 de Janeiro de 1824 publicou-se o primeiro número do semanário Gazeta de Macao. O corpo redactorial era o que editou os últimos 14 números dA Abelha da China, continuando como redactor principal, António José da Rocha, apesar de o mentor ser o redactor Frei José da Conceição, prior do mosteiro dos Agostinianos, local onde se situava a redacção. Nele eram publicadas determinações oficiais e traduções da correspondência trocada com as autoridades chinesas sobre muitos assuntos, entre os quais os comerciantes estrangeiros e o comércio do ópio, que estava na ordem do dia.
(...) Seguimos agora com alguns dos números da Gazeta de Macao disponíveis no território, onde não aparece o número 1, havendo imensas falhas, sobretudo no ano de 1825.
Todos os números da Gazeta de Macao, por baixo do cabeçalho e logo a seguir à tira com o número e data do jornal, traziam dois versos retirados do Canto V dos Lusíadas de Camões: “A verdade, que eu conto nua, e pura,/vence toda a grandíloqua escriptura” e só depois vinham em duas colunas os artigos do jornal. Estes versos, que apareceram após os conservadores terem tomado conta d’ A Abelha da China desde o número LIV de 27 de Setembro de 1823, vieram substituir os versos de Terentius usados pelos liberais desde o primeiro número desse jornal: “Hoc Tempore/Obsequim Amicos, Veritas odium parit.”
A Gazeta de Macao constantemente fazia referências à História ocorrida no período da existência dA Abelha da China, como a que aconteceu a 19 de Agosto de 1823 e relatada na Gazeta de Macao n.º II de sábado, 10 de Janeiro de 1824. “Macau - Artigos Oficiais - Excelentíssimo Governo - Nós abaixo assinados, usando do direito que nos é permitido pelo Art. 14 das Bases da nossa Santa Constituição, representamos a V. Excelência, que o Ilustríssimo Conselheiro Miguel de Arriaga Brum da Silveira, Ouvidor desta Cidade tendo jurado em o dia 16 de Fevereiro de 1822 como todo o Povo Macaense em público e solene acto as Bases da nossa Santa Constituição, na conformidade do Decreto de 7 de Março, ficava pelo de 18 de Abril de 1821 sendo uma Autoridade Constituída, e por consequência legítima, que não podia ser removida no exercício do seu Ministério, se não pelo seu Supremo Poder Executivo, com todo uma facção aqui por nós bem conhecida, pisando aos pés as Leis mais sagradas, até as novamente juradas, o esbulhou com assombroso escândalo do seu lugar e exercício de Ouvidor Geral desta cidade por um Acto tumultuário e ilegal no infausto dia 19 de Agosto do ano próximo passado; corroborando este seu desacertado passo com a resolução tomada em um Conselho, denominado geral em o dia 16 de Setembro do mesmo ano, em que os assistentes não gozavam, nem podiam da sua plena liberdade, por ser em ocasião de uma nunca vista perturbação, e da geral falta de confiança, arrojando-se até ao excesso de o exterminar desta Cidade; agora porem que as prudentes e sábias providências do Ilustríssimo e Excelentíssimo Governador dos Estados da Índia, o Senhor D. Manoel da Câmara declara como revolucionário aquele escandaloso feito de 19 de Agosto e reconhece no Ofício n.º 15 o dito Conselheiro como Ouvidor Geral desta cidade e só no caso da sua falta é que aquele Excelentíssimo Governador expediu providência a fim de suprir o seu lugar; nós que reconhecemos a autoridade do mesmo Excelentíssimo Governador por legítima, cujas ordens se devem sem a menor restrição executar, requeremos a V. Excelência que, visto ter-se já executado em parte respeitável determinação emanada do Supremo Governo da Capital da Índia, haja de mandar recolher a esta Cidade, o Ilustríssimo Conselheiro Ouvidor Arriaga e restitui-lo ao emprego, em que estava provido por El-Rei Constitucional o Senhor D. João VI...”
