quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Pedro Nolasco da Silva: 1842-1912

Este ilustre macaense nasceu em Macau a 6 de Maio de 1842 e morreu a 12 de Outubro de 1912. Foi um ilustre intérprete-tradutor, professor, funcionário público, escritor, jornalista e dirigente associativo. Foi presidente do Leal Senado e da Santa Casa da Misercórdia e fundador da APIM. Aos 24 anos decidiu ir trabalhar para Hong Kong mas uma doença levou-o de volta a Macau onde casou com uma inglesa de quem teve 10 filhos.
Sobre ele o Padre Manuel Teixeira escreveu: "Digno continuador destes grandes sinólogos, era capaz de, por si só, redigir em língua chinesa, conhecendo todo o formalismo e etiquetas da linguagem oficial chinesa que, no tempo do Império, era assás complicada (...). Até seis dias antes de morrer, teve sempre ao seu lado um letrado chinês para colaborar com êle na confecção de livros, que deixou escritos para ensinar o chinês aos portugueses."
Foi nomeado aluno-intérprete pela Portaria n° 8 de 15 de Março de 1862: «nomeio aluno interprete a Pedro Nolasco da Silva, vencendo uma gratificação de 25 patacas mensais». Foi novamente nomeado, depois de terminado o seu curso, aluno intérprete da Procuratura dos Negócios Sínicos (Portaria n° 5, de 30 de Janeiro de 1865). Em 1866, demitiu-se para ir trabalhar em Hong-Kong.
Em 1867, foi readmitido. Em 1871 é primeiro intérprete. Em 1872, surge como professor de chinês no Seminário de S. José, onde ensinava Grammatica do dialecto de Cantão; Dito de Pekin; Dito da lingua Chineza escripta e tradução. Em 1909 foi o intérprete português nas negociações sobre os limites de Macau.
Foi Chefe da Repartição do Expediente Sínico, desde a sua criação (na imagem), em 2 de Novembro de 1885, até 17 de Novembro de 1892.
Traduziu um livro de história de Portugal, como declarado na Portaria n° 64 de 1 de Agosto de 1882: «Fica o 1° interprete da procuratura dos negocios sinicos, Pedro Nolasco da Silva, encarregado de traduzir na lingua china o livro de historia elementar portugueza que foi opportunamente escolhido pelo conselho inspector de instrução publica como mais apropriado para este fim».

Presidiu à Comissão, nomeada pelo Governador, encarregada de estudar e de elaborar os programas para o ensino da «lingua sinica ministrado na Escola Central do sexo masculino e Instituto Commercial annexo ao Lyceu Nacional», estando já aposentado das suas funções de intérprete sinólogo na Repartição do Expediente Sínico, em 1906.
Morreu com 70 anos e logo após a sua morte foi proclamado pelo Leal Senado "Cidadão Honorário de Macau" passando o seu retrato a figurar no Salão Nobre. Antes da sua morte foi condecorado com o título honorífico de "Cavaleiro da Ordem de Cristo". Na toponímia local tem uma rua como seu nome bem como duas escolas (já extintas): Escola Primária Oficial Pedro Nolasco da Silva" (Central) e "Escola Comercial Pedro Nolasco", de que foi o primeiro director.
Escreveu e traduziu inúmeros livros:
"Círculo de Conhecimentos em Português e China. Para uso dos que principiam a aprender a língua chinesa", 1884;
"Fábulas", 1884;
"Frases Usuais dos Dialectos de Cantão e Peking", 1884;
"Gramática Prática da Língua Chinesa", 1886;
"Os Rudimentos da Língua Chinesa para Uso dos Alunos da Escola Central do Sexo Masculino", 1895;
"Manual da Língua Sínica, Escrita e Falada", 1903;
"Ao Público: Em Defesa da Associação Promotora da Instrução dos Macaenses agredida pelo Boletim do Governo Eclesiástico da Diocese de Macau, pelo Presidente da mesma Associação", 1908;
"Bússola do Dialecto Cantonense"(foi traduzida para italiano), 1911;
"Livro para o Ensino da Literatura Nacional", 1912.
Phrases Usuaes dos Dialectos de Cantão e Peking, Typographia Popular, 1884
"Phrases Usuaes e de Dialogos nos dialectos de Peking e Cantão"
"Livro para o ensino da Litteratura Nacional" – Kuok Man Kan Fo Shu - tradução (6 volumes)
"Grammatica Pratica da Lingua Chineza", Typographia do Correio Macaense
"Os Rudimentos da Lingua Chineza para uso dos alumnos da Escola Central do sexo masculino", Typographia de Noronha & Ca,1895
"Lingua Sinica Escripta Noções preliminares Lições Progressivas", Typographia Mercantil, 1902
"Manual da Lingua Sinica Escripta e Fallada Primeira Parte Lingua Sinica Escripta Tradução da Amplificação do Santo Decreto",Typographia Mercantil, 1903
"Segunda parte Lingua Sinica Fallada Vocabulário", Typographia Mercantil, 1901
"Lingua Sinica Fallada Phrases Usuaes, Dialogos, e Formulas de Conversação", Typographia Mercantil, 1903
"Lições progressivas para o estudo da Lingua Sinica Fallada e Escripta vertidas em portuguez para uso dos alumnos da Escola Central de Macau", Typographia Mercantil, 1890. (versão francesa de 1886).

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

História na Bagagem

A bibliografia de Macau tem muitos títulos imerecidamente ignorados. É certo que principalmente na década que antecedeu a transferência de soberania muito se escreveu sobre Macau. Muito se disse de interesse, mas pouco de verdadeiro e essencialmente de verdadeiramente novo. Parece ter havido uma espécie de frenesim destinado a preencher lacunas que a história deixou.
Mas esse frenesim não colmatou as omissões “deixadas pela história” como sói dizer-se actualmente e deixou pouca coisa de verdadeiro interesse. Naturalmente que entre o que se escreveu há obras dignas de grande mérito. Falo-lhe hoje de uma delas. É esta.
"A História na Bagagem" de Luís Andrade Sá. Se há livros imperdíveis um deles é este. A começar pelo título, esta história na bagagem é um retrato vivo de Macau desde finais do século XIX até ao segundo conflito mundial de 1939/45. Luís Sá fala-nos aqui da história dos hotéis que foram um ex-libris de Macau durante muitas décadas, marcando indelevelmente a fisionomia da cidade.
O Hotel Bela Vista, que começou por ser destinado a albergar os oficiais convalescentes do exército de campanha francês em comissão de serviço na Indochina. Hoje é a residência do cônsul geral de Portugal em Macau.
O Hotel Riviera. Um nome lendário em Macau, onde estiveram hospedados alguns dos grandes nomes da política da arte e da literatura mundial. Ficava, onde hoje está o banco da China na Esquina da Avenida Almeida Ribeiro com a rua da Praia Grande, que foi deitado abaixo precisamente para dar lugar a este banco, que na altura tinha o nome de Banco Nam Tung. Ali esteve também hospedado o poeta Camilo Pessanha e a vida no seu interior reflectia o cosmopolitismo de Macau.
A inteligência local e estrangeira reuniu ali durante mais de 60 anos deixando histórias interessantíssimas de um quotidiano que mudaria radicalmente a partir dos anos 70 com a inauguração do Hotel Lisboa que veio mudar profundamente usos e costumes.
Outro dos hotéis lendários é o Central. Durante muitas décadas foi o edifício mais alto de Macau, com os seus dez andares. O apogeu do Hotel Central ocorreu durante a guerra.
Na Rua do Bocage
Nos seus salões cruzavam-se os ocupantes japoneses do Sul da China, os refugiados, franceses ingleses, americanos e de não sei quantas outras nacionalidades. As histórias do Hotel Central poderiam muito bem ter servido de fonte de inspiração para Ian Fleming na criação do seu James Bond, se o acaso quisesse que o escritor inglês ali se tivesse ali hospedado. Alguns desses enredos que fizeram o imaginário ocidental sobre Macau conta-nos Luís Sá neste livro, numa escrita viva alegre e particularmente impressiva. Ler a "História na Bagagem" é ficar a saber através das pequenas histórias, verdadeiramente o que Macau foi, desde os finais do século XIX. 
Texto da autoria de João Guedes
A História na Bagagem, crónica dos velhos hotéis de Macau, Luís Andrade Sá. Livro da colecção Memória do Oriente, Instituto Cultural de Macau, 1989.
O livro foi apresentado publicamente no hotel Bela Vista a 20 de Junho de 1989. O jornal Tribuna de Macau noticiou o facto. 
«O livro traça os episódios protagonizados nos grandes hotéis do Território: o já demolido Riviera, o Grande Central, o Grande Kuoc Chai, com os seus enfados, cortejos de chás dançantes, refugiados da Guerra do Pacífico, boémias de cabaré, suicídios, chantagens, raptos e jogo. "A sugestão é maior do que a realidade e os protagonistas desta 'biografia' pareceram sempre mais do que foram", referia Luís Sá ao JTM que adiantava ainda que "imponentes e luxuosos nos seus melhores tempos", os hotéis históricos de Macau estão agora reduzidos ao peso que "mantêm hoje na cidade as suas manchas arquitectónicas."»