Quanto ao material publicado na Gazeta de Macao, eis o que escreve J.M. Braga: “Este jornal servia de veículo para a publicação das ordens governamentais e notícias importantes de Portugal, e traduções portuguesas de correspondência trocada com os oficiais chineses sobre vários assuntos; tais como comerciantes estrangeiros (sobretudo ingleses) em Cantão, ancoragem de navios estrangeiros na Ilha de Lintin, o tráfico do ópio, etc. A questão do comércio em Macau foi também defendida nos primeiros tempos deste jornal. Uma das notícias importantes era a menção das chegadas e partidas de navios, com os nomes dos capitães e muitas vezes os dos passageiros e pormenores dalguns dos artigos transportados. A começar no número de 20 de Março de 1824, eram publicadas as listas dos preços das mercadorias à venda em Cantão. Também apareciam pormenores das mercadorias registadas na Alfândega de Macau. Publicava-se ainda a correspondência entre as autoridades e alguns cidadãos de Macau, entre os quais estavam o Conselheiro Miguel de Arriaga, Simão Vicente da Rosa, o Barão de S. José de Porto Alegre e João de Deus de Castro. Quando havia dificuldade em arranjar material de interesse local, as colunas da Gazeta de Macau vinham recheadas com longos extractos dos jornais da Europa, de lugares como Lisboa, Madrid, Paris, Londres, Barcelona, S.Petersburgo, Roma e até Trieste, Odessa, Cadiz, Bayona, Gibraltar e outras partes. Neste jornal de Macau publicavam-se notícias dos Estados Unidos da América e dos países da América Sul. Entre os artigos de interesse histórico houve alguns sobre os portugueses no Japão e na Birmânia, mas estes foram poucos e com grandes intervalos.”
A Gazeta de Macao n.º II de 10 de Janeiro de 1824 noticia em “Edital que o Governo de Macau faz saber que no dia 15 do corrente há-de largar deste porto, a fragata Salamandra, e é o navio de vias para a Capital de Goa.” Neste número aparece uma outra notícia que relata: “No dia 2 do corrente sentiu-se um pequeno tremor de terra aos 7 minutos do meio-dia, o qual duraria por espaço de 5 segundos e sendo bastante sensível não causou com tudo prejuízo algum nos edifícios.” 
Dois números depois, a 24 de Janeiro nas Notícias Marítimas “Saídas, a 21 do corrente a fragata Salamandra para a capital de Goa: Comandante o Ilustríssimo Capitão-de-Mar-e-Guerra, Joaquim Mourão Garcez Palha, levando a seu bordo quatro presos, o Major Paulino da Silva Barbosa, Bento Jozé Gonçalves Serva, o Padre Francisco Pinto e Maya e o Cirurgião Jozé de Almeida Carvalho e Silva.
Montalto de Jesus, em Macau Histórico, adita mais uma informação: “O padre Leite, famoso reitor do Colégio de São José, teria sido um deles (dirigentes do Partido Constitucional que foram levados presos no Salamandra para Goa) não fossem as eloquentes súplicas dos estudantes e dos seus pais a favor do venerável savant, cuja atitude contrastava com a do clero, tendo a maior parte dos prelados em Portugal sido desterrados pela sua participação no movimento anticonstitucional.”
O Comandante da fragata Salamandra Capitão-de-Mar-e-Guerra Joaquim Mourão Garcez Palha, após chegar a Goa no dia 15 de Março de 1824, foi nomeado Governador de Macau pelo Vice-Rei D. Manoel da Câmara. Assim regressou a Macau e em 28 de Julho de 1825 tomou posse como Governador de Macau, sendo o governo provisório dissolvido, os exilados liberais amnistiados, regressando a colónia à sua pacata rotina. Tinha já falecido em 13 de Dezembro de 1824, Miguel de Arriaga Brum da Silveira, “Desembargador da Casa de Suplicação do Brasil e da Relação de Goa, com exercício de Ouvidor de Macau, ao fim duma prolongada moléstia."
Segundo o que nos diz Luís Gonzaga  Gomes: “Vivia o jornal essencialmente de assinaturas, mas como estas caíram, passou por algumas crises económicas que lhe trouxeram uma vida difícil, até que “este semanário deixou de aparecer, em fins de Dezembro de 1826.” Num ofício do Leal Senado ao Comendador Francisco António Pereira da Silveira: “Havendo o Leal Senado na sessão de ontem assentado cessar as despesas da Gazeta desta cidade, se encarregará Vossa Senhoria, conjuntamente com este seu criado para proceder o Inventário das coisas pertencentes à mesma.” 30 de Dezembro de 1827 e é assinado por Miguel Pereira Simoens. O último número da Gazeta de Macau é de 16 de Dezembro de 1826 e por oito anos Macau ficou sem um jornal em língua portuguesa. 

A segunda Gazeta
Em 1820, é instituída a liberdade de imprensa em Portugal, o que fez aparecer uma enorme quantidade de jornais políticos no país e nos seus territórios ultramarinos. Quando deixou de ser publicado em 16 de Dezembro de 1826 o semanário Gazeta de Macao, que tinha vindo substituir o primeiro jornal de Macau A Abelha da China, Macau ficou durante oito anos sem um jornal em língua portuguesa. Em 22 de Julho de 1826 foi em Santarém jurada a Carta Constitucional, o que aconteceu em Macau apenas a 26 de Dezembro de 1827. Após a restauração de 1833, voltou a Portugal a liberdade de imprensa, o que de novo fez aparecer uma enorme quantidade de jornais. Tal aconteceu também em Macau. Em 12 de Outubro de 1834 apareceu a quinzenal Chronica de Macau que com 45 números existiu até 1836. E a 17 de Janeiro de 1839, tanto Luís Gonzaga Gomes, como o padre Manuel Teixeira referem o “aparecimento do semanário Gazeta de Macao, editado por Manuel Maria Dias Pegado, irmão do célebre deputado macaense e lente de matemática na Universidade de Coimbra, lente da cadeira de Física na Escola Politécnica, etc., doutor Guilherme José António Dias Pegado.” O hebdomadário noticioso Gazeta de Macao teve 32 números, que foram publicados de 17 de Janeiro a 29 de Agosto de 1839. Este semanário, em 2 colunas, destinava-se em parte aos documentos oficiais, sendo os seus 22 primeiros números impressos na Tipografia Macaense e os outros 10 na Tipografia da Gazeta de Macau.
Mas ao querer consultar este semanário verificamos não existir nenhum exemplar, nem em microfilme, nas Bibliotecas e Arquivo Histórico de Macau, sendo-nos sempre mostrada a Gazeta de Macao dos anos 20 do século XIX; confusão essa que parece também existir em quem estudou a Imprensa em Macau.
Manuel Maria Dias Pegado merece uma especial referência por ser um dos que até hoje fundou mais jornais nestas paragens. Além da Gazeta de Macao, Pegado fundou também O Portuguez na China (1839-1843), O Procurador dos Macaístas, semanário literário e político em duas colunas (1844-1845). Um ano depois Pegado lançou em Hong Kong A Voz do Macaísta.
Excerto de artigo da autoria deJosé Simões Morais publicado no Hoje Macau de 17.1.2014