Alguns dos hotéis referidos no livro e que sobreviveram até aos nossos dias estão hoje mais degradados (Estoril, Central, Kuok Chai...) do que a maioria dos monumentos. O livro acima referido não os menciona mas diversos hotéis/vilas/pensões também fazem parte da história do território. Em breve prometo apresentar novidades sobre este tema aqui no blog.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Memórias a tinta da china no Museu do Oriente

Macau: Memórias a tinta-da-china é o título da exposição que reúne obras de Charles Chauderlot e que vai poder ser vista no lounge do Museu do Oriente de 1 de Fevereiro a 30 de Junho próximo. De acordo com o Museu a mostra reúne trabalhos que "tentam memorizar, através dos seus pincéis, o glorioso passado marítimo de Macau, neste ano em que se comemoram 500 anos de relações luso-chinesas, reproduzindo, em pintura, os edifícios que recordam que a cidade foi, em tempos, um próspero entreposto comercial para Portugueses e Chineses."
Ainda há muito pouco tempo falei de Charles Chauderlot a propósito de uma outra exposição em Macau. Depois disso contactei-o e fiz uma pequena entrevista. Aqui está o resultado...

How a student of law and political science at university went on to become a manager at an insurance company and than a painter?
My family told me that a full carrier as painter was not the best life now days. And after to study with a Fine Art 's teacher I did not have more choice than to enter in the University. After the University I worked in a notary office, then in builder's Companies as law advise and at least in an Insurance company specialized in constructions' risk and risk manager in an important group. After a traffic accident I felt in coma and and quietly after, I decided to return to my first wish: to be an artist.
When dit you get to Macau? Why Macau?
Since 2005 I was living in Beijing.In 2005, during the exhibition of my Forbidden City's 61 ink paintings, organized in the Bank of China Tower in Hong Kong, I have been invited to stay in Macao during two weeks. I already begin to paint some works and meet important people. Then, I have been invited to paint during three months, from September 2005 till November in Macao and show my work in an exhibition sponsorized by Alliance France, the Macao Art Museum and Macao Foundation.
Capturing the Forbidden City was...
One of my strongest and fabulous experience in my life. My best memory in China.

What inspires you in Macau?
After these three months I decided to move from Beijing to Macao. Here I discover another China. A Chinese city full of temples and rituals and in the same time a strong reminiscence of the Historical Portuguese administration : churches, colonial architecture, but also food and way of life.
Do you only do ink (and brush) paintings?
I discovered and learned the use of the Chinese brushes when I was studying Chinese in Beijing University. I realized that it was very difficult to depict the light and colors in black and white. So, as a challenge, I decided to stop to paint with european brushes, oil painting and watercolors.
Is the world heritage patrimonium in Macau well preserved?
Some people try to preserve the World Heritage in Macau, but the new economy totally based on the casino business is not always the best environment for a good preservation... I prefer don't express exactly my tough.
There are a few painters known for his Macau's works such as George Chinnery, Fausto Sampaio, George Smirnoff, etc... Are they an inspiration for your work? Who do you like most?
George Chinnery spent many years in Macao and I realized that he sketched less than Auguste Borget during some months. The watercolors of George Smirnoff depict a sleeping Macao, with urban landscapes during the second World War today demolishe...I know their works. All painted or sketched their contemporary Macao urban landscape.
My approach is a little different, I try to paint the actual urban landscape of Macao but looking for the reminiscences of his Past, that is on the way to disappear with the contemporary modernisation of the city.
Auguste Borget is probably my favorite predecessor with his numerous life full sketches of the people eating, gambling, etc.... in the streets, as today. The clothes have changed but not the attitudes.
Your favourite spots in Macau are...
The Porto Interior from A'Ma to the Pier No.30, Rua Cinco de Outubro, the small lanes around the ruins of São Paulo and the Church of Mater Dei.
You only paint what you see? Or we can paint, for instance, based on a old photo from the 40's or 50's?
I paint always on the spot and not based on old photos. I like to fell the actual life around the buildings. I like to situate the old buildings in the actual moment and environment. Painting on the spot is also catching the shadows designed by the sun, that are different in the morning and in the afternoon . For this reason I need to return on the same spot several days to finish my ink paintings.
What kind of work are you doing now? Next exhibition?
Now I paint the last buildings built on the XIX and beginning of the XX century. The next exhibition is not yet exactly fixed in my schedule but the theme is already fixed and most of the paintings selected.
Charles Chauderlot

Born in Madrid (Spain) on 1952 from a French-Spanish Family with several generations of renowned sculptors, painters, architect, C. Chauderlot began to study paintings in Bordeaux (France) at the age of 11 with a Fine Art Academy teacher. But later, his family inscribed him to the University of Bordeaux (France). He is graduated in Law and Politics Sciences.

From 1987 to 1996 in France
During this period, C. Chauderlot held 10 solo exhibitions and participated in more 50 national and international shows, receiving many prizes and awards :
12 first prizes, the golden medal in the 38th International Art Fair of Beziers, a special nomination in the 81st « Salon d'Hiver » in Paris, the distinctive silver medal "Arts, Sciences et Lettres" , etc…On 1990, he made the decision to dedicate himself exclusively to his art, thus becoming a full time artist.


On 1996 he stay in China for the first time and, on 1997, he moved to Beijing. Here, he started to use the Chinese ink and brush technique to create black and white paintings, especially the "Leaving empty space" which leaves imagination to the audience.

Between October 2002 and November 2004, he was able to paint inside the restricted areas of the Forbidden City at the first and unique exceptional invitation of the Chinese authorities.

His special work painted in The Forbidden City has been published in France, China, and showed in HK China Bank tower on 2005 during an exhibition honored by the Cultural Committee of the "French exchange cultural year in China". Then, the entire collection has been showed in Malacca and Macao. From 1998 'till 2006 he had eight solo exhibitions in Beijing, Shanghai, Macao, and he participated twice at the Shanghai International Art fair and once in Hong Kong. In November 2005 - Six ink-paintings entered in the official collections of the Art Museum of Macao after a successful exhibition display in the Millennium Gallery, and C. Chauderlot moved to Macao in 2006. At the Beijing International Art Fair, on 2006, he received the award of "The ten best artists of China"

Since, he continues to paint in Macao. The authorities have organized a special two month exhibition, on 2011, at the Leal Senado Gallery and published an important catalogue.
He is invited also in Thailand, at the International Art Festival, and paint in South-East of Asia (Laos, Thailand, Malaysia, Indonesia). He had three exhibitions in Malaysia, two hosted by the National Art Museum of Malacca, and one in Penang.

His paintings are collected by Museums and Foundations: Art and History Museum of Poissy; Several Municipalities collections in France; He Yang-Wu Xi Museum in Beijing; Macao Art Museum; Macao Foundation; Malacca National Museum Gallery; Fundação Rui Cunha.

Bibliography:
- Mémoires d'Encres - published in Beijing by Rhône-Poulenc Agro (1999)
- Pékin.ultimes regards sur la vieille cité - Ed. du Rouergue (2003) France
- La Cité Interdite.Le Dedans dévoilé - Ed. du Rouergue (2004) France
- BEIJING.Memories in ink- China Intercontinental Press (2005) Beijing
- Pékin. les derniers jours. 1996-2006 - Ed. du Rouergue (2006) France
- La Cité Interdite - China Intercontinental Press (2006) Beijing
- Pechino. Ultimi sguardi sulla citta antica (2007) Fbe edizioni. Italy
- Mosaique Chinoise- China Intercontinental Press (2007) Beijing
- Monde chinois No.22 (in contribution) -Ed. Choiseul (2010) France
- Memories and reminiscences of Macao - IACM (2011) Macau
- Gods, Deities and Rituals of Macao-Fundacao Rui Cunha(2012) Macau (2012/12)

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Biografia de Manuel da Silva Mendes em preparação

Macau na época da MSM. Ca. 1910-20
Autor do blogue “Macau Antigo” e da obra “Macau, os anos da guerra:1939-1945”, João Botas está a preparar novos projectos, que deverão ver a luz do dia ainda este ano.
Ao Hoje Macau, o autor confessou que está a preparar uma biografia sobre Manuel da Silva Mendes, que viveu no período compreendido entre 1867 e 1931, obra que deverá ser publicada em formato livro no final deste ano. Contudo, esperam-se mais iniciativas, como a “colocação de uma placa alusiva a Manuel da Silva Mendes na sua antiga casa, hoje sede de um instituto das Nações Unidas”, em Macau, bem como a edição da obra em formato e-book, depois de publicada a versão em papel.
Para colaborar neste projecto, João Botas confirma que conta “com o apoio do professor António Aresta, um especialista na matéria”, tendo já enviado convites para António Conceição Júnior e o arquitecto Carlos Marreiros.
Com uma viagem a Macau planeada para as próximas semanas para obter mais apoios e realizar mais pesquisas, o autor contou ainda que esta será uma obra de distribuição gratuita. “Em troca do apoio financeiro, cada patrocinador irá receber um determinado número de livros, de acordo com o montante do apoio.”
Esta biografia é a terceira obra de João Botas, que pretende homenagear uma figura que diz estar “esquecida”. “Serão apresentados documentos inéditos, desde artigos de sua autoria a fotografias. Vai abordar a vida e obra de Manuel da Silva Mendes, homem de espírito multifacetado: professor e reitor do Liceu, advogado, juiz, presidente do Leal Senado. Teve ainda tempo para se dedicar ao estudo da filosofia taoísta e da arte chinesa, e em ambos os campos revelou-se um profundo conhecedor. A sua colecção particular serviu de base ao aparecimento do Museu Luís de Camões e hoje é um dos mais importantes espólios do Museu de Arte de Macau.”
“Não obstante a importância da sua vida e obra, sobre Manuel da Silva Mendes paira um manto de silêncio não só injusto como inexplicável. É por tudo isto que se justifica o aparecimento desta biografia”, explica ainda o autor.
Notícia do jornal Hoje Macau 25.01.2013 
No âmbito deste projecto vou também tentar envolver outras entidades, incluindo, por exemplo, os CTT de Macau suscitando a criança de um selo alusivo a MSM.
Se possui documentos e/ou informações que sejam importantes para esta biografia contacte: macauantigo@gmail.com

domingo, 27 de janeiro de 2013

Monsenhor Lourenço: 1908-1984

Monsenhor Cónego José Machado Lourenço, ou simplesmente Monsenhor Lourenço, conforme era conhecido e respeitosamente tratado, nasceu a 12 de Agosto de 1908, na freguesia das Cinco Ribeiras, ilha Terceira dos Açores. Era filho de (picoense), consorciados no Rio de Janeiro, Brasil. Após a instrução primária, juntamente com onze rapazes açorianos, partiu para Macau na companhia do missionário padre João Machado de Lima, natural das Cinco Ribeiras, a esse tempo em férias nos Açores. Deu entrada no Seminário de S. José, onde se distinguiu pelos seus dotes literários e poéticos, e recebeu a ordenação sacerdotal na Sé Catedral de Macau a 16 d’agosto 1931, servindo primeiramente na Missão de Singapura e depois em Malaca.
Em 1935 regressou a Macau p’ra exercer o cargo de secretário particular de D. José da Costa Nunes, ao tempo bispo de Macau. Após um período de férias na Terceira em 1938, voltou p’ra Singapura, de onde transitou em 1941 p’ra Goa assumindo as funções de secretário do já então Patriarca das Indias Orientais, D. José da Costa Nunes. Em 1947 aposentou-se, acenando adeus às terras do antigo Padroado Português no Oriente, e passando a residir na sua terra natal, onde permaneceu até ao seu falecimento, a 15 de janeiro 1984. Apesar de se encontrar na situação de aposentado, jamais se manteve inativo, pois desenvolveu e realizou um admirável número de actividades pastorais, académicas e inteletuais, creditando-se como insígne sacerdote, professor, jornalista, escritor e pensador.
Foi ele um dos co-fundadores do Instituto Açoriano de Cultura, anexo ao Seminário de Angra e seu primeiro presidente eleito (1956-1978), bem como diretor da revista “Atlântida” durante o mesmo período, desempenhando seguidamente as funções de presidente da Assembleia Geral do Instituto, responsável pela realização das célebres Semanas de Estudos nos Açores. Além de assistir e colaborar com o capelão militar das Forças Armadas Americanas estacionadas na Base Aérea das Lajes, prestou igualmente assistência e colaboração em paróquias terceirenses. Lecionou quer no Seminário quer no
Liceu d’Angra. Tive-o como meu professor de Português e Inglês, de cujas aulas guardo excelentes recordações. Já me encontrava na Califórnia quando, em 1956, recebi a notícia que Monsenhor Lourenço havia sido nomeado Cónego da Sé Catedral d’Angra. O título de monsenhor fora-lhe conferido, anteriormente em 1947, por Pio XII numa recomendação de D. José da Costa Nunes. Consta-me que no período conturbado da revolução de 25 d’abril foi vilmente atacado quando trabalhava no jornal diocesano “A União”, de que foi diretor desde junho 1973 até maio 1978. Justificadamente, foi agraciado pelo Governo Português em 1982 com o grau de Comendador da Ordem de Santiago da Espada.
Monsenhor Lourenço notabilizou-se ainda através da publicação de muitas obras em prosa e poesia, das quais destacarei as seguintes:
A Mãe do Amor 1934, Aleluias de Alma 1937, Lusa Estrela 1940, Mensagem Cristã à Índia 1945, O Padroado Português do Oriente 1951, Regras de Gramática da Língua Inglesa 1952, Vida Divina 1954, O Romance dum Malaio 1954, Vitória 1959, Beato João Batista Machado de Távora 1965, Por Terras do Sagrado Ganges 1968, Benedicite 1968, Os Lusíadas Poema Católico 1968, Poetas do Povo 1969, Cinco Ribeiras Freguesia Branca 1979, e Açorianos em Macau 1981. Em 1982 era publicado o livro “De Camões, Do Seu Poema e do Espírito Lusíada”, versando primeiramente Os Lusíadas (poema clássico ou barroco?), e seguidamente Os Lusíadas (poema católico), com o acréscimo dos temas Camões em Macau (e na Terceira?), e o Patriotismo perene lição de Camões. Incluídas no livro aglomeram-se transcrições de palestras intituladas: Dívida ao Infante D. Henrique, Macau (Portugal na China), Goa e a Colonização Portuguesa, Responsabilidades Apostólicas no Ultramar, e Portugal no Oriente.
Todos quantos conviveram com Monsenhor Lourenço são unânimes em considerá-lo uma excelente pessoa, amigável e humilde, bondosa e afável, de espírito alegre e oportuno sentido humorístico. Ficaram célebres os seus frequentes “apartes” no decorrer das aulas. Contam-se centenas disses ditos instantâneos e apropriados, que seria longo repeti-los neste ligeiro recordando. Apenas como amostra relembro o episódio ocorrido quando um avião a jato, sobrevoado a Baía d’Angra, causou um “sonic boom” fazendo estremecer a cidade, e ao mesmo tempo alvoraçado os seminaristas, alguns dos quais levantaram-se das carteiras e correram p’ràs portas da aula. Foi então que, tranquilamente, da sua cadeira de professor, monsenhor Lourenço se fez ouvir: “Era favor não distrair o aviador!” Em verdade, o seu convívio tornava-se agradável, condimentado com pitadas de fino humor. Nunca ofendia nem escandalizava. Era sempre genuíno, com muita graça e calma!
Artigo da autoria de Ferreira Moreno publicado no jornal Portuguese Times, New Bedford (EUA) na rubrica "Repiques de Saudade".