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

domingo, 16 de novembro de 2014

Catedral de São Paulo desenhada por Leonardo Da Vinci?

Angelo Paratico, que prepara um livro sobre a ligação do génio italiano ao Oriente, encontrou uma imagem de um esquisso de Da Vinci com características muito semelhantes à catedral de Macau. E pensou: será que?


É uma teoria sobre um facto que aconteceu há quase 400 anos, mas ainda assim, Angelo Paratico, jornalista e escritor que vive em Hong Kong há mais de 30 anos, arrisca-se a colocá-la: será que a catedral de São Paulo, em Macau, foi inspirada num esboço de uma basílica feita por Leonardo Da Vinci?

A hipótese de relacionar o génio italiano e a igreja de Macau ocorreu há poucos dias, quando o escritor estudava um livro de reproduções de esboços de Da Vinci guardados em Veneza.“Fiquei impressionado com o facto de aquele esboço ser barroco quase 50 anos antes [de o estilo arquitectónico se ter popularizado] e porque era muito semelhante à catedral de São Paulo, em Macau”, explica Angelo ao PONTO FINAL por email.
O autor, que acaba de escrever um livro sobre Leonardo Da Vinci e o Oriente, ainda em revisão, publicou a sua teoria no blogue Beyond Thirty-Nine. Lá justifica a hipótese que reconhece ser “pouco convencional” e que mais tarde aprofundou ao PONTO FINAL.
Os esboços do projecto da catedral de São Paulo, construída pelos jesuítas entre 1602 e 1640, foram feitos por Carlo Spinola, que morreu como mártir no Japão antes de a construção terminar (incluindo a sua fachada). Até agora, acreditava-se que a inspiração do italiano tinha sido a igreja de Chiesa del Gesù, em Roma (1584), mas Angelo coloca outra hipótese. “Carlo Spinola poderá ter visto um desenho de Leonardo Da Vinci guardado na Academia de Veneza e ter-se inspirado nele”, sustenta o italiano sobre o desenho que deve datar entre 1513-1516.
A principal razão para o autor considerar provável que Carlo Spinola (1564-1622) tenha visto o esboço de Leonardo Da Vinci tem a ver com a proximidade da família Spinola aos Melzi, os descendentes de Francesco Melzi, discípulo de Da Vinci, e que guardou o esboço da basílica.“As semelhanças entre o desenho de Leonardo e a fachada da Catedral de São Paulo, em Macau, são de facto impressionantes, mas é possível que Spinola tenha alguma vez visto o esboço de Leonardo? A resposta é sim, pois ele começou a estudar em Milão e Roma em 1584 (…) e o certo é que de 1521 a 1568 e entre 1586 até 1590 era fácil ver os esboços de Leonardo em Milão, Pisa e Roma”, sustenta Angelo. Mais, continua o autor: “Sabemos através de várias fontes que Francesco Melzi [discípulo de Da Vinci] tinha muito orgulho nos esboços de Leonardo e os mostrava a todos os interessados neles.”
Da Vinci a Oriente
Nos últimos anos, Angelo Paratico publicou quatro livros de ficção, fez traduções de italiano para inglês e de chinês para italiano e escreveu ainda “500 years of italians in Hong Kong & Macau”, um registo da presença italiana nas duas regiões administrativas especiais.
Neste momento, o também colaborador do jornal South China Morning Post, terminou “Leonardo Da Vinci. A Chinese scholar lost in Renaissance’s Italy”, livro que explora a relação entre Leonardo e o Oriente e está em fase de revisão.
A ligação de Angelo Paratico a Macau também é antiga. O italiano começou a interessar-se por Carlo Spinola e a catedral de São Paulo por força da sua amizade, desde os anos 1990, com o padre Manuel Teixeira, religioso já falecido e que tinha interesse pelo levantamento e arquivo historiográfico de Macau. Nessa altura, o parceiro de negócios de Paratico era Marquis Carlo Spinola, descendente directo de Carlo Spinola.
Em Macau, Paratico também conhece César Guillén Nuñez, historiador de arte e especializado no papel dos jesuítas como pioneiros artísticos na troca Ocidente-Oriente. No entanto, o italiano não partilhou com o especialista a sua teoria sobre a relação de Da Vinci e Macau. “Não discuti esta possibilidade empolgante com o meu amigo César apesar de imaginar que ele defenda que se a catedral de São Paulo tivesse sido construída em 1520, por exemplo, talvez se pudesse traçar uma ligação directa com Leonardo. No entanto, como a catedral foi construída quase cem anos depois, [ele] defenderá que Spinola se tenha inspirado em outras igrejas que foram construídas entretanto”, antevê Paratico.
Contactado pelo PONTO FINAL, Cesar Guillén Nuñez disse considerar a teoria “muito interessante”, mas que precisa de analisar melhor os factos para dar uma opinião esclarecida sobre o assunto.


Artigo de Patrícia Silva Alves publicado no Ponto Final 9.11.2014.
Basilica, Venice, Gallerie dell’Accademia, 238 v.
A seguir, o artigo, em inglês, de Angelo Paratico.