sábado, 26 de janeiro de 2013

Município de Shangai... e a diáspora

Durante anos Shangai esteve 'dividida' pelas principais potências mundiais, mas não só. Cada uma tinha a sua área de possessão. Nesta bandeira pode ver-se a bandeira de Portugal (dos tempos da monarquia), da França, EUA, Inglaterra, etc...
Vem isto a propósito de uma noticia da agência Lusa de 23 de Janeiro 2013 com o título "História de portugueses em Xangai está feita, só falta um editor". 
Uma exaustiva história da antiga comunidade portuguesa de Xangai, uma das maiores da cidade, na primeira metade do século XX, está guardada em casa de um académico local, à espera de editor. No conjunto são cerca de 300 páginas, que incluem uma lista das famílias portuguesas residentes outrora na grande metrópole chinesa e das "68 empresas que eram propriedade de portugueses ou geridas por portugueses", contou à agência Lusa Wang Zhicheng, investigador da Academia de Ciências Sociais de Xangai. De acordo com o Censo de 1930, entre os 48.806 estrangeiros residentes então em Xangai contavam-se 1.599 portugueses, mais 193 que os próprios franceses, que governavam uma parte da cidade, conhecida ainda hoje como "antiga concessão francesa". A lista era encabeçada pelos japoneses (18.796), seguidos dos ingleses (8.449), russos, norte-americanos e indianos."Entre os europeus, os portugueses estavam em terceiro lugar", realça Wang Zhicheng.   
Xangai era uma das cidades mais cosmopolitas do mundo: "Paris do Oriente" e "Paraíso dos Aventureiros, assinalavam os guias turísticos. Quase todos oriundos de Macau, filhos de casamentos entre portugueses e chineses, os portugueses de Xangai constituíam também uma das mais antigas comunidades estrangeiras estabelecidas na cidade, após a Guerra do Ópio (1839-42). Em 1850 havia já seis portugueses a viver em Xangai e quinze anos mais tarde o número ultrapassava a centena. No século XX, a comunidade estava organizada em dezenas de associações recreativas e teve vários jornais, quase todos de reduzida tiragem e curta duração. "Os portugueses tiveram sempre uma posição influente na comunidade estrangeira de Xangai, mas o seu peso político, económico e cultural era bastante pequeno", afirma Wang Zhicheng.
Director do Centro de Estudos Eslavos da Academia de Ciências Sociais de Xangai, nascido em 1940, Wang Zhicheng começou por estudar os emigrantes russos que se refugiaram naquela cidade após o triunfo da revolução comunista na Rússia, em 1917. "Era um tema por que ninguém se interessava", diz. Em 1993, após dez anos de pesquisa, Wang Zhicheng publicou "História da Emigração Russa em Xangai", que seria depois traduzida e editada na Rússia, e que chamaria a atenção da Fundação Macau: "Eles entraram em contacto comigo e propuseram-me que fizesse uma história idêntica acerca dos portugueses". Parte da investigação teve "uma edição electrónica", há cerca de uma década, mas nos últimos quatro anos, Wang Zhicheng escreveu mais um capítulo, que continua inédito. O investigador descobriu também que, muito antes da "Guerra do Ópio", cujo desfecho obrigou a China a abrir cinco dos seus portos ao comércio internacional, um missionário chamado José Semedo construiu uma igreja em Xangai: "Foi o primeiro português a viver em Xangai, em 1622". Situada na costa leste chinesa, no estuário do rio Yangtze, Xangai é hoje a "capital económica" da China e a maior cidade do país, com cerca de 23 milhões de habitantes.
Notícia assinada por AC/HB

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

"Resumo da História de Macau" por Eudore de Colomban: 1927


Excertos de uma entrevista do padre Manuel Teixeira em 1982.
(...) I came to Macao in 1924 for my ecclesiastical studies at the seminary of Macao under Jesuit fathers. My professor of French was a father belonging to the Foreign Missions Society of Paris. He was very interested in history and was the only historian at that time. He published a book called: Resumo da história de Macau. (A Summary of Macao History.) What was his name?
Father Regis Gervaix. In 1925 he went to Peking and became a professor of French literature at the Government University and there he published a new history of Macao in two volumes called “Abre’ge’ de l’histoire de Macao”. So it was that father who gave me the taste and inclination to carry on his work. Because on his departure Macao was left without historians. When I finished my studies in 1933, I started at once writing history and published my first book in 1937. And since then I have published a hundred and nine books on Macao history. (...)
Was it Gervaix who started this?
The first man who wrote a history of Macao was a Franciscan friar, Jose de Jesus Maria: Azia Sinica e Japonica. A very nice volume. Professor C.R. Boxer has published the manuscript in two volumes. The book was written in between 1742 and 1745. He spent three years in Macao, consulting all the archives. Many of these do not exist any more. Then the second history of Macao was written in 1902 by a lawman, Montalto de Jesus: Historic Macao, then came father Gervais as I said and then….
Nota: na Revista de Cultura nr. 19 (II série) Abril/Junho de 1994 o padre M. Teixeira assina um artigo sobre o seu mestre. Aí conta que Gervaix era um péssimo professor mas um excelente historiador. Só dominava a língua francesa. De português nada! Eis a razão pela qual M. Teixeira tb viria a ser fluente em francês. No Cantonense nunca se aventurou mas, segundo consta, uma vez deu uma missa toda em chinês. Como? Decorou!

Mártires do Japão e Ferreira do Amaral 
Vem tudo isto a propósito do quê? Do livro que dá o título a este post.
A origem deste trabalho prende-se com um concurso oficial aberto pelo Governador de Macau para a publicação de uma monografia destinada à divulgação e ao ensino do passado histórico daquela antiga pérola do oriente. Foi por essa razão que Eudore Colomban, um intelectual francês que ali residiu durante décadas, decidiu escrever a obra. Colomban é o pseudónimo do padre Régis Gervais, missionário francês na Diocese de Macau entre 1916 e 1927 como professor do Seminário. Mas não só. Sob o pseudónimo de Gervásio, publica no jornal O Progresso, logo em 1916 um poema em francês de homenagem a Camilo Pessanha, intitulado «Desiludido de Tudo e de Todos!». Foi um grande investigador e divulgador da presença portuguesa no Oriente. "Entre as suas publicações é de salientar: Hommes et chose d´Extrême-Ocident (2 séries), Zéphyrin Guillemin, Grisailles (3 séries),, Brimborions, Esquisses jaunes, Resumo da História de Macau, Histoire abrégée de Macao (2 volumes), Principal redactor, durante muito tempo, do "Boletim Eclesiástico", ali iniciou a sua projectada obra sobre a influência portuguesa na China, a qual destinava, por gratidão, à família de Carlos da Maia. Em Pequim, como colaborador da Politique de Pekin, tem continuado a mostrar à China e ao mundo a generosa acção de Portugal no continente sínico", escreveu o homem que publicou o "Resumo", capitão JJNM.
A título de curiosidade refira-se que Regis Gervais(x) foi professor de Manuel Teixeira pelo que lhe terá incutido o gosto pela história e os conhecimentos de francês.  
Voltando ao livro, o concurso acabou por não chegar ao fim já que o governador foi exonerado do cargo, vítima da partidocracia que caracterizava a 1.ª República. Reconhecendo o interesse daquele estudo, o capitão Jacinto José do Nascimento Moura, amigo e admirador do autor, decidiu publicá-lo às suas expensas. Foi em 1927 na tipografia do Orfanato da I.C. Em 1980 foi reeditado.
Esta história de Macau - que vai desde "os começos" até 1927 - foi publicada em capítulos anos antes (1924-25) no Boletim Eclesiástico da Diocese sob o título "Histoire populaire de Macao". No boletim Colomban assinou ainda artigos como "Expedição de Fernão Peres de Andrade de Cantão (1517)" e "La foi chrétienne au Congo (1490-1680)".

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Avião da "Deta" baptizado "Macau"

Boeing 737 das Linhas Aéreas de Moçambique (Deta)
Em Novembro de 1973 aterrou no aeroporto Gago Coutinho em Lourenço Marques (Moçambique) oriundo de Seattle (EUA) um Boeing 737 com a matrícula CR-BAD sob os comandos de Vasco Abreu. Era o quarto Boeing da companhia aérea "Deta" na época. Foi 'baptizado' com o nome "Macau".
À aviação de Moçambique e Macau está ligado, por exemplo, o nome do médico José Paz Brandão Rodrigues dos Santos. Nascido em Penafiel no dia 13 de Outubro de 1934, licenciou-se em Medicina pela Universidade do Porto. Organizou o Serviço Médico Aéreo em Moçambique e depois do 25 de Abril, foi médico no Centro de Saúde e no Hospital de Penafiel. Ocupou o cargo de director dos Serviços de Saúde de Macau (década 70/80) e foi vice-presidente da Organização Mundial de Saúde para a Ásia. Morreu em Janeiro de 1986
Nota: Fotografia de Adelino Rodrigues Martins - blog "Voando em Moçambique"

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Campo dos Operários


1990
Hoje o espaço é ocupado pelo Grand Hotel Lisboa, mesmo ao lado da Escola Portuguesa (antiga  Escola Comercial). Esta última foto (acima) é do final da década de 1960. A de baixo retrata uma distribuição de arroz no início da década de 1960.
Recordo com saudade os inúmeros jogos que li fez (pelo Liceu e outras equipas), em simples recreio ou no âmbito dos campeonatos de 'bolinha'... do Hi C Lemon Cha...
A designação provém da Associação Geral dos Operários de origem chinesa
 A clínica da associação no início Rua do Campo (frente ao Mac Donalds dos anos 80)
 O Centro Recreativo dos Operários em 1958 (antigo cinema/teatro Nam Keng)

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

"Manuel Teixeira: de menino a Monsenhor"

Foi colocado à venda no início de 2013  o livro “Manuel Teixeira, de menino a Monsenhor”. A obra é da autoria de José Mário Teixeira, colaborador do IIM, onde desempenhou as funções de coordenador de projectos especiais. Trata-se do sexto volume da colecção “Missionários para o Século XXI”, do Instituto Internacional de Macau (IIM). Segue-se um excerto que resume a sua vida e obra...
“Numa vida cheia e produtiva, Monsenhor Manuel Teixeira cruzou-se com muitos vultos que haviam de ficar na história de Macau, de Portugal e do Mundo. Conheceu pessoalmente dois Papas, João Paulo II e Pio XII. Desenvolveu uma relação de amizade com o cardeal Ratzinger, na altura número dois da Santa Sé, que viria a tornar-se, também ele, Papa. Viu passar por Santa Sancha duas dezenas de governadores, a muitos dos quais serviu como conselheiro. Deu a conhecer Macau a inúmeros ilustres de todas as nações e, tornado ele próprio, ícone turístico graças a um aspecto e a um carácter tão especial, casou gente de toda a parte, especialmente japoneses, que vinham bater-lhe à porta, depois de o verem na comunicação social ou em fotografias.
Se o seu aspecto lhe dava as surpresas já referidas, o seu trabalho foi recompensado com uma série de títulos honoríficos: Oficial da Ordem do Império Colonial (1952); Comendador da Ordem do Infante D. Henrique (1974); Medalha de Valor (1985); Comendador da Ordem Militar de Santiago da Espada (1989); Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique (1996); Grã-Cruz da Ordem Militar de Santiago da Espada (1999); membro da Academia Portuguesa de História e da Associação Internacional de Historiadores da Ásia; sócio-correspondente da Sociedade de Geografia de Lisboa; sócio de número da Sociedade Científica Católica Portuguesa; vogal do Centro de Estudos Históricos Ultramarinos e do Conselho da Universidade da Ásia Oriental e Doutor Honoris Causa pela mesma universidade. Representou Macau e Portugal em muitos congressos (…).
Foi assistente diocesano da Juventude Independente Católica Feminina (JICF); procurador interino dos Bens das Missões Portuguesas de Singapura e Malaca e procurador dos Bens das Missões Portuguesas na China. Organizou a Legião de Maria da Paróquia de S. José da Missão de Singapura, em 1949; reorganizou, em 1947, a Confraria de Nossa Senhora do Rosário, inactiva durante mais de cinquenta anos; criou a Ordem Terceira de S. Francisco e organizou a Acção Católica em 1953, ainda na mesma paróquia. Foi fundador das Conferências de S. Vicente de Paula, em Macau (1937) e em Singapura (1944) e foi Promotor da Justiça e Defensor do Vínculo do Tribunal Eclesiástico em Macau, entre 1936 e 1947.
Algumas das suas obras foram traduzidas em várias línguas, e duas delas valeram-lhe o Prémio História da Fundação Calouste Gulbenkian ‘Presença de Portugal no Mundo’. As obras foram ‘Os Militares em Macau’, em 1981, e ‘Toponímia de Macau’, em 1983. Os prémios pecuniários, de dez mil escudos cada um, foram remetidos, o primeiro ao académico P. António da Silva Rego, com ordem de o remeter ao bispo de Bragança para o seu seminário, e o segundo, a D. António Rafael, ‘como um pequenino grão de areia para a construção da catedral de Bragança’. Colaborou em numerosos jornais e revistas portugueses e estrangeiros (…). Foi proclamado ‘Figura do Ano em Macau’ em 1982, e considerado ‘um dos quatro anciãos mais activos do mundo’, num documentário norte-americano, e uma ‘Enciclopédia Viva’, pela National Geographic. Em 1984, foi narrador de dezasseis filmes históricos para a televisão de Macau e outro para a televisão coreana. Em 1989 participou num filme em Macau produzido pelo ‘Studio Hamburg’, com o actor Hardy Kruger. No mesmo ano, serviu de guia a quatro equipas de televisão vindas de Espanha, França, Hungria e Alemanha.
A sua obra tem uma extensão que não pode ser resumida nestas páginas, por falta de espaço, mas que está disponível, na íntegra, na Biblioteca Central de Macau (BCM) que, em 1992, para comemorar o 80.º aniversário do Padre Manuel Teixeira, publicou um boletim bibliográfico intitulado ‘O Homem e a Obra’, onde é possível encontrar fotografias e a referência de todas as publicações de sua autoria então existentes na Biblioteca Central de Macau. Em 2001, antes do seu regresso a Portugal, Monsenhor Manuel Teixeira foi convidado pela BCM a assinar as suas obras que pertencem à Biblioteca. O seu espólio, conservado na Sala de Macau da BCM, inclui: 130 títulos, editados entre 1937 e 1999, 305 analíticos, referentes a diversas publicações periódicas e uma Bibliografia Passiva com 27 títulos.”