The Cathedral of Saint Paul (Sao Paulo) was built by the Jesuits from 1602 to 1640 at the very centre of Macau. The construction drawings were originally drawn by the blessed Carlo Spinola s.j. (1564 – 1622) who was later martyrized in Nagasaki, Japan.Today this church lays in ruin, after a fire had destroyed the main building during the XIX century. The only standing part is the stone façade—intricately carved and completed only between 1620 and 1627 by exiled Japanese and local craftsmen.
It was always tought that Carlo Spinola took his inspiration for the façade from the Chiesa del Gesù in Rome (opened in 1584) but we are here putting forward a new, rather borderline, idea: Carlo Spinola may have seen a drawing by Leonardo Da Vinci kept at Venice’s Academy (Basilica, Venezia, Gallerie dell’Accademia 238 v.) and took inspiration from it.
The documents now in Venice were from a donation made by Giuseppe Bossi in 1822 but they are all coming from the private collection of Francesco Melzi (1471 – 1568) a disciple of Leonardo who took back all his notebooks from Amboise, France, around 1520 and, after Melzi’s death, his son Orazio stored them away ‘in a neglected attic’ of his villa in Vaprio d’Adda. So neglected that in April 1587 Lelio Gavardi d’Asola a teacher to the Melzi’s children, stole most or all of them to Pisa. Ambrogio Mazenta convinced him to have them returned but in 1590 Pompeo Leoni, a sculptor working for the Spanish Court, purchased the lot from Orazio Melzi and took Leonardo’s notebooks to Madrid.
Venice indeed possess few of Leonardo Da Vinci’s works but most of them are very famous, one is the celebrated Vitruvian man, second only to Mona Lisa for popularity, expecially after the planetary success of Dan Brown’s Da Vinci Code.In Venice we find also what is perhaps the most mysterious architectural drawning by Leonardo.(1) His sketch of a Basilica.
This sketch for a façade was traditionally assigned to the year 1490 but it is today seen as one of his late works: according to Carlo Pedretti it should be assigned to the years 1513 – 1516. The great Leonardist Heyderreicht saw in it: ‘A firmly Gothic construction, only apparently belonging to the Renaissance and very impressive for the plastic-dynamic new style.’ (2) Atkin also underlines its striking Baroque characters. (3)
The similarities between the sketch by Leonardo and the façade of the Church of San Paul of Macau are indeed impressive, but is it possible that Spinola had ever seen this drawing by Leonardo? The answer is yes, it is indeed possible because he studied in Milan and Rome starting from 1584 and, after having been ordained a priest in 1594, in 1596 he departed to China and Japan. What is certain is that from 1521 to 1568 and from 1586 until 1590 all the drawings of Leonardo Da Vinci were easily available and visible in Milan, Pisa and Rome, only after 1590, having been taken to Madrid, they were no longer easy to see.
Carlo Spinola, like all Jesuits dispatched to the East had to undergo a rigorous and intensive artistic as well as scientific training – he later taught mathematics and astronomy in Kyoto - and Jesuits understood earlier than others that to be accepted in China and Japan meant to be proficient in several disciplines, not only in theology and philosophy.
1. Firpo L. Leonardo Architetto e Urbanista Torino, 1963. On the recto we find notes and drawings about gravity, arms’ movements and falling of weights, which should be dated before the year 1500.
2. Heydenreich L.H. Die Sakralbau-Studien Leonardo da Vinci’s Leipzig, 1929.
3. Arking D. The Ideas of a great architect Rome, 1952. This sketch ‘anticipating a new style’ has been described by several authors. Leonardo is not copying any existing church but he is creating something new. The dating vary greatly: from 1490 until 1514. See also Maltese 1954 p. 358; Brizio, 1964 p. 402; Cogliati Arano, 1966, p. 23-25; Pedretti 1977, p.373; Pedretti 1978 p. 254-255; Cogliati Arano 1980, p. 45-47.

NOTA: Poucos dias depois da publicação deste artigo, César Guillén Nuñez, especialista no monumento, numa entrevista à TDM considerou a hipótese pouco provável. O investigador do Instituto Rici reconhece, contudo, que existem semelhanças intrigantes entre o esboço de Da Vinci e o que resta da Igreja da Madre de Deus. O desenho de Da Vinci, refira-se já se conhecida há várias décadas.

sábado, 15 de novembro de 2014

Quem se lembra do Grande Prémio de 1967?