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Polícia Judiciária


O Decreto-Lei n.º 43125, promulgado em 19 de Agosto de 1960 pelo então Governo de Macau, criou a Inspecção da Polícia Judiciária, visando centralizar os serviços ultramarinos (à época extensivos a Macau) de investigação e instrução preparatória de modo a organizar da melhor forma, e a partir dos princípios consagrados na Constituição da República Portuguesa e nas leis processuais penais, a defesa da sociedade contra a criminalidade. Essa Inspecção era dirigida por um inspector-adjunto, que deveria exercer cumulativamente as funções que cabiam aos subdirectores e inspectores da Polícia Judiciária de Portugal, devendo o lugar de inspector-adjunto ser preenchido por licenciados em Direito com experiência profissional, ou por magistrados do Ministério Público em comissão de serviço.
Em 12 de Outubro de 1971, a Inspecção foi elevada, pelo Decreto-Lei n.º 430/71, a departamento policial. Para além da elevação da Inspecção a Subdirectoria, foi extinguido o lugar de inspector-adjunto, substituindo-o por um subdirector e criando ainda um lugar de inspector. O lugar de subdirector era exercido em comissão de serviço por magistrados do Ministério Público.
Em 19 de Dezembro de 1975, a Subdirectoria da Polícia Judiciária de Macau foi elevada pelo Decreto-Lei n.º 705/75 a Directoria, constituída na dependência administrativa do Governador e orientada pelo procurador da República Portuguesa no funcionamento dos processos criminais. Para se tornar explícito o funcionamento da Directoria da Polícia Judiciária de Macau, a Assembleia Legislativa de Macau promulgou a Lei n.º 19/79, de 4 de Agosto, que definia a lei orgânica da Polícia Judiciária de Macau. Segundo essa lei orgânica, a Directoria da Polícia Judiciária era um serviço policial, incumbido de prevenção, investigação criminal e coadjuvação das autoridades judiciárias, organizado hierarquicamente na dependência do Governador, orientado pelo Ministério Público na investigação criminal, competindo-lhe arquivar todos os processos sem acusação deduzida. O lugar de director da Polícia Judiciária devia ser provido de entre os magistrados judiciais ou os do Ministério Público. Os lugares de subdirector eram escolhidos de entre os magistrados judiciais ou do Ministério Público pelo governador de Macau, ou de entre inspectores de 1.ª classe, ou de entre licenciados em direito, com pelo menos 5 anos de experiência do trabalho na área jurídica, nos termos do Decreto-Lei n.º34/86/M aprovado em 1986. Depois de 1999 a PJ passou a estar na dependência do Secretário para a Segurança. Quanto às diligências de investigação criminal, estas são da competência do Ministério Público.
Delfino José Rodrigues Ribeiro (Macau 1930 - Lisboa 2012) funcionário público, advogado, juiz, inspector, notário público e político macaense, ajudou a instalar em 1961 a Polícia Judiciária de Macau, que dirigiu por nove anos.
Excertos do decreto-lei de 1960
Sendo urgente a criação, em Luanda, Lourenço Marques e Macau, de tribunais de polícia para o julgamento daquelas infracções que, pela sua natureza, devem ser julgadas com a máxima celeridade;  (...)
Art. 4.º 1. São criadas directorias da Polícia Judiciária em Luanda, Lourenço Marques e Goa, dirigidas por ajudantes do procurador da República, e uma inspecção em Macau, dirigida por um inspector adjunto. 
Art. 8.º Compete à Polícia Judiciária proceder à instrução preparatória nas comarcas de Luanda, Lourenço Marques e Macau e ainda, nas duas primeiras, à instrução das questões gentílicas, ressalvada a competência que por lei pertença a outras entidades para certas categorias de crimes.  (...)
O inspector adjunto de Macau exerce cumulativamente as funções que cabem aos subdirectores e aos inspectores. 
Art. 10.º (...) Nas províncias de Angola, Moçambique e Macau os ajudantes e o inspector adjunto serão substituídos nas suas funções de juízes do tribunal de polícia pelo magistrado do Ministério Público ou conservador que o presidente da Relação designar, ouvido o procurador da República, ou ainda por qualquer substituto do juiz de direito, igualmente designado pelo presidente da Relação.  (...)
Art. 16.º 1. Nas Directorias de Luanda e Lourenço Marques e na inspecção de Macau funcionará um tribunal de polícia, presidido nas duas primeiras pelos ajudantes que dirigirem as directorias e na última pelo inspector adjunto, com competência para julgar as infracções a que corresponda processo de transgressão ou sumário e, quanto às duas primeiras, as transgressões cometidas por indígenas cujo julgamento pertença aos tribunais comuns. (...)
2. No Tribunal de Polícia de Macau o Ministério Público será representado por pessoa idónea, nomeada anualmente pelo governador, sob proposta do delegado do procurador da República.  (...)
Art. 35.º O Ministro do Ultramar poderá determinar, por portaria, que o inspector adjunto de Macau dirija os serviços provinciais do registo e identificação criminal e policial.  (...)
Art. 36º
5. Da Polícia de Segurança Pública de Macau transitarão, independentemente de qualquer formalidade ou visto, para o quadro da Polícia Judiciária da mesma província, ficando extintos os respectivos lugares:
1 subchefe de esquadra para o lugar de agente de 1.ª classe;
3 guardas de 1.ª classe, portugueses, para os lugares de agentes de 2.ª classe;
2 guardas estrangeiros para os lugares de agentes-motoristas;
1 subchefe de esquadra para o lugar de terceiro-oficial;
1 guarda português para o lugar de aspirante, de preferência com conhecimentos de dactiloscopia;
2 guardas portugueses para os lugares de fotógrafo-mensurador e dactilógrafo.
6. Do quadro especial do expediente sínico de Macau transitará, independentemente de qualquer formalidade ou visto, ficando extinto o respectivo lugar, um língua para o lugar de intérprete da inspecção de Macau.
7. Fica extinto um dos lugares de adjunto da Polícia de Segurança Pública de Macau. (...)
Para ser publicado no Boletim Oficial de todas as províncias ultramarinas. - Vasco Lopes Alves. Ministro do Ultramar


domingo, 20 de janeiro de 2013

Três enigmas da história

Quem frequenta o armazém da história de Macau não raro se dispõe a reordenar indefinições, algumas com um raro fulgor argumentativo, que o tempo foi delendo e perdendo. Estas pequeninas fragilidades narrativas, verdadeiras chancelarias da história das omissões, ajudam a clarificar o processo cultural das nações. Estes três enigmas, três entre tantos outros, mostram-nos que a história de Macau é, afinal, um organismo vivo. 
Da autoria de Ling
O primeiro enigma tem a ver com D. Bartolomeu Manuel Mendes dos Reis, formado em Cânones e Teologia pela Universidade de Coimbra, escolhido para Bispo de Macau em 1752 e tendo chegado ao Território em 1754, a bordo da nau ‘Nossa Senhora do Bom Despacho’. Por pouco não se terá cruzado, em Coimbra, com o Simão Botelho, que Camilo Castelo Branco aprisionou no “Amor de Perdição”, cujos cento e cinquenta anos evocamos. Os seus efectivos onze anos ao leme da diocese foram intensos não só pela turbulência do pombalismo em Macau, nomeadamente a extinção da Companhia de Jesus e a confiscação dos respectivos bens, mas sobretudo pela gestão diplomática das relações com a China cuja política de tolerância sobre a missionação era errática e flutuante. Toma partido contra a escravatura, postulando a liberdade como um direito geral e universal, uma atitude pioneira que lhe trouxe dissabores. Em 1765 parte para Cantão, aí embarcando num navio francês com destino a Lisboa. Problemas de saúde foram os motivos invocados para tão apressadamente sair de Macau. Permanece na capital portuguesa e em 1769 o Marquês de Pombal obriga o Senado a liquidar parte de uma avultada dívida que tinha para com o Bispo D. Bartolomeu. Em Lisboa frequenta a Corte e é amigo íntimo de Frei Manuel do Cenáculo, presidente da Real Mesa Censória, Bispo de Beja e Arcebispo de Évora. Nos “Diários” de Frei Manuel do Cenáculo, o Bispo de Macau, D. Bartolomeu, aparece com bastante frequência. Não obstante todos esses conhecimentos, amizades e cumplicidades, permanece como Bispo de Macau até 1772. Pressente-se um homem de pensamento, de quem se esperava o relançamento do modelo pombalino de universidade em Macau. De resto, parece uma vocação torturada, um intelectual com fraca vocação de administrador apostólico. Em 1773 não consegue evitar um quase degredo, é nomeado para uma diocese em terras brasileiras, como Bispo de Mariana. Decidiu não embarcar para o Brasil, sequer conheceu o novo posto apostólico, que administrou através de procuradores até 1779. Manteve-se em Lisboa até ao ano do seu falecimento, em 1799.
Da autoria de Lok Cheong
O segundo enigma gira em torno do assassinato do governador Ferreira do Amaral, em 1849, e das graves perturbações que esse incidente trouxe para a governabilidade de Macau e para a política ultramarina do reino. Sucessivos orçamentos de Macau, validados pela Secretaria de Estado dos Negócios da Marinha e Ultramar, contém uma misteriosa linha que diz textualmente o seguinte: “subsídio a um china por serviços prestados ao antigo governador Ferreira do Amaral na ocasião da sua morte”. Quem era esse homem e o que terá feito para perdurar na memória dos seus coevos? Provavelmente uma homenagem à coragem e à dedicação de uma pessoa da qual a história não regista o nome, talvez por segurança, mas aponta a magra tença de 51$000 que ainda vencia trinta e sete anos depois, em 1886.
O terceiro enigma vem directamente da memória do Professor Agostinho da Silva, a propósito da distinção entre ócio e trabalho: “Conheci um homem, que tinha sido Governador de Macau, que já estava aposentado de vários cargos, tinha andado também na política e depois da Ditadura tinha sido afastado de tudo, esse sujeito levava um dia inteiro, numa quinta onde morava, montando e desmontando motores. Era o gosto dele! Montava e desmontava... Aparecia sempre ao almoço, ao jantar não, porque tomava banho antes, mas ao almoço aparecia sempre com as mãos imundas por ter andado a apertar válvulas por tudo quanto era motor e a desapertar no dia seguinte. Ele gostava daquilo! Há sujeitos que não gostam de fazer coisa nenhuma senão de estar a olhar para uma nuvem. Eu considero esses tipos utilíssimos, porque ninguém sabe o que sairá dali”. Correndo a galeria dos governadores, tudo aponta para que a figura que encaixa nesse perfil seja Rodrigo José Rodrigues, o popular RóRó.
Artigo de António Aresta, docente e investigador, publicado no JTM de 13-11-2012
A estátua de Ferreira do Amaral (ao fundo à esq.) num imagem panorâmica da década de 1950

Dois dias depois o mesmo jornal publicou informações adicionais sobre o segundo enigma com base num e-mail de Aníbal Mesquita Borges e Vasco Silvério Marques que a seguir transcrevo.
"A pertinente questão suscitada pelo professor António Aresta, a propósito do enigma que “gira em torno do assassinato do governador Ferreira do Amaral, em 1849”, leva-nos a trazer à lembrança dos leitores e investigadores da história de Macau que, muito provavelmente, apesar de não ter sido registado “o nome, talvez por segurança”, o homem a quem se faz referência era o impedido de Ferreira do Amaral que, com alguma antecedência relativamente ao sórdido acontecimento, alertara o governador para a – infelizmente consumada – acção que estava a ser planeada em Cantão, pelos próceres da província, quando não pelo próprio vice-rei.
O ajudante-de-campo de Ferreira do Amaral, tenente Pereira Leite, que ficou ferido naquela trágica ocasião, conseguiu escapar aos mendigos disfarçados que levaram para Cantão a cabeça e a única mão do malogrado governador, tendo sido ele quem fez chegar a má notícia à cidade. Ora, muito provavelmente, também, terá sido ele que depois levou ao conhecimento dos responsáveis da Secretaria de Estado dos Negócios da Marinha e Ultramar a palavra de amigo, e corajosa, que aquele homem dedicado transmitira a Ferreira do Amaral, dando-lhe conta do perigo que corria, mormente que, em Cantão, circulava a notícia de que a cabeça do governador estava a prémio. Pereira Leite, que atingiu o generalato e que também teve conhecimento dos “serviços prestados ao antigo governador Ferreira do Amaral na ocasião da sua morte”, pode ter sido o autor da proposta de atribuição de uma tença de 51$000 àquele indivíduo, a título vitalício, pensão que o Governo português, pelos vistos, concedia ainda em 1886. Não sendo o impedido de Ferreira do Amaral o beneficiário daquela generosa decisão, mantém-se o enigma, de facto, como refere o professor António Aresta. 

sábado, 19 de janeiro de 2013

Leal Senado: antes e depois

Com as obras de restauro em 1939 a fachada do Leal Senado (mas não só, tb o telhado) sofreu algumas alterações. Uma delas foi a substituição do símbolo da monarquia pelo símbolo do Leal Senado. 
Em cima: a primeira imagem é um postal (pintado à mão) do final do século 19; a segunda imagem é de ca. 1900-1905; e a terceira imagem é de meados da década de 1940.
Em baixo duas imagens: a segunda com a estátua de Nicolau Mesquita que ali esteve entre 1940 e 1966 (foto da década de 1960); a primeira, já sem estátua é do final da década de 1970.
 