10º GP de Macau em 1963. Ted Carter com o seu Braham nº 27 numa corrida onde o vencedor foi Arsenio Laurel pela segunda vez com um Lotus (º 22).
Em 1967 realizou-se a 14ª edição do Grande Prémio de Macau. Para os chineses, muito supersticiosos, o 4 é número de mau agoiro. Lê-se "sei" em cantonense. Se juntarmos o dez ao quatro, temos 14 (sáp sei) e uma combinação mortal.  Significa qualquer coisa como “morrer de certeza”.

Após os eventos de Dezembro de 1966 e com os reflexos da revolução cultural chinesa ainda a fazerem-se sentir em Macau esta edição esteve para não se realizar devido a uma ameaça de um grupo maoista denominado “The Red-May Rebelious Combat Squad-Macao” / Esquadrão de Combate da Rebelião Maio-Vermelho-Macau.
Os guardas-vermelhos (diga-se que em Hong Kong passaram das ameaças aos actos com bomas a explodir, o que não aconteceu em Macau) e as mensagens anti-imperialistas acabaram por conseguir parte dos seus intentos e pilotos como Albert Poon hesitaram participar. Segundo relatos da época, a determinação da organização do GP, onde estava, Henrique de Senna Fernandes, em realizar as corridas ajudou a desanuviar o ambiente.
Perante tamanha tensão o governo de Macau disponibilizou cerca de 500 militares e 400 polícia para efectuar segurança às provas e participar como, por exemplo, bandeirinhas. E até o papel de seguradora teve de assumir face à vida dos pilotos. Teddy Yip terá oferecido aos participantes cerca de 100 dólares de Hong Kong em fichas para gastarem no seu casino.
Após intensas negociações a comissão organizadora terá recebido a garantia por parte dos dirigentes comunistas chineses de Macau de que a carta-ameaça não teria efeitos no território. Assim, em vésperas do GP ter início (Novembro) os carros embarcaram de HK rumo a Macau.  
Albert Poon, ex-polícia da vizinha colónia, teve mesmo uma autorização especial para andar armado. Diz-se que até ao volante do seu Brabham não dispensou a protecção de um revólver Browning de 14 disparos num coldre. Terá mesmo afirmado “levo comigo 14 destes meliantes antes que acabem comigo“.
A edição de 1967 acabou por decorrer sem incidentes externos às corridas e contou mesmo com uma grande afluência de público (cerca de 20 mil visitantes), a maioria oriundo de HK. A corrida mais importante foi disputada por 16 carros e quem chegou em primeiro foi Tony Maw com um Lotus 20.
Voltando à superstição. A verdade é que os incidentes, ou melhor, acidente, aconteceram. Nesta mesma prova o já famoso piloto filipino acabaria por morrer. Arsénio “Dodgie” Laurel colidiu contra o muro da recta da Praia Grande a alta velocidade e o carro acabou por se incendiar. Era um fórmula Lotus 41. Já reparam nas vezes que o número 4 aparece nesta história?
No museu do GP em Macau
Charlie Santos, há muitos anos radicado no Brasil recorda assim o piloto.
"O filipino Arsenio "Dodjie" Laurel foi, com certeza, o maior de todos os pilotos da fase amadora (anos 50 e 60) do Grande Prémio de Macau de automobilismo. Foi o primeiro a conseguir duas vitórias consecutivas (1962 e 1963) na corrida anual de Macau, pilotando uma Lotus Ford 22. A sua vitória em 1962 foi simplesmente espectacular... algo, até então, jamais presenciado pelos fãs de automobilismo de Macau.
Tendo chegado ao Circuito da Guia apenas um dia antes do Grande Prémio, largou na última posição e em menos de trinta voltas (metade da corrida), ultrapassou todo mundo. Infelizmente, Arsenio Laurel, foi a primeira vítima fatal da história do Grande Prémio de Macau. A grande tragédia aconteceu nas primeiras voltas da corrida de 1967 quando o inesquecível piloto perdeu o controle do seu carro na curva do antigo Clube Náutico. Chorei muito naquela tarde cinzenta de 19 de Novembro de 1967."