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Uma terra começa com duas famílias

É um período frequentemente esquecido quer na historiografia ocidental, quer na chinesa. Macau não dava por este nome antes da chegada dos portugueses, mas a verdade é que desde o século XIV que a pequena península no Sul da China já era habitada. A documentação que existe é parca, mas suficiente para que os historiadores acreditem num passado com origens em Fujian. Eram apenas duas, mas atrás delas vieram mais quatro. Dois séculos antes de Jorge Álvares chegar à China, dois clãs oriundos de Fujian descobriram a pequena península que, mais tarde, viria a dar pelo nome de Macau. As famílias Sam e Ho fugiam às convulsões que se registaram por altura da transição da Dinastia Yuan para a Dinastia Ming.
Chegadas ao território foram, pouco tempo depois, seguidas no exemplo por outros quatro clãs – Hoi, Tcheong, Lam e Tchan, também eles oriundos de Fujian. A documentação recolhida aponta, porém, para algumas contradições em torno de quem terão sido os pioneiros. O historiador e professor Jorge Morbey explica que os documentos antigos da família Ho indicam que os clãs Tin, Pou, Lou e Kai já se tinham fixado no território. A família Kai instalou-se na zona da Praia do Manduco, à entrada do Porto Interior. Os membros deste clã não eram agricultores; dedicavam-se à pesca e ao comércio, pelo que lhes seria conveniente a localização escolhida. Já as famílias Ho e Sam tinham a agricultura como modo de vida e optaram pela zona de Mong Ha, dando assim origem à aldeia com o mesmo nome, também referenciada com a denominação ‘Long T’in Tch’un’.
Na década de 1960, a investigadora e professora Ana Maria Amaro dedicou especial atenção àquela que terá sido a primeira zona habitada de Macau, a par da ocupação da Praia do Manduco. “Foi com base em dados recolhidos em muita tradição oral, que existia ainda na altura, que a professora Ana Maria Amaro desencadeou o processo de inventariação das primeiras famílias”, especifica Jorge Morbey. 
A investigadora “teve a oportunidade de entrevistar alguns elementos entroncados nessas primeiras famílias”, detentores de registos que publicou no Boletim do Instituto Luís de Camões, nos anos 1960. “A tradição oral não é propriamente algo muito firme, especialmente quando a história passou a ser investigada com base em documentação escrita”, ressalva Jorge Morbey. “Mas há razões para acreditar que essa tradição oral era fundada em documentação existente em ‘tchok pou’, os repositórios de arquivos das memórias das famílias”, acrescenta.
O professor da Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau encontrou, há alguns anos, um ‘tchok pou’ que lhe foi apresentado como pertencendo à família Ho. O achado aconteceu “nas traseiras de uma oficina de reparação de motociclos” na Avenida Coronel Mesquita. “O ‘tchok pou’ é uma espécie de altar em que se veneram os mortos e em que estão depositadas as pequenas tabuletas e inscrições, informações várias de gerações e gerações da mesma família.”
Jorge Morbey fotografou o ‘tchok pou’ que encontrou mas não pode afirmar que seja o original do séc. XIV, apesar dos séculos que aparenta ter. “Poderá ter sido a construção de um para substituir outro que já estaria em estado avançado de degradação.” De qualquer modo, trata-se de um repositório que é atribuído a uma das primeiras famílias que se fixaram em Macau, cuja genealogia anterior ao século XIV ainda é possível determinar no local de origem.
Da história à lenda
Ana Maria Amaro, nas conversas mantidas com descendentes dos primeiros clãs, teve também a oportunidade de ver documentação e objectos vários atribuídos aos antepassados pioneiros. Os estudos sobre esta época não abundam, uma “distracção” que, nota Jorge Morbey, se regista tanto na historiografia portuguesa, como na chinesa, onde é vulgar “referenciar o início de Macau com a chegada dos portugueses”.
Os dados que foi possível recolher levam os historiadores a acreditar que são os clãs de Fujian que dão início ao primeiro ciclo económico do território, o da agricultura e da pesca. “As zonas iniciais de Macau eram a agrícola em torno da antiga aldeia de Mong Ha e uma outra, piscatória, que é anterior, na região da praia do Manduco, que já funcionava como abrigo de pescadores que não estavam radicados em Macau mas que, quando as condições do tempo eram desfavoráveis, ali se abrigavam.” Em Mong Ha ainda é possível encontrar o primeiro templo da deusa Kun Iam, “um templo pequeno, muito curioso, que antecedeu em dois ou três séculos” um outro de maior envergadura que existe naquele local.
Vestígios históricos à parte, a origem da aldeia de Mong Ha deu origem a uma lenda que Luís Gonzaga Gomes registou na obra ‘Curiosidades de Macau Antiga’. O autor explica que, num “terreno árido e deserto nas poucas choças que ali, então, existiam,” viviam vários aldeões, na sua maioria dos clãs Sam e Ho, oriundos de Fujian, que formaram uma pequena povoação. Mal se instalaram no povoado, continua Gonzaga Gomes, “trataram de edificar um pequeno santuário, o ‘Ho Si Tchok Tch’i’, que ainda hoje existe em bom estado de conservação nas vizinhanças da aldeia de Mong Ha, a fim de poderem ali render culto aos seus antepassados, não se poupando, também, os seus esforços para lavrar a terra circunjacente”. As diligências foram, no entanto, inúteis, que “o chão era maninho e nada mais produzia se não sarças e estevas”. Assim sendo, os Sam e os Ho estavam prestes a abandonar a terra quando avistaram “no meio da gandara o rabo dum dragão vagabundo”. Um “rouco fragor” apavorou os aldeões e, ao mesmo tempo, um “tremendo abalo convulsionou o solo e uma coluna de negro vapor surgiu da terra”.
Resultado final da passagem do rabo do dragão: “o chavascal abaixara de forma a transformá-lo numa depressão bastante extensa, cuja terra se dessemelhava da primitiva, pois era negra e húmida”. Os habitantes de Mong Ha constataram, tempos depois, que era extremamente fértil. A influência do dragão está na origem da denominação ‘Long T’in Tch’un’ que, descodifica Gonzaga Gomes, significa a “aldeia das várzeas do dragão”. (Curiosidades de Macau Antiga, ICM, 1996)
Recuar ainda mais
De regresso aos factos históricos, desde 1972 que se conhecem vestígios da passagem do Homem pelo território que datam do Neolítico. Os estudos feitos permitem perceber que houve duas fases distintas na pré-história de Macau: a primeira terá cerca de seis mil anos, sendo que a segunda terá acontecido sensivelmente dois mil anos depois, refere Jorge Morbey.
As investigações várias que foram sendo feitas desde então pela Sociedade de Arqueologia de Hong Kong permitiram descobrir, na ilha de Coloane, vestígios pertencentes a esses primeiros ‘habitantes’, alguns deles em exposição no Museu de Macau. Em 2006, a equipa da região vizinha encontrou indícios que a levam a acreditar na existência de uma habitação primitiva e de uma zona para armazenamento, o que faz do achado um local único em relação a escavações arqueológicas semelhantes na zona do Delta do Rio das Pérolas. Não obstante as várias descobertas das últimas décadas e a qualidade da equipa que esteve em Macau a conduzir as operações, Jorge Morbey entende que o existe é “muito pouco” para que existam “indicações seguras se essas peças resultam de uma estadia transitória ou se, de facto, correspondem a um povoamento que foi continuado”.
Hoje em dia, “é muito difícil explorar esse período da história em termos arqueológicos”. A composição da cidade não ajuda à tarefa, dada a sua densidade demográfica e arquitectónica, salienta o historiador, pelo que, à excepção da ilha de Coloane, não é possível fazer escavações noutros pontos do território que permitam perceber o que foi feito destes ‘habitantes’ do Neolítico.
Estátua de Jorge Álvares (inaugurada em 1954). Primeiro europeu a aportar à China em 1513. Há 500 anos...
Assim, para a história fica a certeza de que há seis mil anos já havia gente por estas terras. E ficam também os registos que dão conta das primeiras famílias a escolherem viver em Macau, desde sempre local de abrigo de tempestades e outras intempéries
Artigo da autoria de Isabel Castro publicado na Revista Macau em Junho de 2010.
NA: a selecção de imagens é da minha autoria não vinculando a autora do artigo e a publicação.